Resumo: A contribuição tem como objetivo realçar a importância da figura de Adolfo Coelho no contexto português na viragem dos séculos XIX e XX. Em primeiro lugar, salientar-se-á a sua centralidade no início dos estudos dedicados às línguas crioulas, sublinhando o seu papel de precursor. A sua produção crioulística será também colocada em relação com o complexo dos seus interesses, em particular com as reflexões dedicadas à pedagogia e à cultura popular. Finalmente, a sua figura será lida como uma ponte entre o contexto português de finais do século XIX e a rede internacional de académicos, na qual Coelho está plenamente integrado.
Palavras-chave: Adolfo Coelho, línguas crioulas, inovação.
Abstract: This contribution aims to highlight the importance of the figure of Adolfo Coelho in the Portuguese context at the turn of the 19th and 20th centuries. It will first emphasise his centrality in the initiation of studies dedicated to creole languages, underlining his role as a precursor. His creolistic production will also be placed in relation with the complex of his interests, with the reflections dedicated to pedagogy and popular culture. Finally, his figure will be read as a bridge between the Portuguese context at the end of the 19th century and the international network of scholars, in which Coelho is fully integrated.
Keywords: Adolfo Coelho, creole languages, innovation.
Artigo
Da pedagogia à linguística à crioulística: sobre a figura e a obra de Adolfo Coelho
From pedagogy to linguistics to creolistics: on the figure and work of Adolfo Coelho
Received: 05 July 2024
Revised document received: 12 September 2024
Accepted: 20 August 2024
Published: 01 September 2024
Por ora, pois, responderei apenas às vagas objecções feitas contra o carácter renovador e grande da nossa novíssima poesia pelo Prof. Adolfo Coelho no seu quase erudito artigo. Esse artigo é sereno e aparentemente lúcido e motivado; infelizmente, quem se der ao trabalho de lhe procurar o fio condutor de uma lógica, encontra-lhe uma íntima desconexão, desmentindo a sua fisionomia de ligado e conexo
(Portugal, 1915, pp. 139-140).São palavras escritas por Fernando Pessoa, no contexto da longa cauda de intervenções engendradas pelo “Inquérito literário” que o jornalista Boavida Portugal publicara no jornal A República nos últimos meses de 1912. Pessoa polemiza com Coelho, culpado de ter incluído na sua resposta ao “Inquérito” uma referência explícita ao artigo “A nova poesia portuguesa” que Pessoa publicara alguns meses antes n’A Águia (sem explicitar o nome do autor), negando a ideia de que estaria iminente um novo renascimento literário em Portugal: “A megalomania está hoje ainda mais, muito mais, generalizada; há-a individual e colectiva […]. Talvez cada um dos nossos poétas se julgue o tal sobre Camões, o tal Shakespeare” (Portugal, 1915, p. 79).
Coelho dificilmente poderia saber que, incrivelmente, este jovem megalómano encarnaria, algumas décadas mais tarde, o Supra-Camões que ele próprio profetizara. O que é engraçado, no entanto, é que o mesmo Adolfo Coelho, que representava para o jovem poeta a encarnação de um velho saber institucional impermeável às novidades literárias introduzidas pelas novas gerações, se tinha encontrado, pouco mais de quarenta anos antes, numa posição polémica semelhante à de Pessoa.
De facto, em 1871, ele tinha estado, ao lado de figuras como Antero de Quental, Eça de Queirós, Augusto Soromenho, Teófilo Braga ou Salomão Sáragga, entre os doze signatários do programa que anunciava as Conferências Democráticas do Casino de Lisboa (Reis, 1990, p. 56). Duas das suas conferências constavam do programa, ambas dedicadas a temas pedagógicos, embora só tenha conseguido proferir uma, intitulada A questão do ensino (Coelho, s.d como citado em Reis, 1990, pp. 64-66), que foi também a última a ser apresentada antes da proibição das palestras seguintes. A proibição ocorreu pouco antes da conferência de Sáragga, intitulada História crítica de Jesus, e a razão para tal está patente no título, mas é certo que o conteúdo da conferência de Coelho também irritou fortemente o governo, uma vez que este insistia fortemente na separação da Igreja e do Estado como forma de melhorar as condições de ensino em Portugal e de abrir mais espaço à liberdade de pensamento: “À proibição não foi certamente estranho o mal-estar e a atmosfera de polémica acentuados depois de intervenções tão críticas como as de Adolfo Coelho, que, recorde-se, visava instituições e pessoas naturalmente influentes na vida pública portuguesa” (Reis, 1990, p. 66).
