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Conversações filológico-literárias: a correspondência entre Ernesto Monaci (1844-1918) e Teófilo Braga (1843-1924)
Philological-literary conversations: the correspondence between Ernesto Monaci (1844-1918) and Teófilo Braga (1843-1924)
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 3, Esp., e101495, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina

Artigo


Received: 01 July 2024

Revised document received: 01 September 2024

Accepted: 19 August 2024

Published: 01 September 2024

DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7968.2024.e101495

Resumo: Meio de comunicação entre dois ou mais indivíduos, unidos por afetos, interesses, solidariedade de vários géneros, a carta deve ser considerada uma tipologia textual autónoma pelas soluções expressivas que origina, pelo uso peculiar que faz da língua relativamente a outros tipos de escrita exclusivamente públicos ou exclusivamente privados, pelas estratégias individuais e os registos comunicativos que utiliza. Alargando a perspectiva a uma história social amplamente considerada, a carta mostra-se também uma chave de acesso preciosa para estudar os confins entre o público e o privado, para compreender a evolução das relações e das atitudes, para medir a percepção que os escreventes possuem de si mesmos, do destinatário e, em geral, da contemporaneidade. O que se descobre através da análise das cartas que Teófilo Braga e Ernesto Monaci trocam entre 1873 e 1880 é uma relação de estima recíproca e intensa e de respeito mútuo que nasce da sua participação ativa nas mesmas atividades filológicos-literárias. Estas demonstram ser um documento de grande interesse histórico-cultural, além de linguístico, especialmente pelas informações que oferecem sobre o estado e a evolução das várias disciplinas e obras, sobre as relações pessoais entre os dois estudiosos e sobre a atividade científica dos dois eminentes académicos. A sombra da edição diplomática de 1875 do Canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana paira, como um gigante, sobre toda a correspondência.

Palavras-chave: Teófilo Braga, Ernesto Monaci, Canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana, epistolário académico.

Abstract: The letter is a means of communication between two or more individuals united by affections, interests, solidarity of various kinds. It is to be considered a textual typology in its own right, due to the expressive solutions it gives rise to, the peculiar use it makes of language in comparison with other exclusively public or exclusively private writings, the individual strategies and the communicative registers it uses. By widening the perspective to a broadly understood social history, the letter is also configured as a valuable key to the study of the boundaries between public and private, to understand the evolution of relationships and attitudes, to measure the perception that writers have of themselves, of their correspondents and in general of their contemporaneity. What we discover by analysing the letters that Teófilo Braga and Ernesto Monaci exchange between 1873 and 1880 is a relationship of mutual and intense esteem that arose from a communion of philological-literary activities. They prove to be a document of great historical and cultural interest, as well as linguistic, especially for the information they offer on the state and evolution of the various disciplines and works, on the personal relationships between the two scholars and on the scientific activity of the two eminent academics. The shadow of the 1875 diplomatic edition of the Canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana hangs like a giant over all the correspondence.

Keywords: Teófilo Braga, Ernesto Monaci, Canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana, academic epistolary.

1. Introdução

Este artigo toma em consideração um corpus de 35 cartas proveniente da correspondência entre Ernesto Monaci, o primeiro professor a ocupar, em 1875, a cátedra de “Lingue e letterature neolatine” na Universidade de Roma1, definido por Carolina Michaëlis de Vasconcelos como “bemfeitor” (1919, p. 251) e “benemérito de Portugal, restituidor a este país de belos e importantes monumentos do seu passado literário” (1919, p. 247), e Teófilo Braga, figura que dispensa apresentações, mas de quem vale a pena lembrar a direção, em 1872, da cátedra de “História das Literaturas Modernas”, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na época chamada “Curso Superior de Letras”2. Teófilo Braga obteve tal cátedra, como ele próprio lembra na carta a Monaci, de 5 de abril de 1873, “só depois de terríveis provas, em que se debateram influências politicas e interesses criados”3, e por uma dedicação constante e incansável, resultado “de um trabalho sincero” (BR 05/04/1873) a estudar e a publicar obras eruditas e inéditas da história da literatura portuguesa, tais como, para nos limitarmos a algumas daquelas citadas nas epístolas analisadas, a História da Poesia Portuguesa. Século XII a XIV: Trovadores Galécio-Portugueses (1871), Gil Vicente e as Origens do Teatro Nacional (1898), a História das Novelas Portuguesas de Cavalaria. Formação do Amadis de Gaula (1873), os Poetas Palacianos (1871), a História de Camões (1873), o Manual da História da Literatura Portuguesa (1875), a Gramática Portuguesa Elementar Fundada sobre o Método Histórico-comparativo (1876) e, naturalmente, a edição crítica do Cancioneiro Português da Vaticana (1878). Como se vê pelas cartas, muitas destas obras foram enviadas a Monaci por Braga, com a clara intenção de as fazer conhecer fora das fronteiras portuguesas e, sobretudo, de as apresentar ao público de filólogos.

As 35 missivas estão divididas em 17 cartas escritas por Ernesto Monaci a Teófilo Braga e em 18 cartas enviadas a Ernesto Monaci por Teófilo Braga. As primeiras são representadas por material já editado; trata-se da edição de 1987 da Correspondência de Teófilo Braga. Cartas em italiano, publicada em Ponta Delgada pela Universidade dos Açores e organizada por Maria da Conceição Vilhena; as segundas estão ainda inéditas, foram transcritas apenas três e acham-se no “Fondo Archivistico Ernesto Monaci”, propriedade da Società Filologica Romana, que atualmente se encontra no laboratório “Stefano Arata” do Dipartimento di Studi Europei, Americani e Interculturali da Universidade “La Sapienza” de Roma.

