Artigo
Received: 06 July 2024
Revised document received: 09 September 2024
Accepted: 10 August 2024
Published: 01 September 2024
DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7968.2024.e101895
Resumo: Partindo dos estudos existentes sobre o espólio Araújo conservado na Biblioteca Nazionale Marciana de Veneza, o artigo apresenta os primeiros resultados duma investigação nos seus primórdios que visa reconstruir a rede de contactos entre os diferentes atores do campo da literatura portuguesa traduzida na Itália entre 1880 e 1930. Na primeira parte expõem-se e interpretam-se os dados recolhidos acerca dos 39 correspondentes italianos de Joaquim de Araújo: a consistência das correspondências, a extensão cronológica do intercâmbio epistolar, os lugares de procedência das cartas, as línguas em que a correspondência era trocada. Na segunda parte analisa-se, em particular, a correspondência do bibliotecário Vittorio Baroncelli, autor duma esboçada tradução do romance de Júlio Dinis As Pupilas do Senhor Reitor de que só apareceram os primeiros três capítulos numa revista veneziana e que nunca chegou a ser completada. Integram o artigo as transcrições das cartas de Vittorio Baroncelli e de Roxana Lewis Dabney nos anexos, respetivamente, 1 e 2.
Palavras-chave: Literatura portuguesa traduzida, correspondência, Joaquim de Araújo, Vittorio Baroncelli.
Abstract: Drawing on the existing studies on Araújo’s bequest kept at the Biblioteca Nazionale Marciana in Venice, the article presents the first results of a research project still at its initial stage that aims to reconstruct the network of contacts between the different actors in the field of Portuguese literature translated in Italy between 1880 and 1930. The first part sets out and interprets the data collected on Joaquim de Araújo’s 39 Italian correspondents: the consistency of the correspondence, the chronological extent of the epistolary exchange, the places where the letters came from, the languages in which the correspondence was exchanged. The second part analyses, in particular, the correspondence of the librarian Vittorio Baroncelli, author of a sketched out translation of Júlio Dinis’ novel As Pupilas do Senhor Reitor, of which only the first three chapters appeared in a Venetian magazine and which was never completed. The transcripts of the letters from Vittorio Baroncelli and Roxana Lewis Dabney are included in the article in Appendices 1 and 2.
Keywords: Portuguese literature translated, correspondence, Joaquim de Araújo, Vittorio Baroncelli.
1. Introdução
O interesse do espólio Araújo, que se encontra conservado na Biblioteca Nazionale Marciana de Veneza, para os estudos da rede de difusão da literatura portuguesa na Europa entre finais do século XIX e começos do século XX, é notório. Uma primeira descrição sumária do seu conteúdo foi feita por Sánchez Rivero (1952) que, cinco anos depois da Marciana ter definitivamente tomado posse dele1, afirmava a importância do epistolário nele guardado – para além dos 2241 volumes, 1457 opúsculos e 22 periódicos – e concluía que
[il] Carteggio inedito […] deve esser tenuto presente da coloro che fanno oggetto del proprio studio le letterature iberiche o le relazioni culturali italo-ispano-portoghesi. Nel 1942 a Lisbona studiosi di cose portoghesi mi parlarono del carteggio Araujo [sic] come di cosa avvolta nel mistero ma che era necessario portare alla luce perché certamente doveva includere notizie di grande interesse specialmente per Antero de Quental, João de Deus, Castello Branco, Teófilo Fernandes Braga
(Sánchez Rivero, 1952, p. 382).Ao citar estas mesmas palavras, uma vintena de anos depois Peixoto (1973) redigiu o inventário do espólio, “embora com algumas imprecisões no que se refere à transcrição de nomes, sobretudo os estrangeiros” (Simões, 1998, p. 7), e publicou a transcrição do testamento autógrafo de Antero de Quental (catalogado sob a cota Str. App. 82 (12246)). Interessante é também a menção que ele faz à publicação, no Arquivo de Bibliografia Portuguesa pela iniciativa de Manuel Lopes de Almeida e dele próprio, de algumas cartas de Antero de Quental e das duas cartas de Oliveira Martins, para além da de uma carta de Herculano que porém não consta nem no seu inventário, nem no menos sistematizado e ainda escrito à mão da biblioteca, como pude verificar no decurso das minhas pesquisas.
Mais um quarto de século separa o artigo de Peixoto da edição em volume, por parte do então recém-reformado professor de literatura portuguesa na universidade de Veneza Manuel Gonçalves Simões, da correspondência entre Joaquim de Araújo e o literato, filólogo e tradutor italiano Emilio Teza. O propósito de Simões, segundo referido pelo próprio, terá sido o de publicar “as cartas dos [outros] correspondentes italianos que se encontram no ‘fondo Araújo’” (Simões, 1998, p. 7) num volume posterior que menciona como estando em preparação, mas que parece nunca ter visto a luz.
Finalmente, o extenso trabalho de Brito (2000) relata a trajetória completa de Araújo como animador cultural, bibliófilo, bibliógrafo e poeta, mas sobretudo como promotor de iniciativas ligadas à cultura portuguesa em vários países europeus, não só na Itália – onde exerceu o cargo de cônsul de Portugal em Génova desde 1895 até 1913 –, mas também na Espanha, na França, na Alemanha, na Inglaterra, na Suécia, na Roménia e até na Rússia. O resultado é um tratado que carece de sistematização, sobretudo no que diz respeito às referências bibliográficas; além disso, as reproduções das cartas de Rafael Altamira, Achille Millien, Wilhelm Storck, Edgar Prestage e Göran Björkman nele contidas2 não responderão a outro critério científico a não ser o de fornecerem outros tantos exemplos do alcance geográfico da difusão da literatura portuguesa no continente europeu naquela altura. Trata-se, contudo, de uma obra de alguma utilidade, pela possibilidade que proporciona de integrar as escassas notícias que constam nos artigos e ensaios citados acima com muitos outros (ainda que caóticos) dados, nomeadamente no que se refere às revistas onde se dava notícia das trocas epistolares em curso e dos projetos de edição que daí resultavam.
Consideradas estas premissas, o presente artigo visa retomar o fio à meada desses estudos. Como é fácil constatar, o tamanho do acervo em exame – aproximadamente 2.145 cartas – obrigou-me a uma escolha pontual do foco das pesquisas a desenvolver e, por conseguinte, dos resultados a divulgar. O projeto inacabado do professor Simões antes referido, que se propunha editar as cartas dos correspondentes italianos de Araújo para além de Teza, facultou-me um bom ponto de partida e critério de seleção dentro das muitas outras opções praticáveis. Mas foi depois da realização do congresso “A língua portuguesa finissecular: norma, variação e intercâmbio internacional”, a 27 e 28 de abril de 2023 na Universidade de Parma, que esta escolha se me revelou ainda mais certa, por emergir nesse congresso uma linha de investigação partilhada pelos colegas Andrea Ragusa e Elisa Alberani3 sobre a literatura portuguesa traduzida na Itália entre 1880 e 1930, os seus atores, dinâmicas e ferramentas. Como demonstrarei nos parágrafos a seguir, a análise cuidadosa do epistolário de Araújo é uma operação fundamental para reconstruir não só a rede de contactos entre tais atores, mas sobretudo o destino dos vários projetos de tradução que eles, animados por um genuíno cosmopolitismo intelectual e pela vontade de divulgação duma literatura que até então se mantivera nas margens da grande tradição literária europeia, entusiasticamente concebiam4.
