Resumo: Se a actividade de tradutor de Tommaso Cannizzaro (1838-1921) foi estudada em trabalhos mais ou menos amplos (Falcone, 1983; Corona, 2017; Santoro, 1999), pouco se encontra feito no âmbito das suas relações com a língua portuguesa, além de um par de contribuições muito gerais ou explorativas (Morabito, 1995; 2023). Com o presente artigo pretende-se, após um mapeamento inicial do material manuscrito e bibliográfico patente em vários acervos (e sobretudo nos dois de Messina), dar uma amostra das estratégias, dos instrumentos e dos meios que estão na base do processo tradutório de Cannizzaro do português para o italiano, através do estudo e da análise das ferramentas utilizadas para ultrapassar as dificuldades e os problemas linguísticos: dicionários e gramáticas, mas sobretudo outros tantos instrumentos auxiliares para a observação do processo tradutório e do grau do envolvimento do tradutor nos mecanismos da língua, como cartas, anotações, glossários e rascunhos presentes nos acervos. A relação epistular com Carlos de Lemos surge portanto como caso paradigmático (mesmo não sendo o único) da tentativa de desenvolvimento dos conhecimentos linguísticos, pois a partir da documentação manuscrita relativa podem-se reconstruir as dúvidas de Cannizzaro e os respectivos esclarecimentos, sobretudo no que respeita ao léxico. O foco central da análise é a tradução das “palavras duvidosas” que se encontram na Georgica (1897), do próprio Lemos, e n’Os Simples (1892), de Guerra Junqueiro, tratando-se de duas obras que, com efeito, apresentam amplos traços de linguagem especializada, sendo relativas à esfera da vida rústica e campestre dos lavradores. As explicações de Lemos sobre essas palavras nem sempre são exaustivas, e ainda menos definitivas, mas são inclusive reelaboradas por Cannizzaro, sendo a versão final sujeita às “norme” (nomeadamente, rítmicas) que este se deu, mais do que à concreta superação de problemas linguísticos.
Palavras-chave: Tommaso Cannizzaro, língua portuguesa, tradução, estudos genéticos, Carlos de Lemos.
Abstract: While Tommaso Cannizzaro’s (1838-1921) work as a translator has been studied in more or less extensive works (Falcone, 1983; Corona, 2017; Santoro, 1999), little has been done on his relations with the Portuguese language, apart from a couple of general or exploratory contributions (Morabito, 1995; 2023). The aim of this article, after an initial mapping of the manuscript and bibliographic material in various collections (especially the two in Messina), is to give a glimpse of the strategies, instruments and means behind Cannizzaro’s translation process from Portuguese, by studying and analysing the tools used to overcome linguistic difficulties and problems: dictionaries and grammars, but above all letters, annotations, glossaries and drafts present in the collections, are just as many auxiliary instruments for observing the translation process and the degree of the translator’s involvement in the mechanisms of the language. The epistolary relationship with Carlos de Lemos therefore appears as a paradigmatic case (although not the only one) of the attempt to develop linguistic knowledge, since from the relative manuscript documentation we can reconstruct Cannizzaro’s doubts and the respective clarifications, especially with regard to the lexicon. The central focus of the analysis is the translation of some “palavras duvidosas” found in both Lemos’ Georgica (1897) and Guerra Junqueiro’s Os Simples (1892), both of which are works that, in fact, show extensive traces of specialised language, relating to the rustic and country life of farmers. Lemos’ explanations of these words are not always exhaustive, and even less definitive, but they are even reworked by Cannizzaro, with the final version being subject to the “norme” (namely rhythmic) that he gave himself, rather than the concrete overcoming of linguistic problems.
Keywords: Tommaso Cannizzaro, portuguese language, translation, genetic translation studies, Carlos de Lemos.
Artigo
A língua portuguesa no espólio de Tommaso Cannizzaro: ferramentas para a tradução
The portuguese language in the archive of Tommaso Cannizzaro: tools for translation
Received: 04 July 2024
Revised document received: 12 September 2024
Accepted: 17 August 2024
Published: 01 September 2024
A ti vão, Cannizzaro, que incessante
Lanças em fácil metro,
Philosopho-poeta inexgottavel,
Conceituosas ideias,
E de Garrett aos mágicos accentos
Evocas as sereias
Do mar siciliano […].
Source: José Ramos-Coelho, Aos meus traductores
Uma das facetas que surge com maior insistência perante o riquíssimo acervo bibliográfico e documental de Tommaso Cannizzaro, para além da diversidade das línguas de estudo e de trabalho, da naturalidade dos inúmeros correspondentes ou da quantidade dos volumes originais, é a constante convergência de reflexões em redor de questões linguísticas e tradutológicas, aspecto que adquire ainda mais realce num conjunto marcado pela variedade tipológica dos textos e dos assuntos tratados. No considerável legado de manuscritos – em parte conservados na Biblioteca Comunale “Tommaso Cannizzaro” e em parte na Biblioteca Regionale Universitaria “Giacomo Longo”, em Messina1 – encontram-se importantes vestígios do percurso que marca o pensamento teórico-crítico de Cannizzaro e, sobretudo, da sua actividade e cotidianidade de tradutor e poliglota. Cartas, bilhetes postais, apontamentos, anotações, listas, rascunhos de glossários, impressos, projectos, notas à margem de provas tipográficas, traduções manuscritas, versões e minutas inéditas, transcrições de verbetes e até dedicatórias, são outros tantos instrumentos auxiliares para a reconstrução do processo tradutório e para a aprofundação do seu método, inscrito num quadro multilinguístico heterogêneo, em diatopia e em diacronia, do alemão ao francês, do persa ao espanhol medieval, até ao nórdico antigo da Edda poética2.
Os papéis relativos a trabalhos e correspondentes portugueses – o único brasileiro é Carlos Magalhães de Azeredo (BC/A7), que, aliás, mora em Roma – ou a lusófilos italianos e estrangeiros, estão quase integralmente inéditos (tendo sido publicadas apenas as cartas de Antero de Quental ou pouco mais)3, e constituem uma documentação preciosa e diversificada, que abrange um período cronologicamente extenso, sendo o testemunho mais antigo de 18584. Para além disso, na livraria particular legada à Biblioteca Comunale de Messina, existem ainda centenas de documentos entre volumes, plaquettes e impressos em português – oferecidos a Cannizzaro pelos autores, ou por estimadores, ou por terceiros, ou por ele próprio adquiridos – entre os quais, como veremos, também constam dicionários, manuais e gramáticas. Se aqueles são os instrumentos práticos, estes são os recursos teóricos, formando um conjunto de ferramentas essenciais para alcançar o grau necessário de conhecimento do português: esse cuidado é uma das razões que estão por trás da estima que lhe tributavam figuras cimeiras, como Antero de Quental, Afonso Lopes Vieira e José Leite de Vasconcelos, e que levou também Carlos de Lemos a defini-lo “prestimoso amigo e divulgador das Lettras Portuguesas”5. O próprio Ernesto Monaci, aliás, confessava-lhe sem reservas a sua admiração, em carta de 1907: “Da qualche tempo si ciarla assai di letterature straniere; ma, quanto a farne conoscere i capolavori, ben pochi si provano. Ella è dei pochissimi che, provandovisi, è riuscito” (BC/R38-3)6.
Não se poderia reconstruir, num trabalho que visa ser breve como este, a complexidade e a vastidão das relações epistulares e das interações literárias de Cannizzaro com intelectuais, eruditos e escritores portugueses7, mas talvez valha a pena espreitar nos bastidores da oficina desse lusófilo, de maneira a recolhermos uma amostra preliminar, e possivelmente significativa, das conexões e das correspondências que estão por trás das obras traduzidas e da “aprendizagem” da língua estrangeira para tarefas literárias, utilizando de preferência o material patente nos dois acervos mencionados, que se encontra quase totalmente inédito no que respeita ao âmbito do português.
De entre os volumes e impressos em língua portuguesa conservados no acervo da Biblioteca Comunale de Messina foi possível localizar boa parte dos prototextos das traduções (integrais ou parciais) realizadas por Cannizzaro, a maioria deles com dedicatória. A ausência mais relevante é a do exemplar de Os Simples, de Guerra Junqueiro, cujo paradeiro actualmente se desconhece, embora tenha sido catalogado e cotejado8: foi sem dúvida esse o texto-fonte da tradução inédita que se encontra na Biblioteca Regionale Universitaria (Ms. FN 440 - ff. 17r-53r).
As dedicatórias são eloquentes, pois amiúde indicam a consideração dos remetentes pelo próprio tradutor Cannizzaro, definido “brilhantissimo por Xavier da Cunha (dedicatória do volume Uma tradução inedita em latim do “Alma minha gentil”, 1904), “distinctissimo” por Macedo Papança (Griselia, 1892), e “maestro nell’arte del tradurre”, por Zuppone-Strani (Luigi de Camoens. Poemetto, 1894). Outra atitude que não parece desprovida de uma significação, e que é compatível com a tendência de Cannizzaro à anonímia (Falcone, 1983, p. 34) é a de realçar, através de informações inseridas nos frontíspicios ou em outros paratextos, o estatuto de autor, tradutor e editor, substituindo-o ao seu próprio nome e passando a identificar-se com esse papel, atitude que se encontra explícita, por exemplo, na versão manuscrita de Os Simples (“per cura del traduttore di Folhas Caidas di Almeida Garrett”), e ainda, fora do âmbito exclusivo do português, na segunda série dos Fiori d’Oltralpe (“per l’autore di Uragani”), ou na capa da versão italiana das Rubʿ ayyāt de Umar Khayyām (“dal traduttore dei SONETTI di Camões e di A. De Quental”), publicada em Catânia em 1917, e depois cotejada e conservada na Biblioteca Comunale de Messina.

