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Uma língua em evolução: um património epistolar de particularidades morfológicas e ortográficas
Enrico Martines
Enrico Martines
Uma língua em evolução: um património epistolar de particularidades morfológicas e ortográficas
An evolving language: an epistolary collection of morphological and orthographic peculiarities
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 3, Esp., e101504, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina
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Resumo: Um corpus epistolar específico e selecionado – a correspondência entre membros da família de Fernando Pessoa – é uma amostra interessante da flexibilidade da ortografia da língua portuguesa nos últimos vinte anos do século XIX. Expoentes de uma família burguesa moderadamente abastada e culta, os autores dessas cartas mostram toda uma série de incertezas e alternâncias na realização gráfica de seus pensamentos, sem dúvida devido à fluidez da língua portuguesa da época, bem como a usos idiossincráticos e à possível influência de sua região de origem, os Açores. Esses fenômenos, não apenas ortográficos, pois também afetam a morfologia, são aqui apresentados divididos em categorias e comentados, representando um retrato do uso familiar do português na virada do século.

Palavras-chave: Ortografia, morfologia, correspondência familiar, variação linguística.

Abstract: A specific and selected epistolary corpus—the correspondence between members of Fernando Pessoa’s family—is an interesting sample of the flexibility of the spelling of the Portuguese language in the last twenty years of the 19th century. Exponents of a moderately wealthy and cultured bourgeois family, the authors of these letters show a whole series of uncertainties and alternations in the graphic realisation of their thoughts, undoubtedly due to the fluidity of the Portuguese language at the time, as well as idiosyncratic uses and the possible influence of their region of origin, the Azores. These phenomena, not only orthographic but also affecting morphology, are presented here, divided into categories, and commented on, representing a portrait of the familiar use of Portuguese at the turn of the century.

Keywords: Spelling, morphology, family correspondence, linguistic variation.

Carátula del artículo

Artigo

Uma língua em evolução: um património epistolar de particularidades morfológicas e ortográficas

An evolving language: an epistolary collection of morphological and orthographic peculiarities

Enrico Martines
Università degli Studi di Parma, Itália
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 3, Esp., e101504, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 04 July 2024

Revised document received: 06 September 2024

Accepted: 18 August 2024

Published: 01 September 2024

Tive a oportunidade de trabalhar – juntamente com Jerónimo Pizarro, Fernanda Vizcaíno, Rodrigo Xavier e Rui Sousa – na edição de um número considerável de unidades de correspondência relativas, na sua maioria, à família de Fernando Pessoa, publicadas no número 23 da revista Pessoa Plural (Martines et al., 2023, pp. 158-661). Trata-se de um conjunto de documentos ainda não entregues à BNP, que, na altura em que Jerónimo Pizarro teve conhecimento deles e os digitalizou (2008), estavam ainda na posse dos herdeiros do poeta. Um corpus total de 258 cartas, postais e outros documentos restantes, divididos em três pastas, sendo que as duas primeiras, “Cartas I” e “Cartas II”, contêm a correspondência maioritariamente familiar referida, enquanto uma terceira pasta (“Cartas III”) contém as cartas de Pessoa de carácter comercial, também publicadas, juntamente com o material das duas primeiras pastas e por ordem cronológica, no número 23 da Pessoa Plural. Em suma, uma quantidade considerável de documentos, datados entre 1880 e 1935, cuja transcrição e análise contribuirá para aprofundar alguns aspetos menos explorados na biografia de Pessoa, embora alguns deles sejam mencionados na biografia escrita por Richard Zenith.

Parece interessante, neste contexto, analisar de um ponto de vista estritamente linguístico – sobretudo ortográfico – uma parte desta correspondência, composta por 112 documentos escritos nos últimos vinte anos do século XIX. Esta amostra – embora real, certamente bastante limitada enquanto objeto de uma investigação definitiva – testemunha realizações linguísticas concretas e um uso escrito privado do português neste período.

