Artigo
Received: 01 July 2024
Revised document received: 03 September 2024
Accepted: 15 August 2024
Published: 01 September 2024
DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7968.2024.e101914
Resumo: Neste artigo são apresentadas três correspondências inéditas, redigidas em quatro línguas diferentes, do camonista Wilhelm Storck (1829-1905), nomeadamente com Isabel Burton, Richard Burton, o marido da primeira, e Tommaso Cannizzaro. Enquanto nos dois primeiros casos só dispomos das cartas a Storck, no último caso temos cartas de ambos os correspondentes. Analisaremos as discussões filológicas e de tradução, os pedidos bibliográficos, e ainda alguns episódios pessoais que ecoam nas missivas em causa. O nosso objectivo é, antes de tudo, chamar a atenção para a existência de correspondências entre lusófilos europeus no final do séc. XIX, realçando o interesse do estudo das mesmas. Mostrar-se-á que estes eruditos, que se ocupavam das obras de Luís de Camões ou Antero de Quental, procuravam na correspondência epistolar também colmatar o isolamento intelectual a que se votava quem, no tempo deles, se dedicava ao estudo das letras portuguesas.
Palavras-chave: Wilhelm Storck, tradução, correspondências, estudos portugueses, Camões.
Abstract: In this article I discuss the unpublished correspondence of the Camões scholar Wilhelm Storck (1829-1905) with Isabel Burton, Richard Burton and Tommaso Cannizzaro. Whereas in the first two cases only the letters received by Storck have survived, Cannizzaro’s letters and Storck’s are available for examination. In my analysis of the letters (written in four different languages), I focus on discussions of philological and translation-related matters, as well as on some personal affairs. My aim is to draw attention to correspondence between European Lusophiles and to make the case that such exchanges are worth further study. I argue that these scholars, who engaged with the works of Luís de Camões and Antero de Quental, sought through their epistolary exchanges to mitigate the isolation of being a scholar of Portuguese literature at the end of the 19th Century.
Keywords: Wilhelm Storck, translation, correspondences, portuguese studies, Camões.
1. Introdução
O último terço do século XIX é singularmente rico em traduções, de cunho filológico, do português para diversas línguas europeias. É também a primeira vez na história das letras que passa a existir um intercâmbio epistolar intenso entre académicos e tradutores, espalhados pelo continente, atraídos pela mesma paixão pelas cultura e literatura lusitanas. Tratamos em detalhe três correspondências: as trocas de missivas de Wilhelm Storck com Isabel Burton, que decorre entre 1880 e 1887, e com Richard Burton, que decorre entre 1883 e 1890; e a entre Storck e Tommaso Cannizzaro, que decorre entre 1891 e 1905, ano da morte do professor alemão. Enquanto no caso da correspondência com o casal Burton apenas dispomos das cartas por eles enviadas, no de Cannizzaro temos 6 cartas e 4 cartões de visita do próprio Storck, dos quais dois assinados e datados.
A nossa escolha por estas duas correspondências justifica-se, por um lado, pela riqueza que as mesmas oferecem, por comparação com as outras que encontramos no espólio de Storck em Münster – o ponto de partida da nossa investigação –; e, por outro lado, porque os três correspondentes do professor alemão se encontravam, à altura da redacção da maioria dos documentos em causa, naquilo que hoje é território italiano. Enquanto Cannizzaro vivia, como aliás durante praticamente toda a sua vida, na sua natal Messina, o casal Burton estava instalado em Trieste, onde Richard servia como embaixador de Sua Majestade.
Na discussão das cartas que ora se segue, destacaremos alguns debates filológicos e algumas observações sobre a prática da tradução (principalmente nas cartas de Storck a Cannizzaro). Mas veremos também algumas passagens que dão conta das relações afectivas existentes entre os respectivos correspondentes. Esperamos que este artigo, que tem um carácter essencialmente exploratório, possa ser o início de um projecto de maior alcance sobre correspondências entre lusófilos alemães, italianos, franceses e ingleses em finais de Oitocentos.
2. Os lusófilos na correspondência passiva de Wilhelm Storck
A maioria das cartas que aqui apresentamos pertencem ao espólio de Wilhelm Storck na Universitäts- und Landesbibliothek Münster, nomeadamente à sua correspondência passiva1. Esta é a única divisão do legado que se encontra integralmente catalogada, sendo também indubitavelmente a sua parte mais interessante2.
