Resumo: Historicamente, segundo Leite (2016), o status da interjeição como classe de palavra ou era de rejeição ou de aceitação por parte dos gramáticos. Nessa linha, este trabalho visa descrever o tratamento reservado à interjeição em onze gramáticas brasileiras publicadas no século XIX, digitalizadas e classificadas como “grammaires bresiliénnes” no Corpus de textes linguistiques fondamentaux (CTLF), explicitando os critérios utilizados para a sua definição e classificação, e apontando possíveis inovações no tratamento da mesma. Para tanto, realizar-se-á uma análise de tipo analítico-interpretativo, utilizando alguns dos critérios elaborados por Auroux (1988) e citados em Leite (2016, p. 209-210), a saber: morfológico, semântico, funcional, metalinguístico, e suas subdivisões.
Palavras-chave: Classe de palavras, interjeição, gramáticas brasileiras, século XIX.
Abstract: Historically, according to Leite (2016), the status of the interjection as a word class was either rejected or accepted by grammarians. This paper aims to describe the treatment of interjection in eleven Brazilian grammars published in the 19th century and included in the Corpus de textes linguistiques fondamentaux (CTLF), explaining the criteria used for its definition and classification, and pointing out possible innovations in its treatment. To this end, an analytical-interpretive analysis will be carried out, using some of the criteria drawn up by Auroux (1988) and cited in Leite (2016, p. 209-210): morphological, semantic, functional, metalinguistic, and their subdivisions.
Keywords: Word classes, interjection, brazilian grammars, 19th century.
Artigo
A interjeição em gramáticas brasileiras do século XIX
The Interjection in the 19th Century Brazilian Grammars
Received: 02 July 2024
Revised document received: 11 September 2024
Accepted: 16 August 2024
Published: 01 September 2024
Em seu estudo sobre partes do discurso/classes de palavras e as ideias sobre a interjeição em gramáticas portuguesas dos séculos XVI, XVIII e XIX, e também em duas gramáticas brasileiras do século XIX, Leite (2016, p. 206) aponta que, historicamente, a postura dos gramáticos em relação ao status da interjeição como uma classe era ou de rejeição, “pela impossibilidade de formal e sintaticamente estabelecerem-se regras descritivas que possam prever seu emprego”, ou de aceitação, “pela definição de seu caráter expressivo”1.
Nas gramáticas brasileiras do século XIX em análise, veremos que o único gramático a não incluir a interjeição nas classes de palavras como classe autônoma é Julio Ribeiro (1885, p. 62), que justifica a sua decisão citando os “mestres gregos”. Como aponta De Cesare (2019, pp. 17-18 e p. 20), e o próprio Ribeiro (1885, p. 81), serão os gramáticos latinos a introduzir a interjeição entre as partes invariáveis do discurso, já que os gregos não a contemplavam como parte autônoma, mas a incluíam na classe dos advérbios.
Embora normalmente relegada ao último lugar na enumeração das classes de palavras, como se verá na seção 2, a interjeição tem reconhecida a importância do seu estudo.
Banida do districto grammatical, é todavia a interjeição muito para ser estudada – não só por sua importancia sob o ponto de vista philosophico, mas tambem pela vivacidade que ella empresta ao estylo, por sua expressividade inherente e independente. A interjeição é a palavra, a phrase primitiva, a parte fundamental da linguagem: com ella, a phrase actual, de descriptiva torna-se expressiva
(Silva Jr. & Andrade 1887, p. 119)2.E na esteira de serem os “primeiros vagidos linguísticos” (Ibidem, p. 114), Silva Jr. & Andrade sugerem que a interjeição deva ser a primeira parte tratada numa gramática, mas não o fazem e seguem a tradição.
O objetivo deste trabalho é apresentar o tratamento dispensado à interjeição em gramáticas brasileiras do século XIX (edições e reedições) valendo-se de um corpus constituído por onze gramáticas digitalizadas e classificadas como “grammaires bresiliénnes” no Corpus de textes linguistiques fondamentaux (CTLF), disponível on line, como se pode ver no Quadro 1. São elas: Compendio da grammatica da lingua nacional (1835) de Antonio Alvares Pereira Coruja (1806-1889)3; Compendio da grammatica portugueza (1870), de Frederico Ernesto Estrella de Villeroy (? - ?); Grammatica portugueza (1871, 2. ed. [1866]), de Francisco Sotero dos Reis (1800-1871)4; Compendio de grammatica da lingua portugueza (1872, 2. ed. [1867]), de Laurindo José da Silva Rabello (1826-1864)5; Breve compendio de grammatica portugueza (1876), de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca (1779-1824)6; Compendio da grammatica philosophica da lingua portugueza (1877, 6. ed. [1829]), de Antonio da Costa Duarte (? - ?)7; Nova grammatica analytica da lingua portugueza (1881), de Charles Adrien Olivier Grivet (1816-1876); Grammatica portugueza (1885, 2. ed. [1881]), de Julio Cezar Ribeiro Vaughan (1845-1890); Noções de grammatica portugueza (1887), de Manuel Pacheco da Silva Junior (1843-1900) & Boaventura Placido Lameira de Andrade (? -1899); Grammatica elementar da lingua portugueza (1888, 13. ed. [1850])8, de Filippe Benicio de Oliveira Condurú (1818-1878) e Grammatica portugueza practica, de Adelia Ennes Bandeira (1873-1935?), (1929, 18. ed. [1897])9. O que se pretende investigar aqui, com base na pergunta de Leite (2016, p. 200), é se a interjeição é considerada parte do discurso/da oração/classe de palavra nestas gramáticas: em caso afirmativo, que critérios são usados para a sua classificação; em caso negativo, por que motivo; tudo isso numa ótica de pesquisa analítico-interpretativa.
Do Quadro 1, não contemplamos neste estudo a obra Rascunhos sobre a grammatica da lingua portugueza de Baptista Caetano (1881) por discorrer unicamente sobre colocação pronominal. As gramáticas são elencadas e tratadas aqui seguindo a data de publicação catalogada no site do CTLF.