Os protagonistas das trocas epistolares, os autores destas realizações escritas de linguagem finissecular, são em seguida, enumerados, agrupados em três grupos, do ponto de vista cronológico:

  • Joaquim de Seabra Pessoa [?]: entre 1880 e 1887, 11 documentos

  • Maria da Cruz Pessoa: 1885, 1 documento

  • Maria Magdalena Pinheiro Nogueira: 1894-1895, 18 documentos

  • Magdalena Pinheiro: 1893-1895, 36 cartas

  • Ana Luísa Pinheiro Nogueira: 1893-1895, 34 cartas

  • Maria Augusta Nogueira Leonardo: 1894, 1 bilhete

  • João Nogueira de Freitas: 1894, 1 carta

  • Adelaide Pinheiro: 1895, 1 bilhete

  • Laurinda Pinheiro Neves: 1895, 1 bilhete

  • Manuel Gualdino da Cunha: 1896-1897, 6 cartas

  • Maria Xavier Pinheiro: 1896: 2 cartas

Do primeiro grupo fazem parte alguns documentos escritos cerca de uma década antes do nascimento de Fernando Pessoa: trata-se de uma série de notas, provavelmente escritas pelo pai do poeta e dirigidas a um dos seus tios em Tavira, em que o remetente comunica a este “Thio” uma série de informações contabilísticas (recibos de prestações, cartas de pagamento, etc.), que nos podem ajudar a compreender um pouco do quotidiano de Joaquim de Seabra Pessoa, antes do seu casamento com Maria Magdalena Nogueira em 1887, e que testemunham a sua proximidade com o ramo algarvio dos antepassados de Pessoa. Aparece também uma resposta de Maria da Cruz Pessoa, mulher de Jacques Cesário Pessoa, um dos tios paternos de Joaquim.

Analiso, de seguida, um vasto conjunto de cartas de grande valor documental, correspondentes ao diálogo entre Maria Magdalena Nogueira – a mãe de Fernando Pessoa, que vivia em Lisboa – e alguns membros da sua família – em particular a sua mãe Magdalena Pinheiro e a irmã Ana Luísa (a famosa Tia Anica), que viviam juntas na Terceira, nos Açores – num período que vai de 17 de fevereiro de 1893 a 19 de outubro de 1895. Um curto espaço de tempo, mas que encerra uma série de episódios decisivos na biografia do pequeno Fernando, após o falecimento do pai Joaquim: a morte do seu irmão mais novo, Jorge, os últimos anos da infância de Pessoa em Portugal, o quotidiano da família Pinheiro Nogueira em Angra do Heroísmo, o enamoramento de Maria por João Miguel Rosa e as incertezas ligadas ao casamento e ao destino da família após a união, até conhecer o destino (Durban) que mudaria para sempre a vida de Fernando Pessoa e, provavelmente, a história da literatura em língua portuguesa. Entre os 18 documentos produzidos por Maria Magdalena estão seis poemas escritos ao seu então noivo e futuro marido João Rosa. Este conjunto de missivas inclui ainda um cartão de condolências (por ocasião do falecimento do pequeno Jorge), escrito por Maria Augusta Nogueira Leonardo, cunhada da avó Magdalena; um cartão de parabéns de Adelaide Pinheiro (irmã de Magdalena) e um de Laurinda Pinheiro Neves, filha desta última. Os documentos referidos até agora foram transcritos por mim, enquanto editor da pasta “Cartas II”.

Mas, para efeitos desta análise, tive também em conta um outro grupo de epístolas (estas pertencentes à pasta “Cartas 1”, não transcritas por mim), produzidas entre 1896 e 1897, os primeiros anos de Pessoa em Durban: trata-se de algumas cartas importantes que lhe são dirigidas pelo seu tio Manuel Gualdino da Cunha e pela sua mulher, Maria Xavier Pinheiro, outra irmã da sua avó Magdalena. As cartas são enviadas desde Pedrouços e mostram claramente o profundo amor que estes tios tinham pelo futuro poeta, ajudando a corroborar a fascinante abordagem de Zenith acerca da influência do tempo que Pessoa passou em casa deles, da forma como se desenvolveram certas suas paixões e alguns aspectos decisivos da sua personalidade e do seu futuro percurso criativo (Zenith, 2021, pp. 38-43).

