Resumo: Este ensaio oferece a primeira análise completa dos dicionários português-italiano e italiano-português compilados por Raffaele Enrico Raqueni e Levindo Castro de La Fayette, publicados a partir de 1899 e reimpressos várias vezes ao longo do século XX, até à nova edição editada por Enzio Di Poppa Volture, publicada pela editora Lello & Irmão em 1974 e também reimpressa até aos anos 2000. O ensaio traça a história editorial desta obra e faz uma análise da sua macro e microestrutura, destacando as opções dos dois autores, que adoptaram uma técnica lexicográfica moderna, quer imprimindo à obra as caraterísticas de um dicionário de descodificação baseado num conhecimento aprofundado da língua materna, quer concentrando o corpus lexical num vocabulário desprovido de termos técnicos altamente especializados e mais acessível e aplicável a um público mais amplo. Assim, apesar do seu carácter prático e portátil, os dicionários foram sendo adaptados ao longo do tempo a diversas utilizações, tanto práticas como eruditas: comércio, turismo, aprendizagem de línguas estrangeiras, tradução, trabalho literário e editorial. Com uma base de dados lexical maior do que a maioria dos dicionários monolingues (37.000 entradas italianas e cerca de 40.000 entradas portuguesas), estes dicionários apresentam-se como uma fonte muito útil para o estudo da evolução histórica das duas línguas: o português e o italiano.
Palavras-chave: Lexicografia bilíngue, língua italiana, língua portuguesa, história das línguas.
Abstract: This essay offers the first complete analysis of the Portuguese-Italian and Italian-Portuguese dictionaries compiled by por Raffaele Enrico Raqueni and Levindo Castro de La Fayette, published from 1899 onwards, and reprinted several times throughout the 20th century, up to the new edition edited by Enzio Di Poppa Volture, published by the Lello & Irmão publishing house in 1974 and also reprinted until the 2000s. The essay traces the publishing history of this work and provides an analysis of its macro- and micro-structure, highlighting the choices made by the two authors. The latter adopted a modern lexicographic technique, either by giving the work the characteristics of a decoding dictionary based on in-depth knowledge of the mother tongue, or by concentrating the lexical corpus in a vocabulary devoid of highly specialised technical terms and more accessible and applicable to a wider audience. Thus, despite their practical and portable nature, these dictionaries have been adapted over time to various uses, both practical and cultured: commerce, tourism, learning foreign languages, translation, literary and editorial work. Offering a more extensive lexical corpus than most monolingual dictionaries (37,000 Italian entries and around 40,000 Portuguese entries), this dictionary represents a very useful source for studying the historical evolution of the two languages: Portuguese and Italian.
Keywords: Bilingual lexicography, italian language, portuguese language, history of languages.
Artigo
O português moderno, em italiano. Os dicionários de Raffaele Enrico Raqueni e Levindo Castro de La Fayette1
Modern portuguese, in italian. The dictionaries of Raffaele Enrico Raqueni and Levindo Castro de La Fayette
Received: 05 July 2024
Revised document received: 12 September 2024
Accepted: 21 August 2024
Published: 01 September 2024
Os dicionários que comparam línguas modernas são uma fonte documental sobre os neologismos, os empréstimos e os vazios semânticos. No caso da língua portuguesa, no século XIX os dicionários com mais sucesso editorial e atualizados são justamente os bilingues. Neste contexto, os dicionários compilados por Raffaele Enrico Raqueni e Levindo Castro de La Fayette, publicados a partir de 1899, oferecem um fundo lexical mais extenso do que a generalidade dos dicionários monolingues: 37 mil entradas italianas e cerca de 40 mil entradas em português. O valor documental linguístico e a singularidade cultural destes dicionários devem ser analisados em conjunto: são compilados por falantes nativos das respetivas línguas; o dicionarista responsável pelo português é falante da variedade do Brasil; a técnica lexicográfica é moderna e distingue-se de outros dicionários existentes, o que justifica a vitalidade deste dicionário, que vai ser reimpresso e reformulado ao longo do século XX.
O presente estudo procura realizar uma análise abrangente da macroestrutura e microestrutura dos dicionários português-italiano e italiano-português, contextualizando as suas escolhas lexicográficas no âmbito da lexicografia moderna. Para além disso, o trabalho visa explorar como esses dicionários atenderam às exigências de diferentes públicos, e a forma como as inovações introduzidas pelos autores contribuíram para o sucesso e relevância destas obras. Neste contexto, importa esclarecer a história editorial dos dicionários, desde a sua primeira publicação em 1899 até às várias reedições no século XX, abordando as colaborações entre as editoras envolvidas e as relações entre Portugal, Brasil e Itália. Por fim, introduz-se a comparação com a edição de 1974, revisada por Enzio Di Poppa Volture, com ênfase nas mudanças ortográficas e lexicais implementadas, em conformidade com as reformas ortográficas ocorridas ao longo do século XX em Portugal e no Brasil. Finalmente, na conclusão, serão sintetizadas as principais observações deste estudo, sublinhando a relevância histórica e linguística dos dicionários bilingues de Raqueni e La Fayette, enquanto contributos para a lexicografia moderna da língua portuguesa.