Para além desse conjunto de obras literárias, no “Fondo privato” da BC constam também o Nouveau dictionnaire Portugais-Français/Francez-Portuguez, de Fonseca e Roquete, e duas gramáticas, uma em português e outra em inglês. Trata-se de obras publicadas em 1863 (1ª ed. 1841), 1855 (1ª ed. 1831) e 1813, respectivamente, sendo portanto recursos obsoletos, pois – diga-se de passagem – na altura em que mais se concentra a sua actividade de tradutor do português, tinham saído, ou estavam saindo, contribuições bem mais inovadoras, como o trabalho de Caldas Aulete, Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza (1881), o Diccionario Manual Etymologico da Lingua Portugueza de Adolfo Coelho (1890), a Grammatica Portugueza Elementar, de Epifánio da Silva Dias (1894), e o Novo Diccionario da Lingua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo (1899). Este último é indicado, como se verá, na carta que Carlos de Lemos remeteu a Cannizzaro a 28 de Outubro de 1899, mas, mesmo antes dessa data, se este tivesse pedido uma sugestão a um dos seus correspondentes e consultores portugueses, é muito provável que tivesse recebido indicações parecidas com as que Joaquim de Araújo facultou – em Janeiro de 1896 – a outro poliglota e lusófilo italiano, Emilio Teza, que lhe pedia recomendações nesse sentido:
O melhor dicionário é o de Caldas Aulete – Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza, volume de duas mil páginas. Recentemente o Adolfo Coelho publicou um Diccionario de que se esperava muito, mas que a meu ver pouco vale. Um exemplo lhe indicará:
Aduana=s.f. alfândega
O meu amigo procura, adiante esta palavra e encontra:
Alfândega=s.f. aduana.
É um livro muito abaixo do valor do Coelho, que é grande, como sabe, melhor que eu.
Com relação às gramáticas, a melhor é a do Epiphanio da Silva Dias, professor que para o latim fez uma adaptação de Maderig (sic) [Johan Nicolai Madvig]. Não estudei por essa gramática, cuja elaboração é recente, mas calculo que o autor deve ter feito adaptações daquele filólogo dinamarquês
(Simões, 1998, pp. 38-39)Os dois volumes do dicionário na posse de Cannizzaro são organizados por José Inácio Roquete (Nouveau dictionnaire Portugais-Français) e José da Fonseca (Novo Diccionario Francez-Portuguez), publicados em Paris pelos editores Aillaud, Guillard et C. (1863), dos quais, neste caso, o primeiro é sem dúvida o mais utilizado pelo tradutor.