2. Os correspondentes italianos de Joaquim de Araújo
Sendo, portanto, o meu propósito o de estudar as cartas dos correspondentes italianos de Joaquim de Araújo, o primeiro passo a dar nesta direção foi o de individuar quais foram, a consistência numérica das cartas deles conservadas no espólio e outros dados, como a extensão cronológica do intercâmbio epistolar, os lugares de procedência das cartas e as línguas em que a correspondência era trocada. O resultado dessa fase do estudo pode ser apreciado na tabela que segue, em que organizei estas informações acrescentando, onde foi possível encontrá-los ou reconstruí-los na base das hipóteses sobre os indivíduos a que se referem, os extremos do nascimento e da morte de tais correspondentes:

Do ponto de vista da consistência numérica, segundo os dados que podem ser extraídos depois duma análise geral do corpus em apreço, as correspondências mais interessantes são sem dúvida as de Emilio Teza (63 cartas) e de Arturo Farinelli (49 cartas). Tendo a primeira já sido publicada, a segunda destaca-se não só por ter como remetente o reconhecido estudioso de literaturas comparadas, professor de filologia românica na universidade de Innsbruck primeiro (1896-1904), depois de língua e literatura alemã na universidade de Turim durante trinta anos (1907-1937), académico da Accademia d’Italia (desde 1929); mas também por conter, entre as muitas indicações bibliográficas espalhadas pelas cartas, o autógrafo dum ensaio, em francês, sobre Almeida Garrett (na carta de 28 de fevereiro de 1899)8. Seguem, em ordem decrescente de consistência, as correspondências de:
Tommaso Cannizzaro (19 cartas);
Benedetto Croce (14 cartas);
Vittorio Baroncelli e Alfredo Achille Monteverde (11 cartas);
Gustavo Uzielli (10 cartas). Uzielli era professor de geologia e mineralogia e em 1867 fora um dos fundadores da Sociedade geográfica italiana; neste papel é que se correspondeu com Joaquim de Araújo, sendo na altura “l’anima del Comitato per le onoranze centenarie italo-americane per Paolo Toscanelli e Americo Vespucci” (Sánchez Rivero, 1952, p. 381);
Antonio Padula (9 cartas);
Aglauro Ungherini (8 cartas). Na altura da correspondência com Araújo, Ungherini era livreiro em Turim; tal correspondência inicia-se com toda a probabilidade devido ao trabalho de Araújo sobre Inês de Castro9, tendo em conta a seguinte passagem da primeira carta (15 de agosto de 1897):
Je serais bien heureux, monsieur, de pouvoir citer votre nom, dans le supplement, que je publierai l’année prochaine, à propos de Inès de Castro, si vous pourrez me donner des informations bibliographiques sur toute monographie historique-biographique – je ne m’occupe que de ces travaux-là – concernant cette femme.
Prospero Peragallo (7 cartas);
Giuseppe Cellini (6 cartas);
Diego Garoglio e Gemma Majonchi (5 cartas). Garoglio era poeta e na sua segunda coletânea Due anime: nuove poesie (1893-1895), publicada em 1898 em Florença, traduzira alguns poemas do português. Majonchi era pedagogista10, autora dos opúsculos Luigi Camoens e Torquato Tasso: I Lusiadi e la Gerusalemme liberata (1900) e D’Almeida Garrett: rinnovatore della letteratura portoghese (1901), conservados na Biblioteca Nacional de Portugal.
Dos restantes correspondentes nos restam menos do que cinco cartas enviadas por cada um deles, para um total de 260 cartas.
Os limites cronológicos desta secção do epistolário de Joaquim de Araújo são 1892, ano de que datam as primeiras cartas tanto de Tommaso Cannizzaro (23 de janeiro) como de Prospero Peragallo (11 de outubro), e 1910, com as últimas cartas de Arturo Farinelli (5 de janeiro), de novo Prospero Peragallo (30 de julho) e Emilio Teza (5 de dezembro). Com Cannizzaro a correspondência inicia-se em seguida à morte de Antero de Quental, devido à publicação no periódico A Província duns versos (provavelmente os dois sonetos In Morte di Anthero) compostos pelo tradutor siciliano em seguida ao fim trágico do grande poeta e intelectual português: “Ho ricevuto nei giorni passati il Suo lugubre e interessantissimo opuscolo in morte di Anthero e quindi il N.° di A provincia, nel quale Ella ha voluto ripubblicare i miei poveri versi pel nostro infelice amico.” (Str.App.73 (12237)) Já na primeira carta de Peragallo é possível verificar o pôr-se em marcha daquela extensa operação de coleção de traduções do poema Zara que desembocará nas edições poliglotas de 1894, 1895 e 1896: “Logo que, pelas quatro […] hoje, recebi a poesia […] memoria da sua cara ir[mã] […] traduzil[-a] conforme V.ª Exc.ª desejava”11. (Str.App.73 (12237))
Os anos de mais intensa troca epistolar são os que vão de 1895 a 1901, que coincidem com a transferência de Araújo na Itália na qualidade de cônsul de Portugal e com a realização de muitas das iniciativas de difusão da literatura e da cultura portuguesas pelas que ficou conhecido: as já mencionadas edições poliglotas de Zara (1895 e 1896); a publicação de estudos sobre e traduções de Camões, João de Deus, padre António Vieira, Antero (1897); a comemoração da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia (1898); o centenário de Garrett (entre 1899 e 1901). Nos anos sucessivos as cartas tornam-se cada vez mais rarefeitas, até não haver nenhuma recebida por italianos em 1907. Entre as últimas cartas recebidas encontram-se referências a mais uma publicação de divulgação da história portuguesa na Itália, ou seja o opúsculo A infanta D. Maria filha de el-rei D. Manuel 1. de Portugal: notas historico-artisticas, publicado pela tipografia e litografia Sordomuti de Génova: Araújo é agradecido pela oferta do opúsculo tanto por Farinelli – “C’est une charmante et prétieuse publication la votre. La valeur en est doublée par les jolies réproductions artistiques.” (carta de 5 de janeiro de 1910) – como por Peragallo – “Devo-lhe mil agradecimentos pela offerta de um exemplar do seu magnifico trabalho acerca da formosa e illustradissima Infanta Dª Maria de Portugal, filha do Rei aventuroso Don Manuel 1º; trabalho estampado, (como bem merecia o assumpto) em somptuosa edição” (carta de 12 de julho de 1910) –, o qual acrescenta, na sucessiva e derradeira carta de 30 de julho, a notícia da existência de “uma carta original, em latim, toda do proprio punho da Infanta Dª Maria, filha de D. Manuel – dirigida à Dª Maria, Rainha da Inglaterra – em data de Lisboa 1553”. Na carta que fecha, cronologicamente, o corpus em análise (5 de dezembro de 1910), Teza expressa a esperança que a “mutata […] vita pubblica nel Portogallo” não tenha comportado pelo velho amigo “nè danno grande, nè piccole noie” (Simões, 1998, p. 238); uma preocupação explicável não só pela queda da monarquia e instauração da república a 5 de outubro do mesmo ano, mas também pelos longos meses de ausência de comunicações (desde o começo de março de 1910), a que Araújo responde, a 9 de dezembro, que “Pour le moment je suis encore consul de la Republique” (Simões, 1998, p. 138).