Já na década de 1930, o romanista alemão Harri Meier levou a cabo a edição, com publicação na Imprensa da Universidade de Coimbra, das cartas de Antero de Quental (1935), Oliveira Martins (1935) e Teófilo Braga (1936), os três correspondentes mais ilustres de Storck. Mais recentemente foi publicada a edição da troca de missivas de Storck com Joaquim de Vasconcelos (Storck & Vasconcelos, 2022), que decorre principalmente entre 1874 e 1881, e que é conduzida inteiramente em alemão; as cartas de Storck a Joaquim encontram-se na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Está em curso a edição (a cargo de Kampschroer) da correspondência de Storck com a mulher de Joaquim de Vasconcelos, Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Esta edição depara-se porém com uma discrepância entre o número de cartas de cada um dos correspondentes. Enquanto há em Münster 86 missivas de D. Carolina, só se conhecem 14 peças de Storck (que estão actualmente à guarda de um professor emérito da Universidade de Coimbra).
A maioria dos lusófilos europeus (excluindo os alemães e os portugueses) representados em Münster não manteve uma correspondência regular nem duradoura com Storck, como se depreende desta tabela:

Ainda não consultámos as missivas de Achille Millien nem as de Göran Björkman, mas sim as três cartas de Edgar Prestage, que dão conta de um intercâmbio epistolar perfeitamente pontual. O camonista britânico era dos poucos lusófilos aqui representados que se expressam fluentemente em português. A 4 de dezembro de 1894, Prestage dirige-se em carta de uma única página ao “illustre traductor de Camões e de Anthero, pedindo-lhe informações as quaes não posso obter cá na Inglaterra” (ULB Münster, N. Storck 03, 81). Diz precisar “d’uma lista bibliographica das traducções Allemãs das obras de Garrett e sobretudo do ‘Frei Luiz’”, e deseja ainda saber “em caso que esta peça foi representada em Allemanha, onde e quando se representou e o exito que teve”. Storck respondeu prontamente, como se depreende de uma anotação sua na carta que acabamos de citar, a 15 do mesmo mês. A resposta de Storck, que não consultámos, incluía uma informação nova para o tradutor britânico. Na carta seguinte, de 21 de dezembro, este escreve que Gomes de Amorim “nas suas Memorias de Garrett vol III, p. 250 diz que o Conde de Luckner traduziu o Frei Luiz em allemão! Talvez a traducção não se imprimiu” (ULB Münster, N. Storck 03, 82). As indicações de Storck permitiram-lhe não reproduzir este erro bibliográfico. Ficamos ainda a saber a partir desta carta que Prestage mandou junto a sua tradução dos Sonetos de Antero de Quental (1894) e a sua tradução em livro dos versos “Na morte de Anthero de Quental” de Joaquim de Araújo (1893). Das anotações do remetente na margem superior da primeira página, depreendemos que Storck, a 25 do mesmo mês, se vingou das ofertas com o envio de um exemplar da sua antologia de poesia de língua portuguesa Aus Portugal und Brasilien: 1250-1890 (1892). Dessas anotações percebemos ainda que Storck se apercebeu de que as suas indicações bibliográficas não tinham sido completas, enumerando, em missiva de 14 de janeiro de 1895, outras traduções para alemão de obras de Almeida Garrett. Não podemos confirmar que o britânico tenha recebido estes últimos esclarecimentos antes de redigir a sua carta de 18 de janeiro. Nela, agradecendo as informações e as ofertas de Storck, informa: “Infelizmente não conheço bem a lingua Allemã; por isso tenha a bondade de escrever-me em Francez ou Portuguez, porque leio com muita difficuldade as suas cartas, apesar de serem primorosamente escriptas” (ULB Münster, N. Storck 03, 83).
Em suma, esta breve correspondência, ainda que nos ensine algo sobre como naquele tempo se esclareciam certas dúvidas filológicas, não tem um interesse particular, pelo menos quando vista isoladamente. Certamente estas cartas terão mais interesse quando consideradas no quadro de uma investigação alargada sobre os lusófilos europeus.