Interrompi aqui a amostra documental analisada não só devido à viragem do século, mas também porque há uma certa descontinuidade no tempo, uma vez que a correspondência familiar só é retomada dez anos depois, com Fernando já em Lisboa e destinatário de cartas, ainda que muito interessantes e importantes, que lhe são enviadas sobretudo pela família que ficou na África do Sul.

Os protagonistas desta correspondência, os familiares de Fernando Pessoa, pertenciam tipicamente à classe culta portuguesa, uma classe média moderadamente abastada, com acesso à educação, que nalguns casos tinha aspirações literárias (como Maria Magdalena, mãe de Fernando) e estudara línguas estrangeiras (francês e inglês). Como explica Richard Zenith na sua biografia, foi preocupação de Luís António Nogueira (pai de Maria Magdalena) proporcionar uma educação de primeira classe aos seus filhos, incluindo até as suas filhas, Ana Luísa e Maria Magdalena (um dos seus obituários descreve as duas jovens como “primorosamente educadas”; Zenith, 2021, p. 9).

As epístolas que são objeto desta análise não tinham, certamente, pretensões literárias (exceto, talvez, as que transmitem os poemas de Maria Magdalena). Falam de assuntos privados e pessoais, utilizam uma linguagem informal e denotam um cuidado muito relativo com o estilo e a precisão linguística. Isto é especialmente verdade no caso de Magdalena Pinheiro, avó de Pessoa, autora do maior número de epístolas incluídas neste corpus, que não ostentava – aparentemente – o mesmo nível de preparação cultural transmitido às suas filhas. Magdalena, dirigindo-se sobretudo à filha, escrevia o que lhe ia na alma, como se estivesse a falar com a destinatária, com uma sintaxe muitas vezes incoerente e uma pontuação desleixada. Mas não é a única escrevente a apresentar uma série de incertezas, sobretudo ortográficas, que muitas vezes afetam também a morfologia, sobretudo as terminações verbais, e que são testemunho da fluidez que existia nesta vertente da língua portuguesa no final do século XIX/início do século XX. Já quando transcrevi as cartas entre Pessoa e os redatores da revista Presença – escritas entre 1928 e 1935 – me apercebi de uma série de irregularidades ortográficas. Mas ao ler esta correspondência de 30/40 anos antes, pude constatar uma situação ainda mais magmática na escrita da língua portuguesa.

Relendo os documentos, isolei uma série de fenómenos de variação (em relação à norma atual) para fotografar a diversidade desta amostra específica de português finissecular. Tentei – com os limites dos meus insuficientes conhecimentos específicos – categorizar os fenómenos de variação, agrupá-los em categorias, em tipologias.

Antes de mais, na maior parte destas epístolas, observamos o uso de muitas abreviaturas, que podem ter consequências morfológicas: por exemplo, o uso generalizado de “p.r” em vez de por implica que nunca temos a realização gráfica da preposição articulada pelo, pela, pelos, pelas, mas sempre a abreviatura seguida do artigo.

Comecemos, pois, a entrar nas especificidades desta análise, não sem antes, porém, advertir que omiti a anotação de todos os casos relativos ao uso de consoantes duplas, bem como à não acentuação, porque isso implicaria a anotação de centenas de variantes de palavras para dois fenómenos ortográficos de aplicação generalizada na época e que podemos considerar como adquiridos. No entanto, no que diz respeito à acentuação, não posso deixar de assinalar, no quadro seguinte, os vários casos em que esta aparece utilizada sem valor distintivo, presumivelmente para indicar o timbre da vogal, que em dois casos (“córada” e “córado”) nem sequer é tónica.

Quadro 1
Acentuação sem valor distintivo.

Fonte: Martines (2024) [Descrição] O quadro elenca as formas que apresentam uma acentuação sem valor distintivo. As colunas “N.º” indicam quantas ocorrências dessa forma aparecem no corpus epistolar em análise [Fim da descrição].

Comecemos por um elemento bastante trivial que não causa grande surpresa, nomeadamente a presença de grafias arcaicas, arcaísmos ou, em qualquer caso, a inclusão de consoantes não pronunciadas. Como no quadro anterior, vemos a seguir a lista das ocorrências, por ordem alfabética, com o seu número relativo.

Quadro 2
Grafias etimológicas, arcaísmos, consoantes não pronunciadas.