De forma geral, trata-se de um dicionário descodificador, ou de recepção (Sanromán, 2004, pp. 81-98), e contém um bom número de acepções, exemplos e subentradas, mas é bastante lacunar em termos de informação gramatical, possibilidades de uso pragmático-contextual ou retórico e de combinatória lexical. É, aliás, uma obra repleta de estereótipos (Lupetti e Guidi, 2023, p. 190), e parece já datada nos anos 1890, mais ainda se considerarmos que é essencialmente uma reedição idêntica à primeira de 1841: isto, até mesmo depois de uma rápida observação panorâmica, desvenda as suas fraquezas, nomeadamente na indicação das formações mais recentes, como neologismos lexicais e semânticos, ou na terminologia especializada. É esse, é certo, o dicionário que Cannizzaro tem à mão, quando pede a Joaquim de Araújo o sentido “preciso” do advérbio afinal – termo relativamente recente no uso e lexicalizado por Caldas Aulete – que, com efeito, não consta entre os verbetes do Nouveau Dictionnaire. O significado e a relevante posição rítmica desse vocábulo no poema Na Morte de Anthero (Araújo, 1891) constituem um problema de leitura, de compreensão e, finalmente, de tradução:
Desidererei soltanto che Ella mi desse o in francese o in italiano il senso preciso della parola afinal che io non trovo nel mio vocabolario portoghese e della quale non sono abbastanza sicuro se significhi: finalmente – in ultimo, o a che fine? Non posso gustare perfettamente le strofe bellissime, se mi sfugge il senso vero dell’ultima parola che ritorna in ogni strofa.
(BNM, Ms. 12242).A esta solicitação, Araújo responde poucas semanas depois (16 de Fevereiro), enviando algumas “traduções da alludida palavra”:
Pergunta-me V. Ex.cia o equivalente da palavra afinal. Empregada no meu requiem, é – confesso-o – de difícil tradução por ser de um valor expressivo totalmente português. Onde, afinal? Quer dizer:
a) não fui de tudo, onde?
b) de resto, onde?
c) onde, depois de tanto procurar?
d) em que lugar, por último?
e) onde, finalmente?
Aqui tem V. Ex.cia uma serie de traducções da alludida palavra.
(BC, R37-1)Ao exemplar do volume de Roquete presente na BC faltam cerca de duzentas páginas impressas (verbetes de afoguear-se a câmara), parcialmente substituídos por uma transcrição manuscrita (de burilado a câmara), cuja autoria não é facil fixar, pois não há elementos para estabelecer uma datação relativa à adquirição da obra, nem às suas condições materiais quando chegou a Cannizzaro. É possível que estivesse na sua biblioteca desde os anos 1860 (post 1863), mas não parece razoável que as entradas manuscritas tenham sido transcritas por ele, também porque as oftalmias – que acusava desde 1876 e que já pioraram gravemente em 1888 (Falcone, 1983, p. 38) – tinham-no quase levado a perder a visão, como confessava a Emilio Teza9 e como realçava também no prefácio A chi legge da segunda série dos Fiori d’Oltralpe (1893, xix-xx). De maneira que, para a leitura e para a escrita pode apenas contar com o auxílio das pessoas que o rodeiam, em condições não ideais sequer para a tradução, e de todo incompatíveis com a transcrição de várias centenas de verbetes.

O trabalho de Roquete, aliás, dialoga directamente com as actividades de Francisco Solano Constâncio, e não apenas pela comum ligação com o meio parisiense e com a editora Aillaud: há referências explícitas, no prefácio de Roquete (1863, pp. viii-ix), ao afortunado Nouveau dictionnaire portatif des langues françaises et portugaises, organizado por Constâncio (1ª ed. 1820), que corroboram o contacto directo e a partilha de ideias e métodos entre esses lexicógrafos e gramáticos, sobretudo na valorização de uma abordagem mais teorética do que normativa, embora o trabalho de Roquete apresente traços e vertentes mais tradicionalistas (Lupetti e Guidi, 2023, pp. 187-189). Na Biblioteca Comunale de Messina consta também a Grammatica Analytica da Lingua Portugueza (1ª ed. 1831) de Constâncio, que, com efeito, é uma obra metalinguística pensada para um público lusófono (Kemmler et al., 2023, p. 2), do género da Nova grammatica da Lingua Franceza, do próprio Constâncio, que veio a público no mesmo ano, sendo as duas explicitamente oferecidas “á mocidade estudiosa de Portugal e do Brasil”, como se lê no frontispício.

No acervo está presente ainda outra gramática, redigida em inglês por Anthony Vieira, A new portuguese grammar in four parts (1813; 1ª ed. 1768), sendo este o livro mais antigo (por data de publicação) de entre os que constituem o aparato gramatical e dicionarístico relativo à língua portuguesa na BC. Não havendo sinais de leitura (sublinhados ou notas à margem), nem referências directas à adquirição dessas obras, com efeito é impossível estabelecer quando Cannizzaro entrou na posse delas, nem a partir de quando começou a usá-las. De maneira geral, é provável que todas essas ferramentas também tenham sido matéria de reflexão teórico-crítica, dialogando idealmente com os papéis dedicados à análise linguística e com as tentativas incompletas de projectar, por exemplo, um dicionário multilínguas. A esse respeito, econtram-se no espólio da BC duas páginas manuscritas que teriam a função de prefácio para um Piccolo dizionario pratico quatrilingue (francês, inglês, alemão e italiano), de onde se podem retirar as principais proposições (o seu “sistema”) em matéria de vocabulários de bolso, salientando a necessidade de valorizar a língua “vera parlata della vita pratica”, na senda teórica do trabalho de Giovan Battista Giorgini e Emilio Broglio:
Un dizionario tascabile, se veramente deve avere uno scopo utile, non deve contenere che la lingua parlata, e specialmente la vera parlata della vita pratica omettendo filze di vocaboli che rappresentano sotto questo rapporto un materiale inutile. Noi lo diciamo con fiducia, la presente opera sotto questo punto importante si distinguerà vantaggiosamente dagli altri dizionari, specie di quelli redatti in Germania.
In un buon dizionario tascabile coll’abile scelta dei vocaboli deve andar di pari passo la maggior possibile economia dello spazio e ad ottener ciò noi ci siam foggiato un sistema tutto proprio (…).
(BC; A13)As “falhas” nos dicionários, tal como os mais ou menos evidentes defeitos de algumas edições, levaram muitas vezes Cannizzaro a consultar directamente os seus correspondentes portugueses acerca de dúvidas linguísticas ou filológicas. Além dos comentários e das observações de Carolina Michaëlis (BC/A7) – que ganham uma importância capital na construção da edição italiana de I Sonetti de Camões publicada por Laterza em 191310 – e das sugestões linguísticas e tradutológicas de Leite de Vasconcelos (A7), Luís de Magalhães (A7) e Joaquim de Araújo (R47), entre outros, mais vários lusófilos, como Emilio Teza (R23) ou Göran Björkman (R10) – dos quais não me irei ocupar agora – parece-me razoável focar a presente análise sobre a que surge como a mais intensa troca epistular de informações lexicográficas (e, mais em geral: linguística) patente nos dois espólios de Messina: isto é, a correspondência com Carlos de Lemos, fundador da revista Ave Azul, pois trata-se de um caso altamente significativo do ponto de vista tradutológico. No acervo da BC constam 8 cartas de Carlos de Lemos (R35), enquanto na BRU (Ms. FN 440, denominado “Virilità XI. Aneddoti. Guerra. I semplici”) estão conservados, junto a uma outra carta (ff. 67r-69v), mais 3 folhas avulsas (ff. 71r-73v), não datadas, que contêm alguns pedidos de esclarecimento linguístico de Cannizzaro e que se sobrepõem, nos mesmos papeis, às explicações de Lemos.