O período de troca epistolar vai dos anos de 1873 a 1880 e quem a inaugurou foi Teófilo Braga com uma carta datada de 5 de abril de 1873. O motivo pelo qual Braga decide escrever a Monaci diz respeito à edição diplomática do Canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana, sobre a qual Monaci está a trabalhar e que virá a lume em 1875, segundo notícia que lhe chegou por um amigo em comum. Teófilo Braga escreve a Monaci: “Soube pelo meu amigo Adolpho Coelho, que Va Exa trabalhava sobre a publicação do Cancioneiro da Biblioteca do Vaticano” (BR 05/04/1873). O Canzoniere é, portanto, o motivo que os leva a contactarem-se, mas será também o motivo que os levará a afastarem-se definitivamente. Podemos, portanto, dizer que o Canzoniere é o assunto que perpassa todas as cartas, que se respira na atmosfera epistolar, mesmo quando os dois académicos falam de outras coisas: do andamento e da evolução dos respetivos trabalhos e atividades científicas, das suas vicissitudes pessoais e familiares, dos amigos e das pessoas conhecidas4. Precisamente por isto, as cartas que Teófilo Braga troca com Ernesto Monaci, e vice-versa, representam um documento de grande interesse histórico-cultural que nos permitem construir, através do que nelas é narrado, uma ideia da história académica e cultural dos dois países durante aqueles anos, mas oferecem-nos também material linguístico interessante para algumas notas que podemos obter do conjunto de convenções que regulam as relações entre os dois correspondentes e que podemos definir como “gramática epistolar” (Serianni, 2002, p. 167)5.

2. Breves notas linguístico-textuais

A escrita epistolar acha-se no cruzamento da diamésia: realização textual escrita e, portanto, meditada e planificada, além de ser persistente e passível de fruição reiterada, mas, ao mesmo tempo, forma expressiva comprometida com a fala, de que procura reproduzir os aspetos pragmáticos e fácticos inerentes à interação entre remetente e destinatário, com a intenção de se propor como diálogo à distância, como manifestação de uma dialogicidade assíncrona. Estas características remetem, segundo Lacroix, para aquela “illusion de l’oralité” (1984, p. 175) típica da escrita epistolar que a transforma numa conversa entre ausentes, em que cada carta é uma espécie de palavra por turnos e cujo objetivo é reduzir a distância comunicativa e, de certa forma, física entre os correspondentes, além “d’organiser les déplacements en les anticipant, d’étendre les sociabilités et d’un fixer les pôles stables” (Hébrard, 1991, p. 297). Daqui “l’alto tasso di dialogicità, di espressività e di indessicalità, che risponde – nelle lettere – a una coerente strategia comunicativa: rendere meno assente quell’interlocutore virtuale che è il destinatario” (Antonelli, 2004, p. 28).

O primeiro aspeto a relevar no caso da nossa correspondência é que se trata de um epistolário académico, ou seja, da correspondência entre professores universitários, um género classificável como um subgrupo da carta privada ou familiar oitocentista (D’Angelo, 2013, p. 247) com a qual partilha algumas características, entre as quais o tom coloquial e um certo grau de informalidade entre o remetente e o destinatário, mas muitas vezes e nem sempre outras, como a função e a destinação: em primeiro lugar, porque, em muitos casos, os epistolários académicos são um autêntico instrumento de trabalho, cujo objetivo é construir colaborações recíprocas e promover investigações comuns; em segundo lugar, porque, às vezes, aflora a consciência da possível circulação futura e, por conseguinte, da exemplaridade da correspondência; uma consciência que pode traduzir-se num maior controlo exercido por quem escreve, tanto no conteúdo, quanto na forma.

O registo linguístico da correspondência entre Monaci e Braga encontra-se idealmente a meio termo entre o respeito das regras da língua escrita e as exigências pragmáticas específicas da língua falada. A sua natureza de conversa escrita manifesta-se na adoção de um registo formal que, todavia, resvala, no tempo, para tons sempre mais coloquiais e menos atentos às formalidades. Não se deve esquecer que as cartas que Braga e Monaci escrevem não pertencem apenas à tipologia das cartas oficiais: são endereçadas a um destinatário com quem não há uma confidência real, pelo menos de início, porque Braga e Monaci nunca se conheceram e nunca se conhecerão pessoalmente. Aliás, os remetentes implicados nesta troca epistolar são cultos, ou seja, “fanno un uso professionale della scrittura” (Antonelli, 2003, p. 14) e estão na posse de “un buon grado di confidenza non solo con la scrittura ma – ciò che più conta – con la norma grammaticale” (Antonelli, 2003, p. 15-16). Estes aspetos refletem-se no plano dos conteúdos e no das funções, onde “prevale, secondo la tipologia ciceroniana, il genus informativo e quello severum et grave piuttosto che quello familiare et iocosum” (Covino, 1997, p. VI). Boa parte das cartas é, de facto, dedicada à comunicação e ao comentário recíprocos de notícias e materiais de estudo, à avaliação dos respetivos trabalhos e dos outros, ao pedido de apoio, na tentativa de coligação para criar ou orientar iniciativas editoriais e projetos culturais, numa ação contínua e constante de estímulo recíproco para o trabalho e a colaboração científica6. Menos espaço, sem ser por isso menos importante, é concedido às manifestações de experiências e sentimentos que dizem respeito à esfera privada e à vida íntima, como as referências à saúde, muitas vezes postas à prova pelo excesso de trabalho, as notícias relativas à família, as transferências. No caso de Monaci, os apelos frequentes à sua preocupação com a saúde do filho, aos nascimentos e aos lutos são utilizados para justificar os atrasos nas respostas às cartas de Braga:

da più di un mese io verso in condizioni dolorosissime. La malattia di mio figlio […] dà seriamente a temere […] Perdonami queste confidenze, ma io ho dovuto fartele perché tu ti persuada che non è per negligenza che io ho tardato finora a rispondere alle tue carissime lettere

(Vilhena, 1987, p. 130)7.

Um aspeto linguístico particularmente útil para definir o registo linguístico da correspondência é analisar o uso das formas de tratamento pois “são produto da ideologia de uma sociedade e refletem o que é politicamente correto num dado momento histórico cultural” (Guilherme & Bermejo, 2015, p. 171). No caso da nossa correspondência, as fórmulas alocutivas são ainda mais interessantes e indicativas porque os sistemas alocutivos português8 e italiano eram, e continuam a ser, muito diferentes e, por esse motivo, geram por vezes usos assimétricos mesmo quando os escreventes se encontram em igual contexto de recíproca informalidade e solidariedade. Vale a pena recordar que Braga e Monaci são quase coetâneos, pois Braga é mais velho do que Monaci um ano apenas, têm o mesmo trabalho e acabarão por achar-se, como se verá, numa situação bastante semelhante.