Nessa altura, Francisco Adolfo Coelho, nascido em 1847, tinha apenas 24 anos, mas já contava com uma carreira científica de relevo. Em 1868, publicara a sua primeira obra, A língua portuguesa, centrada na fonologia histórica e que incluiria outros volumes sobre morfologia e sintaxe. Trata-se de um livro reconhecido por muitos como uma das obras que iniciaram a linguística portuguesa (Silva, 1997). Uma obra que é ainda mais inspiradora se considerarmos que, em virtude da experiência negativa com o ambiente académico português relatada na conferência do Casino, Coelho completou a sua educação predominantemente como autodidata (Coelho, s.d., pp. VII-VIII). E, de facto, talvez seja precisamente esta natureza autodidata que explica a abertura ao novo que caracteriza grande parte da sua produção científica.
Dez anos mais tarde, Adolfo Coelho viria a assumir uma das primeiras cátedras de linguística portuguesa, a de Filologia Comparada no Curso Superior de Letras. E, nesses dez anos, a produção de Coelho expandiu-se, de facto, através de várias obras sobre diversos temas, como a pedagogia, o folclore, a literatura popular; entre eles, porém, a linguística destacou-se claramente, com textos sobre linguística comparada, métodos de aprendizagem de línguas e ensaios sobre as origens das línguas românicas.
Através destas obras, Coelho introduziu progressivamente em Portugal as novas ideias e métodos da linguística moderna, a começar pelos ensinamentos de Franz Bopp, mas mais ainda de Friedrich Christian Diez (Silva, 1997, p. 555) e a sua vasta obra comparativa sobre a Gramática das línguas românicas, e da escola alemã em geral, que foi também objecto de um panfleto intitulado A sciencia alemã e a ignorancia portuguesa (Coelho, 1870). E o método comparativo foi certamente central em grande parte da sua obra, sobretudo nos anos Setenta, culminando, como se verá, nos seus textos crioulísticos da década seguinte.
Nesta chave, a obra de Coelho é o resultado das consideráveis tensões que Portugal estava a viver internamente, mas está também ligada às convulsões culturais e políticas vindas do exterior. O Fontismo tinha representado um primeiro e fundamental impulso de modernização para o país, ainda que tardio e de forma reduzida em relação a outros contextos europeus. No entanto, no final da década de Setenta e início da década de Oitenta, a longa vaga desta modernização estava a chegar ao fim e os elementos de crise estavam de novo a crescer. As tensões também cresciam a nível internacional, sobretudo em relação aos domínios coloniais africanos, num processo que conduziria antes à Conferência de Berlim e depois ao Ultimatum Britânico.
São estas tensões e contradições, decorrentes do contexto histórico, por um lado, e das controvérsias em torno das inovações científicas, por outro, que explicam os impulsos subjacentes à obra de Coelho, a qual, apesar das diferentes esferas em que se desenvolve, apresenta uma forte coerência de fundo.
O linguista que lembra a necessidade de renovação dos estudos filológicos e glotológicos responde ao pedagogo que recorda polemicamente o atraso do sistema educativo português e a grande incidência do analfabetismo; e este, por sua vez, liga-se ao etnólogo, que denuncia as características negativas da “psicologia étnica” do povo português, numa chave psicopatológica que acompanha o estado de profunda prostração e decadência em que a nação se encontrava naqueles anos (Coelho, 1890 como citado em Leal, 2019, pp. 63-64).