Fonte: Martines (2024) [Descrição] Conforme mencionado no texto [Fim da descrição].

Registamos uma quantidade de <h>, como no já advérbio, muito usado, “ahi”; nas formas verbais “attrahir”, “distrahir” (em que o <h> é, de facto, etimológico), mas também, provavelmente por analogia, em “cahir”, “sahir” (e aqui é de notar que a forma <sahi> pode valer tanto para a 3ª pess. sing. do pres. ind. “sai”, como também para a 1ª pess. sing. do pret. perf. “saí”), “trahir” e, até, “hir”, embora este último seja um uso idiossincrático de Magdalena Pinheiro. Outro uso não etimológico da inicial <h>, atribuível à avó Magdalena, regista-se no caso da forma do verbo “habrigar”, enquanto a grafia de “hontem”, também não justificada pela origem da palavra (ad noctem), é muito difundida. Por outro lado, a inicial de “hespanhola” e “hespanhoes” (voltaremos ao aspeto da última vogal daqui a pouco), produzida por vários escreventes, é etimológica (de Hispania). O <h> também está presente em vários digramas que não correspondem à grafia atual em termos derivados do grego: é o caso de <ch> para a representação da oclusiva velar surda [k] como “chimera”, “cholera” e “cholerina”, “epocha”, “machina”, “melancholia”; de <ph> para a representação da fricativa labiodental surda [f] (também, provavelmente, devido à influência francesa) em palavras científicas ou técnicas como “hypophosphito”, “morphina”, “pharmacia” e derivados, “photographia” e derivados, “telegrapho”, mas também numa palavra de uso mais comum como “phrase”; de <th> (neste caso, o <h> não altera a pronúncia da dental surda) em “enthusiasmo” e derivados, “homeopathia” e derivados, “methodo”, “reumathismo” (mas neste caso o digrama não é etimológico, pois na transliteração do grego o <h> é colocado depois do <r>), “sympathico” e derivados, “theatro” e derivados, “thesouro”, “thio” e derivados. Outros digramas etimológicos com a primeira consoante presumivelmente não pronunciada são: <gn> no verbo “assignar” e derivados; <gm> nas formas verbais de “augmentar”; <mn> em “condemnada”, “hymno”, “comnosco” e, especialmente, “somno”; <pt> em “escripto/escripta”, “esculptor”, “prompto/prompta” (com consequente alteração da nasal precedente); <ct> (digrama ainda muito usado até à última reforma ortográfica) em “juncto”, “lucta”, “tractar”. Ligado a uma grafia etimológica está, naturalmente, o uso de <y> em palavras como “antipyrina”, “hymno”, “Hypophosphito”, “martyrio”, “mysterioso”, “sympathico” e derivados, “symtomas” (estranho não ser “symptomas”), “syndicancia” e “systema”.

Outro elemento que marca a antiguidade destes documentos é o uso generalizado da elisão das vogais e do apóstrofo na sequência do encontro da vogal final das preposições e dos pronomes com a vogal inicial do elemento seguinte (cf. quadro 3).

Quadro 3
Elisão e apóstrofo em preposições ou pronomes seguidos de vogais.

Fonte: Martines (2024)

Trata-se de um uso que afeta todos os escreventes e em relação ao qual eu diria que convém fazer uma distinção:

  • por um lado, todas as formas de preposição ou pronome + artigo, demonstrativo ou advérbio, que são homofónicas em relação às grafias atuais, que as apresentam unidas, sem apóstrofo;

  • por outro lado, as formas em que a elisão da vogal da preposição de, diante de um substantivo começado por vogal, implica uma diferença fonética e morfológica em relação ao uso moderno, em que a vogal não elidida, ainda que fraca, deve ser pronunciada: uma coisa é dizer “25 de abril”, outra é dizer “25 d’abril”. Hoje em dia, na fala coloquial, nas suas concretizações rápidas e menos rigorosas, pode dizer-se “25 d’abril”, como certamente acontecia no final do século XIX; mas então pergunto-me (mais uma vez, como não especialista) porque é que, neste caso, a ortografia moderna, que geralmente segue as tendências da fala, parece ter dado um passo atrás, pelo menos no que diz respeito ao português europeu; evidentemente, na variedade brasileira, tendo a vogal final da preposição fechado em [i], com a consequente palatalização da consoante dental (“25 [dʒi] abril”), a elisão da vogal não faria sentido.