Antes de passarmos ao status da interjeição com suas ocorrências e distribuição nas gramáticas em análise (seção 3), às suas definições (seção 4) e às suas classificações (seção 5), cabe um olhar sobre o seu status e a sua posição entre as outras classes de palavras. Para tanto, inspirados em Cavaliere (2018, p. 18), elaborou-se um quadro das classes de palavras consideradas por cada gramático e, em seguida, uma lista com a ordem de apresentação das classes em cada gramática.
As gramáticas selecionadas para exame oscilam entre uma classificação que vai de cinco/seis (Duarte) a sete (Condurú), oito (Reis, Ribeiro, Silva Jr. & Andrade, Bandeira), nove (Coruja, Frei Caneca) ou dez (Villeroy, Rabello, Grivet) classes de palavras, como ilustrado no Quadro 2.

Dentre as classes de palavras evidenciadas no Quadro 2, somente quatro são contempladas em todas as gramáticas. São elas: o substantivo (nome ou nome substantivo), o verbo, a preposição e a conjunção.
A ordem de apresentação das classes, porém, diverge nas gramáticas. Como podemos observar na lista abaixo, alguns gramáticos iniciam pelo artigo (Coruja e Frei Caneca), outros pelo nome substantivo (Duarte), nome (Villeroy e Reis) ou substantivo (Rabello, Ribeiro, Silva Jr. & Andrade, Condurú e Bandeira) e um pelo verbo (Grivet).
A interjeição, quando reconhecida como parte da oração, parte do discurso ou classe de palavra, normalmente ocupa a última posição da lista, com duas exceções: a gramática de Rabello (1872), que trata da preposição como último elemento, e a de Bandeira (1929), que trata da conjunção. Ao enumerar as classes de palavras na “Taxinomia”, Bandeira (1929, p. 27), porém, põe a interjeição como última classe, mas na divisão interna da gramática, trata da interjeição (Ibidem, p. 38) antes da conjunção (Ibidem, p. 38-39).
Dentre os gramáticos, Rabello (1872) é o único a não antecipar a quantidade de classes no texto; depreende-se que são dez em função das seções dedicadas a cada uma delas no decorrer da obra. Já Duarte (1877, p. 26), em relação ao status da interjeição, inicialmente não a põe entre as cinco “Partes elementares da oração”, mas a indica posteriormente como “parte não elementar” na nota (2)[9]16, chegando então a seis “classes de palavras”; daí a indicação “5(6)” no Quadro 2. E para Ribeiro (1885, p. 62), como já acenado na Introdução, a interjeição, “grito involuntário, instinctivo, animal, não representa idéia, não constitue parte do discurso, é mais som do que palavra” (grifo nosso). Embora não a considere uma classe de palavra autônoma, o gramático a apresenta e descreve.
Cabe um aceno à terminologia utilizada nas gramáticas. Do ponto de vista terminológico, em relação à divisão em classes de palavras, encontramos os termos “parte(s) da oração” em Coruja, Reis, Frei Caneca, Duarte e Condurú; “parte(s) do discurso” em Ribeiro e Silva Jr. & Andrade; e “classes de palavras” em Duarte.
A propósito do termo “classes de palavra”, o menos utilizado em nossos dados, Leite (2016, p. 204) comenta a adesão da gramática brasileira a essa terminologia - denominação mais utilizada contemporaneamente - e supõe que essa adesão, e não à “parte do discurso”, se deva ao “método aristotélico utilizado para investigar o objeto por categorias e propriedades, dividindo-os em classes e essas em gêneros e espécies”.
Em nosso caso, os termos “espécies” ou “espécies de palavras” para se referir também a classes de palavras aparecem em Villeroy (“Ha na língua dez especies de palavras”), Frei Caneca (“a grammatica é fundada em nove especies de palavras”), Duarte (“Estas differentes especies de palavras tem sim logar”), Grivet (“as palavras se dividem em dez especies”, “Destas dez especies de palavras”) e Silva Jr. & Andrade (“O portuguez classifica as suas palavras, [...], em oito especies”). Grivet é o único a só utilizar o termo “especies de palavras”. Condurú e Silva Jr. & Andrade também utilizam o termo “classes” e Ribeiro utiliza “grupos ou categorias” (“Dividem-se as palavras em oito grupos ou categorias, [...]. Estes oito grupos arranjam-se entre si [...]”).
Para auxiliar na leitura das descrições da interjeição nas gramáticas em 3.2, segue um quadro com as macrodivisões internas de cada autor.

O Quadro 3 permite-nos ver as mudanças implementadas na macrodivisão das gramáticas: os sete gramáticos que dividem a própria obra em quatro partes têm a sua primeira edição antes de 1880. São eles: Coruja, Villeroy, Reis, Rabello, Caneca, Duarte e Condurú. Os outros quatro, Grivet, Ribeiro, Silva Jr. & Andrade e Bandeira, têm a primeira edição após 1880 e, exceção feita a Grivet, dividem a obra em duas partes. Vejamos.
As quatro primeiras gramáticas apresentam a mesma divisão e ordem: etymologia, syntaxe, prosodia, orthographia. Na de Rabello (1872 [1867]), diferentemente das anteriores, não há “Proemio” ou “Prolegomenos” em que se indica a divisão das partes, mas depreende-se na leitura da obra que são quatro. A obra de fato se inicia à página oito com o título “Palavras variaveis.” e subtítulo “Do Substantivo.”, depois prossegue com a divisão indicada no Quadro 3: Parte segunda Da syntaxe., Parte terceira Da prosodia e Parte quarta. Da orthographia.
Frei Caneca (1876) mantém a mesma nomenclatura, mas modifica a sua ordem de apresentação: etymologia, orthographia, prosodia, syntaxe.
Duarte (1877 [1829]) utiliza o termo orthoepia no lugar de prosodia, e também distribui as partes numa ordem diferente: orthoepia, orthographia, etymologia, syntaxe.