O conjunto da BRU contém também materiais relacionados com a tradução dos poemas Georgica, do próprio Lemos, e Os Trez Cavalleiros, de Beatriz Pinheiro, embora a parte mais extensa da documentação seja relativa à versão italiana de Os Simples, de Guerra Junqueiro, que Cannizzaro realiza a partir dos primeiros meses de 189912, e que ficou inédita. Trata-se de documentos que se podem observar como outras tantas ferramentas úteis para ultrapassar os problemas linguísticos e as limitações do dicionário bilíngue Francês-Português/Português-Francês, tentando compreender uma linguagem muitas vezes idiomática, ou até especializada, na medida em que se enraiza na vida rústica e campestre.
A correspondência remetida por Lemos tem, de facto, uma forte conotação tradutológica e linguística, pois o conteúdo de quase todas as cartas – desde a primeira de 20 Outubro de 1897 – está relacionado com a actividade da tradução em geral, tornando-se veículo de apreciações e comentários sobre as versões realizadas, ou pedidos de tradução, ou, na maioria dos casos, respostas a solicitações de esclarecimento na resolução de problemas linguísticos. Já na extensa carta de 22 de Dezembro de 1898, relativa a tradução da Georgica (tradução solicitada, aliás, pelo próprio Lemos, na carta anterior), observamos o cuidado e a riqueza de pormenores e de exemplos com que o autor do poemeto tenta procurar soluções para a versão italiana, utilizando o francês como língua veicular para a explicação de vocábulos e locuções. Já nesse caso, aliás, o léxico tem características específicas, relacionadas – tal como acontece n’Os Simples – com a vida bucólica e com as actividades rurais (neste caso, especialmente o cultivo das vinhas e do grão), ou com as tradições populares, os costumes ou, de forma geral, com a vida dos lavradores. A estes aspectos se referem a maioria dos “pontos duvidosos” apontados por Cannizzaro, enquanto Lemos, depois de ter aguardado em vão as informações pedidas a um amigo agrónomo (“pessoa que julgava competente”), adianta as suas próprias explicações. Vale a pena observar alguns trechos dessa carta:
[…]
Vamos aos pontos duvidosos da Georgica:
– pag. 7 – azafama: – empregam por cá os lavradores este termo para significar o trabalho dos campos, a lavra, ou lavoira das terras, em francez: labours, creio eu.
– pag. 11 – mergulha: cova que se abre na terra para nella plantar a vide; não confundir com mergulhia (propaginamento): mergulhia é o acto; mergulha é o logar. Mergulha c’est un trou, c’est une fosse que l’on fait dans la terre pour planter la vigne…
[…]
– (Deixo por esclarecer mais adeante a dificuldade da pag. 12, quanto aos termos de molestias dos fructos e dos animaes, cinzerio, morrinha, etc.)
[…]
– pag. 14 – sousão, alvarilhão, bastardo… – Foi sobre a pergunta que V. E. a respeito destas qualidades d’uvas me fez, que eu consultei um agronomo das minhas relações que, infelizmente, ainda me não respondeu. Não sei (…), se teem ou não representantes na Italia: apenas eu saiba alguma coisa de seguro sobre o caso, communical-o-ei logo a V. Ex.a: todavia talvez V. Ex.a pudesse verter para italiano esses termos pelo nome de uvas da Italia que tivessem côr e sabor equivalentes: o bastardo tem os bagos mt.o pretos e sumo muito doce; o alvarilhão não é tão escuro, nem tão doce; e o sousão tem os bagos maiores mais cheios de sumo, dum azul-escuro e não é bom para comer, mas… para beber desfeito em vinho.
[…]
Agora a pergunta da pag. 12: – cinzeiro é um fungo das videiras – o oïdium; a morrinha é o tac francez, o scabies (?) em latim; o gorgulho (*enrendio em latim) em francez charançon; o murrão é também um fungo que faz apodrecer o grão e o reduz a pó negro – em francez creio que nielle. […].
(BC/ R35-2)Não tendo sido possível, até à data, localizar o espólio de Lemos, podem-se apenas ter em conta as informações fornecidas por este último em outra carta não datada, mas com certeza remetida a Cannizzaro depois de 15 de Janeiro de 1899, pois há uma referência à publicação do 1º fascículo da Ave Azul:
Deve V. Ex.a ter recebido uma carta minha, respondendo conforme pude, ás perguntas e duvidas de V. Ex.a acerca da Georgica: muito desejaria que as minhas respostas, na impossibilidade de lh’as dar mais amplas, lhe tivessem bastado.
(BC/ R35-5)A tradução da Georgica é publicada, junto à versão original, numa separata do fascículo nº 5 da 1ª série da Ave Azul. A tradução é datada, na edição impressa, de “14 novembre 1898”, que deve corresponder, provavelmente, à data do primeiro esboço redigido por Cannizzaro, antes de receber as citadas explicações lexicais do correspondente português. Na tradução observamos uma regular coerência de significado entre as explicações de Lemos e as soluções encontradas em italiano (que o tradutor por vezes destaca em itálico) no que respeita às doenças de plantas e animais (ruggin, bianca, cimurro, calandra, mosca), e soluções mais elaboradas na tradução dos diversos tipos de videiras (aquitan, portoghese, bastardo):


Ainda mais densa é a troca de informações relativa à tradução de Os Simples, de Guerra Junqueiro, poema que, do ponto de vista dos campos semânticos e lexicais, como se disse, está relativamente próximo da Georgica. E é precisamente a faceta mais ligada à terra, ao solo, às épocas do ano, ao espaço natural, à espiritualidade e à espontaneidade populares, que Cannizzaro parece captar e que quer transmitir através da tradução, ou antes, através de uma postura simpatética perante o sentido social e poético da obra. Já no prefácio manuscrito, o tradutor messinês coloca-se na perspectiva social e moral de Junqueiro, partilhando “ragioni” e “simpatie”, mas sobretudo propondo uma “nuova rustica veste” que não impeça aos simples de “[…] parlare con le loro idee, le loro immagini, i loro timori, le loro speranze, con la loro fede illimitata in Dio e in un altro mondo migliore […]” (Ms. FN 440 – ff. 19r; 19v). Para esses objectivos há claramente uma atenção e uma preocupação linguísticas, que necessitam de explicações mais detalhadas, nomeadamente do ponto de vista lexical: este papel toca outra vez a Carlos de Lemos. Da preciosa carta de 28 de Outubro de 189913, conservada na BRU (cuja transcrição se apresenta na íntegra no anexo), apreende-se que deve ter havido também uma tentativa (falhada) de Cannizzaro de comunicar directamente com Junqueiro sobre os mesmos assuntos:
Quanto ao G. Junqueiro, não me admiro de que não respondesse a V. Ex.a: porquanto me informam de que anda todo absorvido no cultivo das vinhas, tendo, parece, descoberto, um remedio efficaz contra a maromba (doença que actualmente anda atacando muito os nossos vinhêdos): dizem-me também que o illustre poeta não passa agora muito bem de saude.
(BRU/Ms. FN 440, f. 69r).A carta, aliás, começa abruptamente, por uma lista de 80 definições de palavras ou expressões retiradas de Os Simples, que correspondem a outros tantos problemas tradutológicos. O texto não tem sequer a canônica “forma de carta”, se tirarmos as fórmulas finais14, mas, através da resposta de Lemos, podem-se reconstruir o processo tradutório e as etapas do trabalho de Cannizzaro para realizar essa tradução, que por sua vez se refletem nos diferentes documentos presentes no espólio da Biblioteca Regionale Universitaria “Giacomo Longo”. Neste acervo há também uma folha (figuras 5-6) que tem particular interesse por conter uma lista de palavras anotadas a lápis, que têm ao lado as respectivas definições, em francês, mas que são acrescentadas a caneta por uma mão que não parece a mesma, e são retiradas à letra do dicionário de Fonseca-Roquete.