Quanto às línguas utilizadas para estas conversas escritas, não estranha o frequente uso do francês, que desde meados do século XVII se impusera como língua franca e da cultura em toda a Europa. O italiano era língua compreendida, e portanto lida sem dificuldade, por Araújo: “mi è stato affermato ch’Ella, senza parlarla correttamente, comprende la nostra lingua”, afirma Vittorio Baroncelli na sua primeira carta ao então recém-nomeado cônsul de Portugal na Itália. Pelo contrário, não é fácil elaborar uma explicação persuasiva para a alternância entre as duas línguas nas correspondências do próprio Baroncelli, de Cannizzaro, Farinelli, Padula e Uzielli. Não é possível, por exemplo, justificá-la com alguma suposta perda de hábito ou familiaridade devida a certo hiato temporal entre cartas sucessivas: este, com efeito, poderia ser o caso de Cannizzaro – entre a carta em italiano de 27 de outubro de 1893 e a sucessiva retomada dos contactos em francês, a 12 de março de 1898, passam quatro anos e meio12 –, mas não esclareceria a mesma passagem de uma a outra língua no caso de Baroncelli, que troca o italiano das primeiras duas cartas com o francês das sucessivas no espaço de seis meses (8 de julho de 1895-2 de janeiro de 1896) e volta a escrever em italiano em 1900. Os únicos dois correspondentes a utilizar o português são Alfredo Achille Monteverde e Prospero Peragallo, talvez por exercerem, os dois, cargos que lhes requeriam um conhecimento ativo e aprofundado da língua: de facto, naqueles anos Monteverde era o primeiro secretário da embaixada de Portugal na Itália, enquanto Peragallo era um presbítero da ordem dominicana que desde 1865 dirigia a igreja de Nossa Senhora do Loreto em Lisboa.
3. As cartas de Vittorio Baroncelli e a tradução de As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis
Tratando-se de decidir, pois, sobre qual das correspondências acima descritas focar em pormenor a atenção, o critério da consistência numérica podia parecer o mais sensato, na senda da publicação já realizada (e várias vezes referida) pelo professor Manuel Simões e devido ao maior interesse que um conjunto considerável de cartas sem dúvida apresenta. A lógica consequência de tal raciocínio teria sido a de privilegiar a correspondência de Farinelli como objeto desta segunda fase do estudo, mas outras considerações e constrangimentos impuseram-se e levaram-me a tomar um rumo diferente. Com efeito, o tempo limitado à minha disposição e as dificuldades linguísticas inerentes à correspondência do académico italiano, cujo exame requer a consulta de colegas especialistas do francês fin-de-siècle, fizeram-me rejeitar essa opção. Do mesmo modo larguei as hipóteses de dedicar-me às cartas de Cannizzaro, que o colega Andrea Ragusa estava entretanto a considerar pelo seu trabalho sobre a tradução entre português e italiano em perspetiva diacrónica, e às de Croce, pelo facto de os estudos dele sobre as literaturas ibéricas (e não especificamente a portuguesa) representarem só uma parte minoritária e marginal da sua vasta e importante obra – como ele próprio declara na sua primeira carta (29 de outubro de 1899) a Araújo: “nei ritagli di tempo che mi lasciano disponibili i miei studi di filosofia e di sociologia, faccio delle ricerche sulle relazioni letterarie tra Spagna e Italia”. Resolvi concentrar-me, portanto, na correspondência de Vittorio Baroncelli, pela consistência, ao mesmo tempo, suficientemente significativa e circunscrita para possibilitar a análise dela dentro do tempo de que podia dispor, mas também pelas informações inéditas e capazes de conduzir a descobertas de certo valor que uma primeira, rápida leitura revelara.
Antes de mais, a transcrição das cartas permitiu definir o número exato delas. De facto, no fascículo Baroncelli da caixa cotejada por Str. App. 72 (12236) são conservadas 11 cartas, mas só 9 foram escritas pelo próprio Baroncelli. As outras duas, a n.º 3 (datável, com toda a probabilidade, a 9 de dezembro de 1898) e a n.º 913 (que leva a data de 6 de janeiro de 1900), terão sido catalogadas nesse mesmo fascículo por ter sido escritas em papel timbrado “BIBLIOTECA NAZIONALE DI S. MARCO / VENEZIA” quase no mesmo período em que Baroncelli era funcionário da Biblioteca Marciana, ou seja entre dezembro de 1892 e maio de 1899. Sendo, porém, tanto a caligrafia como o conteúdo das duas cartas bastante diferente dos das cartas de Baroncelli, a análise conjunta destes dois elementos e, sobretudo, da assinatura levou a identificar o remetente delas como sendo Salomone Morpurgo, diretor da Marciana desde março de 1898 (depois da morte do anterior diretor, Carlo Castellani, em outubro de 1897) até agosto de 190514.
A correspondência de Vittorio Baroncelli dirigida a Joaquim de Araújo abre-se a 25 de junho de 1895 (carta n.º 1 do Anexo 1): o bibliotecário lamenta não ter encontrado o cônsul aquando da recente visita deste à Marciana e relata os seus contactos com Prospero Peragallo, que originaram do seu propósito de traduzir o romance As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis. A informação pedida ao padre, e de que Baroncelli pede confirmação a Araújo, é se existirem traduções de tal obra-prima (“capolavoro”) para além dalguma suposta em espanhol, de que porém não pode ter notícia certa devido à ausência de bibliografias periódicas completas tais como existiam para as publicações em francês, inglês ou alemão. Não se conhece a resposta de Araújo a esta pergunta, mas a consulta simultânea do Catálogo de la Biblioteca Nacional de España e do Catálogo Colectivo de Bibliotecas Públicas do mesmo país indica que naquela altura o primeiro romance do escritor portuense, publicado em livro em 1867, ainda não fora traduzido em castelhano, mas só o será cerca de trinta anos depois. Com efeito, a primeira tradução espanhola aparece publicada pela Sociedad general de publicaciones de Madrid com o título Las pupilas del señor Rector (Crónica de aldea) e, ainda que não leve a indicação do ano de edição, tem que ser posterior a 1924, pois se apoia na 24ª edição portuguesa (veja-se a figura 1)15. Já existia, todavia, a tradução inglesa do último romance de Júlio Dinis, Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), assinada pela tradutora norte-americana natural dos Açores Roxana Lewis Dabney e publicada com o título The Fidalgos of the Casa Mourisca pelo editor D. Lothrop Co. de Boston (Mass.)16.