A partir de Grivet (1881), encontramos algumas modificações em relação à quantidade da divisão interna e novidades na terminologia: o gramático substitui etymologia por lexicologia e introduz pontuação, dividindo a gramática em cinco partes. Talvez, no paratexto da obra, “Algumas palavras sobre o professor Grivet”, esteja a chave para a compreensão dessa divisão em cinco partes e não em duas como nas outras três obras com edição após 1880: esta é uma publicação póstuma, pois Grivet falece em 1876, dois anos após a conclusão da obra em 1874. Além disso, Grivet já tinha publicado em 1865 “uma pequena grammatica, que foi a precursora de outra de maiores proporções, na qual, depois, elle proprio reconheceu alguns defeitos que tratou de corrigir” (Grivet, 1881, p. VII).
As gramáticas com primeira edição a partir de 1880, como as de Ribeiro (1881), Silva Jr. & Andrade (1887) e Bandeira (1897), passam a ter duas macrodivisões (“lexeologia”/“lexicologia” ou “morfologia” e “sintaxe”, depois subdivididas em novas partes com novas nomenclaturas) e não mais as quatro tradicionais das gramáticas anteriores17.
Poderia parecer estranha a divisão em quatro partes de Condurú (1888) em meio a essas novidades, mas sendo esta gramática a décima terceira edição (póstuma) da obra originalmente publicada em 1850, é provável que não tenha sido atualizada, daí a semelhança com as cinco primeiras do Quadro 3.
Na próxima subseção, computaremos a frequência de ocorrência da raiz “interj-” (e de suas variações ortográficas) e veremos onde esta se posiciona nas gramáticas.
Um levantamento das ocorrências de “interj-” e de suas variações ortográficas, “inteij-” e “intrej-”, no interior das gramáticas pode-nos fornecer indicações do espaço dedicado à descrição e análise da interjeição em relação às outras classes de palavras. O levantamento e controle das ocorrências foi realizado com a ferramenta de busca dos programas Adobe, Microsoft Word e AntConc, e com a leitura dos textos.
O Quadro 4 mostra-nos que as gramáticas que parecem dedicar um maior espaço à discussão da interjeição, em termos de ocorrências, são: Silva Jr. & Andrade (1887) com trinta e uma (trinta e duas) ocorrências totais, Ribeiro (1885)18 com vinte e cinco (vinte e seis), Grivet (1881) com vinte e quatro, e Duarte com quinze (dezesseis). À exceção de Coruja (1839) que conta somente cinco ocorrências, há um certo equilíbrio entre as outras gramáticas com de sete a nove. O número entre parênteses indica o total de ocorrências em cada obra, assinalando, porém, que engloba um erro ortográfico em Duarte (intrejeição) e em Reis e Ribeiro (inteijeições), e uma distração terminológica em Silva Jr. & Andrade que escrevem “conjunção” em vez de “interjeição”.

O Quadro 4 contempla onze palavras, nove em português e duas em latim, que funcionam como substantivo, adjetivo, advérbio e verbo, e se distribuem no interior das gramáticas em suas macro e subdivisões.
Coruja (1835, p. 4)19 nomeia pela primeira vez a palavra “interjeição” como uma das nove “partes” que constituem a oração no Proemio. Ao dividir a Grammatica em quatro partes: Etymologia, Syntaxe, Prosodia, e Orthographia, define e classifica a interjeição (Ibidem, p. 44) - assim como todas as outras classes - na Parte primeira. Da Etymologia. por ser esta “a parte, que ensina a natureza das palavras, e suas propriedades” (Ibidem, p. 3). A palavra “interjeição” aparecerá quatro vezes na obra: uma no Proemio, duas em Da Etymologia (no título Interjeição. e na definição) e uma na Parte 2.a Da Syntaxe seção Syntaxe figurada., Observações necessarias aos principiantes para facilidade da regencia.: “3.a A cousa, ou pessoa, com quem se falla, de ordinario é precedida da interjeição O’” (Ibidem, p. 55), e o plural “interjeições”, uma vez.
Também Villeroy (1870, p. 5) mantém a divisão da Grammatica Portugueza em quatro partes, como Coruja (1835): Etymologia, Syntaxe, Prosodia e Orthographia, e as duas primeiras ocorrências, das seis, de “interjeição” estão na Primeira parte. Da etymologia. Capitulo I. Das differentes especies de palavras., quando elenca as “dez especies de palavras” na língua portuguesa (Ibidem, p. 7) e depois quando a define exemplificando (Ibidem, p. 8). No Capitulo II. Subdivisões das dez especies de palavras., § X. Da interjeição., apresenta as principais interjeições e acena à locução interjectiva como “a reunião de palavras fazendo o officio de uma interjeição; como: Quem dera! Pois seja! Ainda bem!” (Ibidem, p. 57). Todas as ocorrências estão no capítulo dedicado à etimologia sendo que a sexta ocorrência aparece na nota que encerra a classificação das principais interjeições (Ibidem, p. 57): “Qualquer palavra, á excepção do art. e do pronome, pode ser empregada como interjeição, conforme se acaba de ver”. Em Villeroy, não há qualquer menção à interjeição fora da etimologia.
Na gramática de Reis (1871), encontramos nos Prolegomenos. a mesma divisão de gramática presente nos gramáticos anteriores: Etymologia, Syntaxe, Prosodia e Orthographia, e a palavra “interjeição”, que ocorre uma vez, é colocada no grupo das palavras invariáveis com “a conjuncção, a preposição, o adverbio” (Reiss, 1871, p. IX) que, juntamente com as variáveis, são as oito “partes da oração”. A interjeição também é tratada em Etymologia., na seção a ela dedicada Interjeição. (Ibidem, pp. 166-168), na qual a define e exemplifica. Nesta, há cinco ocorrências do termo, sendo que um grafado no plural incorretamente “inteijeições”. Das gramáticas aqui analisadas, Reis é o único gramático a mencionar a sua origem etimológica no corpo do texto: “Vem do verbo latino, interjicere, que quer dizer, metter de permeio, e se entremette na phrase, como se vê em, ‘Quanto, ah! quanto é bella’! (1871, p. 167). Silva Jr. & Andrade (1887, p. 115) também mencionarão a etimologia, mas em nota à palavra “atirada”: “é uma voz intercalada na phrase, atirada 1[82] na proposição [...]”20; na nota mencionada: “Lat interjectio, de interjicere = jogar, atirar, etc”. Como Villeroy (1870), Reis (1871, p. 168) introduz e define a locução interjectiva: “Quando a interjeição é composta, como, ai de mim, ora sus, chama-se, locução interjectiva”.