As partes rituais das cartas – em especial a saudação e a despedida – são muito importantes por causa do forte condicionamento social que pesa sobre estas fórmulas: num setor tão rigidamente codificado, mesmo a mínima alteração ganha uma relevância notável e, por conseguinte, basta uma mudança impercetível para ir parar numa das outras caixas previstas pelo cerimonial e imprimir, portanto, um tom diverso não só àquela carta, mas a toda a relação entre os correspondentes. Temos um exemplo disso na nossa correspondência, quando Braga conta a Monaci do caso “ridículo” que passou com o diplomata e historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen: a ausência de atribuição do alocutivo “Senhoria” foi considerada por Varnhagen uma falta de respeito, a tal ponto que o levou a pensar desafiar Braga para um duelo:

Varnhagen ficou muito ofendido comigo por lhe não dar de Senhoria; no meu livro Bernardim Ribeiro e os Bucolistas respondi-lhe, d’onde resultou escrever Varnhagen aos jornais portugueses que me viria desafiar para um duelo; de facto Varnhagen veio a Portugal, consultou os seus amigos, e estes o dissuadiram d’este ridículo. Este então protestou que viera visitar as suas antigas relações e não chegou a mandar-me o esperado cartel. Cousas ridículas de um literato que é diletante em ciência. A Bibliografia tem mostrado o que vale o literato diplomata.

(BR, 19/05/1873)

As fórmulas de saudação e de despedida são, portanto, fundamentais para deitar alguma luz sobre a natureza e sobre o decorrer das relações que ligam os dois escreventes, oferecendo informações relevantes sobre a distância proxémica entre remetente e destinatário.

Como já notava De Sanctis, a propósito do epistolário Giordani-Leopardi, as fórmulas de abertura oferecem sempre indicações preciosas sobre a relação entre os dois correspondentes, sendo, para usar as suas palavras, “una specie di psicometro che ti fa indovinare il maggiore o minore calor dell’anima” (De Sanctis, 1960, pp. 76-77). Na despedida, pelo contrário, as fórmulas mostram-se menos compactas e achamo-nos face a uma gama muito mais ampla de opções, até porque a despedida se apresenta, por sua natureza, mais “esfiapada” relativamente à saudação (Antonelli, 2003, p. 67).

Como era de se esperar, a fase inicial da nossa troca epistolar distingue-se por incipit muito formais. Com efeito, o epistolário abre-se com a fórmula locutiva não marcada, reservada a personagens importantes, típica da correspondência oficial: ao “Excelentíssimo Senhor Ernesto Monaci” de Teófilo Braga (BR, 05/04/1873) Monaci responde com o “Eccelentissimo Sig. Teófilo Braga” (Vilhena, 1987, p. 114), fórmula que nas cartas se traduz no uso de alocutivos igualmente formais: Teófilo Braga dirige-se a Monaci com Vossa Excelência e com fórmulas nominais compostas por artigo+adjetivo+substantivo+nome+apelido, onde o substantivo indica a profissão – “o eminente Romanista Ernesto Monaci” (BR, 05/04/1873) –; Monaci trata Braga com expressões como Signore e Signoria Vostra, na forma abreviada S.V., em alternância com Ella e Lei, sempre com a maiúscula inicial.

Digna de nota é a longa fórmula que Monaci usa para concluir a sua primeira carta a Braga: “Accolga, mio signore, i miei più vivi ringraziamenti e le proteste sincere della mia devozione, colla quale mi dichiaro. Suo affezionatissimo servo Ernesto Monaci” (Vilhena, 1987, p. 118)9, despedida que exprime reverência e respeito para com Braga, sentimentos manifestados também noutras cartas, por exemplo na de 24 de junho do mesmo ano: “Mi sento compreso di ammirazione pel vostro genio, che già nel fiore della gioventù vi permette di fare quello che pochi farebbero dopo lunghi anni di vita” (Vilhena, 1987, p. 118)10. Esta atitude deferente de Monaci relativamente a Braga, deve-se, provavelmente, à intervenção da dimensão hierárquica do poder (Brown-Gilman, 1960) que faz com que Monaci se sinta um principiante em relação a Braga: “Sento quanto ho ancora bisogno d’imparare” (Vilhena, 1987, p. 118)11, “sento ogni giorno quanto io sia ancora poco preparato a parlarne coscienziosamente” (Vilhena, 1987, p. 119)12 visto che “gli studi a cui debbo l’origine della nostra amicizia, ho preso a coltivarli solo da pochi anni” (Vilhena, 1987, p. 128)13.

Esta atitude deferente de Monaci para com Braga começa a atenuar-se, todavia, à medida que a troca epistolar vai aumentando, chegando a ser, após a publicação da edição diplomática, quase o contrário, isto é, com Monaci que se sente sempre mais em igualdade hierárquica com Braga, para não dizer até superior, talvez por ter sempre maior consciência da importância, em particular para os estudos portugueses, do texto sobre o qual trabalha e de que recorda, com emoção, “il giorno in cui lo ebbi tra la mano la prima volta: fu l’11 Marzo del’1872” (Vilhena, 1987, p. 129)14. Uma convicção, a de Monaci, que pode ser confirmada pelo facto de a sua edição diplomática representar a base de todas as análises vindouras por cerca de um século. Neste sentido, é indicativo a mal dissimulada reprovação que Monaci faz a Braga, relativamente à Antologia Portugueza que recebeu em oferta do colega português, onde Monaci chama a atenção para um aspeto sobre o qual voltará a reprovar Braga de novo, ou seja, a pressa com a qual editou o livro que lhe fez “sfuggire alcune mende nella costituzione dei testi. Ma quello è un libro che dovrà presto avere una 2ª edizione e allora non dubito che farai sparire ciò che un critico non potrebbe con indulgenza lasciar passare al Braga” (Vilhena, 1987, p. 132)15. São indícios que podem explicar a passagem, bastante rápida, para tons menos formais que culminam no pedido explícito presente na sexta carta, por parte de Monaci, de uma mudança de alocutivo e do abandono do formal Lei, antecipado pelo auspício, expresso já na primeira carta, de que “malgrado la distanza enorme che ci divide, questa relazione vada ogni giorno diventando più intima”16.