O entusiasmo pelo projeto de tradução anunciado por Baroncelli deverá ter provocado uma resposta rápida por parte de Araújo, já que não passam duas semanas antes que chegue a segunda carta do bibliotecário (n.º 2, de 8 de julho de 1896): nela declara-se agradecido (“tenuto”) ao cônsul por este ter-se oferecido escrever um prefácio bio-bibliográfico para a tradução vindoura, sobretudo porque as notícias existentes sobre Júlio Dinis nas obras de referência da altura – entre as outras, são mencionados a História da literatura portuguesa de Teófilo Braga (1870), o Dizionario biografico degli scrittori contemporanei de Angelo de Gubernatis (1879) e a “Geschichte der portugiesischen Litteratur” de Carolina Michaelis de Vasconcelos e do próprio Braga na Grundriss der romanischen Philologie de Gustav Gröber (1888) – são muito escassas.
De que tal tradução – ou, melhor dito, a primeira parte dela – tenha efetivamente visto a luz temos confirmação na sucessiva carta de Baroncelli (n.º 3), datada a 2 de janeiro de 1896, na qual, em francês, anuncia: “Les ‘Veglie Veneziane’ ont paru avec votre lettre charmante et très aimable pour moi et la traduction des trois premiers chapitres du roman”. A carta maravilhosa e muito gentil (“lettre charmante et très aimable”) corresponde ao prefácio bio-bibliográfico referido na carta anterior, que antecede a tradução dos três primeiros capítulos do romance assinada por Baroncelli e publicada no n.º XI-XII do ano 1 (1º de dezembro de 1895) da revista Nuove Veglie Veneziane17. Araújo publicará o prefácio (ou carta) como opúsculo solto no mesmo ano de 1896, com o título Julio Dinis. Lettera al Signor Vittorio Baroncelli per accompagnare la traduzione dei [sic] “Pupille del signor curato”, de forma a podê-lo oferecer, como era costume dele, aos seus correspondentes: é o caso, por exemplo, de Emilio Teza – cuja cópia é a à qual se pode ter acesso no seu espólio, também legado à Biblioteca Marciana – e da atrás citada Roxana Lewis Dabney, que agradece o cônsul português pela dádiva na única carta dela que se conserva no espólio Araújo18.
A revista onde apareceu a tradução foi uma revista literária e artística para as famílias, como apontado pelo subtítulo, publicada mensalmente em Veneza durante o ano de 1895. A diretora foi, durante todo o período de publicação da revista, Giannina Rottigni Marsilli, escritora e docente de língua e literatura italiana nascida em 1860 e natural da cidade de Valdagno, na província de Vicenza (Rumor, 1907, p. 704)19. Entre os colaboradores, na maioria figuras do meio artístico, cultural e intelectual da cidade lagunar, destacam-se a poetisa Vittoria Aganoor, o escritor e deputado Pompeo Gherardo Molmenti e o pintor e crítico de arte Giulio Cantalamessa. Os textos publicados compreendiam textos literários (poemas em italiano mas também em diferentes dialetos, novelas, contos, romances, comédias), ensaios (de história da arte, literatura, filologia, mas também de física e história natural), recensões e recomendações bibliográficas. A partir da edição de junho, a revista acolheu artigos e correspondências sobre a primeira Exposição internacional de arte, a futura Bienal de Veneza (Borghi, s. a.).
A este começo cheio de bons propósitos – “La revue promet de continuer et je vais suivre la traduction de l’ouvrage”, escreve na carta n.º 3 Baroncelli – não seguirá, porém, a realização acabada do projeto. Logo na comunicação sucessiva (carta n.º 4, de 19 de novembro de 1896), o bibliotecário manifesta o seu desconforto pelo atraso de certos trabalhos que tem que cumprir, o que determina também a (auspiciosamente temporária) impossibilidade de dedicar-se à continuação da tradução:
Vous allez comprendre qu’en cette condition je ne pouvais vaquer à autre chose : aussi ma traduction a dû en souffrir autant que moi. Je me flatte toutefois de la reprendre sous peu et avec le propos déterminé de ne pas l’abbandoner jusqu’à la fin. Alors peut-être je pourrai l’offrir pour l’impression à quelque éditeur, surtout si j’en aurai le courage.
Uma renovada disposição ao trabalho empreendido três anos antes parece impor-se na carta sucessiva (n.º 5, de 29 de janeiro de 1898), onde Baroncelli afirma ter retomado a tradução e também, com alguma segurança, que essa bem cedo aparecerá “dans un recueil périodique, qui sera publié à Rome sous la direction de cette même Comtesse Marsilli, que vous avez connu ici”. Já verificámos, porém, quão efémeros costumam revelar-se os planos ligados ao nome desta escritora: Nuove Veglie Veneziane, a revista que prometia ter continuação, só saiu durante um ano e a edição onde apareceu a tradução dos primeiros três capítulos de As Pupilas do Senhor Reitor foi a derradeira; em segundo lugar, na base dos resultados das pesquisas no catálogo do serviço bibliotecário nacional italiano, as publicações de autoria da Rottigni Marsilli depois de 1898 são bastante posteriores (1904 e 1905) e, se bem que todas impressas por tipografias e editoras romanas, nada têm a ver com alguma coleção periódica. Para além disso, nas restantes cartas do bibliotecário nunca voltará a aparecer alguma referência à tradução: ele pedirá inquirições sobre certo nobre polaco do século XVI (carta n.º 6, de 6 de agosto de 1898), contará do desgosto que sofre pela sua transferência de Veneza a Palermo (carta n.º 7, de 15 de junho de 1899), acusará a receção dum volume de António de Portugal de Faria (carta n.º 8, de 8 de abril de 1900), escreverá depois de mais uma mudança, desta vez para a cidade de Cremona (carta n.º 9, de 15 de novembro de 1901). Da empresa que tanto o enchera de ousadia no mês de junho de 1895, não ficou nenhum rasto.