Em Rabello (1872, pp. 128-129), a interjeição aparece definida e exemplificada na subseção Da interjeição. como “palavra invariável”, após o advérbio e a conjunção, e antes da preposição, todas classificadas em suas definições como palavras invariáveis. A gramática, embora apresente uma seção intitulada Palavras variaveis., não apresenta uma que englobe as invariáveis citadas. O termo “interjeição” aparece cinco vezes no texto: quatro em Da interjeição. e uma na Parte segunda Da syntaxe. na seção Substantivo vocativo. para indicar que este pode ser reconhecido pela presença na oração da interjeição “ó” antes de si (1872, p. 137). O plural “interjeições” ocorre uma única vez e o termo “locução interjectiva” também quando se refere à “interjeição que contem mais de uma palavra” (Ibidem, p. 129). Analisando o material digitalizado, nota-se que a gramática tem uma Parte segunda. Da syntaxe, uma Parte terceira. Da prosodia e uma Parte quarta. Da orthographia, mas não se vê uma “Parte primeira” denominada “etimologia” ou algo parecido. Como já mencionado em 3.1, a obra tem início à página oito com o título “Palavras variaveis.” e subtítulo “Do Substantivo.”.
Frei Caneca (1876) apresenta a interjeição já em Ideas geraes de grammatica ou Origem das partes della quando, após elencar e indicar as funções das “partes da oração”, escreve: “Emfim, depois de terem provido de meios sufficientes para designar a natureza, a especie, o numero, os attributos, a influencia, a existência, as relações e as differentes modificações das cousas, se inventaram outras palavras para exprimir os movimento subitos d’alma” (1876, p. 26). Reconhece na Introducção a interjeição como uma das nove partes da oração (Ibidem, p. 27), e na divisão da Grammatica portugueza estabelece as mesmas quatro partes dos gramáticos anteriores, mas, à diferença destes, modifica a ordem: etymologia, orthographia, prosodia e syntaxe. Frei Caneca divide a Parte primeira Etymologia em “lições”, e a Lição IX Das conjuncções e interjeições trata desta “parte da oração” (1876, p. 49), na qual retoma a definição “Interjeição é uma palavra, que significa os movimentos subitos d’alma” e apresenta as “dezeseis classes” de interjeições (Ibidem, p. 49). O termo (também flexionado) aparecerá nove vezes no texto: duas em Ideas geraes (interjeições), duas na Introducção (interjeição), e cinco na Lição IX (três “interjeições” e duas “interjeição”).
Duarte (1877, p. 9), em sua gramática, mantém a divisão em quatro partes, mas substitui o termo “prosódia” por “ortoepia”, e apresenta uma ordem diferente das demais: Orthoepia, Orthographia, Etymologia, e Syntaxe. As duas primeiras menções à palavra interjeição estão no Capitulo I. Da ortoephia. : uma na nota (4)[4] do § II. Dos dithongos e das syllabas. (Duarte, 1877, p. 13) e uma no § III. Dos signaes da escriptura que regulão a boa leitura dos vocabulos, “O h só em algumas interjeições é accento indicativo de aspiração, isto é, de que a vogal se deve pronunciar com grande affluencia de ar, para mostrar o desabafo das paixões, como: Ah! Oh! &c.” (1877, p. 17). No Capitulo II. Da etymologia. § I. Das partes elementares da oração, e do discurso., Duarte aponta as cinco “Partes elementares da oração, a saber: Nome Substantivo, Nome Adjectivo, Verbo, Preposição, Conjuncção” e diz que “a intrejeição [sic] não é Parte elementar, porque ella per si só equivale a uma oração, e ás vezes a muitas (2)[9]. Discurso é um composto de proposições, e porisso ellas são os seus elementos” (Ibidem, p. 26). Na referente nota (2)[9], porém, afirma que “com a Interjeição vem a ser seis as classes das palavras, que podem entrar no discurso”. No § XXI. Das interjeições., define a interjeição e a exemplifica “com os affectos que exprimem” (Ibidem, p. 101). O termo aparecerá novamente no § IV. Da regencia regular. em Vocativo. “O vocativo dá-se a conhecer por estar entre pausas, ou só, ou com a interjeição vocativa O,”, e no Capitulo IV. Da Orthographia da Lingua Portugueza. três vezes em § II. Regras proprias da Orthographia Etymologica, e da Usual. quando discorre sobre o uso do h: “fóra das interjeições o H não tem valor algum entre nós [...]” (Ibidem, p.135), “usa-se do H nas interjeições, porque estas vozes são aspiradas, como : Ah! Oh! &c.” (p. 136), mas mais à frente afirma que este “não é de absoluta nesesidade” (Ibidem, p. 141). Na obra, a raiz “interj-” aparece quinze vezes e “intrej-”, uma, na palavra “intrejeição”.