Vamos agora examinar a realização gráfica das consoantes, começando (quadro 4) com a representação da sibilante alveolar sonora.

Quadro 4
Sibilante alveolar sonora [z]: <s>/<z>.

Fonte: Martines (2024)

Observamos muitos resultados invertidos com relação à norma atual no uso de <s> ou <z>: notamos incerteza em alguns casos, onde, na mesma carta, o escrevente (nem sempre o mesmo) alterna “cousa” com “couza” ou “mezes” com “mesadas” ou até mesmo “pizar” com “pisarem”. Há, entretanto, uma certa regularidade no uso de <s> em diminutivos (“-sinho”, etc.).

Mesmo para a grafia da sibilante alveolar surda, o uso dos tempos oscila entre o uso de <ss>, <c> (na frente da vogal anterior), <ç> e até <s>, em formas diferentes das atuais (cf. quadro 5).

Quadro 5
Sibilante alveolar surda [s]: <ss>/<c>/<ç>/<s>.

Fonte: Martines (2024)

Veja-se a variedade de formas nas realizações de “sossego” e “desassossego”, e derivados; as formas derivadas de “cansar” escritas com <ç> em vez de <s>. Peculiares de Magdalena Pinheiro são as diferentes desinências do subjuntivo imperfeito escritas com <c> em vez de <ss> (“ficacem”, “fizeces”, “julgacem”, “mandaces”, “passaces”, “tivecem”); os subjuntivos presentes “acontessa” e “fassa”, com <ss> em vez de <ç> (mas na mesma carta, Magdalena também escreve “faça”); e as grafias de “asso” (“aço”), “impreção”, “pocivel”, “procição”, sem dúvida, curiosas. Também Maria da Cruz Pessoa escreve “passiencia” com <ss>.

Ainda com relação às sibilantes, vejamos agora (quadro 6) a ortografia das pós-alveolares, começando com a surda [ʃ].

Quadro 6
Sibilante pós-alveolar surda [ʃ]: <z>/<ch>/<x>/<s>.

Fonte: Martines (2024)

Na maioria dos casos, essas são terminações de palavras, com <z> em vez de <s>, como era o padrão na época em “portuguez”, “inglez” etc. (mas <s> aparece no lugar de <z> em “dis-me”). Também observamos vários casos em que <x> é usado no lugar do digrama <ch> (“burraxa”, “enxente”, “enxer”, “fexada”, “inxada”, todos atribuíveis a Magdalena Pinheiro), mas também o oposto em “faicha”, “meche”, “puchar”; finalmente, notamos o uso de <s> em vez de <x> em “esplica”, “espor”, “esprementou”, “estraviou”.

Quanto ao som [ʒ], há alguns raros exemplos do uso de <g> para <j> (cf. quadro 7).

Quadro 7
Sibilante pós-alveolar sonora [ʒ]: <g>/<j>.

Fonte: Martines (2024)

Para concluir os fenômenos relativos às consoantes, observemos a metátese do <r> (quadro 8), fenômeno que - provavelmente não por acaso - está registado nos escreventes mais antigos dessa correspondência: nos documentos da década de 1880 presumivelmente escritos por Joaquim de Seabra Pessoa, e certamente por sua tia Maria da Cruz Pessoa, e nas cartas escritas por Magdalena Pinheiro.

Quadro 8
Metátese do <r>.

Fonte: Martines (2024)

Na maioria dos casos, a antecipação do <r> é observada nas formas verbais de “prefazer” (para “perfazer”), “premittir” (para “permitir”) e “preguntar” (para “perguntar”, o único caso em que a primeira sílaba <pre-> é etimológica); mas também nas palavras “prefeitos” (para “perfeitos”) e “prefil” (para “perfil”). Ao contrário, o <r> passa para a frente, após a vogal, em “pernunciar” (para “pronunciar”, com mudança de vogal), “porceder” (para “proceder”) e “porteje-se” (para “protege-se”). Por fim, a grafia “gerno” para “genro” parece ser motivada pela dificuldade de lidar com esse encontro consonantal incomum.