Mas esta visão polémica, em certos aspetos quase impotente face ao atraso histórico e aos fortes sinais degenerativos presentes no contexto português, não impediu Coelho de abrir as potencialidades do método comparativo a novos objetos linguísticos, pouco ou nada observados cientificamente até então. Já se disse que mesmo na sua produção crioulística, que se concentrou basicamente entre 1880 e 1886, há motivações contextuais: estamos nos anos da corrida a África e não é por acaso que nasce em Portugal nessa altura uma renovada atenção aos espaços ultramarinos, com várias iniciativas institucionais, como a criação da Sociedade de Geografia de Lisboa em 1875, no contexto da qual Coelho operou amplamente. Corrobora-o também o facto de o linguista português se preocupar cada vez menos com os crioulos, após o Ultimatum de 1890, que veio alterar profundamente a situação, tornando menos urgente uma afirmação imediata de domínio, mesmo científico, dos territórios africanos.
Por outro lado, no seu artigo fundamental “Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América”, publicado em 1880 no próprio Boletim da Sociedade Geografica de Lisboa, ou nas “Notas complementares” e “Novas notas complementares”, publicadas em 1882 e 1886, encontramos algo muito mais amplo do que um simples interesse nacionalista ou um desejo de subjugação. Pelo contrário, está aí uma visão original e inovadora e um interesse genuíno e profundo. Poder-se-ia também dizer que a causa nacionalista oferece um possível impulso, mas que a motivação principal é a de poder finalmente verificar as teorizações da linguística histórica comparativa em objetos vivos, numa evolução contínua e, portanto, diretamente observável. Isto é claro desde as primeiras linhas de “Os dialectos românicos”, em que Coelho afirma que o que quer levar a cabo é
um trabalho geral comparativo em que tentassemos determinar as leis de formação d’esses dialectos, formação que se póde por assim dizer estudar no vivo, porque um similhante estudo não poderia deixar de nos ministrar dados importantes sob os pontos de vista glottologico, ethnologico e psychologico
(Coelho, 1880, p. 129).É por esta razão que Coelho se surpreende tanto com o facto de as línguas crioulas não terem sido tidas em conta em nenhum dos grandes trabalhos linguísticos contemporâneos até então, no contexto de uma contradição fundamental:
que uma parte dos glottologos gastam o seu tempo á busca da solução de problemas ou insoluveis ou cuja chave não está ainda descoberta (etrusco, basco, acadiano, etc.), e outra anda absorvida pelos seus estudos especiaes, sem duvida interessantes e muitas vezes importantes, mas que fazem desviar a attenção de questões de muito maior momento, sendo poucos os que fazem progredir a sciencia de uma maneira sensível
(Coelho, 1880, p. 130).O artigo apresenta-se basicamente como uma compilação de dados de várias fontes, uma espécie de resumo de tudo o que foi recolhido até então sobre o assunto por Coelho, não se limitando a fenómenos relacionados com a língua portuguesa. É preciso dizer que o objeto de interesse não são apenas os crioulos, mas sob o rótulo de dialetos “românicos” vão também variedades como o português do Brasil ou o espanhol de Buenos Aires e Montevideu e, nas “Notas complementares”, muitas outras variedades de espanhol ou o francês do Canadá, que não são certamente crioulos (nem são chamados crioulos por Coelho). Por outro lado, é impressionante a amplitude de crioulos e variedades que o autor tem em conta, sem esquecer a mais conhecida e importante língua de contacto no contexto mediterrânico, a Língua Franca (para a lista completa, ver o Anexo ao presente artigo).
As informações de Adolfo Coelho baseiam-se em duas fontes fundamentais: o material bibliográfico, em relação ao qual, no entanto, lamenta “a miserável dotação das nossas bibliotecas” (Coelho, 1880, p. 130), e o recurso a informantes (Alkmim, 1995, p. 9).
O texto não está isento de numerosos erros, resultantes, por um lado, da qualidade variável dos corpora enviados pelos informantes e, por outro, de erros materiais:
Enquanto Schuchardt e Hesseling mostravam-se bem cuidadosos em relação às fontes utilizadas, sobretudo no tocante à qualidade dos dados lingüísticos, Coelho manifesta uma atitude nada seletiva. Vemos, por exemplo, que Coelho (1886), ao tratar do indo-português de Singapura, observa que ‘As frases e outras indicações que reuni foram por ele ditadas de memória, e não posso, salvo com relação a algumas frases, a um curto canto de cinco versos (n° 72) e dois provérbios (nos 73 e 74), asseverar a perfeita autenticidade desses documentos’
(Alkmim, 1995, p. 9).Um caso flagrante é o que diz respeito ao primeiro crioulo apresentado, que é indicado como sendo o de S. Antão (Coelho, 1880, p. 130), quando na realidade é o de Santiago, erro reconhecido pelo próprio autor mais tarde (Coelho, 1887, p. 617).