Grivet (1881) divide a Grammatica em cinco partes: lexicologia, syntaxe, orthographia, prosódia e pontuação; substitui “etymologia” por “lexicologia” e acrescenta a “pontuação” como parte independente. A palavra interjeição aparece na Primeira parte Lexicologia, na seção Divisão das palavras, como uma das “dez especies” em que se dividem as palavras (Grivet, 1881, p. 3), definida como “uma palavra que implicitamente abrange todos os elementos de uma proposição ou pensamento” (1881, p. 4). No Capitulo IV Do adjectivo em Observações sobre os adjetivos determinativos, Grivet afirma que “qual” “E’ interjeição, o conseguintemente invariavel, quando, não se referindo a nada, prorompe no discurso como expressão de despeito. Ex. Não ha dia que a morte não nos advirta; mas, qual! nada nos póde demover de contar com o porvir” (1881, p. 135-136). No Capitulo VIII Do adverbio, em Observações sobre os adverbios, estabelece uma diferença entre “sim” e “não” advérbios e interjeições: “só são adverbios quando actuão directamente sobre um verbo, participio, adjectivo ou outro adverbio” (Ibidem, p. 193); “Apparecendo, porém, soltos, sim e não são interjeições” (Ibidem, p. 194). No Capitulo X Da interjeição, retoma a definição já mencionada acrescentando o adjetivo “invariável” à “palavra”, e afirmando que “As mais perfeitas interjeições por sua significação categorica são sim e não, quando representando por si sós um pensamento, servem de resposta peremptória a uma interrogação” (Ibidem, p. 208-209). Classifica as interjeições em próprias ou impróprias (Grivet, 1881, pp. 209-210), e introduz a noção de locução interjectiva: “Porém, vindo as interjeições a constar de mais do uma palavra, póde-se-lhes chamar, em attenção á uniformidade da nomenclatura analytica, locuções interjectivas” (1881, p. 210).
Grivet também vai tratar da interjeição na Segunda parte Syntaxe, ao atribuir uma função para cada classe de palavra, mas deixá-la de fora do que chama “sete termos” e enquadrá-la como figura: “Emfim, fóra dos sete termos, a interjeição fornece a exclamação, isto é, a ultima das cinco figuras de syntaxe [...]” (1881. p. 223) porque as “interjeições, que, por pertencerem á linguagem figurada, se avalião do um modo todo especial” (Ibidem, p. 222). Ao tratar da exclamação, que define como uma proposição implícita em seu sentido estrito, no Capitulo II Das figuras de syntaxe, Grivet diz:
A este caracter, de que sim e não são os typos nas respostas peremptorias, e ah ! oh ! nas mais variadas expressões do um sentimento vivo, é que devem as interjeições de ser contempladas em syntaxe como figuras. E tanto o são, que Ah ! e oh ! por exemplo, só têm um sentido apreciavel, na falla, pela intoação com que se soltão ; e na escripta, por uma ou mais proposições subsequentes que lhes servem de commentarios
(1881, p. 289).Na seção Da analyse syntaxica, em que define a análise sintática como “classificação das mesmas palavras pelas suas funcções” em contraposição à análise lexicológica que é “a classificação das palavras pelas suas especies” (Grivet, 1881, p. 489), afirma que “as interjeições, quer proprias, quer improprias, são designadas pelo nome da figura de syntaxe a que pertencem (exclamação)” (1881, p. 490). Por fim, o termo interjeição também aparece na T1-Quarta parte Prosódia em Da tonicidade nas palavras e na Quinta parte Pontuação em Dos quatro sinaes accessorios de pontuação. Em Da tonica, afirma que a tônica é imprescindível nas interjeições porque “por concentrarem em si um pensamento, reclamão geralmente uma enunciação energica” (Ibidem, p. 527), e em Do ponto exclamativo, “O ponto exclamativo é o signal concomitante, não só das interjeições violentas, Senão tambem das expressões apaixonadas; [...]!” (Ibidem, p. 618). A raiz “interj-“ aparece vinte e quatro vezes na obra com dezesseis ocorrências na Primeira parte Lexicologia e oito na Segunda parte Syntaxe.
Ribeiro (1885, p. 2), na Introducção da Grammatica portugueza, divide a gramática em duas partes: lexeologia, que se compõem de phonologia (phonetica, prosodia e orthographia) e morphologia (taxeonomia, kampenomia ou ptoseonomia e etymologia), e syntaxe. No Livro primeiro Elementos materiaes das palavras, da Lexeologia, Secção terceira Orthographia, acena para o uso do h nas interjeições ah, ih, oh, (Ribeiro, 1885, pp. 32-41), mas é no Livro segundo Elementos morphicos das palavras na Secção primeira Taxeonomia que vai definir o termo e explicar porque não é classe de palavra. Para Ribeiro a interjeição “grito involuntário, instinctivo, animal, não representa idéia, não constitui parte do discurso, é mais som do que palavra” (1885, p. 62), “é um som articulado que exprime um affecto subito, ou que imita um som inarticulado” e, portanto, não entra nas oito “categorias de palavras” por ele estabelecidas, concordando com a opinião dos mestres gregos de que “a interjeição não representa idéia, não involve noção; é articulação instinctiva, é grito animal, não é palavra” (Ibidem, p. 81). Classifica as interjeições de acordo com os sentimentos que exprimem (Ibidem, p. 81-82), acena à existência de “interjeições onomatopaicas, isto é, que imitam ruidos, ex.: ‘Zaz! — truz!’” (Ribeiro, 1885, p. 82), e também à variação existente entre Portugal e Brasil em relação a “uma interjeição de dúvida muito usada em Portugal e quasi desconhecida no Brazil” (1885, p. 82), cujo tom com que se pronuncia é especial, e introduz a noção de locução interjectiva como “qualquer reunião de palavras empregada exclamativamente, ex.: ‘Pobre de mim! — Que gosto!’” (Ibidem, p. 82). Na Seccção terceira Etymologia em IX Interjeição, Ribeiro afirma que “As verdadeiras interjeições são sempre as mesmas em todas as linguas” e que algumas exclamações como “coragem, eia sus” não são interjeições, embora empregadas interjectivamente (Ribeiro, 1885, p. 208). No Livro terceiro Regras da syntaxe em X Interjeição, Ribeiro recorda que não há nada a dizer sobre a interjeição do ponto de vista sintático porque “como brado instinctivo que é, não se subordina a regras de syntaxe” (1885, p. 315) e do ponto de vista da pontuação, às interjeições em geral segue o “ponto de admiração” (1885, p. 320). Na obra há um total de vinte e cinco ocorrências de “interj-” e uma de “inteijeções”, sendo que vinte e uma se concentram na Parte primeira Lexeologia e as restantes na Parte segunda Syntaxe.