Muitos casos de peculiaridades ortográficas – e, eu diria, uma incerteza geral entre os escreventes – são registrados com relação às realizações gráficas de vogais em posição fraca ou semivocálica, começando com o par <e>/<i> (cf. quadro 9).

Quadro 9
Vogais: <e>/<i>.

Fonte: Martines (2024)

Do ponto de vista numérico, notamos as muitas ocorrências das palavras “encommodo”, “creado”, “creança” e seus derivados; a indecisão quanto à vogal a ser usada também leva à curiosa copresença de ambas, como em “possuie” e “saie” (ambas as formas produzidas por Ana Luísa Pinheiro Nogueira); enquanto as várias ocorrências da palavra “entresse” e seus derivados – aqui notados pelo resultado da vogal inicial – nos levam a observar outro resultado particular da vogal fraca [ə], a saber, sua não realização gráfica, um uso idiossincrático da escrevente Magdalena Pinheiro (cf. quadro 10).

Quadro 10
Vogais: [ə] = Ø.

Fonte: Martines (2024)

Magdalena Pinheiro, que em uma ocasião também não representa graficamente o [u] fraco, em “resolção”, parece também em grande dificuldade quando confrontada com uma palavra evidentemente desconhecida para ela, o velocípede que seu neto Mário ganhou de presente, cujas vogais pré-tônicas são escritas destas duas formas: “volucipede”, “volocipede”.

A outra grande incerteza com relação às vogais em posição fraca ou semivocálica diz respeito ao par <o>/<u> (cf. quadro 11).

Quadro 11
Vogais: <o>/<u>.

Fonte: Martines (2024)

Uma constante que parece ser generalizada é a realização da 3ª pess. sing. do pretérito perfectivo dos verbos da 3ª conjugação, com a terminação em <o>: “conseguio”, “distribuio”, “pedio”, “rio”, “sahio”, “veiu” (nesse caso, o <i> não é tônico, é um ditongo), “vio”; as entradas do verbo “poder” aparecem constantemente grafadas com <u>, tanto por Magdalena quanto por sua filha Ana Luísa, enquanto a grafia com <u> da raiz do verbo “soffrer” é peculiar à primeira escrevente; a grafia de “lugar” com <o> é generalizada.

Ainda com relação às vogais, observando o uso do ditongo “ou” para “oi”, notamos que há – além da onipresente “cousa” para “coisa” – outras ocorrências esporádicas (não sabemos se por analogia) em “noute” para “noite”, “biscoutos” para “biscoitos” e “dous” para “dois”. O digrama <ou> também é usado por três escreventes diferentes (João Nogueira de Freitas, Ana Luísa Pinheiro Nogueira e Manuel Gualdino da Cunha) em vez de <ô> para representar o [o]: “poude” (duas ocorrências) e “fousse”. Ainda em relação aos ditongos, observamos que Magdalena Pinheiro sentiu a necessidade de criar ditongos onde eles não teriam sido previstos, inserindo um <i> epentético na frente do <j> nas formas do verbo “desejar” (“deseijas”, “deseijo” ou “dezeijo”), mas também (em uma ocasião) em “gagueija” e até mesmo na raiz irregular do subjuntivo de “ver”, “veijão” (uma forma em cuja terminação notamos outra particularidade que observaremos em breve), talvez por analogia com “beijar”; para confirmar a relação particular de Magdalena com a ortografia do português, também observamos um plural de “gengiva” – “gengiveis” – produzido, talvez por analogia com o plural de advérbios em “-ível”; e um único caso de u epentético, introduzido em “auguentar”, certamente por influência do u que o segue. Em um caso, porém, novamente no mesmo escriba, é a semivogal que cai em “balea”, talvez por analogia com a alternância de formas entre “ideia” e “idea”. Para concluir a série de peculiaridades relativas às vogais, mencionamos um estranho episódio de contração entre a preposição a e o artigo o em “Ó jantar” por “Ao jantar” (foneticamente reminiscente do au francês).

Vamos agora passar para a realização gráfica de vogais e ditongos nasais (quadro 12).