De facto, já a partir da segunda carta Monaci passa ao uso do voi e Braga do vós e, por conseguinte, ao uso do possessivo vosso e do complemento direto vos. A partir da terceira carta, Braga começa a usar a terceira pessoa sem a expressão do alocutivo ou a fórmula mais usada nas correspondências familiares oitocentistas, ou seja, o afetuoso, mas não demasiado comprometedor amigo: “o meu amigo” (BR, 19/05/1873), “o meu ilustre amigo Monaci” (BR, 30/05/1873); Monaci continua com o voi até à carta de 8 de abril de 1875, em que pede explicitamente a Braga para passarem ao tu: “Chiudo questa lettera con una preghiera. Poiché mi onora della sua amicizia, lasciamo da parte questo Lei […]. Un abbraccio di gran cuore. Affettuosissimo amico Ernesto Monaci” (Vilhena, 1987, p. 122)17. O pedido, completamente normal para o italiano Monaci, em cuja língua o pronome tu era, já no século XIX, de uso comum em todas as relações comunicativas informais e simétricas18, deve ter parecido, pelo contrário, talvez um pouco atrevido ao português Braga, em cuja língua o tu era usado, e em parte ainda hoje é assim, exclusivamente “como fórmula própria da intimidade” (Cunha & Cintra, 1984, p. 293). De facto, Braga não responde explicitamente ao pedido de Monaci e nunca usará o tu; todavia, de certa maneira aceita a proposta de Monaci, visto que passa a usar o alocutivo português que mais se aproxima da informalidade implicada no italiano tu, ou seja, o você, pronome possível em todas aquelas situações não propriamente íntimas, mas informais19. É verdade, porém, que Braga tenderá a recorrer à mais prudente “dimensão da neutralidade” (Cook, 1997, p. 463) que lhe permite usar a terceira pessoa sem se comprometer demasiado com a expressão do alocutivo.

Outro sinal da progressiva distensão na direção da informalidade nas relações entre os dois estudiosos, é o aparecimento da fórmula de saudação menos marcada das relações informais, ou seja, o adjetivo caro seguido pelo apelido, ao qual os dois académicos juntam por vezes o possessivo, que detém uma capacidade conotativa ainda que mínima e, sobretudo, que enriquecem com ulteriores adjetivos, frequentemente de grau superlativo: “Mio caro e ottimo Braga” (Vilhena, 1987, p. 127)20, “Meu caro e excelente amigo Monaci” (BR, 25/01/1876). A mesma progressiva e sempre maior informalidade acha-se também nas fórmulas com a qual os dois se despedem: “Voglimi bene, mio caro, scrivimi presto, e credi sempre nell’affetto immutabile del tuo ormai vecchio amico. Ernesto Monaci” (Vilhena, 1987, p. 136)21, “dê-me os seus adeus, como a um amigo sempre reconhecido” (BR, 28/02/1875).

O uso das formas de tratamento indica, portanto, uma relação que de muito formal, passa a ser contradistinguida por tons amigáveis, informais e próximos. Vale a pena lembrar que já na segunda carta os dois trocam os retratos, que, para Braga, “representa apenas um rapaz sincero nas suas afeições” (BR, 19/05/1873) e que Monaci conservará sempre “caramente siccome pegno della vostra amicizia”22 (Vilhena, 1987, p. 116).

Quanto ao léxico, como é fácil de imaginar, um grupo conspícuo de palavras pertence ao vocabulário fundamental dos epistolários académicos: há termos de alta frequência que remetem para o ambiente universitário – “cadeira” (BR, 05/04/1873), “cattedra” (Vilhena, 1987, p.124), “curso” (BR, 12/02/1876), “rettore” (Vilhena, 1987, p. 118), “allievo” (Vilhena, 1987, p. 221), etc. –, para as instituições com as quais os professores estavam em contacto contínuo – “Arquivo da Torre do Tombo” (BR, 28/02/1875), “Academia” (BR, 05/04/1873), “Academia das Ciências” (BR, 27/11/1875), “comissione” (Vilhena, 1987, p. 129), “ministero” (Vilhena, 1987, p. 129), etc. – e para as atividades de investigação – “opúsculo” (BR, 19/05/1873), “biblioteca” (BR, 15/09/1878), “catalogo” (Vilhena, 1987, p. 123), “pubblicazione” (Vilhena, 1987, p. 114, p. 119, p. 122, p. 128), etc.. É notável, mas não imprevisível, que nas cartas de Monaci apareça a designação de algumas disciplinas e dos relativos estudiosos com nomes que, na época das cartas, tinham acabado de ser cunhados, como “Filologia comparata” (Vilhena, 1987, p. 129) e “Filologia romanza” (Vilhena, 1987, p. 129). Dados os assuntos tratados, não nos espanta sequer que se use uma terminologia especializada de âmbito filológico e linguístico ou tipográfico e editorial, como “bibliografia” (BR, 19/05/1873), “abreviatura” (Vilhena, 1987, p. 122), “código” (BR, 30/05/1873), muitas vezes na forma compendiada “cod.”, “manoscritto” (Vilhena, 1987, p. 129), “manuscripto” (BR, 15/09/1878), às vezes na forma compendiada “ms.”, “inédito” (BR, 30/05/1873), “typographos” (BR, 30/05/1873), “letra” (30/05/1873), “bozza” (Vilhena, 1987, p. 117), “carattere” (Vilhena, 1987, p. 127), “mandare alla stampa” (Vilhena, 1987, p. 120), “entrar no prelo” (BR, 16/03/1876), “prove di stampa” (Vilhena, 1987, p. 130). Como Monaci conta a Braga, a impressão do Cancioneiro causava, de facto, inúmeras dificuldades, porque:

le tipografie nostre, non esclusa quella di Galeati sebbene delle meglio fornite, mancano d’assai materiali speciali per le pubblicazioni filologiche, cui non sono use. Un accento, un punto, una tilde arresta il lavoro e bisogna ricorrere alle fonderie. In Italia ne abbiamo delle fonderie, ma per la sollecitudine giova meglio rivolgersi alla Germania. Ne facemmo una prova pei tipi delle pagg. 101-112, che, ordinati a Bologna nel gennajo, appena alla metà di giugno si poté averli tutti in tipografia! È possibile lavorare così?

(Vilhena, 1987, p. 127)23.