Silva Jr. & Andrade (1887, p. 7), como Ribeiro (1885), dividem a Grammatica Portugueza em duas partes: lexycologia e syntaxe. A lexycologia por sua vez se subdivide em phonologia (phonetica, prosodia e orthographia), morphologia e semiologia, e a syntaxe se divide em gramatical e litteraria. Incluem a interjeição nas “oito especies” de palavras, “si a não considerarmos fórma rudimentar, instinctiva, não exprimindo – como as outras palavras – idéas, ou relaçoes” (1887, p. 75). A gramática está dividida em “Lições” e os autores discorrem sobre a interjeição na Decima segunda lição Classificação das palavras. – Das palavras invariaveis, especificamente em 4.o – Interjeição, e, baseando-se em W. Smith (manual), acenam ao fato de os “physiologistas grammaticaes” diferirem quanto à ordem de sucessão das “partes do discurso”, mas de concordarem todos quanto à interjeição: “no genesis da linguagem a interjeição, e as palavras onomatopaicas devem ser consideradas os primeiros vagidos linguisticos” (Silva Jr & Andrade, 1887, pp. 114-115). Portanto, segundo Silva Jr. & Andrade, “no esboço historico do desenvolvimento genetico das partes da oração, devia-se pois naturalmente começar pela interjeição” (1887, p. 115). Apesar dessa afirmação, Silva Jr. & Andrade mantêm-se fiel à tradição e tratam da interjeição como última parte do discurso, diferentemente do que fez Jerônimo Soares Barbosa em sua Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza de 1822 ao colocar, como primeiro, o capítulo da interjeição (Leite, 2016, p. 220). Classificam as interjeições quanto à origem ou natureza em “instintivas ou primitivas, onomatopicas, convencionaes ou derivadas”, com explicações e exemplos (Ibidem, pp. 116-117), e também sob o ponto de vista do sentido, listando nove classes (Ibidem, p. 118). Estabelecem ainda uma diferença entre interjeições e onomatopeias: estas indicam percepções e são convencionais, aquelas indicam sensações e são espontâneas. Ao tratarem das locuções interjectivas, definem-nas “fórmas abreviadas, empregadas particularmente pelo vulgo [...]. A esta classe pertence a maior parte das fórmas familiares optativas e deprecativas, e ainda as de invocação de bênçãos, as precativas” (Silva Jr & Andrade, 1887, p. 117) e as colocam na classe das convencionais. Acrescentam ainda a importância das modulações da voz para o sentido das interjeições. Para Leite (2016, p. 218), este é o estudo mais completo sobre “interjeições convencionaes” em gramáticas portuguesas que conhece.
Das gramáticas em estudo, a de Silva Jr. & Andrade é a que contém mais ocorrências de “interj-”: são trinta e uma no total, como se pode observar no Quadro 4, seguida pelas de Ribeiro com vinte e cinco e Grivet com vinte e quatro.
Para Condurú (1888, p. 5), a Grammatica Portugueza divide-se em quatro partes: Etymologia, Prosodia, Orthographia e Syntaxe. No Capitulo I. Da etymologia., inclui a interjeição na divisão das palavras em sete classes, embora na nota (1)[1] explique que o advérbio e a interjeição não são partes elementares, mas sim constitutivas da proposição (Condurú, 1888, p. 7): “Classificar as palavras que existem no usovivo da lingua, e omittir as que teem propriedades especiaes só porque representam idéas compostas ou complexas, não nos parece razoavel”. Na seção XV. Da interjeição define a interjeição “uma expressão abreviada de nossas diversas affecções, como: Eia! Oxalá!” (1888, p. 69) e classifica as mais usuais, lembrando que “a interjeição equivale sempre a uma oração” (Ibidem, p. 70). No Capitulo II. Da prosodia. no ponto I. Do som., acena que a letra h “só nas interjeições [...] denota aspiração, como em ah! [...] (Ibidem, p. 71). No Capitulo IV. Da syntaxe. em IV. Da syntaxe de regencia. acena à função vocativa expressa pela interjeição ó. Há oito ocorrências totais de “interj-” na obra assim distribuídas: seis no Capitulo I. Da Etymologia., uma no Capitulo II. Da prosodia. e uma no Capitulo IV. Da syntaxe.
Por fim, Bandeira (1929, p. 11) divide a Grammatica portugueza em duas partes: morphologia e syntaxe. A morphologia (ou lexicologia) por sua vez subdivide-se em: phonologia, taxinomia, campenomia e etymologia. No Livro I Morphologia em Taxionomia, inclui a interjeição na classificação das palavras (Bandeira, 1929, p. 27) e no grupo das invariáveis (1929, p. 28). Define a interjeição “palavra invariavel que exprime um sentimento subito da alma. A interjeição é como um grito; ex.: ah! oh! ui! irra! etc.” (Ibidem, p. 38) e introduz o conceito de locução interjectiva como “a reunião de duas ou mais palavras equivalentes a uma interjeição; ex.: valha-nos Deus! aqui d’el-rei! etc.” (Ibidem, p. 38). No Livro II Syntaxe, em Notações syntacticas (Syntaxe das partes da oração Capitulo III) explica o emprego do ponto exclamativo depois das interjeições (Bandeira, 1929, p. 179) e dentro de Modelos de analyse, na seção Analyse lexicologica, classifica Oh! como interjeição. Há no total nove ocorrências de “interj-”: sete no Livro I Morphologia e duas no Livro II Syntaxe.
Nas onze gramáticas em estudo, encontramos as seguintes definições de interjeição:
A interjeição, pois, que é como um reflexo de nossas impressões momentaneas, transmittido pela voz, é uma especie de embryão de proposição, ou de enunciado de juizo não desenvolvido. Assim nenhuma ha que se não possa resolver em proposição, como se vê nos seguintes exemplos: ‘Olá, é o mesmo que, vem cá, ou estou te chamando’ [...].