3.1 Cartas da Costa Adriática: Isabel e Richard Burton
José Leite de Vasconcelos é o autor da primeira monografia sobre Storck, O Doutor Storck e a Litteratura Portuguesa, trazida a lume em 1910. O apêndice do livro encerra um conjunto de cartas recebidas por Storck – e facultadas pelo próprio a Leite – da autoria de Friedrich Diez, Nikolaus Delius, Gisbert Vincke, Bernhard ten Brink, Reinhold Pauli, Richard Francis Burton, o visconde de Juromenha e Oliveira Martins. Como vemos, Burton é o único correspondente que não é alemão nem português. No entanto, Leite informa que Storck só lhe enviou uma carta de Burton, escrita menos de duas semanas antes da morte deste, que Leite anexa, no original e em tradução portuguesa, à sua monografia: “É curta, mas o ter sido escrita por quem foi, basta para justificar a sua inserção neste estemma litterario que um grupo de amigos e admiradores pousou sobre a fronte do meritorio lusitanófilo alemão” (Leite de Vasconcelos, 1910, p. 244). Leite refere ainda: “[c]om a mesma carta enviou-me Storck uma de Isabel Burton, esposa de Richard; não vem ao meu intento reproduzi-la, porque pouca relação tem com o assunto”. (1910, p. 244).
A carta de Richard Burton, editada por Leite, é datada de Trieste, 8 de outubro de 1890 (ULB Münster, N. Storck 01, 115). Inicia-se com os agradecimentos pela remissão de Luis‘ de Camoens Leben (1890), a grande biografia camoniana de Storck, acabada de sair, e algumas notícias sobre a progressão dos seus trabalhos. Burton antecipa também a sua jubilação do serviço diplomático no próximo mês de março, pelo que voltará a Inglaterra,
a fim de estabelecer um pied à terre e um point de départ. Terei então todos os meus livros ao pé de mim, e mais uma vez voltarei com renovado gusto ao Camões, para não o largar, emquanto eu não houver seguido o excellente exemplo de V. Ex.a, e acabado de o traduzir até o último verso. Começarei com a segunda edição d-Os Lusíadas
(Leite de Vasconcelos, 1910, p. 245).Leite informa ainda que
[a]s relações epistolares de Storck com Burton começaram em 1883, segundo me informou Storck, e duraram até 1890, anno da morte do escritor inglês. Na Vida de Camões (traducção portuguesa por Carolina Michaëlis [de Luis’ de Camoens Leben]), I, 516, nota, cita-se uma carta de Burton, datada de 23 de Novembro de 1883; foi talvez a primeira, ou uma das primeiras, e serve de resposta a uma pergunta de Storck
(Leite de Vasconcelos, 1910, p. 243).Olhemos para a página indicada da biografia de Camões. O poema camoniano que nela está em causa é a canção “Junto dum seco, fero e estéril monte”. Na nota se lê:
Na minha traducção das Obras do Poeta (vol. IV, p. 43 e 342 e seg.), intitulei a Canção I – Junto do Ras-Asser. Hoje altero a epigraphe, dizendo: Junto do Ras-el-Fil. A razão é a seguinte: Captain Richard F. Burton, o illustre viajante e navegador, que ao mesmo tempo era um eminente camonista, esclareceu-me em carta particular de 23 de novembro de 1883, sobre a situação do Monte feliz, que conhecera de visu, escrevendo:
‘ Monte Felix is Ras-el-Fil (= caput elephantis), an islet rock close to Jard-Hafun (Guardafui). Ras-Asser is another foreland ’. – Cfr. Lyricks, II, p. 527 e seg.
Visto isso, o meu commentario precisa ser reformado; a critica sobre o termo «feliz», do vulgo introduzido, não tem razão de ser; a emenda proposta: do vulgar traduzido, não merece atenção
(Storck, 1897, p. 516).A emenda de Burton era certa. Leodegário de Azevedo Filho, em comentário à canção em causa, explica que
o monte a que se refere o Poeta, como os versos subsequentes vão mostrar, é o monte Felix, dentro do Cabo de Guardafui, na costa da Somália. Por sua vez, o cabo de Guardafui, junto de Adem, outrora chamado Arómata, situa-se na ponta mais oriental da África do Nordeste. Em Os Lusíadas (X, 97), o mesmo contexto geográfico é descrito […]. O Poeta deve ter escrito a canção em Goa, depois de ter vindo da Arábia Félix, por volta do ano 1555, como admite FS (pp. 67 e 69)
(Azevedo Filho, 1995, p. 225).A passagem da carta de Burton citada por Storck na sua biografia de Camões é de facto a mais interessante da missiva. Esta é a segunda carta de Richard Burton a Storck, datada de Trieste, 23 de novembro de 1883. No seu início lemos: “I understand from your kind letter of Nov. 19 [1883] that you wish me to write in English (‘Gleiches mit Gleichem’ [igual por igual])” (ULB Münster, N. Storck 01, 97). A carta anterior de Burton, datada de 13 de novembro, fora escrita em francês. Desta vez o sistema storckiano do uso da respectiva língua materna de cada correspondente pode ser aplicado sem quaisquer transtornos.