Descumpre-se, assim, a previsão formulada por Araújo no seu prefácio, segundo a qual “saranno due soltanto i romanzi portoghesi in possesso dei lettori italiani” (Araújo, 1896, p. 10). Sendo o primeiro, desde 1883, Amore sfrenato: storia di una famiglia, ou seja a tradução de Daniele Rubbi do camiliano Amor de Perdição, os leitores italianos teriam que esperar ainda uns anos para entrar na posse de mais romances portugueses traduzidos – nomeadamente, 1901, quando é publicado Libro di consolazione: commovente romanzo storico portoghese (tradução de Luigi Zuccaro de Livro de Consolação), seguido logo em 1902 por Il romanzo d’un uomo ricco (tradução dum misterioso – ou misteriosa – Yabel de O Romance de um Homem Rico). Foi, portanto, Camilo Castelo Branco o primeiro romancista português a ter uma projeção de alguma continuidade na Itália. Quanto a Júlio Dinis, se já só a tradução de As Pupilas do Senhor Reitor não conseguiu ir para além dum prometedor começo e ficou inacabada, talvez escusado seja dizer que outra certeza de Araújo, a de que “[a] cotesto romanzo seguiranno certamente gli altri: Os Fidalgos da Casa Mourisca, a Morgadinha de Canaviaes, a Justiça de sua Magestade, che compongono la galleria di Julio Dinis” (Araújo, 1896, pp. 8-9), desmoronou e o autor continua não traduzido (tirando os três capítulos vertidos por Baroncelli) em italiano. Como também será necessário esperar o século XX adentro para ter a primeira tradução italiana de O Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós (La colpa del prete Amaro, 1935, traduzido por Giacomo Prampolini) e até este começo de século XXI para a tradução de Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett (Viaggi nella mia terra, 2015, traduzido por Federico Giannattasio) – os dois títulos que, como conclui Araújo na sua carta de introdução à tradução de Baroncelli, evidenciariam “la sintesi dell’evoluzione del romanzo contemporaneo in Portogallo” (Araújo, 1896, p. 11). Estamos, neste caso, bem longe temporal e contextualmente daquela rede de intercâmbios internacionais que, entre finais do século XIX e começos do século XX, favoreceu a expansão da cultura portuguesa na Europa e as primeiras traduções modernas da literatura do país ibérico. Rede e traduções para cuja reconstrução, revelação e estudo o presente artigo tem o intento de concorrer; aos leitores dele a honrada tarefa de julgar tal intento mais ou menos conseguido.
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Rumor, S. (1907). Gli scrittori vicentini dei secoli decimottavo e decimonono, vol. 2. Tipografia Emiliana.
Sánchez Rivero, A. Mariutti de (1952). Il carteggio inedito del legato Araújo. In AA. VV. (orgs.), Miscellanea di scritti di bibliografia ed erudizione in memoria di Luigi Ferrari. (pp. 369–382). Leo S. Olschki.
Simões, M. Gonçalves (1998). A correspondência entre Joaquim de Araújo e Emilio Teza (1895-1910). Edições Colibri.
Strappini, L. (1995). FARINELLI, Arturo (Marte Vittorio Achille Arturo). In AA. VV. (orgs.), Dizionario Biografico degli Italiani, vol. 45. (pp. 21–24). Istituto della Enciclopedia Treccani.
Zorzi, M. (1987). La Libreria di San Marco. Libri, lettori, società nella Venezia dei Dogi. Arnoldo Mondadori Editore.
Anexo I
Cartas de Vittorio Baroncelli para Joaquim de Araújo

permetta prima d’ogni altra cosa ch’io Le chieda scusa se Le scrivo in italiano: mi è stato affermato ch’Ella, senza parlarla correttamente, comprende la nostra lingua e ho pensato che il mio compito sarebbe tornato più facile e non più difficile quello di V. S., che, ove sia per essere tanto cortese di volermi rispondere, può farlo nel suo idioma, ch’io né scrivo, né parlo, ma ho la fortuna di capire abbastanza bene.
M’è dispiaciuto infinitamente di non aver potuto fare la conoscenza personale della S. V. Illma nei giorni in che Ella era qui e aveva anche visitato la biblioteca; Le avrei risparmiato la noja di ricevere questa mia lettera, chiedendole a voce alcune piccole informazioni, che ho già domandato al Rev. Peragallo, che abita a Lisbona e ch’Ella forse conoscerà; da lui ho avuto risposta gentilissima e incoraggiante quant’altra mai. Dalla dottrina letteraria e dalla bontà di V. S. attendo una conferma di quanto mi ha scritto il ch.o Peragallo a proposito del romanzo di J. G. Gomes Coelho (Julio Diniz) “As Pupillas do Sr. Reitor” che, se mi siano propizi tempo e salute, avrei in animo di tradurre, tanta fu viva l’impressione da me provata nel leggerlo la prima volta alcuni anni or sono e ripetutasi colla medesima intensità rileggendolo da poco. Non so se il pubblico nostro abituato al romanzo naturalista, psicologico, sociologico e ora mistico e nebuloso possa prendere interesse a quella semplice narrazione, ch’esce del tutto dalle formule testé accennate: a me parrebbe che alle menti elette e ai cuori bennati l’arte fine e delicata, che non si tradisce, ma raggiunge con così viva efficacia l’effetto suo dovrebbe sempre piacere, comunque e dovunque abbia preso l’ispirazione. A mia notizia, e questo ripeteva anche il Peragallo, cotesto capolavoro non è stato tradotto in nessun’altra lingua se non forse nella spagnuola, la qual cosa non m’è dato di sapere esattamente come se si trattasse di versioni in francese, in inglese o in tedesco; ché di quest’ultime letterature abbiamo complete bibliografie periodiche.
Questo bramerei conoscere dalla S. V. Illma, se è a sua notizia, e l’opinione sua sincera, leale, spassionata sul mio disegno di tradurre il romanzo. So che la mia è una bella audacia, ma ho fidanza ch’Ella vorrà tutt’al più considerarla come eccesso di franchezza. E creda che in ricambio mi pongo fin d’ora alla disposizione della S. V. Illma per tutto quello in che Ella credesse di poter approfittare dell’opera mia.
Voglia, Illmo Signore, accogliere di nuovo le mie scuse più sentite e i miei antecipati ringraziamenti e credermi colla massima deferenza, della S. V. Illma


non posso rispondere come vorrei alla lettera oltremodo cortese, onde la S. V. Illma ha voluto onorarmi, però ch’io sia da qualche giorno un po’ sofferente forse per l’improvviso mutamento di temperatura, così che soltanto oggi ho potuto prendere in mano la penna. Dirle quello che dovrei per ringraziarla delle Sue espressioni gentili è quasi soverchio, ché Ella può di leggeri intravederlo; aggiungerle quanto e come io Le sia tenuto per l’offerta di dettare per il romanzo del Diniz una prefazione bio-bibliografica, tornerebbe soverchio del pari, non però manifestarle il pensier mio, ch’Ella, senza pensare alla mia traduzione di là da venire, potrebbe e dovrebbe scriverla senz’altro fin d’ora, mentre del nostro autore scarsissime sono le notizie che si possono trovare nelle opere che si consultano quotidianamente. Il Vapereau e il De Gubernatis, che pure hanno inserito ne’ loro dizionari de’ nomi inutili o immeritevoli, non ne fanno menzione alcuna; non ne parla il Braga nella “Historia da litteratura portugueza” e nemmeno nella “Geschichte der portugiesischen Litteratur” in: Gröber “Grundriss der romanischen Philologie” II.2. Non mi restano pertanto che la breve lettera di A. Soromenho premessa all’edizione di Lipsia, Brockhaus, 1875, ch’è quella da me posseduta, il breve cenno biografico nel “Grand Dictionnaire” del Larousse XVII, pp. 851 e queste poche parole nell’articolo “Portugiesische Litteratur” a pp. 301-302 del Vol. XIII del “Konversations-Lexikon” del Brockhaus, 14a edizione, testé pubblicato: “… der früh gestorbene Romanschriftsteller Julio Diniz, der besonders das Genre der Dorfgeschichte mit gesundem Sinn und viel Glück und Geschmack kultiviert hat…”. Il libro di Filarete Chastes l’avevo letto molti anni prima che mi venissero sotto agli occhi “As Pupillas do Sr. Reitor”, né ora posso consultarlo; l’ho fatto richiedere ad altre biblioteche e spero che d’una parte o dall’altra me lo manderanno perché mi sia dato rileggere il brano riguardante il Coelho.