Quando a consultação do dicionário não fornece soluções ou restitui apenas resultados evidentemente não satisfatórios (por terem os vocábulos outras acepções ou, provavelmente, por as definições em francês não serem exaustivas a fim da compreensão de termos mais específicos), o lexema ou a locução são anotadas à parte, em listas que, depois de passadas a limpo, são enviadas a Lemos. Este, ao responder, junto às definições pedidas (e ao “equivalente em francez”), anexa e reencaminha também a lista de 80 palavras que recebera (figuras 8-9), acrescentando pequenos sinais ou anotações à margem (pontos de interrogação, sublinhados, etc.), mais os números ao lado dos termos de que fornece a significação: esses papéis, junto com os rascunhos que estão na base das listas e aos outros apontamentos relativos à tradução de Os Simples, acabaram por ficar na posse de Cannizzaro – apesar do vaivém que muitos deles sofreram – e constituem uma mais valia para a análise das dificuldades de tradução que lhe ocorreram.


Os esclarecimentos de Lemos, que se seguem à lista de vocábulos, permitem ter um quadro mais completo do processo:
Não vae o equivalente em francez das palavras – arreza: crestes: perpufondo: domarute: opaliga: magremes: latagem: vodenha: emprunes: sirraouto: castellar: ardiante: – palavras que por isso mesmo não vão numeradas e vão sim seguidas de um ponto de interrogação (?) para V. Ex.a m’as reenviar acompanhadas da indicação da página do Simples onde ellas venham e, podendo ser, indicação também da estrophe ou verso – para eu cá ver: isso porque essas palavras veem um pouco deturpadas, não acertando eu no que ellas sejam. Comprehendo bem que as palavras venham alteradas, visto que, infelizmente, V. Ex.a se vê obrigado a servir-se d’um secretario…
Quanto ás 80 palavras de que mando o equivalente en francez, fiz quanto pude por dar a verdadeira significação, consultando mesmo o Simples, como V. Ex.a poderá ver. Mas das palavras que vão interrogadas e sem a tradução em francez, não fui capaz de achar no Simples coisa que se lhes approximasse: indicando porem V. Ex.a d’ahi as paginas onde ellas venham, remetter-lhe-ei, na volta do correio, o equivalente francez ou sua significação, porque o meu diccionario Portuguez-Francez é como o do Fonseca e Roquette, de V. Ex.a, m.to defficiente. Um bom diccionario Portuguez (quanto a vocabulario) é o que agora se está publicando, auctor o Snr. Dr. Candido de Figueiredo: a elle recorri para achar synonymos, q.do o diccionario portuguez-francez não trazia o termo usado pelo Junqueiro: o diccionario do Dr. Candido de Figueiredo custa 5500 r. (27 ou 28 liras approximadamente, porque me parece que a lyra corresponde ao franco).
(BRU/Ms. FN 440, f. 68v; inédito)Os rascunhos de Cannizzaro são constituídos por folhas de caderno de formatos variados (53r-53v; 63r-66v; 74r-74v) e fitas de papel (ff. 56r-62v), uma das quais tem o título “Vocaboli di senso ignoto” (f. 60r), contendo listas de palavras com numeração intermitente, enquanto em outras duas listas (ff. 65r-66v; 56r-59r) os termos estão reunidos conforme a parte do poemeto a que pertencem. É provável que estes rascunhos tenham servido para formular a lista enviada a Lemos (figuras 8-9), que – após ter acrescentado a numeração em correspondência dos lexemas esclarecidos na carta de 28 de Outubro de 1899, mais os sublinhados e os pontos de interrogação nos casos em que lamenta dificuldades de leitura e compreensão – reencaminha os mesmos papéis com as explicações para Cannizzaro: sendo este “obrigado a servir-se d’um secretario”, é altamente provável que as “alterações” dependam realmente dessas transições de mão em mão.


Lembrem-se os 12 termos que não são legíveis na carta citada, e que se transcrevem aqui com a grafia usada por Lemos: *arreza; *crestes; *perpufondo; *domarute; *opaliga; *magremes; *latagem; *vodenha; *emprunes; *sirraouto; *castellar; *ardiante. Os rascunhos não datados são redigidos provavelmente antes (ff. 59v; 60r; 64r-64v; 65r-66v) e depois do envio da carta – porque nas folhas 53v e 74r os termos em questão já vêm todos juntos, e ao lado de muitos deles consta o número de página ou o título da secção, tal como rogado por Lemos na carta de 28 de Outubro. Por vezes, há leves diferenças de grafia entre as várias redações presentes nos rascunhos:

Um caso paradigmático é o relativo ao substantivo arreçã, que se refere a uma planta aromática da família do rosmaninho e do tomilho. Num rascunho (figura 10) é indicado com duas grafias alternativas (*arreça ou *arreza), em outro (figura 11) apenas com *arreza, e em outro ainda está transcrito o verso inteiro (f. 53r), com o termo *arreça em realce (“se evolavam cheiros de arreça bravia”), embora nas listas passadas a limpo ocorra apenas *arreza, tal como no papel que Lemos recebe (figura 8) e não consegue interpretar. Lembre-se que o termo arreçã encontra-se na secção do poema denominada In Pulvis, mesmo nas proximidades de restolhada (verso anterior), palavra, esta, que consta tanto entre os pedidos de Cannizzaro como nas respostas de Lemos:
9 Restolhada: (derivado de restolho; em francez: chaume) grande quantité de chaume.
O termo restolhada, aliás, não se encontra no dicionário português-francês de Fonseca-Roquete que estava na posse do tradutor messinês, embora esteja presente o substantivo restolho:
Restolho, s. m. chaume, esteuble, éteule. V. Rastolho.
(Fonseca, Roquette, 1863)Voltando a arreçã (também este, não registado por Fonseca e Roquete), podemos observar que o termo surge, de facto, como provincianismo transmontano, ou pelo menos deste modo é considerado na quarta edição “corrigida e copiosamente ampliada” do Novo Dicionario da Lingua Portugueza, de 1926 (e na seguinte, de 1939), que remete precisamente a Junqueiro e a Os Simples para atestar o uso desse substantivo:
Arreçan, ou arreçã, f. Prov. trasm. O mesmo que arçan. Cf. G. Junqueiro, Simples.
(Figueiredo, 1926)
Arreçã, f. Prov. trasm. O mesmo que arçã. Cf. G. Junqueiro, Simples.
(Figueiredo, 1939)Se, no mesmo dicionário, se procurar a entrada dedicada a arçã, nota-se que na edição de 1939 foi acrescentada uma citação de outra obra de ambientação rústica e essencialmente nortenha, isto é, Jornadas em Portugal (1918), de Antero de Figueiredo, e nomeadamente um trecho retirado do capítulo dedicado a Miranda do Douro:
Arçan, f. Prov. trasm. O mesmo que tomilho ou rosmaninho.
(Figueiredo, 1926)
Arçã, f. Prov. trasm. O mesmo que tomilho ou rosmaninho: “em chãos secos – estevas, giestas, arçãs e silvas gravanceiras”. Antero de Figueiredo, Jor. em Portugal, 134.
(Figueiredo, 1939)Contudo, a explicação fornecida por Lemos em uma das folhas numeradas de 1 a 6 (ff. 71r-73v.) – e redigidas após ter recebido informações mais pormenorizadas por parte de Cannizzaro – o termo arreçã é apresentado como mero sinónimo de restolho, embora ambas as palavras, mesmo pertencendo a um campo semântico próximo, tenham uma significação muito própria e específica, não se podendo simplesmente sobrepor uma a outra:
4ª Arreça (arreçã) / (pag. 39) o mesmo que restolho ou rastolho ou resteva: – em francez: – éteule, chaume; partie des tuyaux de blé qui reste sur pied après la moisson. (et qu’on brule pour engraisser les terres).
(f. 71r)

A arçã é uma espécie de lavanda (Lavandula pedunculata) que pertence à família das Lamiaceae, e é uma planta cheirosa, enquanto o restolho (que Cannizzaro, na tradução manuscrita, correctamente associa ao it. paglia e ao siciliano restuccia), é parecido com a palha, como é notório, indicando o conjunto das folhas e dos caules de vários cereais após a colheita, cujas características são bem específicas. É um aspecto importante, se se considerar que Junqueiro, retratando o momento da ceifa e as “restolhadas quentes” por causa do estio, também valoriza um momento olfactivo definido, através dos “cheiros” de um bem caracterizado tipo de planta ao luar “morno”:

Sendo que a tradução de In Pulvis foi publicada na Ave Azul em Março de 1900, é essa também a única secção de Os Simples com uma versão de Cannizzaro impressa15, e é a única, portanto, que permite uma observação completa do processo tradutório no seu inteiro devir. Pode-se assim analisar – apenas para essa secção – o terceiro texto, isto é, tudo o “que ficou suspenso na terceira margem do espaço literário” (Passos, 2011, p. 25): no presente caso, a tradução manuscrita da secção In Pulvis (ff. 26v-30v; 35r16) pode ser observada à luz da versão publicada, e nomeadamente no que respeita os três versos citados, que interessam para o estudo da tradução dos termos restolhada e arreçã.

[…]
nel tempo della messe quando più mesto è il giorno
e daille folti covoni
sentivansidi paglia (restuccia) ardenti come un forno
sentiansi della stoppiadella quale (stoppia)gli olezzi evaporar.
(…)
(f. 27v)
É possível (ou bastante provável) que os acrescentos e as rasuras visíveis neste documento sejam posteriores ao recebimento das explicações linguísticas pedidas a Lemos: isto, pelo menos, iria tornar um pouco mais compreensíveis algumas escolhas do tradutor. Com efeito, os cheiros (“olezzi”) que “evolavam” eram precisamente da arreçã e não da restolhada (“covoni”), mas, conforme as sugestões de Lemos, os significados das duas palavras sobrepõem-se na tradução, sendo “covoni” um hiperónimo de “stoppia”. Notável é também a transformação de um cenário noturno dominado pelo “luar morno”, em outro crepuscular, onde se alude à parte do dia em que “più mesto è il giorno”. O substantivo luar, aliás, aparece em diferentes listas e rascunhos, inclusive um em que vem junto a termos com uma forte conotação cultural específica, por serem nomes de animais (verdilhão, arveola, lebreus), ou relativos a constelações (setestrello), ou solidariedades lexicais diversas (“quem dera”, “chão varrido” ou “missa do galo”), todos acompanhados por um esboço de tradução para italiano. Luar (it. chiar di luna; chiarore lunare) é aqui considerado de forma extremamente extensiva, metafórica ou até pejorativa (“chiarore pallido, doloroso”), acepção que, contudo, é compatível com o adjectivo it. mesto, patente tanto na redacção manuscrita como na versão impressa.

À versão italiana de In Pulvis publicada na Ave Azul, refere-se, por fim, Carlos de Lemos num bilhete postal de 24 Abril de 1900, estando preocupado com os possíveis “erros” de impressão: “Seguem 3º fasc.os da Ave Azul: no 3º o In Pulvis, que oxalá não tenha sahido com mt.os erros” (BC/R35-6).
Pode considerar-se este breve percurso no “saggio di traduzione” de Cannizzaro como uma amostra de uma praxe prática e metodólogica bastante sistemática na sua actividade de tradutor, pois os exemplos mostrados permitem analisar a interação entre diferentes ferramentas, cada uma com um específico valor na inteireza do processo tradutório. Ao envio de livros, por parte de autores (ou admiradores ou amigos destes), seguem-se as primeiras tentativas de versão para italiano: numa fase inicial com o auxílio do dicionário bilíngue português-francês e, quando esses instrumentos não são suficientes, as dúvidas são esclarecidas através de pedidos a correspondentes portugueses (autores ou não do texto traduzido), com quem há um constante intercâmbio epistular. Em casos como os da Georgica ou d’Os Simples, às dificuldades linguísticas mais gerais vão somar-se os problemas ligados a uma linguagem que, com efeito, em muitos momentos tem um cariz especializado, aspecto que torna mais intensa a troca entre Lemos e Cannizzaro sobre algumas questões lexicais.
Ainda assim, na base de algumas escolhas (por exemplo, as relativas à tradução de luar) não estão apenas explicações e sugestões de terceiros, pois é evidente que as mesmas escolhas estão sujeitas às “normas” ou às convicções poéticas do tradutor. No acervo conservado na BRU, aliás, há um documento manuscrito (Ms. FN 435; 88v) em que o próprio Cannizzaro resume de forma eficaz essas “Norme seguite nel tradurre poesie liriche da altre lingue”:

Norme seguite nel tradurre poesie liriche da altre lingue
———
1 Riprodurre possibilmente il metro istesso dell’originale o sceglier quello che più vi si avvicina.
2 – Riprodurre la strofe del testo e la distribuzione delle rime di essa possibilmente
3 Obbligato dalle esigenze del metro della strofe e della rima, non omettere e trascurare del testo se non ciò che è superfluo o meno interessante e la cui mancanza nulla toglie alle idee fondamentali e alle immagini più rilevanti
4 Obbligato del pari dalle necessità suddette non aggiungerai altre parole, immagini o aggettivi se non quando non solo non contrastino con quelli dell’originale, ma anzi giovano a completarne il senso e rendere in certo modo le immagini più efficaci e più belle.
5 Procurare di dare alla traduzione tutta la forza (…) e naturalezza di poesia originale.
Que o método e os critérios, ou seja, as “normas” de Cannizzaro vão no sentido da recriação poética, observa-se também em outros inúmeros casos, por exemplo no prefácio da primeira série de Fiori d’Oltralpe, onde a atenção para o metro e para o “ritmo” põe-se como ponto principal e incontornável: o tradutor tem essencialmente de “indovinare in certa guisa quello che avrebbe dovuto o potuto fare l’autore istesso messo alle strette dalla nuova lingua e a quello appigliarsi” (1882, pp. iii-viii). A pesquisa e o esclarecimento de dúvidas, apesar da importância e do peso que têm na realização e no balanço final da tradução, ficam contudo debaixo de uma impostação hermenêutica focada na imitação17 e sempre orientada para a primacia da paráfrase, se bem que por vezes “mecânica” (Mattioli, 2017, pp. 93-94). Cannizzaro – cujo pensamento e cujo método, entre o seus contemporâneos, assemelham-se mais ao de Fitzgerald ou ao de Jowett do que ao de Schleiermacher – fica a meio entre a letra e o conteúdo, sem preocupações de “mantenere nelle idee e nelle parole un ordine identico a quello dell’originale” (1893, p. xxiv): de maneira que, mesmo trabalhando no desenvolvimento das competências linguísticas através das suas correspondências lusófilas, nem sempre trasfere essas mesmas competências para as traduções que realiza do português, porque se põe claramente na posição criativa do poeta-tradutor, virando assim, como ele próprio escreveu, “quasi due volte autore” (1893, p. xxv).
Biblioteca Regionale Universitaria “Giacomo Longo” (Messina)
[Ms. FN 440 67r-69v]
[Transcrição]
1 Frescata: o mesmo que digressão, passeata; em francez: tournée; promenade. Na poesia A moleirinha, talvez se pudesse dizer em francez: toute joyeuse.
2 Pequerrucha: fillette; petite-fille.
3 Agujada (aguilhada?): aiguillade; gaulle pointue por piques les boens.
4 Saita (saia curta, saiinha) petite-jupe de dessus
– 5 Abelhões: bourdons.
– 6 Fetos: pongerés
– 7 Plangente (em latim: plangens; de plango) em francez: génuissant; plaintif.
– 8 Arrotear: défricher; labourer
– 9 Restolhada: (derivado de restolho; em francez: chaume) grande quantité de chaume.
– 10 Tulha: grenier; grange
– 11 Arrecada: ou é o verbo arrecadar: em francez: recevoir, remasser; ou é o substantivo arrecada: pendans: bouches d’oreilles.
– 12 Córar: ou se diz de subir a cor ao rosto: devenir rouge; rougir; montar la couleur au visage; ou se diz de tornar branca a roupa: blanchir de toiles.
– 13 Gado: troupeau; bétail.
– 14 Piornos: des genêts selvages.
– 15 Fraguêdo: derivado de fraga (roche; rocher escarpé): suite de rochers.
– 16 Argueiros: fétus; petits brins de paille.
– 17 Farrapos: saillons; chiffons; guenilles (farrapos e trapos são synonimos)
– 18 Descamparado (descampado?) desert; chénsolitaire (A phrase em descampado: em plain air.).
– 19 Auras: – des soufles du zéphir; des brizes.
– 20 Enlevo: – extase; transport; enchantement
– 21 empyreos –: des empyrées; cieuse; firmament.
– 22 Maguados: meurtris; affligés.
– 23 Trigaes: (derivado de trigo: blé): des champs de blé.
24 Varrido: balayé (se for a phrase “doudo varrido”: fou achevé)
25 Tremulina: mirotement; reverbération (de la lumiére dans les cause)
26 Chocalhinhos: des petites sounettes; des petites clochettes (que porteut les buenfa)
27 Demos (o mesmo que demonios): démons; diables.
28 Candil: lampe; chandelle
29 Tremeluzem (de tremeluzir: étinceller; seintiller) étinchettent.
30 Velas (de navio) voiles (velas que se accendem para darem luz; em francez: bougiers; cierges).
31 Parteira: – sage-femme; acconcheuse.
32 Fragueredo (fraguêdo?): suite de rochers
33 Lavoira: labour; labourage; façon donée aux tenes en les labourant.
34 Matagaes: benissons épais; champs stériles; en friche.
35 Nervosas: nerveuses; vigoreuses.
36 Em volta: antour.
37 Tamboris: tambourins; petits tambours
38 Insurrados ou ensurrados ou surrados: (diz-se das pelles)
em francez: carroyés; (e diz-se da pannos: trapos)
em francez: usés.
39 Cadeira: chaire; siège: (cadeira de professor: chaire de professeur).
40 De capado: (capado é o bordão do pastor; houlette; bâton de berger)
de capado: avec sa houlette.
41 Amoras: mûres; fruits du mûrier (amoras de silvas: em francez: mûrons; fruits de ronces.
42. Ti’ Zé Senhor: Pére Joseph; le Maistre; Pére Joseph le vieux ; Pére Joseph le vou : ou simplesmente Le Pére Joseph.
43 Zambulhos ou zambujos: des oliviers sauvages.
44 Frauta ou flauta: flûte.
45 Douda ou doida: – folle; alliée.
46 Opala –: opale (pierre précieuse, chatoyante, laiteuse)
47 Deshoras mortas: des heures indues au inopportunes et silencieuses :
Boiar par exemple: – les heures de la nuit
48 Boiar: flotter: surnager
49 Embebecer: charmer (embebecer-se: demeurer ravi)
50 Surrãosito: petit sac de cuir de berger
51 Cornalheiras ou cornicabras: térebinthes; pistachiens sauvages; poiriers sauvages