Se a carta citada (ULB Münster, N. Storck 01, 97) constitui um documento de algum valor filológico, o mesmo não se pode dizer da integralidade do fundo. O que nele predomina são notícias sobre o estado da redacção de determinadas obras de Burton, com destaque para os volumes da sua tradução das Mil e Uma Noites e a sua versão da lírica de Camões, ou de obras de amigos seus, por exemplo de John James Aubertin. A nível pessoal, são de salientar as várias ocasiões em que Burton lamenta a sua saúde débil, padecendo de reumatismo. Na carta de 20 de abril de 1884 desculpa o atraso na resposta à carta de Storck datada de 9 de janeiro do mesmo ano: “I was about to answer your last kind note of Jan 9. When […] (Providence) came down upon me with all the devilries it could find for a poor bicho de terra4 – again catarrh of stomach gout and rheumatism” (ULB Münster, N. Storck 01, 100). No final da carta diz que “[m]y illness will make Marienbad a necessity. We think of going there late in May”. E de facto é de Marienbad que Burton enviará duas cartas a Storck, datadas de 22 de junho (ULB Münster, N. Storck 01, 103) e 14 de julho de 1884 (ULB Münster, N. Storck 01, 104).
As cartas a Storck da mulher de Burton, Isabel, que escreve num alemão robusto, são muito mais pessoais, e justamente por isso mais interessantes. As relações epistolares de Storck com Isabel são mais antigas do que as com o seu marido. É aliás estranho que a primeira carta de Richard seja, como percebemos de uma anotação de Storck na primeira página, enviada ao editor do costume de Storck, Schöningh. Não saberia o tradutor inglês a morada do professor alemão que mantinha há pelo menos três anos uma troca de cartas com a sua mulher?
Vejamos a missiva mais antiga de Isabel do nosso fundo, datada de Hotel Stefanie, Südbahn, Abbazia, 11 de janeiro de 1880. Da sua primeira frase podemos deduzir que por essa altura Storck e Isabel mantinham correspondência há já algum tempo, porque esta refere que “as suas estimadas cartas” (“Ihre geschätzten Briefe”) causavam “muita alegria” (“großes Vergnügen”) ao seu marido e a ela mesma, por incluírem notícias literárias de grande interesse. O que se segue é uma descrição das férias em curso do casal Burton em Abbazia:
Unser Sommeraufenthalt war in Sommerlaune und jetzt in der Winterzeit befinden wir uns unter den dalmatinischen mit Schnee bedeckten Alpen beim adriatischen Meere.Abbazia ist noch ein unbekannter Ort, es sind hier 4 Hotel Pension und Wohnungen, eine Regatte ein Bad ein Restaurant und eine Musikkappelle vorhanden. Das Klima ist angenehm, die Gegend ist hübsch. Der Ort ist von der Stadt, Station und [†] eine Stunde entfernt. Angenehm ist hier zwar nicht, da die Curgesellschaft von 100 Beamten5 besteht und alles theurer als in Paris oder London ist. Wir sind hier zufrieden, da wir beschäftigt sind und die Gesundheit meines Mannes gut fortschreitet
(ULB Münster, N. Storck 01, 90).
A nossa estadia de Verão foi passada em ambiente veranil e agora, no Inverno, encontramo-nos aos pés dos Alpes Dalmáticos cobertos de neve, junto do Mar Adriático.Abbazia é ainda uma vila pouco conhecida, há 4 hotéis, pensões e apartamentos, uma regata, um banho, um restaurante e uma capela musical. O clima é ameno, a região é bonita. A vila fica a uma hora da cidade, da estação e [†]. Ainda que não se encontre aqui um ambiente propriamente mundano, visto que a sociedade das termas é constituída por 100 funcionários públicos e tudo é mais caro do que em Paris ou Londres. Estamos bem aqui, porque temos ocupações e a saúde do meu marido continua a melhorar
(ULB Münster, N. Storck 01, 90 - tradução nossa).Esta melhoria da saúde de Richard traduz-se também no avanço dos seus trabalhos, estando no prelo o quarto volume suplementar das Mil e Uma Noites.