Para compreender as origens e as caraterísticas do Novo diccionario italiano-portuguez e do seu segundo volume, intitulado Nuovo dizionario portoghese-italiano, redigidos por Raffaele Enrico Raqueni e Levindo Castro de La Fayette, e publicados em Paris por Guillard, Aillaud et Cie em 1889 (cf.Lupetti, 2011, p. 150–153), é necessário remontar ao trabalho anterior do último destes dois lexicógrafos.
Levindo Castro de La Fayette, natural de Minas Gerais, destacou-se no ensino e no campo da lexicografia no final do século XIX. Como professor de línguas, exerceu a sua atividade pedagógica no Rio de Janeiro, onde ensinou latim, italiano e português. Trabalhou em Paris, como chanceler do consulado brasileiro e como professor no Institut Polyglotte, uma escola de línguas de ensino profissional. Nesta instituição promovia-se o contacto interlinguístico, com cursos de alemão, inglês, espanhol e italiano e sessões de conversação.
A partir da década de 1880, La Fayette trabalhou para a casa editora Garnier Frères como compilador de dicionários. O seu contributo mais significativo para a lexicografia luso-brasileira foi o Novo Vocabulário Universal da Língua Portuguesa, publicado em 1889.
Este dicionário distingue-se pelo seu carácter prático e pelo elevado número de entradas, refletindo um esforço de ampliação e atualização lexical. A designação ‘Universal’ dada ao vocabulário não indica uma abordagem enciclopédica, mas antes a inclusão de uma vasta e diversificada lista de palavras, abrangendo termos contemporâneos, técnicos, mitológicos e de outras áreas do saber. Essa diversidade lexical é patente no número de entradas, que cresceu significativamente em comparação com obras anteriores2.
La Fayette conseguiu compilar um vasto repertório linguístico num único volume portátil de 14 cm de altura e 1172 páginas, uma obra significativamente mais prática que o dicionário de Silva Pinto, que, apesar de possuir dimensões maiores (21 cm), continha um número similar de páginas. No prefácio da sua obra, La Fayette destaca a praticidade do seu dicionário, referindo-se ao livro como “verdadeiramente portátil”, impresso em um tipo pequeno, mas legível, e capaz de encerrar em suas páginas matéria equivalente a seis volumes (La Fayette,1889, p. ii).
Este dicionário pode ser considerado moderno não só pelos aspetos relacionados com a sua realização material e qualidade de impressão. Por um lado, o aumento da nomenclatura faz-se com as “palavras actualmente e realmente usadas”:
O progresso das sciencias e das artes, as mutações, as accepções introduzidas, por esse progresso mesmo, nas classificações scientificas, o impulso das ideas politicas e sociaes, e as causas mais diversas, produzem a linguagem transformações tã naturaes como as de todo organismo vivo. Por isso foi que recolhi muitas centenas de palavras e locuções novas cujo emprego pareceu-me sufficientemente auctorizado
(La Fayette, 1889, pp. i-ii).Por outro lado, este aumento é tanto mais significativo quanto exclui classes de palavras que, tradicionalmente, ampliavam o número de entradas, como é o caso dos particípios. Os particípios, sistematicamente registados em obras anteriores, são de facto um resquício da lexicografia bilingue com latim, agora superado.
Outras alterações, indicativas das necessidades de aprendizagem de línguas modernas, incluem a classificação dos verbos em transitivos ou intransitivos (em vez de ‘verbo ativo’). Consolidam-se, assim, alguns aspetos da técnica lexicográfica que caracterizam a lexicografia moderna, como o facto de termos homófonos com classes de palavras diferentes formarem entradas distintas.
Outro indício de que o dicionário é usado por aprendentes de línguas é o facto de variantes essencialmente morfológicas, que não correspondem a uma diferença notória no sentido da palavra, serem agrupadas no mesmo artigo. Esta técnica diminui significativamente a necessidade de remissões, agilizando a consulta do dicionário (por exemplo: Untadela, ou Untadura, s.f. Acção ou effeito de untar; untura).
Este dicionário caracteriza-se por definições muito sucintas, em que se marcam tipograficamente as distinções de aceções e se esclarecem os significados sobretudo através de sinonímia (por exemplo: Untar, v.tr. Applicar unto. Fomentar com oleo, ungir; besuntar, peitar, subornar; dar gorgeta.)