52 Alapado ou alapardado: – accroupi; tapi (de se tapir): caché.
53 Degredo: exil (Nossa Senhora do degredo: Notre Dame de l’Exil)
54 Inverneira: rigueur de l’hiver; mauvais temps
55 Ao relento: à la belle etoile –
56 Latagão (homem novo robusto e encorpado): un fortegros semi homme
57 Migado: émietté; reduit en miettes
58 Acezas: allumiées (no sentido figurado: excitées)
59 Calvarios (nome proprio empregado como commum) calvaires: montagnes du sacrifice.
60 Medronhos: arbouse: fruit vermeil de l’arbousier (risos de medronho: des sourires rouges)
61 Cans: cheveux blancs.
62 Raminhos: (pequenos ramos) petotes branches; petits rameaux
63 Aziaga: funeste; de mauvais augure.
64 Caldo: boillon; potage; jus.
65 Alcateias (de lobos): bande de loups
66 Estevaes (logares onde há estovas) stoës, des cistes résineux, lieux áu il ya des stoës, des cistes résineux.
67 Bornaes: besaces ; des sacs avec des provisions por le voyage
68 Trapos: chiffons, haillon, guénilles.
69 Maleitas d’olhos (maleitas: des pièves intermittentes) d’olhos no chão: les yeux bas; avec le yeux à la terre
70 Toucinho: lard
71 Cahi (do verbo cahir: tomber) tombez
72 Trementes: tremblants
73 Á Espera: (espera: attente) à l’affut: (á espera d’ella à leur affûte; en les attendant; pour les attendre.)
74 Crestam (as colmeias): chârtrent le roches
75 Colmeias: roches
76 Enxovaes: trousseaux
77 Brincar: polâtrer; s’amuser.
78 Malhadas (malhar diz-se de trigo – blé: battre le blé) battues
79 Malhadouro: aire áu l’on bat les grains
80 Pragas: imprecations. -----
Não vae o equivalente em francez das palavras – arreza: crestes: perpufondo: domarute: opaliga: magremes: latagem: vodenha: emprunes: sirraouto: castellar: ardiante: – palavras que por isso mesmo não vão numeradas e vão sim seguidas de um ponto de interrogação (?) para V. Ex.a m’as reenviar acompanhadas da indicação da página do Simples onde ellas venham e, podendo ser, indicação também da estrophe ou verso – para eu cá ver: isso porque essas palavras veem um pouco deturpadas, não acertando eu no que ellas sejam. Comprehendo bem que as palavras venham alteradas, visto que, infelizmente, V. Ex.a se vê obrigado a servir-se d’um secretario…
Quanto ás 80 palavras de que mando o equivalente en francez, fiz quanto pude por dar a verdadeira significação, consultando mesmo o Simples, como V. Ex.a poderá ver. Mas das palavras que vão interrogadas e sem a tradução em francez, não fui capaz de achar no Simples coisa que se lhes approximasse: indicando porem V. Ex.a d’ahi as paginas onde ellas venham, remetter-lhe-ei, na volta do correio, o equivalente francez ou sua significação, porque o meu diccionario Portuguez-Francez é como o do Fonseca e Roquette, de V. Ex.a, m.to defficiente. Um bom diccionario Portuguez (quanto a vocabulario) é o que agora se está publicando, auctor o Snr. Dr. Candido de Figueiredo: a elle recorri para achar synonymos, q.do o diccionario portuguez-francez não trazia o termo usado pelo Junqueiro: o diccionario do Dr. Candido de Figueiredo custa 5500 r. (27 ou 28 liras approximadamente, porque me parece que a lyra corresponde ao franco).
E já agora V. Ex.a desculpe-me ter começado esta sem ser em forma de carta: era minha intenção escre-
ver a V. Ex.a carta á parte e aqui, a seguir á lista, apenas a indicação das palavras que não comprehendi: depois, quasi sem reflectir, dei a isto forma de carta: desculpe-me V. Ex.a.
Quanto ao artigo do Anthero, é certo que também hesitei pelo motivo que V. Ex.a. aponta: mas reflectindo na inconveniencia do convite ao Dr. Th. Braga, conclui que era util que os novos o conhecessem: de resto, o azedume e a tal ou qual injustiça das palavras de Anthero, são desculpaveis, attenta a paixão do momento e a forma de pamphleto: o que eu acho indesejavel é essa mesma paixão num livro de critica (que deveria ser escripto sem ideias preconcebidas) como As modernas Ideias (onde aliás encontro muito de bom e de instinctivo). Quanto ao G. Junqueiro, não me admiro de que não respondesse a V. Ex.a: porquanto me informam de que anda todo absorvido no cultivo das vinhas, tendo, parece, descoberto, um remedio efficaz contra a maromba (doença que actualmente anda atacando muito os nossos vinhêdos): dizem-me também que o illustre poeta não passa agora muito bem de saude.
Se não soubesse bem quanto a V. Ex.a é penoso por todos os motivos, o trabalho de traduzir, rogaria eu a V. Ex.a o grandissimo obsequio de meter para italiano a poesia Os tres cavalleiros, publicada no ultimo numero da Ave-Azul: isto porque desejava edital-a em plaquette (sem ser para entrar no mercado) e ficaria assim valiosissima, se fosse acompanhada da versão de V. Ex.a Por estes dias deve também V. Ex.a receber o nº 10 da Ave-Azul, onde vae uma poesia de J. Agostinho de Oliveira, para a qual chamo a attenção de V. Ex.a.
Dadas as boas impressões de V. Ex.a acerca da Ave-Azul,
muito folgava eu de que V. Ex.a, nesses momentos vagos, da minha revista se ocupasse, dando a publico o seu juizo a respeito della, quanto á parte litteraria (salla de visitas: Anhelia: Estrella d’Alva Os tres Cavalleiros: Psyché: etc.). Era mais um favor a juntar aos muitos com que V. Ex.a se tem dignado penhorar toda a minha estima.
E fico esperando a nota de V. Ex.a, para na volta do correio, satisfazer os desejos de V. Ex.a: porquanto estou morto por ver Os Simples em italiano – e por V. Ex.a que tão bellamente sonhe traduzir e adivinhar mesmo o sentido intimo dos Sonetos de Anthero.
Minha esposa apresenta a V. Ex.a as suas homenagens e eu de V. Ex.a me confesso – por tantos e tantos motivos –
m.to admirador e discipulo amigo e obrigado
Vizeu
28/10/99 Carlos de Lemos
Alice Girotto

