Para além disso, um outro elemento que caracteriza fortemente a obra de Coelho é a rede de contactos científicos que vai construindo ao longo do tempo, quer a nível nacional (por exemplo, com Leite de Vasconcelos, ou Carolina de Michaelis), quer a nível internacional (por exemplo, com Ernesto Monaci1 e Hugo Schuchardt). O contacto com Schuchardt em particular é obviamente, no campo da crioulística, o mais relevante.
Schuchardt mantinha regularmente uma correspondência muito extensa com os académicos contemporâneos, que desde há algum tempo está totalmente acessível online, pelo menos na parte relativa às cartas recebidas, através do Hugo Schuchardt Archiv. O arquivo contém 33 cartas e postais de Coelho. Schuchardt representou uma espécie de hub, de fulcro das primeiras pesquisas crioulísticas da época e a principal força motriz do seu desenvolvimento inicial. No entanto, a sua primeira publicação neste domínio só viria a ocorrer um ano depois da de Coelho, em 1881, e consistiria numa recensão da obra do filólogo português (Schuchardt, 1881), enquanto que só no ano seguinte seria publicado o primeiro volume dos Kreolische Studien, dedicado ao crioulo de São Tomé (Schuchardt, 1882).
Schuchardt, no período entre as décadas de 1880 e 1920, representa quase uma espécie de polo de atração dos estudos crioulísticos internacionais. Recebeu cartas da maior parte das personalidades interessadas no assunto (para além de Coelho, estudiosos como Lucien Adam, Sebastião Dalgado, Otto Jespersen, Dirk Christiaan Hesserling, Charles Baissac). O principal valor destes intercâmbios reside nas discussões que comparam as diferentes posições sobre o estatuto e a origem dos crioulos. É nestas trocas que se concentra o coração daquilo que Krämer e Sousa identificam como a segunda fase do desenvolvimento da crioulística enquanto disciplina científica, que vai dos últimos anos do século XIX ao início do século XX e se centra num espaço académico a que chamam o “triangle of creolistics”, que tem os seus vértices na França, em Portugal e na Alemanha/Áustria (Krämer & Sousa, 2017, p. 109). Como é evidente, nesta discussão pioneira, Coelho desempenha um papel importante como precursor de posições que terão grande relevância na crioulística posterior. E isto, numa chave que é muito mais ampla do que apenas os crioulos de base portuguesa. De facto, apesar do que afirmam Krämer e Sousa, que veem nas primeiras crioulísticas francesas e portuguesas um enfoque predominante nos crioulos ligados à sua própria esfera colonial (Krämer & Sousa, 2017, p. 109), como já vimos, Coelho também deu amplo espaço a outras esferas linguísticas, particularmente as ligadas ao espanhol e ao francês.
Tanto Ernesto d’Andrade e Alain Kihm, num artigo sobre o Coelho crioulista (Andrade & Kihm, 1995), como John Holm, no seu fundamental Introduction to Pidgins and Creoles (Holm, 2000, p. 27-34), dedicam espaço ao papel de Coelho no debate da época, esclarecendo que este se polarizava em torno de duas teorias principais, ainda hoje centrais, nomeadamente a substratista e a universalista, a primeira representada predominantemente por Adam, a segunda pelo próprio Coelho. Se a substratista considerava que o ator predominante na criação do crioulo era o escravo trazido para o novo território, que influenciaria a nova língua com a sua própria (o que explicaria as diferenças entre crioulos), a universalista colocava o foco na criança nascida no novo contexto, que elabora a nova língua com base em processos cognitivos gerais (o que ao contrário explicaria as suas semelhanças). Não é, portanto, por acaso que, em ambos os ensaios, se sublinhe uma identidade entre a teoria de Coelho e a Language Bioprogram Hypothesis formulada por Bickerton (1984).