O Novo Vocabulario vai fornecer a lista de palavras para dois projetos de dicionários bilingues, primeiro do par português-inglês, e em seguida de português-italiano. Os volumes seguem um formato prático semelhante (16 cm, contra 14 cm para o Vocabulário). Foram publicados com poucos anos de intervalo, 1897 e 1899, pelo que é de supôr que tenham sido compilados como parte de uma mesma encomenda.
No prefácio do Novo Diccionario Inglez-Portuguez e Portuguez-Inglez, Levindo Castro de La Fayette analisa criticamente as deficiências dos dicionários disponíveis na época. Ele observou que muitos desses dicionários não passavam de reimpressões do trabalho de Nugent (1767), com poucas adições e diversas omissões, sem refletirem as recentes evoluções linguísticas. O novo dicionário de La Fayette surge como uma resposta a essas lacunas, alinhando-se com as novas palavras e significados que emergiram nos últimos anos, tanto em inglês quanto em português, com destaque para as influências do Brasil.
À semelhança do que fez no seu dicionário monolingue, La Fayette anuncia a inclusão de novos termos, especialmente aqueles relacionados às artes e ciências, que estavam ausentes nas obras anteriores. O objetivo é facilitar a leitura de jornais e obras modernas, capturando as transformações linguísticas em curso. Para atingir esse propósito, o autor recolheu e inseriu um número considerável de novos vocábulos, embora tenha sido necessário limitar a inclusão para preservar o caráter portátil do dicionário.
A técnica lexicográfica empregada parece especialmente desenhada para facilitar a aprendizagem de línguas. As características testadas no dicionário de inglês foram posteriormente aplicadas no dicionário de italiano. Uma das inovações introduzidas por La Fayette foi um sistema de pronunciação guiada, utilizando o alfabeto português e sinais convencionais para indicar a pronúncia correta das palavras estrangeiras. Além disso, foram intercaladas, na ordem alfabética geral, as inflexões irregulares de diferentes partes do discurso, assim como nomes próprios de pessoas, países e lugares que apresentam grafias distintas nas duas línguas. Essa abordagem visa facilitar a consulta e evitar que o utilizador precise recorrer a várias seções do dicionário para encontrar a informação desejada.
O Novo Diccionário Italiano-Português foi publicado em co-autoria com o florentino Raffaele (o Raffaello) Enrico Raqueni (n. 1849), que assumiu a responsabilidade pela componente italiana. Não se conhece outro trabalho lexicográfico da sua autoria além deste dicionário. Na folha de rosto, Raqueni é apresentado como professor de língua e literatura italianas. Embora não tivesse experiência prévia como lexicógrafo, a biografia de Raqueni conferia-lhe o prestígio necessário para a co-autoria do dicionário: tratava-se de um publicista interessado em temas de filologia, com diversas intervenções públicas relacionadas com a língua. É conhecido por ter escrito um opúsculo sobre temática linguística intitulado La lingua d’Italia: chiacchiere filologiche (1878), onde aborda o tema tradicional da defesa da pureza da língua, criticando a sua degeneração pelos falantes. Também foi relator de uma comissão intitulada Urgence d’une langue internationale; adoption du latin, cuja publicação data de 1897 (cf. Girard & Raqueni, 1897; Raqueni, 1898). Esta comissão concluiu pela necessidade de investigar o ensino prático do latim como língua de comunicação, rejeitando os méritos do ensino do esperanto.
O contacto com La Fayette terá ocorrido muito provavelmente em Paris, onde Raqueni foi um ativista político, presidente da associação garibaldiana e socialista “Circolo Operaio Italiano” (1883) e fundador e secretário-geral da “Union Franco-Italienne” ou “Lega Franco-Italiana”, patrocinada pela Embaixada de Itália (1888) (Cócaro, 2011, p. 11)3. No início do século XX, Raqueni foi presidente do Sindicato da Imprensa Italiana e, em 1904, fundou em Paris uma loja maçónica do Rito Escocês (Conti, 2008, p. 371; Langone, 2023, p. 35)4. Foi também jornalista, correspondente de jornais italianos e diretor de periódicos, entre a década de 1880 e o início do século XX. Entre os títulos em que colaborou, destacam-se Parigi-Roma/Paris-Rome: Journal politique, économique et littéraire, L’Étendard: organe des nations latines: politique, économique et littéraire, e L’Époque: Journal politique quotidien (Briani, 1977, p. 53). Sabe-se também que proferiu conferências no Institut Polyglotte em 1883, a mesma instituição onde La Fayette colaborou.