Insieme alla lettera ho ricevuto il dono gratissimo del poemetto, ch’Ella aveva già inviato alla biblioteca, di che La ringrazio quanto più so e posso; aderirei di buon grado, sebbene conscio della mia pochezza, al desiderio manifestatomi da V. S., di farne una recensione nei giornali cittadini. Il guaio si è ch’io nella stampa non conosco proprio alcuno, di nessun colore politico, artistico o letterario: mi sono permesso quindi di pregare di tal favore persona assai più competente di me, che ha accettato volentieri di scrivere un cenno e d’inserirlo tra breve in una rivista letteraria e in uno dei giornali politici quotidiani, esprimendo però la speranza ch’Ella voglia compiacersi, potendo, di mandare anche l’originale, perché egli sia posto in grado di giudicare coscienziosamente anche della fedeltà della versione italiana. E questa sua speranza io oso comunicare alla S. V. Illma […] lusinga di vederla esaudita.
Forse Ella s’illude alquanto sulla mia cognizione della lingua p[orto]ghese, che, se mi consente di leggere Camões o di tradurre abbastanza facilmente un autore moderno, non so se possa consentirmi in egual modo di rivedere bozze di stampa: ne dubito; tuttavia e per questa e per ogni altra cosa, in che io possa esserle utile qui o altrove, disponga di me con ogni libertà e senza ringraziarmi, ché il miglior ringraziamento lo troverò io stesso nell’onore e nella soddisfazione di averle potuto dimostrare la mia deferenza.
Le accludo la descrizione delle due opere sul P. Malagrida colla esatta riproduzione de’ frontispizi, che m’è parso interessante fare, per la rarità almeno della seconda di esse opere; così avessi potuto riprodurle anche le due stampe di contro al frontispizio, ma non me ne sono sentito capace e mi sono limitato a descrivere ancor esse. Se le notizie mie non Le sembrino sufficienti, me ne riscriva, ch’io sarò sempre pronto a completarle per quello che sta in me e ne’ mezzi bibliografici che sono a mia disposizione.
Il signor Avalle vuole ch’io La ringrazi sentitamente de’ rari francobolli ch’Ella gli ha mandato e io me Le professo col maggiore ossequio, della S. V. Illma


je n’ai que peu de mots à vous répondre, car cette nuit même je n’ai pu fermer les yeux un seul instant et je me sens las et presque malade au point qu’il me faut un puissant effort pour songer à quelque chose et la mettre sur le papier. Vous êtes toujours malade : ça m’a affligé beaucoup et va m’affliger davantage, puisque vous m’ôtez à peu près l’espoir de vous savoir guéri bientôt ; mon Dieu, il vous faut beaucoup de soins, et quant aux amertumes de la vie, chacun en a son lot et le mien peut-être n’est pas tout-à-fait le moindre. Je sais bien qu’en échange de donner de semblables exhortations aux autres je ferais bien mieux de les donner à moi-même ; mais je compte sur votre bonne et loyale patience et je me flatte que vous ne les recevrez que comme une marque de mon amitié et de mon dévoüment.
Vous pouvez tout de suite m’envoyer votre opuscule ; je tâch[erai] de faire de mon mieux afin que vous en soyez satisfait ; malheureusement je ne peux vous promettre dans combien de jours je pourrai vous donner la traduction, puisque je ne pense travailler qu’à la bibliothèque dans les momens de loisir et à p[ré]sent j’ai un monticule de livres sur ma table, que je n’ai pas encore touché de mes mains. Après tout, je vous enverrai cette traduction dans le plus bref délai possible. Je vous remercie de tout mon coeur de l’offerte que vous me faites d’une cinquantaine d’exemplaires ; je ne saurais à qui les donner ou envoyer, tandis qu’ils vous peuvent être utiles ; je n’en voudrais pour moi que quatre ou cinq au surplus comme une nouvelle épreuve de notre amitié.
Les “Veglie Veneziane” ont paru avec votre lettre charmante et très aimable pour moi et la traduction des trois premiers chapitres du roman ; Mme la Comtesse a bien voulu reviser non pas les dernières épreuves d’imprimerie, mais la traduction aussi : vos paroles bibliothecas de vulgarização sont devenues dans son italien biblioteche circolanti ! C’est sous-entendu que cela reste toujours entre nous deux. Si vous n’avez pas reçue la livraison écrivez-en à moi, que je pourrai vous en transmettre peut-être un exemplaire, car je n’en ai reçu qu’un seulement. La revue promet de continuer et je vais suivre la traduction de l’ouvrage, qui sera dorénavant plein de charme et d’intérêt davantage.
Vous trouverez ci-jointe une nouvelle version vénitienne des vers d’Anthero de Quental ; elle a été faite sur-le-champ par mon illustre ami, Mr. le prof. Pietro Cassani, qui réunit des choses assez disparates, un savoir infini dans toutes les branches de l’intelligence humaine et une modestie tout-à-fait unique, qui ferait parfois douter de l’étendue merveilleuse de ses connaissances. C’est une des mieux réussies ; il a changé le rythme et le nombre des vers, mais il a donné à sa traduction le vrai cachet vénitien. Mr. le comte Soranzo m’en avait promis à son tour une troisième, non pas de lui, car il n’a jamais été poète, mais d’un de ses amis, que je ne connais pas autrement que par ses écrits et ses poésies en patois ; il m’a dit que ce monsieur attend depuis longtemps l’inspiration d’en haut. Et il faut que vous attendiez à votre tour.
Mon ami, dans le Tyrol il n’y a d’autre dialecte que le sous-dialecte tyrolien de la branche bavaro-autrichienne de la division haute-allemande de la langue allemande. Vous parlez peut-être du Trentin, dans lequel on parle un patois, dont je vous ai transmis un essai fait par une personne assez savante et qui démontre à première vue qu’on n’a pas affaire avec un vrai dialecte, mais seulement avec un patois de transition entre les dialectes vénitiens et les dialectes lombards. On parle dans quelques vallées des patois qu’on a réuni linguistiquement sous le nom de langue ladine ou rhéto-romanche, mais il n’ont pas de littérature et ne présentent qu’une valeur scientifique. Vous pouvez en voir des spécimens dans l’ouvrage de Mr. Papanti “I parlari italiani in Cer[tal]do”, qui contient une nouvelle de Boccace traduite dans tous les dialectes et patois parlés dans le royaume d’Italie, dans les dialectes italiens des parties sujettes aux étrangers, dans les languages étrangers parlés en Italie et à la fin dans toutes les langues néo-latines. Peut-être vous connaissez cet important ouvrage, qui, manquant d’une disposition scientifique, est sans contredit le meilleur et le plus complet qui existe sur la matière et dont je me permets de vous suggérer l’achat, si vous pourrez en trouver un exemplaire dans le commerce.