Quadro 12
Vogais e ditongos nasais.

Fonte: Martines (2024)

Registamos a tendência da época de usar <m> em vez de <n> entre a vogal nasalizada e a consoante seguinte, bem como a estabilidade da grafia de “irmans” com <n> em vez de til no <a>. A realização gráfica particular de “veram” nos leva, no entanto, a considerar o caso dos ditongos nasais finais de palavras, tônicos e não tônicos, que afetam a escrita de desinências nasais verbais. Em particular, a terminação da 3ª pessoa do plural [ɐw], na maioria dos casos, é graficamente realizada de forma oposta à norma atual (cf. quadro 13).

Quadro 13
Desinência verbal nasal [ɐ̃w̃]: <ão>/<am>.

Fonte: Martines (2024)

Ou seja, em se tratando de desinência verbal atonal, há uma prevalência de grafias com o digrama da vogal nasalizada <ão>, no presente do indicativo (como em “achão”); no pretérito perfeito (“acharão”; mas em quatro casos de pret. perf. a autora, Ana Luísa Pinheiro Nogueira, marca graficamente a sílaba tônica: “estivérão”, “fizérão”, “tivérão” e “viérão”); no imperfeito do indicativo (“comião” ou “davão”), no presente do subjuntivo (“creião”). Ao contrário, a terminação tônica da 3ª pessoa do plural do futuro do indicativo aparece escrita <am>, como em “iram”, “seram”, “lembraram”. Em alguns casos, há a copresença, na mesma letra, de formas como as que acabamos de apresentar e formas que correspondem ao uso a que estamos mais acostumados, inclusive na mesma frase, como em “mas ainda assim gostaram e não o acharão caro”.

Continuando no tema das desinências verbais, mas passando de um uso quase padronizado (ainda que alternado) para um evidentemente idiossincrático, observa-se em alguns casos a confusão de Magdalena Pinheiro (e, em um caso, também de sua filha Anica), que realiza graficamente, como se fosse um pronome átono, a desinência verbal da 2ª pessoa do singular do pretérito perfeito, com as duas últimas letras <te> destacadas e hifenizadas do restante do verbo (cf. quadro 14).

Quadro 14
Confusão entre terminação verbal e pronome átono.

Fonte: Martines (2024)

Em dois outros casos – “alcança-se” (para “alcançasse”) e “passa-se” (para “passasse”) –, o fenômeno (produzido por Magdalena) diz respeito à 3ª pessoa do singular do imperfeito do subjuntivo, escrito como se fosse a forma reflexiva ou impessoal do presente do indicativo; aqui, é claro, a incerteza na realização da fricativa alveolar surda também entra em jogo. Pelo contrário, em dois casos – “escrevernos” e “verte” –, Maria Xavier Pinheiro junta o pronome átono ao verbo, sem usar o hífen. Ainda nesta área, registramos três casos (dois produzidos por Madalena Pinheiro, um por Manuel Gualdino da Cunha) em que o escrevente utiliza a forma verbal da 2ª pessoa do plural do pretérito perfeito em vez da 2ª pessoa do singular, o que estaria correto, como se depreende do contexto:

  • “Desta vez as noticias foram melhores, p[o]r q[ue] já estavas melhor do peito e agora deves estar quazi boa p[oi]s já são passados 10 dias depois q[ue] me escrevestes”.

  • “verás q[ue] não estou zangada contigo querida filha, sei q[ue] não fostes feliz”.

  • “E a respeito de musica já começastes a estudar pelo methodo de que te mandei!”

Ainda na área das desinências verbais, registramos um caso (em Ana Luísa) de betacismo (ou, em todo caso, de confusão entre labiodental e bilabial) em “ficaba”.

De uso geral e prolongado até certa parte do século XX é a realização da união do pronome direto com o infinitivo verbal, com o <l> substituindo a queda do <r> final ligado à forma verbal, colocado antes do hífen, e não depois dele (cf. quadro 15).

Quadro 15
Pronome atônico unido à voz verbal.