Estendendo o olhar a todo o corpus, é possível perceber o hábito que ambos têm de fazer referência a si próprios e aos seus trabalhos científicos através de alguns depreciativos. Como o diminutivum modestum é um traço comum nas cartas académicas do século XIX, as nossas cartas pululam de expressões como “pobres livros” (BR, 05/04/1873), “acanhados livros” (BR, 05/04/1873), libretti (Vilhena, 1987, p. 115), “libricciuoli” (Vilhena, 1987, p.118), “noterelle” (Vilhena, 1987, p. 130), “prefazioncine” (Vilhena, 1987, p. 121) e “volumetti” (Vilhena, 1987, p. 117). A edição diplomática do Cancioneiro português, por causa dos cansaços sentidos, chega a ser chamada por Monaci de “libraccio”, ‘livrão’ (Vilhena, 1987, p. 118) e Teófilo Braga diz de si mesmo “sou um pobre rapaz obscuro” (BR, 05/04/1873). Convém notar a ausência quase total de estrangeirismos e, em geral, a pouca inclinação para o plurilinguismo. É também exígua a quantidade de palavras e expressões latinas; o único testemunho acha-se na carta de Monaci a Braga, datada de 12 de dezembro de 1876: “ho il dolore di non aver potuto nulla salvare per la nostra scienza e di essere rimasto ‘vox clamantis in deserto’” (Vilhena, 1987, p. 133)24.

3. Os interesses comuns e o Canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana

Os sentimentos de estima, amizade e respeito que emergem do uso das fórmulas alocutivas encontram uma sua confirmação no conteúdo das cartas, a partir das evidentes atestações de admiração recíproca, devido a interesses comuns, como claramente indica Monaci quando fala dos “studi che ci interessano ugualmente” (Vilhena, 1987, p. 114)25. Braga fala da “honra que me fizera de pedir para Portugal os meus pobres livros” (BR, 05/04/1873) e da “magnanima fineza com que quis elevar-me” (BR, 05/04/1873), e Monaci, por sua vez, afirma considerar uma das “migliori venture” (Vilhena, 1987, p. 114)26 da publicação do Canzoniere portoghese della Vaticana a “di aver potuto entrare in relazione con due sì distinti scienziati” (Vilhena, 1987, p. 114)27, referindo-se a ele e Coelho. Não só, mas o envio que Braga faz dos volumes Trovadores galecio-portuguezes e dos Poetas palacianos apenas vem confirmar “nel più alto grado la stima per i suoi dotti lavori”28, de que já lhe falara o filólogo francês Gaston Paris e de que lera na Rivista Europea. “La bella rinomanza”29, Monaci tem certeza, “dovrà necessariamente andar crescendo di giorno in giorno a vantaggio della comune scienza” (Vilhena, 1987, p. 131)30. Tudo isto o leva a considerá-lo entre “i migliori storici delle letterature moderne” (Vilhena, 1987, p. 115)31 e o mais “illustre storico della letteratura portoghese” (Vilhena, 1987, p. 115)32, chegando a definir Braga e Coelho os dois cientistas – e convém notar o uso da palavra cientista aplicada aos estudos literários – mais distintos de Portugal e propondo-lhe uma colaboração regular com a Rivista di Filologia Romanza, periódico fundado por Monaci, Luigi Manzoni e Edmund Stengel, em 187233: “Noi teniamo assai che ciascuna delle diverse nazioni sia rappresentata nella Rivista dai suoi scienziati più distinti. Ella e A. Coelho sono le persone che nei nostri desideri avremmo designati pel Portogallo” (Vilhena, 1987, p. 115)34, reconhecendo-lhe o papel de chefe de “quel drappello che intende coraggiosamente al rinnovamento della cultura del Portogallo” (Vilhena, 1987, p. 133)35.

É clara, desde a primeira carta, a intenção que subjaz à publicação da sua edição diplomática: não só Monaci considera seu dever de romanista a publicação “di un documento così importante, che il caso avrà conservato in luogo tanto poco accessibile alle aspirazioni degli eruditi portoghesi” (Vilhena, 1987, p. 114)36, como ainda defende que a sua publicação é “un servigio a studi che ci interessano ugualmente” (Vilhena, 1987, p. 114)37, frisando o seu carácter como ponto de partida para os “materiali ricchissimi che esso presenterà per nuove opere all’illustre storico della letteratura portoghese” (Vilhena, 1987, p. 114)38, não podendo portanto deixar de se felicitar quando vem a saber de Coelho que também Braga fará parte dos trabalhos sobre o Canzoniere: “ciò cresce il mio contento; poiché soltanto dall’opera di due valorosi siccome il Braga e il Coelho, questa pubblicazione raggiungerà quel grado d’interesse che merita” (Vilhena, 1987, p. 116)39. Na carta de 6 de abril de 1875, anuncia que a publicação em breve veria a luz e seria finalmente posta à disposição dos estudiosos: “L’edizione diplomatica è spinta innanzi dall’editore Niemeyer con singolare energia. Egli mi scrive che per Giugno spera di avere impresso tutto il resto […] fra pochi mesi la celebre collezione Vaticana sarà a disposizione degli studiosi” (Vilhena, 1987, p. 122)40.

A esta estima, resultado da comunhão de interesses filológico-literários, junta-se outra, que os torna ainda mais solidários, isto é, a de passarem pelas mesmas dificuldades. E é aqui que Braga nos informa da situação complicada que, enquanto intelectual e estudioso, tem de enfrentar. Uma confissão onde encontramos um eco das dificuldades já vividas pelos jovens da sua geração, em especial, nos anos que vão da Questão Coimbrã (1865) às Conferências do Casino (1871):

a minha mudança da cidade do Porto para a de Lisboa, por efeito da minha nomeação de Professor de Historia das Literaturas modernas e especialmente da portuguesa, no Curso Superior de Letras, os muitos embaraços que tive de vencer, perturbaram-me de tal forma que o ano de 1872 para 73 foi quase perdido em provas publicas, lutas com o governo e com a imprensa periódica […] De mais, desde 1865 até 1872, a literatura oficial portuguesa fez-me uma guerra de morte, influindo sobre os editores e sobre a opinião publica, a ponto de ser quase um homem inutilizado

(BR, 05/04/1873).

Ele compara o seu empenho ao “esforço de um homem que trabalhou nas mesmas condições em que está um obreiro que fura uma parede com um prego, isto é sem recursos” (BR, 05/04/1873), e tudo por causa “do detestável meio literário que tive de combater, da falta de subsídios que há n’esta terra para tudo quanto é ciência” (BR, 05/04/1873) e do público que “está abaixo do que se pode imaginar; não liga o mínimo interesse as suas tradições, ignora totalmente a sua história; está marasmado, com a forte educação do despotismo da Casa de Bragança e do Catolicismo inquisitorial” (BR, 19/05/1873). Palavras duras que partilha com Ernesto Monaci sobre o estado das coisas em Portugal, um país que, como afirma Monaci, para os italianos “suona sempre con un’eco di misteriosa simpatia” (Vilhena, 1987, p. 133)41 e que Monaci comenta com palavras de conforto e de incitamento:

io ammiro ogni giorno di più la feconda attività con cui adempite la bella missione che avete assunta. L’isolamento in cui ora lavorate, vi cresce il diritto alla stima e alla riconoscenza degli studiosi di ogni paese. E io confido che anche il Portogallo non tarderà a sentire e riconoscere i salutari effetti della vostra energica iniziativa

(Vilhena 1987, p. 116)42.