Vous voyez que j’ai écrit trop de mots ; à la vérité je ne sais pas comment. Mr. le préfet Castellani vous dispense de le remercier et fait bien de souhaits pour votre prochaine et complète guérison.
Aimez-moi bien. Je vous embrasse de tout mon coeur


vous venez de m’apprendre une nouvelle très fâcheuse pour moi, celle de votre probable retour en Portugal. Je ne sais ni veux savoir quelles sont les raisons, qui vous contraignent à laisser notre pays, dans lequel, j’en suis sûr, vous n’aurez rencontré que le respect dû à votre caractère et à votre intelligence. Mais pour qui éprouvait à votre regard bien davantage que tout cela, c’est-à-dire de l’amitié assez profonde et durable, c’est presque un malheur ; j’étais aussi habitué à compter avec vos visites, qu’il me faudra bien du temps pour m’en consoler. J’espère au surplus de vous revoir bientôt et d’employer tous mes efforts à fin que vous changiez d’idée, si cela le pourrait faire et si cela ne dépendait que de votre volonté. Depuis longtemps j’ai l’envie de vous écrire, mais mes occupations quotidiennes et ma mauvaise humeur me l’ont défendu jusqu’ici ; j’avais preparé d’avance l’enveloppe avec votre adresse. Qu’est ce que je vais ajouter ? bien peu assurément. J’ai à la bibliothèque des travaux arriérés et c’est en vain que je tâche de me remettre au courant. Vous allez comprendre qu’en cette condition je ne pouvais vaquer à autre chose : aussi ma traduction a dû en souffrir autant que moi. Je me flatte toutefois de la reprendre sous peu et avec le propos déterminé de ne pas l’abbandoner jusqu’à la fin. Alors peut-être je pourrai l’offrir pour l’impression à quelque éditeur, surtout si j’en aurai le courage. Je vous suis tout de même très reconnaissant de ce que vous avez bien voulu faire pour moi avec autant de courtoisie que de tact.
Venez vite, pendant que notre ville peut jouir de quelques belles journées après tant de pluie, d’inondations et de malheurs. Pour la sixième fois on allait en bateau sur la place et on ne pouvait approcher du Palais des Doges. Venez : je vous attends avec ce plus vif empressement et avec l’espoir que vous allez rester ici assez longtemps. Aimez-moi bien et souvenez-vous toujours


il y a bien de temps que je n’ai pas reçu de vos nouvelles. Qu’êtes-vous devenu ? êtes-vous souffrant ? je le crains toujours, surtout dans cette saison-ci, qui a été jusqu’à présent assez mauvaise pour la santé dans notre ville ; il y a eu beaucoup de morts et dans toute maison nombre de malades. J’ai réussi à échapper à l’influenza, toutefois j’ai été et suis affreusement enrhumé et je soupire après le printemps, qui va me débarrasser de tous ces incommodes, qui après tout ne laissent pas de loisir ; il y a eu des journées tout-à-fait sibériennes, avec 5 ou 6 dégrés sous le zéro ; pour moi, qui ai dès mon enfance craint le froid plus que la mort, ce son été des journées de tourment infini.
J’ai repris à la fin ma traduction et je me flatte de ne plus l’interrompre ; elle va paraître très prochainement dans un recueil périodique, qui sera publié à Rome sous la direction de cette même Comtesse Marsilli, que vous avez connu ici ; tous les numéros vous seront soigneusement envoyés depuis le premier. J’espère qu’après on réunira le roman en un volume et qu’il sera mis en vente. Je compte sur votre ancienne affection pour en trouver des acheteurs !
Quand aurai-je le plaisir de vous revoir ? J’ai bien de choses à vous dire ; je vais m’épouser dans l’année et je voudrais bien que vous fîtes la connaissance de ma fiancée, qui n’est ni belle, ni jolie, mais possède en échange des qualités de coeur et d’esprit, qui intéressent davantage. Vous ne me refuserez pas cette grande satisfaction ; j’ai très peu de personnes au monde qui m’ont témoigné un peu d’amitié ; je suis leur très reconnaissant et sais qu’elles vont prendre part à ma joie, ainsi qu’elles m’ont consolé dans mes détresses.
Écrivez-mois vite et assez long. Je vous embrasse de tout mon coeur.


j’abuse peut-être de votre courtoisie, mais je dois tout-de-même vous prier d’une grande faveur. Mr. le baron de Lassotovich, que je n’ai pas l’honneur de connaître d’ailleurs, voudrait être renseigné sur l’affaire, dont je vais vous entretenir. C’est une faveur que je fais à mon futur beau-frère, qui est de ses amis, et que vous allez faire à moi-même à votre tour. Voici la question en très peu de mots :
Le patricien polonais Stanislas Lasoto, chambellan du roi de Pologne Sigismond Auguste, avait été par son maître envoyé en ambassade plusieurs fois et en plusieurs pays : entre 1550 et 1570, on ne se rappelle pas la date, il a été ambassadeur auprès du roi de Portugal, qui le combla d’honneurs, l’admit in confraternitatem et lui octroya le droit de lier à son écusson les armoiries du Portugal et de mettre autour de ce même écusson le collier d’un ordre de chevalerie portugais, qui dût être celui du Christ. On voudrait savoir, s’il est possible, moyennant des recherches dans les archives ou les bibliothèques de Portugal ou dans les historiens du temps 1°) si c’est vrai | 2° la signification exacte de l’expression in confraternitatem 3°) si à la fin ce droit de porter les armoiries du Portugal avait été octroyé ad personam, ou était transmissible aux héritiers légitimes. Et voilà tout.
Je vous prie de bien m’excuser et de me communiquer le montant des dépenses qu’il vous faudra faire ou directement ou par l’entremise de quelqu’un de vos nombreux et savants amis, que vous avez là-bas.