Como éstas, se podem resolver todas as outras, prestando-se attenção á intenção com que são proferidas quando isoladas, ou ao sentido antecedente e consequente quando vêm intercaladas no discurso (1871, pp. 167-168).
Umas interjeições exprimem um só affecto, outras varios ao mesmo tempo, e outras pelo uso somente se conhecem as suas significações, segundo a occasião e o tom particular com que são proferidas (1876, p. 49).
Como as Interjeições per si sós exprimem sentimentos, segue-se que ellas equivalem a uma oração, e mesmo a um discurso, em que os expozessemos miudamente.
O affecto ou sentimento, exprimido por cada Interjeição, da-se a conhecer pelo modo de quem a emprega, e pelas circumstancias em que é proferida; porque uma mesma Interjeição póde exprimir sentimentos differentes, e até mesmo contrários, v. g. Ai! exprime dor, e afflicção, e tambem alegria e prazer ; Ha! exprime satisfação, e tambem indignação ; como; Ha feliz de ti! Ha raça maldicta (Duarte, 1877, p. 101).
Interjeição é um som articulado que exprime um affecto subito, ou que imita um som inarticulado (1885, p. 81);
A interjeição, verdadeiro grito animal, mais clamor instinctivo do que signal de idéa (178), não está sujeita ás lei do pensamento, não se governa pela grammatica, não tem derivação (1885, p. 208);
A interjeição, como brado instinctivo que é, não se subordina a regras de syntaxe. Nada ha aqui a dizer sobre ella (1885, p. 315).
A interjeição equivale sempre a uma oração (1888, p. 70).
Como se pode observar nos exemplos acima, as definições de interjeição compartilham alguns critérios em sua composição:
a) com base no critério morfológico, a interjeição pertence à classe das palavras invariáveis: “voz indeclinavel”, “parte invariável” ou “palavra invariável” estão presentes nas definições de Coruja, Reis, Rabello, Grivet e Bandeira. Embora não apareça em suas definições, Villeroy e Silva Jr. & Andrade enquadram a interjeição no grupo das invariáveis em suas gramáticas. Já Caneca, Duarte, Ribeiro e Condurú não mencionam essa característica nas obras. Em relação ao tamanho, é palavra breve: “curta e viva” (Reis), “maior parte de uma syllaba” (Duarte), “monosyllabicas” (Silva Jr. & Andrade), “expressão abreviada” (Condurú);
b) com base no critério semântico/psicológico (“A propriedade em questão está em relação com a representação das faculdades do espírito”, (Leite, 2016, p. 210)), há a predominância desse, em todas as definições, de palavras que exprimem sentimentos, emoções: “vários affectos e paixões da nossa alma”, ou as suas variantes, “transportes”, “sentimentos d’alma”, “impressões momentaneas”, “movimentos subitos d’alma”. Segundo Leite (2016, p. 211), esta é uma definição importada da gramática latina (affectus animi), presente na gramática de João de Barros (1540), e “repetida na maioria das gramáticas portuguesas”. Também o critério semântico/ontológico (“a propriedade em questão está em relação com a representação da estrutura do mundo e mais geralmente dos objetos de pensamento”, Leite, (2016, p. 210) é contemplado: “imita um som inarticulado”, “verdadeiro grito animal” (Ribeiro), “grito espontâneo e instinctivo, um som animal” (Silva Jr. & Andrade).
c) com base no critério funcional/lógico-sintático, a noção de vale por ou equivale a uma “oração” ou “uma proposição implícita” é explicitada nas definições de Villeroy, Reis, Duarte, Grivet e Condurú, que no dizer de Salvi (2016, p. 116) se traduziria em “[l]e interiezioni sono infatti delle parole olofrastiche, cioè delle parole che costituiscono da sole una frasi indipendente”. Embora não apareça na definição de Silva Jr. & Andrade, estes mencionam essa noção quando tratam da transformação da interjeição de “grito natural e espontaneo” em “palavras convencionaes, intencionaes, reflectidas, representando fórma abreviada de uma phrase, a synthese de uma proposição. Ex.: Coragem! = tende coragem [...]” (2016, p. 115). Consales (2018, p. 240), em seu estudo sobre as interjeições na gramaticografia italiana, aponta que essa “capacità di realizzare il significato di un’intera frase” começa a ser evidenciada como característica das interjeições somente entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX em autores que se inspiraram nas reflexões teóricas da escola de Port-Royal. Esta noção não consta em Coruja, Caneca, Ribeiro e Bandeira.
d) com base nos critérios metalinguístico/comunicacional-pragmático (“A referência ao enunciado concerne à situação de interlocução”, (Leite, 2016, p. 210)) e fonético/prosódico combinados, observamos que alguns gramáticos ressaltam em suas definições a importância de levarmos em conta alguns aspectos para melhor compreendermos o sentido das interjeições: “prestando-se attenção á intenção com que são proferidas [...], ou ao sentido antecedente e consequente quando vêm intercaladas no discurso” (Reis), “segundo a occasião e o tom particular com que são proferidas” (Caneca), “pelo modo de quem a emprega, e pelas circumstancias em que é proferida” (Duarte).
Esses mesmos critérios são apontados por Leite (2016, pp. 213-214, grifos da autora) em duas gramáticas portuguesas do século XVIII:
[as interjeições citadas como exemplos] e outras mais, que o uso ensinará, as quaes, sómente se conhece, o que significam segundo a ocasião, e o tom, com que se proferem, e pronunciam
(Figueiredo, 1799, p. 11).
He porém certo que por huma mesma interjeição se explicão varios affectos, e por tanto a qual deles cada huma pertence, sómente o tom, com que se profere, ou as palavras, a que se ajunta, a podem particularizar
(Fonseca, 1799, p. 208).Quanto à importância do critério fonético, Leite (2016, p. 214) afirma que “a prosódia não individualiza outra classe, a não ser a da interjeição”. Encontramos referência à modulação da voz nas gramáticas de Grivet e de Silva Jr. & Andrade (grifos nossos) para a compreensão do sentido:
As mais usadas são ah ! e oh ! que, conforme a modulação com que sabem expressas, enuncião sentimentos varios e até oppostos
(Grivet, 1881, p, 209).