A posição de Coelho é efetivamente clarificada nas extensas “Considerações geraes” que encerram o seu ensaio de 1880, nas quais sublinha a novidade do domínio de estudo: “Ninguem ainda, que saibâmos, viu com clareza o verdadeiro caracter e reconheceu as leis geraes que presidem á fromação de dialectos de que nos occupâmos” (Coelho, 1880, p. 189). Com base nesta constatação, Coelho propõe a formulação de dois princípios gerais, que servem, por um lado, para traçar as linhas das considerações retiradas das análises específicas dos parágrafos anteriores e, por outro, para servir de base a estudos futuros.
O primeiro princípio estabelece:
1.º Os dialectos romanicos e creolos, indo-portuguez e todas as formações similhantes representam o primeiro ou primeiros estadios na acquisição de uma lingua estrangeira por um povo que falla ou fallou outra. […] Os dialectos de que nos temos occupado não são pois o resultado de uma transformação lenta, gradual, tendo por ponto de partida principal a alteração phonetica, como a que se opera nas linguas que seguem o curso normal da sua evolução, como a que transformou o latim em portuguez, hespanhol, provençal, italiano e valachio; nos dialectos creolos e similhantes a alteração phonetica é o menos; com ella pouco se explica da estructura morphologica e syntactica d’essas fórmas de linguagem. Bopp e Diez são de muito pouca utilidade immediata, os principios da grammatica comparada usual de pouco nos servem para entendermos aquelles dialectos. A transformação da linguagem em virtude da alteração phonetica é um phenomeno de base physiologica; a formação dos dialectos creolos é no que tem de essencial um phenomeno psychologico
(Coelho, 1880, p. 193).Coelho lança aqui as bases para a identificação das línguas crioulas como um tipo linguístico de pleno direito; esclarece desde logo que há uma clara diferença, por exemplo, entre a relação evolutiva do latim com as línguas românicas e destas com as línguas crioulas: por um lado, temos tempos de formação muito mais curtos e, por outro, uma maior distância estrutural, pois enquanto a identidade se mantém no léxico (com variações fonéticas que não são imensas), o contrário acontece na morfologia e na sintaxe. Coelho não explica a causa de uma diversidade tão evidente, mas define o contexto. Como escrevem Andrade e Kihm:
as leis psicológicas de que nos fala não são mais que a analogia que, no dispositivo da gramática histórica comparada, permite explicar tudo o que não se enquadra na mudança fonética regular e que Saussure define assim: ‘A analogia é de ordem psicológica… ela supõe a consciência de uma relação unindo as formas entre si’. […] Mas como é que isso explica a formação dos crioulos? Coelho supõe a existência do caos, de uma Babel linguística original, de modo bastante idêntico ao que fará Bickerton um século mais tarde
(Andrade & Kihm, 1995, pp. 388-389).É evidente, no entanto, que nas frases acabadas de citar se pode ler uma tendência para a teleologia que não faz justiça à originalidade da proposta de Coelho, que parece assumir mais o valor de um precursor do que de um intelectual inovador inserido no seu tempo. Por outro lado, a importância da sua intuição universalista não pode ser reduzida, pois é nela, a meu ver, que se pode identificar corretamente Coelho como o fundador da creolística atual.