Uma situação em parte parecida com a que está a viver também Monaci na pós-Unificação de Itália, onde

in mezzo alle oscillazioni dei partiti politici, la scienza è sempre un cammino faticoso e incerto […] La filologia romanza ha vivamente risentito di questa rivoluzione ed io […] ho il dolore di non aver potuto nulla salvare per la nostra scienza

(Vilhena, 1987, p. 133)43.

Note-se que Monaci usa o possessivo nossa, incluindo também o seu interlocutor. Uma comunhão de interesses que leva Braga a “felicitar o eminente romanista Ernesto Monaci, e bem-dizer o interesse científico que o faz dotar a literatura portuguesa com o monumento mais rico da nossa idade media, que ainda não havíamos adquirido pela incapacidade reconhecida dos nossos governos e Academia” (BR, 05/04/1873) e Monaci a expressar o desejo de um dia poder apertar-lhe a mão: “Non potrò sperare che il prof. Braga venga una volta a veder Roma colle sue antichità e le sue biblioteche?” (Vilhena, 1987, p. 117)44.

4. O silêncio epistolar

Ainda assim, esta relação de amizade e colaboração sinceras, criada com fins nobres, a partir de 1880 cai no mais absoluto silêncio. O que aconteceu? O que provocou “as iras e o retraimento” (Vasconcelos, 1919, p. 250) de Monaci, de que fala Carolina Machaëlis de Vasconcelos no necrológio escrito por ocasião da morte de Monaci, a 1 de maio de 1918, e publicado na Revista Lusitana, a 19 de maio de 1919? O que induziu Monaci, pelo menos a partir de 1895, a negar todas as informações sobre o Colocci-Brancuti e a impedir que se lhes desse acesso direto? A pergunta, infelizmente, está destinada a permanecer sem resposta. Só podemos considerar algumas hipóteses, com base nos factos e na documentação que possuímos, exatamente como fez Michaëlis há mais de um século, apresentando quatro razões possíveis: 1) a falta de qualquer reconhecimento por parte do Governo português e da Academia das Ciências de Lisboa 2) o atraso da própria Michaëlis em terminar a edição de Ajuda, inicialmente prevista como terceiro volume das Communicazioni dalle Biblioteche di Roma e da altre Biblioteche per lo Studio delle Lingue Romanze45; 3) a pressa e a superficialidade de Teófilo Braga em publicar o Cancioneiro Português da Vaticana em Edição crítica, devolvida em 187846; 4) a evidente incompetência de alguns membros da Sociedade de Geografia (e, em particular, de Ayres de Sá) que atribuíram a Monaci os erros dos copistas do século XVI47. Razões que levam Michaëlis a concluir inevitavelmente que: “tais insultos contra a sua honra profissional fizeram trasbordar o copo já cheio de amarguras que mãos portuguesas tinham preparado ao erudito lusófilo” (Vasconcelos, 1919, p. 251).

Rancores, idiossincrasias pessoais, pequenas e grandes mágoas, provavelmente nunca esclarecidas e que se foram acumulando no tempo, podem ter contribuído para o afastamento dos atores desta história e a arrefecer as relações entre ambos, mas não podem ser a verdadeira causa do silêncio de quem foi capaz, por décadas, de criar e manter laços com os maiores estudiosos italianos, europeus e americanos; de quem, em primeiro lugar, com paixão, entusiasmo e generosidade, deu impulso ao estudo daquela literatura portuguesa que na época era considerada, em comparação aos estudos sobre a lírica provençal e italiana, nas palavras de Contini, “la cenerentola delle letterature romanze”48.

Sugestiva, mas redutora, também a hipótese de Yara Frateschi Vieira (2011). Segundo a estudiosa, o silêncio de Monaci deve-se ao facto de ele se considerar o único legitimado a estudar Colocci-Brancuti, de cuja descoberta Monaci conta a Braga na carta de 9 de março de 1878:

È stato ritrovato quel canzoniere portoghese di cui il Colocci aveva lasciata la tavola, già pubblicata da me […] Ora l’abbiamo!... Esso è stato trovato da un mio scolaro49 in una città di provincia nella libreria di un signore. Spero che il codice non uscirà più da Roma e sarà acquistato dallo stato. […] io che non volevo più pensare alla letteratura portoghese, ora mi sento nuovamente attratto verso la bella Sirena…

(Vilhena, 1987, p. 133)50.

Vieira cita uma carta de Monaci a Henry Lang, datada de 22 abril de 1899, onde Monaci define o interesse dos filólogos europeus pelo Colocci-Brancuti como uma espécie de “apropriação indevida” (Vieira, 2011, p. 320) e o Códice sua propriedade exclusiva.

São todas hipóteses plausíveis, mas não têm em consideração um aspeto importante e fundamental, ou seja, o contexto científico no qual Monaci trabalha. É possível, como sugere Fabio Barberini (2019), que a razão principal do silêncio de Monaci sobre o Colocci-Brancuti deva ser procurada na tomada de consciência, talvez desconfortante, por parte de Monaci dos problemas que a tradição manuscrita da lírica galego-portuguesa implicava no seu conjunto; problemas muito mais complicados do que ele pensava e que o estado da Filologia Românica finissecular não era portanto capaz de resolver:51

Monaci deve aver intuito che il Colocci-Brancuti nascondeva ancora molti segreti, ma doveva anche essersi reso conto che né egli stesso era in grado di farlo parlare, né sarebbero stati in grado di farlo gli studiosi europei che […] poco o nulla avrebbero apportato alla soluzione di importanti questioni generali

(Barberini, 2019, pp. 448-449).

Problemas cuja solução, todavia, na opinião de Monaci, só podia ser procurada onde tudo começara: em Roma, na Biblioteca Vaticana, entre os papéis de Angelo Colocci, o mais românico dos humanistas. Um desejo que não foi satisfeito: o Códice, de propriedade de Monaci, foi adquirido em 1924 pelo Governo português e, desde então, encontra-se na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, longe daquele pai, talvez um pouco possessivo, mas sempre generoso e apaixonado, que, em primeiro lugar, lhe fez ver a luz.