Vê-se pois do que acabamos de dizer que o sentido das interjeições depende das modulações da voz
(Silva Jr. & Andrade, 1887, p. 117).Quanto à multifuncionalidade dos itens, Villeroy (1870, pp. 56-57), em nota à divisão das interjeições, afirma: “Qualquer palavra, á excepção do art. e do pronome, pode ser empregada como interjeição, conforme se acaba de ver”. Também Silva Jr. & Andrade (1887, pp. 116-117) acenam a essa, ao listarem as palavras que podem funcionar como interjeições convencionaes: termos descritivos de emoção, nomes próprios ou comuns, verbos no imperativo, nomes usados imperativamente e formas abreviadas (locuções interjectivas), mas sempre dependente da modulação da voz.
Os outros gramáticos - Coruja, Villeroy, Rabello, Ribeiro, Condurú e Bandeira - não atentam para os aspectos comunicacionais-pragmáticos e prosódicos da interjeição em suas obras.
e) com base nos critérios metalinguístico/metagramatical-etimológico (“A propriedade corresponde à etimologia proposta para o nome da classe de palavra” (Leite, 2016, p. 210)) e sintático combinados, temos a definição de Reis: “Vem do verbo latino, interjicere, que quer dizer, metter de permeio, e se entremette na phrase”.
Um levantamento das interjeições nas gramáticas estudadas compreende uma classificação de oito a dezessete campos semânticos que correspondem às emoções ou “movimentos da alma”.

Com exceção de Grivet (1881) e de Bandeira (1929) que acenam a uns poucos exemplos de interjeições, os outros gramáticos apresentam uma lista de interjeições precedidas da indicação de sua função semântica.
Quanto ao conceito de locução interjectiva, este aparece em cinco gramáticas:
Chama-se locução interjectiva a reunião de palavras fazendo o officio de uma interjeição; como: Quem dera! Pois seja! Ainda bem!
(Villeroy, 1870, p. 57).
Quando a interjeição é composta, como, ai de mim, ora sus, chama-se, locução interjectiva
(Reis, 1871, p. 168).
Quando a interjeição contem mais de uma palavra, chama-se locução interjectiva
(Rabello, 1872, p. 129).
Porém, vindo as interjeições a constar de mais do uma palavra, póde-se-lhes chamar, em attenção á uniformidade da nomenclatura analytica, locuções interjectivas
(Grivet, 1881, p. 210).
Chama-se locução interjectiva qualquer reunião de palavras empregada exclamativamente, ex.: ‘Pobre de mim! — Que gosto!’
(Ribeiro, 1885, p. 82).
Locução interjectiva é a reunião de duas ou mais palavras equivalentes a uma interjeição; ex.: valha-nos Deus! aqui d’el-rei! etc.
(Bandeira, 1929, p. 38).Note-se que no Quadro 5, também foram incluídos alguns exemplos de locuções interjectivas: Villeroy (quem dera, ainda bem, muito bem), Reis (ai de mim, ai Jesus, fôra d’aqui), Rabello (o’ra sus), Caneca (ó lá, ora sus), Silva Jr. & Andrade (praza a Deus).
A interjeição é considerada classe de palavra (parte da oração ou parte do discurso) em dez das onze gramáticas analisadas, com algumas observações. Ribeiro (1885) é o único gramático a não considerá-la absolutamente como tal, apoiando-se na tradição dos mestres gregos, enquanto Duarte (1877) e Condurú (1888) a incluem nas classes de palavras, mas não sem antes dar uma explicação. Duarte especifica que a interjeição não é parte elementar porque equivale a uma oração e, às vezes, a muitas, mas entra no discurso. Também para Condurú, advérbio e interjeição não são partes elementares “- representativas de idéas simples”, mas sim partes constitutivas da proposição; isso, porém, não é razão para não incluí-las na classificação.
Normalmente a interjeição é apresentada no capítulo dedicado à etimologia ou lexicologia, que costuma ser o primeiro nas gramáticas, mas ocupa a última posição na lista de definição e descrição das classes.
Quanto à origem etimológica da palavra, Reis (1871, p. 167) menciona a origem latina do termo no corpo do texto: “Vem do verbo latino, interjicere, que quer dizer metter de permeio [...], enquanto Silva Jr. & Andrade (1887, p. 115) a mencionam em uma nota à palavra “atirada”: “Lat interjectio, de interjicere = jogar, atirar, etc”.
Na composição das definições de interjeição, observamos a predominância do ponto de vista semântico/psicológico em todas as gramáticas, com acenos à sua morfologia de palavra invariável e monossilábica, e ao seu status funcional de equivaler a uma oração, mas não fazer parte da sintaxe por não ter função argumental ou de adjunto. O critério fonético/prosódico revelou-se importante na questão das modulações da voz para a compreensão do sentido das interjeições.
Outros aspectos interessantes que emergiram da análise das gramáticas foram: a questão da multifuncionalidade do item em Villeroy (1870, p. 57) que aponta que qualquer palavra à exceção do artigo e do pronome “pode ser empregada como interjeição”; Grivet (1881) que estabelece uma diferença entre sim e não como advérbio e interjeição, especificando que são advérbios quando modificam diretamente verbo, particípio, adjetivo ou outro advébio, e interjeições quando aparecem soltos na frase; Ribeiro que (1885) acena à existência de “interjeições onomatopaicas, isto é, que imitam ruidos” (1885, p. 82), e também à variação existente entre Portugal e Brasil em relação a “uma interjeição de dúvida muito usada em Portugal e quasi desconhecida no Brazil” (1885, p. 82); e por fim Silva Jr. & Andrade (1887) que classificam as interjeições quanto à origem ou natureza e estabelecem uma diferença entre interjeição (sensação) e onomatopeia (percepção). Para Leite (2016, p. 218), este é o estudo mais completo sobre “interjeições convencionaes” em gramáticas portuguesas que conhece.
Alice Girotto