Isto é ainda mais evidente na exposição do segundo princípio:
2.º Os dialectos romanico-creolos, indo-portuguez e todas as formações similhantes devem a origem á acção de leis psychologicas ou physiologicas por toda a parte as mesmas e não á influencia das linguas anteriores dos povos em que se acham esses dialectos. Os factos accumulados por nós mostram á evidencia que os caracteres essenciaes d’esses dialectos são por toda a parte os mesmos, apesar das differenças de raça, de clima, das distancias geographicas e ainda dos tempos. É em vão que se buscará, por exemplo, no indo-portuguez uma influencia qualquer do tamul ou do singalez. No dialecto macaista a formação do plural por duplicação do singular póde attribuir-se a uma influencia chineza, mas esse processo é tão rudimentar que nenhuma conclusão podemos fundar sobre elle. No dialecto da ilha de Sant’Iago muito muito é um superlativo. […] julgâmos porém ter ministrado sufficientes provas de que os dialectos creolos e formações similhantes não revelam influencia alguma directa, salvo no vocabulario, das linguas anteriores dos povos que os fallam, mas que se deve ver n’elles apenas o resultado da acção de leis geraes a que obedece por toda a parte o espirito humano
(Coelho, 1880, pp. 195-196).Esta posição, que, como já foi referido, o contrastava directamente com a hipótese substratista de Lucien Adam, também não era totalmente partilhada por Schuchardt, o qual porém aproximava-se muito de algumas das idéias de Coelho, que lhe serviram bem na sua polémica contra os princípios da escola neogramática. Além disso, o trabalho de Schuchardt também se centrou principalmente nos crioulos de base portuguesa. De acordo com Holm, a posição de Schuchardt no entanto situa-se algures entre a de Coelho e a de Adam, aproximando-se mais de uma abordagem descritiva e menos teórica (Holm, 2000, p. 30).
O contributo de Coelho, portanto, apesar da sua relativa concisão, tem grande relevância, quer do ponto de vista do grande número de línguas consideradas, quer do ponto de vista da abordagem teórica; por outro lado, talvez a sua reflexão nem sempre tenha sido valorizada, até pelo panorama bastante variado dos seus interesses de estudo. No entanto, é possível encontrar uma ligação entre o seu interesse linguístico, nomeadamente crioulístico, e outras vertentes da sua investigação, através da valorização de um fenómeno ligado a uma elaboração exclusivamente popular, absolutamente separada do contexto culto. A ligação mais direta é com os estudos etnográficos, em particular associados à literatura popular, cujo principal resultado são os Contos populares portugueses, publicados em 1879, mas aos quais se podem também associar numerosas outras contribuições mais pontuais, bem como uma outra importante monografia, intitulada Os ciganos em Portugal, de 1892.
Mas uma outra ligação pode ser feita com a área que quantitativamente mais preocupou Coelho, ou seja a pedagogia. As suas intervenções são numerosas, mas podemos citar, para além da já referida conferência no Casino de Lisboa, pelo menos duas outras obras, nomeadamente Para a história da instrução popular, de 1895, e Cultura e analfabetismo, de 1916. Em ambos os casos, Coelho mostra apreço pela cultura popular, já objeto dos seus estudos etnográficos, como um sistema coerente e alternativo à cultura aprendida através do ensino oficial. Finalmente, não é difícil detetar uma ligação entre a pedagogia e a crioulística também nas suas teorizações sobre o paralelismo entre o nascimento do crioulo e a primeira fase de aprendizagem de uma língua.
Em conclusão, Adolfo Coelho é uma figura representativa de um período de transição fundamental na afirmação de uma nova forma de conceber o estudo linguístico. Em primeiro lugar, encarna uma das principais reivindicações da geração dos Setenta, que esperava uma ligação finalmente direta com a Europa e com as correntes científicas mais avançadas; em segundo lugar, representa um dos principais impulsionadores da abertura do estudo científico dos crioulos, com uma atitude abrangente que talvez parta dos interesses coloniais portugueses, mas que certamente não se limita a eles. Trata-se, afinal, de uma figura complexa, a valorizar pelos temas individuais da sua investigação, como pelo quadro global dos seus interesses, que possuem uma coerência maior do que pode parecer à primeira vista, a qual reside sobretudo no facto de considerar digno de estudo muito do que estava fora dos círculos académicos naqueles anos. Sem dúvida tudo isto compensou o facto de não ter acreditado no Supra-Camões.
“Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América” (Coelho, 1880)
Os dialectos portugueses:
Dialectos hespanhoes
Dialectos franceses
Lingua franca
“Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América. Notas complementares” (Coelho, 1882)
Dialectos portugueses
Dialectos Hespanhoes
“Os dialetos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América. Novas notas supplementares” (Coelho, 1886)
Dialectos portuguezes
Dialectos hespanhoes
Dialectos franceses
Alice Girotto