Referências

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Barberini, F. (2019). Tra le righe d’un vecchio necrologio: Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Ernesto Monaci e il Canzoniere Colocci-Brancuti. VERBA, 46, 439–454.

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Vilhena, M. da C. (1987). Correspondência de Teófilo Braga. Cartas em Italiano. Universidade dos Açores.

Notes

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Consentimento de uso de imagem Não se aplica.
Aprovação de comitê de ética em pesquisa Não se aplica.
Publisher Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
Revisão de normas técnicas Ingrid Bignardi

Notes

1 Sobre a figura de Ernesto Monaci, sobre a sua atividade de ensino e investigação e sobre a revista que fundou, vejam-se os seguintes estudos fundamentais: Società Filologica Romana (Org.) (1920). L’uomo – Il Maestro – Il Filologo. Presso la Società; Ruggieri, R. M. (1969). Ernesto Monaci. In G. Grana (Org.), Letteratura italiana. I critici. Per la storia della filologia e della critica moderna in Italia (pp. 575-594). Marzorati; Antonelli, R. (1994). La scuola di filologia e letterature romanze. In E. Paratore (Org.), Le grandi scuole della Facoltà. Atti del Convegno (pp. 126-143). Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, Facoltà di Lettere e Filosofia; Antonelli, R. (2008). Filologia materiale e interpretazione. Moderna, 10(2), 13–19; Antonelli, R., & Beggiato, F. (2012). “Studj romanzi”, dalle origini a oggi. In R. Antonelli, P. Canettieri, & A. Punzi, Fra Autore e Lettore. La filologia romanza nel XXI secolo fra l’Europa e il mondo, Critica del testo, 13(3), 277–286; Benedetti, A. (2012). Contributo alla vita di Ernesto Monaci. Esperienze letterarie, 37(3), 55–81.
2 O Curso Superior de Letras, fundado em 1859 pelo rei D. Pedro V, foi transformado em Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1911.
3 O sistema de citação adotado neste artigo para as cartas de Braga a Monaci segue as convenções do “Fondo Archivistico” que as conserva: cada correspondência é indicada com as primeiras duas letras do apelido do destinatário de Monaci (no nosso caso, BR), seguida da data da carta, indicada com o formato DD/MM/AAAA. Aproveito para agradecer a colega Elena Spadini por me ter disponibilizado as três cartas transcritas por ela.
4 A presença de muitos nomes de estudiosos e personalidades de diversa proveniência geográfica nas cartas indica a existência, na época, de uma rede estreita de relações entre filólogos. Entre estes, o filólogo e medievalista francês Gaston Paris (1839-1903), o linguista e filólogo português Adolfo Coelho (1847-1919), o diplomata e historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), o filólogo francês Paul Meyer (1840-1917), o filólogo alemão Friedrich Diez (1794-1876), o filólogo românico Edmund Stengel (1845-1935), o editor alemão Max Niemeyer (1841-1911), o historiador de literatura italiana Adolfo Bartoli (1833-1894), o filólogo e historiador de literatura Alessandro d’Ancona (1835-1914), o filólogo e crítico literário Francesco d’Ovidio (1849-1925), a filóloga e etnógrafa Carolina Michaëlis (1851-1925).
5 Há prescrições e regras que, ao longo das épocas, de maneira mais ou menos rígida, orientam de modo persistente e pouco variado a redação das epístolas. Trata-se de uma espécie de código epistolar, definido através de manuais específicos, que perpassa todos os níveis linguísticos da redação das cartas. O primeiro florescimento dos manuais epistolares surge no século XVI, mas será no século XIX que, pari passu a uma maior alfabetização, estes pequenos tratados e formulários se começam a difundir sempre mais. Para uma resenha dos principais tratados, veja-se Antonelli (2003).
6 Veja-se, a título de exemplo, a notícia que Monaci dá a Braga sobre a realização, em Halle, por iniciativa do Prof. Stengel, de uma “altromanische Handbibliothec” que conterá uma recolha de textos românicos antigos, para a qual convida Braga e Coelho a participarem com a edição de algumas obras (Vilhena, 1987, p. 120).
7 Considerando a importância do conteúdo das epístolas, as cartas de Monaci foram traduzidas para português. Todas as traduções são de minha responsabilidade. “há mais de um mês que vivo em condições dolorosíssimas. A doença do meu filho […] faz-me seriamente temer. […] Perdoa-me estas confidências, mas fui obrigado a fazer-tas para que te convenças de que não é por negligência que tenho tardado em responder às tuas caríssimas cartas”.
8 Os estudos sobre o sistema locutivo português são muitos. Além daqueles citados na bibliografia, vale a pena recordar os contributos de Lindley Cintra (1986), Sobre “formas de tratamento” na língua portuguesa (2ª Ed.), Livros Horizonte; e mais recentemente, o de Maria Helena Carreira (2004), Les formes allocutives du portugais européen: évolutions, valeurs et fonctionnements discursifs, Franco-British Studies, 1, 35–45; o de Carlos A. M. Gouveia (2008), As dimensões da mudança no uso das formas de tratamento em Português Europeu, in I. Duarte, & F. Oliveira (Eds.), O fascínio da Linguagem (pp. 91-100), FLUP; e o de Ana Sofia Ferreira Allen (2019), O Sistema de Formas de Tratamento em Português Europeu [Dissertação de Mestrado], Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
9 “Receba, meu Senhor, os meus mais vivos agradecimentos e as sinceras demonstrações da minha devoção, com a qual me declaro. O seu muito afeiçoadíssimo servo Ernesto Monaci”.
10 “Sinto-me tomado de admiração pelo seu génio, que já na flor da idade lhe permite fazer o que poucos fariam após longos anos de vida”.
11 “Sinto quanta necessidade ainda tenho de aprender”.
12 “Sinto cada dia quão pouco preparado estou para falar disso conscienciosamente”.
13 “Os estudos que são a causa da nossa amizade, começaram a ser cultivados por mim apenas há poucos anos”.
14 “O dia em que o tive nas mãos pela primeira vez: foi a 11 de março de 1872”.
15 “Escapar a algumas emendas na constituição dos textos. Mas esse é um livro que deverá muito em breve ter uma 2.a edição e então não duvido de que farás desaparecer o que um crítico não poderia com indulgência deixar passar ao Braga”.