Também a curta carta seguinte, datada de Marienbad, 24 de julho de 1884, revela um registo caloroso:
Ich habe meinen Mann immer auf einen Piédestal erhoben und verehrt und darum wird auch Ihr überaus schöner Brief für immer aufbewahrt bleiben; und wenn Sie es erlauben eines Tages gedruckt werden als ein Zeugniß jener Größe die nach dem Tode zur Vergötterung wird, welche das Schicksal der meisten grossen Männer ist. Ich brauche nicht zu sagen wie herzlich wir wünschen Sie eines Tages persönlich zu treffen
(ULB Münster, N. Storck 01, 91).
Eu tenho sempre erguido o meu marido a um pedestal, louvando-o, e por isso a sua tão bela carta será guardada para sempre; e, caso dê a sua autorização para tal, será um dia impressa como testemunho daquela grandeza que, depois da morte, se torna veneração, que é o destino de quase todos os grandes homens. Escuso de lhe dizer que é o meu desejo encontrá-lo pessoalmente um dia
(ULB Münster, N. Storck 01, 91 - tradução nossa).Não podemos deixar de ler estas linhas com algum espanto. Após a morte de Richard, em 1890, Isabel iria queimar toda a correspondência passiva do seu marido.
3.2 Dois tradutores
Vejamos agora a segunda correspondência, a entre Storck e Tommaso Cannizzaro. Felizmente os herdeiros do último guardaram as missivas por ele recebidas de Storck. A troca começa em 1891, por ocasião da morte de Antero de Quental, autor esse que Storck e Cannizzaro haviam traduzido para as suas respectivas línguas-mãe. O primeiro bilhete, de Cannizzaro para o alemão, está escrito em francês, então ainda a língua franca dominante:
Illustre et honoré Monsieur,
Vous me pardonnerez, j’espère, si j’ose, sans avoir l’honneur de votre correspondance, vous demander des nouvelles de votre ami estimé et vaillant poète, Anthero de Quental, dont la Bios de hier, journal napolitain, annonce le suicide – comme il était de mes meilleurs amis j’en suis vraiment impressionné et attristé – si vous en savez quelque chose vous qui êtes en si bon[ne] rélation avec lui et qui l’avez si bien fait apprécier en Allemagne par votre exquise traduction des Sonnets, je vous prie de m’en informer – Je profite de cette occasion, quoique triste, pour presser la main d’un homme, d’un professeur et d’un poète, dont d[è]s longtemps j’ai la plus profonde estime.
Tout d[é]voué
Tommaso Cannizzaro
(ULB Münster, N. Storck 02, 03).Storck confirmará a morte do poeta micaelense. Na carta seguinte, de 26 de novembro do mesmo ano, Cannizzaro lamenta os desaparecimentos de “quattro dei miei migliori amici – Romanille, Podhorsky (il fenomenale linguista ungherese) Pachler e Anthero” (ULB Münster, N. Storck 02, 04). É também neste lugar que o poeta siciliano apresenta os seus planos de homenagear Antero, tendo entretanto traduzido os poemas “Os vencidos”, “Entre sombras”, “Hymno da manhã” e “A fada negra”, que considera enviar a Joaquim de Araújo com vista à sua publicação na Nova Alvorada. Junto com esta carta envia ainda a tradução de um poema de Storck intitulado “Antero de Quental”, assim como um poema próprio dedicado a Storck, intitulado “In morte di Anthero de Quental”, que irá publicar na sua coletânea de poesia Tramonti (1892), com o título “Pel Medesimo” (“Solo al fioco chiaror del mio pensiero”).