Mille amitiés


vous ai-je donné de nouvelles de mon départ de Venise et de mon arrivée ici ? je ne m’en souviens pas, car tout ce qui m’est survenu depuis bien de mois, en atteignant le maximum dernièrement, m’a rendu presque stupide, aussi que je ne sais quand je pourrai recouvrer un peu de calme et de clarté dans mes idées, ou si j’y parviendrai jamais. On avait promis d’améliorer ma situation morale et économique, et on m’a obligé en échange à accepter un changement, qui l’empire à souhait de tous côtés ; on a fait presque l’impossible pour m’éloigner de Venise, où, après des longs combats avec moi-même, je pouvais et voulais rester, sinon content, assez tranquille, et on est réussi à faire croire mon départ, non seulement volontaire, mais, ce qui est bien plus, ardemment désiré par votre très humble serviteur ! J’avais demeuré ici pendant cinq années et, faute de mieux, n’ayant absolûment aucune liberté du choix, j’ai accepté d’y revenir : mais, ou les hommes, les choses, et, oserais-je dire, la nature et les lieux ont changé pendant mon absence, ou j’ai changé moi-même et beaucoup, puisque c’est plus que de l’ennui ce que je sens ici, c’est l’affaiblissement inconcevable de toutes mes facultés, aussi physiques, qu’intellectuelles. Envain, avec le peu de force qui me restait, ai-je tenté une réaction : ça m’a accablé davantage et m’a fait renoncer à toute tentative semblable.
Pardonnez-moi, si je n’ai pu vous donner un tableau plus attrayant de ma situation : j’aurais dû mentir et vous ne m’en auriez su aucun gré. Je vous prie, en m’écrivant, de ne pas songer à me donner des soulagemens, qui, par comble de malheur, n’aboutiraient à rien dans l’état, où je suis et dans lequel on est parvenu assez aisément à me plonger : partant, je dois vous déclarer, à ce propos, que, quoique je n’ai pas de rancune envers personne, on ne pourra jamais me contraindre à tenir cachée la vérité aux hommes de coeur et d’esprit, toute amère et incroyable qu’elle ait à leur paraître.
Dans l’espoir que vous allez me répondre bientôt, je vous embrasse de tout mon coeur. Bien à vous


ho ricevuto alcuni giorni or sono, e con molto ritardo, suppongo, l’opera o, meglio, il 2° volume dell’opera del De Faria, al quale Ella ha così largamente e intelligentemente contribuito. Io La ringrazio dal profondo del cuore d’una memoria tanto gentile e perenne ad un tempo, la quale mi conforta di molte amarezze. Avevo mandato un cenno bibliografico a un giornale di qui, sperando di fare a Lei e al De Faria cosa grata; ma sembra che la politica e l’amministrazione (che Dio confonda entrambe) non abbiano lasciato finora spazio sufficiente per le mie poche righe; le quali se verranno stampate, mi affretterò a mandarle il numero del giornale. Qui trionfa come donna e come artista uno splendore di Sua compatriota, la signorina d’Arneyro; e c’è chi dice che le portoghesi sono brutte! Mi voglia bene e mi creda sempre


fino da’ primi giorni avrei voluto scrivere, ma le occupazioni in un ufficio nuovo e il tempo quasi sempre cattivo e uggiosissimo me n’hanno fin qui, e ben mio malgrado, distolto. Molte cose vorrei dirle, che pur m’è forza riassumere in poche: della città non Le parlo, però che Lei m’abbia fatto promessa solenne di venirla a visitare al più presto, de’ cittadini nemmeno, perché in così breve lasso di tempo non ho stretto relazione alcuna. Pace, calma, tranquillità regnano sovrane dovunque, tanto che dopo sì lunghe e sì dolorose tempeste dello spirito e dell’animo mi sembra talvolta nell’intimo mio di scambiarle con qualche cosa di diverso, di meno confortante: colla monotonia o colla noja. Dovrei respirare alla fine e rasserenarmi alquanto e in quella vece, senza ch’io me ne possa render conto, essendo venuta meno presso che ogni cagione urgente d’amaritudine, il respiro non viene né gajo, né spontaneo. Forse Dio m’ha posto tra quelli, che, quando vien meno loro la fonte immediata della pena, vanno subito col pensiero alla ricerca d’un’altra: poesia, sogno, fantasma, ma che pesa ed affligge al paro della realtà.
Quello ch’è pessimo qui è il clima, sì ch’io me ne risento e non poco fisicamente: questa è forse, a mia insaputa, una delle ragioni plausibili, che mi tolgono d’apprezzare, come meriterebbe, la situazione morale, in che mi trovo alla fine dopo tante angosce e tante sofferenze d’ogni genere: tosse, raffreddore, infiammazione di gengive non mi lasciano tregua, sopratutto di notte, così che non posso approfittare che scarsamente del sonno e di quel riposo, che più d’ogni altra cosa dispongono a vedere nella vita colori un po’ lieti.
Venga, venga, io L’attendo con ansia, sicuro che dalla Sua cara e amorevole presenza attingerò lena, coraggio, serenità. Affettuosissimi saluti

Anexo 2
Carta de Roxana Lewis Dabney para Joaquim de Araújo

Venho agradecer a V. Ex.a a sua offerta, o que já a mais tempo devia ter feito, se não fosse que occupações variadissimas roubaram me o tempo.
Nasci no Fayal, Açores onde meu pai, depois da morte de seu pai em 1826, por muitos annos representou o Governo dos Estados, assim como seu pai antes, e seu filho Samuel Dabney depois o fez.
Por conseguinte nasci debaixo da bandeira Americana, porem nunca m’esqueço que nasci em terra Portugueza, e tenho por assim dizer, duas Patrias, e interesso me vivamente no futuro de Portugal especialmente, no seu progresso moral e verdadeiro.
Nunca estudei muito a lingua italiana mas comprehendi a interessantissima carta que V. Ex.a dirigio ao Ex.mo S.r Baroncelli e gostei imenso de ver o elogio feito a “Julio Dinis”.
“As pupilas do S.r Reitor” é sem duvida o romance mais interessante, porem escolhi “Os Fidalgos” para mostrar o que tinha acontecido nos meus dias; a mudança do desprezo de trabalho em apreço, para o que honra verdadeiramente o homem.
Para attrahir a attenção do publico americano, furiosamente occupado como anda, foi necessario abbreviar algumas conversações, procurando contudo conservar o espirito do pais e dos costumes.
No Fayal fui sempre conhecida pelo nome de Rosa L. Dabney, mas o meu nome de baptismo é o com que subscrevo me a V. Ex.a agradecida.

Notes
- Parodie d’Inès de Castro : tragédie de la Motte, sur l’air du Mirliton, organizado e prefaciado por J. de Araújo (Genova: tip. Sordo-muti, 1897);
- Ines de Castro: dramma in cinque atti, consacrato al centenario dell’India, de autoria de Luigi Bandozzi e com prefácio de J. de Araújo (Livorno: tip. di Raffaello Giusti, 1898);
- Ines di Castro e don Pedro, re di Portogallo, organizado por J. de Araújo (Padova: Fratelli Gallina, 1900).
A primeira e a terceira destas publicações se encontram na biblioteca da fundação Benedetto Croce; o próprio Croce publicara, em 1892, o opúsculo Ines De Castro: ricordi di viaggio. Talvez seja a este opúsculo que Ungherini faz referência na sua primeira carta, logo antes das linhas que citei no corpo do testo: “Il s’agit d’un fort volume publié en 1892, et dont je vous envoye une feuille sous bande pour que vous puissiez vous faire une idée du travail.”
Author notes
Alice Girotto
Conflict of interest declaration