Fonte: Martines (2024)

Observamos uma exceção no uso de Maria Xavier Pinheiro, que escreve “mandalo” sem hífen. Notamos também uma forma em que o verbo não está no infinitivo, mas na primeira pessoa do presente do indicativo, “envio-l’os”: o <l>, nesse caso, segue o hífen, mas o apóstrofo ainda está presente entre ele e o pronome átono.

Ainda com relação às formas verbais, a realização das formas de haver de frequentemente aparece com a preposição unida à voz verbal; quando a preposição é seguida por um pronome, este último é hifenizado, mesmo quando a forma de haver de é escrita separadamente (cf. quadro 16).

Quadro 16
Formas de haver de.

Fonte: Martines (2024)

Com relação às formas unidas ou separadas, essa é outra área em que – especialmente Magdalena, mas também, esporadicamente, suas filhas Ana Luísa e Maria Magdalena, e a própria Maria Xavier Pinheiro – mostram incertezas, como demonstra esta lista de ocorrências peculiares (quadro 17):

Quadro 17
Confusão entre formas unidas e separadas.

Fonte: Martines (2024)

Em conclusão, observamos que alguns destes fenómenos são absolutamente correntes no uso escrito da época; outros parecem mais marcadamente idiossincráticos, talvez, refletindo a insularidade dos escreventes ou o ecoleto da família Pinheiro Nogueira, e certamente, as hesitações pessoais dos autores. Algumas formas arcaicas são utilizadas de forma consistente ao longo da documentação; para muitas outras, porém, há uma grande alternância de uso – por vezes até dentro da mesma carta –, testemunhando um nível de incerteza ortográfica muito acentuado para expoentes da burguesia culta portuguesa. Mesmo quando se trata de formas idiossincráticas, creio que foi interessante verificar em que áreas da representação escrita do português os escreventes reportam incertezas, que se traduzem em irregularidades ortográficas, derivando desta observação um quadro do uso familiar da língua portuguesa escrita nos finais do século XIX.

Supplementary material
Referências
Martines, E., Vizcaíno, F., Xavier, R., Pizarro, J., & Sousa, R. (2023). O espólio infinito: Sobre algumas aquisições em falta. Pessoa Plural, 23, 158-661. https://dx.doi.org/10.26300/7m44-9s58
Zenith, R. (2021). Pessoa: a biography. Liveright Publishing Corporation.
Notes
Notes
Conjunto de dados de pesquisa Não se aplica.
Financiamento Não se aplica.
Consentimento de uso de imagem Não se aplica.
Aprovação de comitê de ética em pesquisa Não se aplica.
Publisher Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
Revisão de normas técnicas Ingrid Bignardi
Conflict of interest declaration
Conflito de interesses Não se aplica.
Author notes
Editores Andrea Ragusa

Alice Girotto

Editores de seção Andréia Guerini - Ingrid Bignardi
Quadro 1
Acentuação sem valor distintivo.

Fonte: Martines (2024) [Descrição] O quadro elenca as formas que apresentam uma acentuação sem valor distintivo. As colunas “N.º” indicam quantas ocorrências dessa forma aparecem no corpus epistolar em análise [Fim da descrição].
Quadro 2
Grafias etimológicas, arcaísmos, consoantes não pronunciadas.

Fonte: Martines (2024) [Descrição] Conforme mencionado no texto [Fim da descrição].
Quadro 3
Elisão e apóstrofo em preposições ou pronomes seguidos de vogais.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 4
Sibilante alveolar sonora [z]: <s>/<z>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 5
Sibilante alveolar surda [s]: <ss>/<c>/<ç>/<s>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 6
Sibilante pós-alveolar surda [ʃ]: <z>/<ch>/<x>/<s>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 7
Sibilante pós-alveolar sonora [ʒ]: <g>/<j>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 8
Metátese do <r>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 9
Vogais: <e>/<i>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 10
Vogais: [ə] = Ø.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 11
Vogais: <o>/<u>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 12
Vogais e ditongos nasais.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 13
Desinência verbal nasal [ɐ̃w̃]: <ão>/<am>.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 14
Confusão entre terminação verbal e pronome átono.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 15
Pronome atônico unido à voz verbal.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 16
Formas de haver de.

Fonte: Martines (2024)
Quadro 17
Confusão entre formas unidas e separadas.

Fonte: Martines (2024)
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