Storck já tinha por essa altura a fama de ser um tradutor diligente. A antologia Aus Portugal und Brasilien (1892), que inclui peças de vários poetas vivos, entre outros, Silva Gaio, Eugénio de Castro e Manuel Duarte de Almeida, dá conta do seu interesse pela literatura portuguesa contemporânea. A 16 de dezembro de 1893 (ULB Münster, N. Storck 02, 11), Cannizzaro sugere-lhe porém não uma poesia sua mas a de um amigo seu. Junto com a carta se encontra a cópia por mão de Cannizzaro de “Mi stringo nell’aureola // Della mia lampa”, do conde Riccardi di Lantosca, a que Cannizzaro chama “una delle composizioni più caratteristiche e filosofiche che la nostra lirica moderna abbia prodotte”. E formula uma esperança: “Non è improbabile che Ella in qualche momento di felice disposizione voglia farle conoscere alla Germania in qualche sua stupenda versione di maestro”. Parece como se Cannizzarro se tivesse inspirado nas palavras de Carolina Michaëlis, quando esta, em 1886, recomendara a Storck a tradução dos Sonetos Completos de Antero6. Por curiosidade, Cannizzaro, em carta de 31 de outubro de 1893 (ULB Münster, N. Storck 02, 10), pedira a Storck a morada de Carolina Michaëlis, pedido a que Storck correspondera a 14 de novembro. Será que o escritor italiano aproveitou para indagar a filóloga portuense sobre as estratégias indicadas para levar Storck a traduzir o poema do seu amigo?
Storck iria de facto encontrar um momento de feliz disposição. Já a 9 de janeiro do ano seguinte, Storck oferta o seu amigo com a tradução do poema de Riccardi. Relata como se fez à tradução, após uma época natalícia atarefada com visitas de família. A operação é descrita como “schwere Arbeit” (“trabalho difícil”), sobretudo por causa do desconhecimento da restante obra de Riccardi. Usa a seguinte analogia:
Kennt man von einem Lyriker eine grössere Anzahl Dichtungen, so lässt sich ein einzelnes Stück leichter aus dem Gesammt-Charakter (Stimmung, Tonart, Licht- und Schatten-Gebung) nachgestalten. In dem einen Falle sieht man durch Brille oder Lupe, im anderen durch ein Stereoskop; im ersteren – Flächen-Bild, im letzteren – Körper-Bild
(Espólio Cannizzaro).
Quando se conhece um maior número de poesias de um poeta, torna-se mais fácil imitar uma única peça a partir do carácter geral da sua arte (Stimmung, tom, luz e sombreado). Num caso se vê através de óculos ou de uma lupa, no outro através de um estereoscópio; num temos uma imagem aérea, no outro uma imagem corporal
(Espólio Cannizzaro - tradução nossa).A versão de “Mi stringo nell’aureola”, que em alemão inicia com “Still sitz’ ich hier // Beim Lampenlicht”, não é o único inédito que há entre as cartas de Storck. Este envia ainda uma tradução, declaradamente inédita, do soneto “Solo et pensoso i più deserti campi” de Petrarca, para além da versão alemã de alguns versos do próprio Cannizzaro e um poema em homenagem a este. O professor alemão é um expoente máximo do costume, típico da altura, de ofertar poesias, e neste caso também traduções de poesias, para se mostrar simpatia e aprofundar relações de amizade intelectual.
A tradução do poema petrarquiano data de 1903. Vem no final da penúltima carta de Storck a Cannizzaro, na qual esclarece algumas dúvidas do seu correspondente em relação aos sonetos de Camões. Cannizzaro estava por essa altura a preparar a sua tradução destes poemas camonianos para italiano (que sairia só em 1913) e recorrera também à edição storckiana de 1880. Storck aproveita as indagações do seu amigo para reflectir sobre algumas escolhas editoriais do livro que trouxera a lume há 20 anos. Fala por exemplo da sua descoberta posterior de que o soneto “La letra que es el nombre en que me fundo” é um acróstico (“Luisa de Quesada”), que remeteria para o nome de uma alegada amante do poeta. Uma nova tradução para alemão, que mantém as letras iniciais dos versos, surge na quarta página da carta a Cannizzaro. Storck informa que esta tradução é ainda inédita. Lamenta também a falta de interesse do público germânico nos seus livros: “Deutschland kauft von Camoens nur die Lusiaden, und so werde ich als fast 74jähriger keine neue Auflage der Camoens’schen Sonette erleben und also keine Gelegenheit haben, das Akrostichon zu veröffentlichen” [“A Alemanha de Camões só compra Os Lusíadas, de modo que eu, tendo quase 74 anos, não irei viver uma 2ª edição dos sonetos camonianos nem terei oportunidade para publicar o acróstico”; tradução nossa].