16 “Que, apesar da distância enorme que nos separa, esta relação se torne dia após dia mais íntima”.
17 “Termino esta carta com um pedido. Dado que me honra da sua amizade, deixemos de parte este “Senhor” […]. Um abraço do coração. Afeiçoadíssimo amigo Ernesto Monaci”.
18 “Nell’Ottocento l’uso degli allocutivi non corrispondeva esattamente a quello attuale […] il lei e il tu si adoperavano rispettivamente come variante altamente formale e altamente informale” (Serianni, 1989, p. 19).
19 “O pronome você encontra-se num lugar intermédio, num patamar complexo e único, já que pode ser utilizado para situações de tratamento entre iguais, mas sem intimidade e, quando usado entre participantes com diferentes posições sociais, ajusta-se de superior para inferior hierárquico, todavia não o oposto (Guilherme & Bermejo, 2015, p. 169). Sobre a evolução e o uso do você, veja-se também Carlos Alberto Faraco (2017), O tratamento você em português: Uma Abordagem Histórica, LaborHistórico, 3(2), 114–132. Bermejo afirma até que o “você em singular tinha-se tornado T ou sinónimo de ‘tu’ no século XIX” (2020, p. 80).
20 “Meu caro e ótimo Braga”.
21 “Quer-me bem, meu caro, escreve-me logo, e crê sempre no afeto imutável do teu já velho amigo. Ernesto Monaci”.
22 “caramente como penhor da vossa amizade”.
23 “As nossas tipografias, sem excluir a de Galeati, que é das mais bem apetrechadas, têm falta de muitos materiais especiais para as publicações filológicas, a que não estão habituadas. Um acento, um ponto, um til trava o trabalho e é preciso recorrer às fundições. Em Itália, possuímos fundições, mas pela solicitude de pedidos, é melhor dirigir--se à Alemanha. Fizemos uma prova para os tipos das páginas 101-112 que, encomendados a Bolonha em janeiro, só em meados de junho é que os pudemos ter todos na tipografia! É possível trabalhar assim?”.
24 “Lamento muito não ter conseguido salvar nada para a nossa ciência e de ter permanecido “vox clamantis in deserto’”.
25 “Estudos que nos interessam a ambos”.
26 “Melhores venturas”.
27 “De ter conseguido relacionar-me com dois cientistas tão distintos”.
28 “No mais alto grau, a estima pelos seus doutos estudos”.
29 “A grande notoriedade”
30 “Irá necessariamente crescendo dia após dia em favor da ciência comum”.
31 “Os melhores historiadores das literaturas modernas”.
32 “Ilustre historiador da literatura portuguesa”.
33 Da Rivista saem apenas dois números, irregularmente, de 1872 a 1876. Em 1878, o periódico reaparece como Giornale di filologia romanza para, em seguida, mudar o nome para Studj di filologia romanza e, por fim, em 1903, para Studj romanzi.
34 “Apraz-nos muito que cada uma das diversas nações seja representada na Rivista pelos seus cientistas mais distintos. O Senhor e A. Coelho são as pessoas que desejámos designar para [representar] Portugal”.
35 “Aquele filão que intende corajosamente renovar a cultura de Portugal”.
36 “De um documento tão importante, que o caso conservou num lugar tão pouco acessível às aspirações dos eruditos portugueses”.
37 “Um serviço aos estudos que nos interessam igualmente”.
38 “Materiais riquíssimos que representará para novas obras do ilustre historiador da literatura portuguesa”.
39 “Isto acresce o meu contentamento; pois somente da obra de valorosos como o Braga e o Coelho, esta publicação alcançará aquele grau de interesse que merece”.
40 “A edição diplomática é apoiada antes de mais pelo editor Niemeyer com singular energia. Ele escreve-me que para Junho espera ter imprimido tudo o resto […] daqui a poucos meses a célebre coleção Vaticana estará à disposição dos estudiosos”.
41 “Soa sempre como um eco de misteriosa simpatia”.
42 “Eu admiro cada dia mais a fecunda atividade com que cumpris a bela missão que tomastes para vós. O isolamento sobre o qual ora trabalhais, aumenta em vós o direito à estima e ao reconhecimento dos estudiosos de cada país. E eu confio que também Portugal não tardará a sentir e reconhecer os efeitos saudáveis da vossa enérgica iniciativa”.
43 “Entre as oscilações dos partidos políticos, a ciência é sempre um caminho fatigante e incerto […] A filologia românica ressentiu vivamente desta revolução e eu […] lamento muito não ter conseguido salvar nada para a nossa ciência”.
44 “Posso esperar que um dia o Prof. Braga venha ver Roma, com as suas antiguidades e as suas bibliotecas?”.
45 Sobre o assunto, veja-se Giuseppe Tavani (2004), Carolina Michaëlis e a crítica do texto, cen anos despois da edición de Halle, in M. Brea (Coord.), O cancioneiro da Ajuda cen anos despois (Actas do Congreso realizado en Santiago de Compostela e na Illa de San Simón os días 25-28 de maio de 2004) (pp. 55-65), Xunta de Galicia.
46 Na carta de 30 de dezembro de 1880, Monaci afirma: “Uma segunda edição completa e com melhorias não pode deixar de danificar a primeira quando se lhe segue a uma distância brevíssima de tempo” (Vilhena, 1987, p. 135).
47 Monaci fala a tal propósito da “atroz injúria que me foi lançada de dentro da própria Academia das Ciências, injúria que encontrou eco em alguns inimigos também aqui” (Vilhena, 1987, p. 135).
48 “A cinderela das literaturas românicas”.
49 Trata-se de Enrico Molteni.
50 “Foi encontrado aquele cancioneiro português de que Colocci deixara a tábua, já publicada por mim […] Agora temo-lo!... Foi encontrado por um discípulo meu numa cidade do interior na livraria de um senhor. Espero que o códice nunca mais saia de Roma e seja comprado pelo estado. […] eu que não queria mais pensar na literatura portuguesa, agora me sinto novamente atraído para a bela Sereia…”.
51 Recorde-se também que a filologia românica entrara há pouco entre as cadeiras universitárias italianas e era, portanto, uma disciplina relativamente ‘jovem’, embora fosse dotada, no plano metodológico, de instrumentos muito afinados.

Author notes

Editores Andrea Ragusa

Alice Girotto

Editores de seção Andréia Guerini - Ingrid Bignardi

Conflict of interest declaration

Conflito de interesses Não se aplica.


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