A descoberta do acróstico comunicara-a já em Luis’ de Camoens Leben. Carolina Michaëlis, em nota de rodapé à sua tradução portuguesa deste livro, denuncia o poema como apócrifo: “Não há realmente razão alguma para aceitarmos como de Camões este Soneto, e quasi toda a massa perditionis de sonetos anonymos, estropiados e banaes, colhidos por Juromenha e Braga no Cancioneiro Luis Franco, e publicados como ineditos preciosos” (Storck, 1897, p. 329n). Storck não diz nada a Cannizzaro sobre se aprovou ou não a opinião de D. Carolina (que é aliás partilhada por todos os relevantes editores posteriores da lírica camoniana). A doutrina de Storck consistira em traduzir tudo o que alguma vez tivesse sido atribuído a Camões, reservando a discussão da autenticidade para o extenso aparato crítico. Ainda que corrija muitas falhas editoriais de Teófilo Braga ou do visconde de Juromenha, Storck não é de modo geral peremptório nas suas decisões filológicas. Isso deve-se em parte ao facto de nunca ter tido oportunidade de estudar os cancioneiros e de consultar as bibliotecas relevantes em Portugal, que nunca visitou, e noutros países da Europa. Estava limitado aos seus livros e às cartas dos seus amigos em vários países. Em muitos casos, mesmo tendo praticamente a certeza da não autenticidade de um determinado poema, Storck fazia questão de o traduzir para alemão, essa língua tão pobre em rimas, como lamenta na sua última carta conhecida a Cannizzaro, datada de 21 de maio de 1903. É acima de tudo essa paixão incansável pela tradução de Camões, e em geral de toda a poesia, que partilhava com Tommaso Cannizzaro.
4. Conclusão
As cartas de que aqui tratámos não apontam para a existência de uma amizade muito próxima entre os seus autores. Também só pontualmente nelas encontramos discussões propriamente académicas. Ainda assim, pode valer a pena transcrever e publicar estas correspondências, no âmbito de um projecto de maior alcance sobre as correspondências entre lusófilos europeus em finais do séc. XIX, que beneficiaram dos meios de transportes rápidos que então dinamizaram as vias postais. Publicar estas recolhas de cartas avulsas contribuirá para o alargamento do mosaico documental relativo à época de transição entre os sécs. XIX e XX, época essa tão determinante para a nossa História das letras e da ciência. As cartas dão-nos conta de um tempo em que alguns grandes académicos, tudo menos diletantes, perseguiam projectos de extensão monumental, como o são as Sämmtliche Gedichte, seguidas de Luis‘ de Camoens Leben, de Storck, ou as Mil e Uma Noites do casal Burton. As correspondências aqui em causa decorrem numa altura em que o acesso a bibliografia especializada era difícil; por isso é frequente encontrarmos nas missivas em questão pedidos de esclarecimentos de natureza bibliográfica.
Dão-nos conta também de um aspecto mais humano. O último terço do séc. XIX é ainda um tempo em que as línguas românicas menores, como o português, eram em boa parte a ocupação de alguns poucos académicos. Os filólogos-tradutores em causa careciam, de modo geral, de interlocutores nas cidades onde viviam e, no caso de Storck, na universidade onde leccionava. As relações epistolares com pessoas que, a centenas ou mesmo milhares de quilómetros de distância, se encontravam em situação simétrica nos seus respectivos países, terão ajudado cada um a superar esse isolamento.
Referências
Azevedo Filho, L. A. de (1995). Lírica de Camões. Volume 3, Tomo I: Canções. Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
Kampschroer, P. (2016). Camões entre Münster e o Porto: Cartas de Wilhelm Storck e Joaquim de Vasconcelos. Diacrítica (série ciências da literatura), 30(3), 95-116.
Kampschroer, P. (2017). Sobre as traduções de Wilhelm Storck. In Quental, A. de: Poesias II: Os Sonetos Completos. Edição crítica de L. Fagundes Duarte. (pp. 353-72). Abysmo.
Leite de Vasconcelos, J. (1910). O doutor Storck e a litteratura portuguesa. Academia Real das Ciências.
Storck, W. (1897). Vida e obras de Luís de Camões. (Tradução de C. Michaëlis de Vasconcelos). Academia Real das Ciências.
Storck, W. & Vasconcelos, J. de (2022). Briefwechsel. Herausgegeben und mit einer Einleitung versehen [edição e introdução] von Philipp Kampschroer. University of Bamberg Press. https://doi.org/10.20378/irb-53718
Notes
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Alice Girotto
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