O interesse de Raqueni por questões linguísticas, em particular pela valorização do ensino do latim, pode ser relacionado com uma visão política de aproximação cultural entre os países latinos. Em 1903, na qualidade de secretário-geral da Liga Franco-Italiana, participou como convidado numa comemoração do 49.º aniversário da morte de Almeida Garrett, organizada pela Société des Études Portugaises em Paris. No seu discurso, propôs a unificação dos povos latinos com o objetivo de criar uma federação latina, como pedra angular da futura confederação europeia.
Muito mais do que o seu congénere inglês-português, o dicionário italiano-português e português-italiano de Raqueni e La Fayette teve um duradouro êxito editorial, que foi reconhecido em inúmeras reimpressões e reedições publicadas por diferentes editoras em Portugal, Itália e Brasil. As várias edições mantiveram a apresentação e o conteúdo da primeira edição de 1899, sem qualquer atualização, diferindo apenas na capa e na página de rosto. Com a reedição de 1974, de que falaremos mais adiante, o seu sucesso chega praticamente aos nossos dias. A reconstituição da história editorial deste texto é particularmente difícil, quer porque a grande maioria das edições foi publicada sem data, quer porque as denominações sociais das várias editoras mudaram continuamente ao longo do tempo, em resultado de interligação e cruzamento de propriedade, em particular entre as editoras portuguesas e brasileiras.
Com efeito, a trajetória deste dicionário está intrinsecamente ligada à história das chancelas Aillaud, Bertrand, e Lello. Após o falecimento de Francisco Alves em 1917, Júlio Monteiro Aillaud assumiu a direção das livrarias Aillaud em Paris e Bertrand em Lisboa. A continuidade dos negócios por Germaine Aillaud, sua filha, culminou na sua associação com os livreiros Lello em 1931. Esta parceria possibilitou que a Lello recuperasse e continuasse a editar vários dicionários anteriormente publicados pela Aillaud, entre os quais se destacam o dicionário português-francês de José Inácio Roquete (1841; 1ªa ed. Lello 1962) e o dicionário português-italiano (1974).
A manutenção da viabilidade comercial do dicionário foi assegurada através de práticas editoriais que acompanharam as mudanças na propriedade das editoras e livrarias ao longo dos anos. Em várias reedições, o dicionário foi comercializado, como já referimos, utilizando as folhas de impressão originais da Typ. Guillard, Aillaud & Cie, às quais se juntaram apenas as capas e as páginas de rosto dos outros editores, frequentemente sem indicação do ano de publicação. Esta prática permitiu que o mesmo texto fosse adaptado a diferentes contextos editoriais e continuasse a ser comercializado sob diversas chancelas, incluindo:
em Paris e Lisboa: Guillard, Aillaud e Bertrand;
no Rio de Janeiro: a editora Francisco Alves e Cia, fundada e dirigida por Francisco Alves d’Oliveira (1848-1917) e especializada na publicação de livros escolares e universitários, com filiais em São Paulo e Belo Horizonte. Francisco Alves adquiriu em 1809 a editora fluminense dos irmãos Laemmert, principalmente com o objetivo de adquirir os direitos de livros e séries populares. Em 1907, em sociedade com Júlio Monteiro Aillaud, assumiu o controle da editora lisboeta Aillaud e, em 1908, em sociedade com Manuel Pacheco Leão, comprou a Livraria Bertrand, em Lisboa (Moniz, 2009);
em São Paulo: a editora Teixeira & Irmão, fundada no final da década de 1870 pelos irmãos portugueses António Maria e José Joaquim Teixeira (Pina, 2015, p. 162); e a Casa Garraux, fundada na década de 1860 pelo francês Anatole-Louis Garraux, ex-funcionário da Livraria Garnier, e que passou para as mãos de outro francês, Alexandre Thiollier, em 1888, que a rebatizou de Thiollier, Fernandes & Cia (Deaecto, 2008);
em Bolonha: Pietro Virano, diretor da sucursal de Bolonha da Livraria dos Irmãos Treves de Milão e editor especializado em textos científicos, de medicina, ciências agrárias, história económica e social, e também obras em línguas estrangeiras e escritos para o divertimento de raparigas (Tavoni, 2010, p. 714).
A tabela 1 apresenta um inventário das diferentes designações editoriais sob as quais o dicionário foi comercializado, com base em exemplares encontrados em bibliotecas e na catalogação realizada por estas instituições.

Os dicionários português-italiano e italiano-português em análise apresentam o mesmo formato portátil (16 cm. de altura). O dicionário português-italiano é composto por XIX+811 páginas, o dicionário italiano-português por XVIII+620 páginas. Diferentemente do dicionário inglês, possuem uma macroestrutura tão simples que nem sequer incluem um prólogo justificativo. Na folha de rosto, é afirmado que contêm “todos os vocábulos da língua usual, com a pronúncia figurada, e os nomes próprios geralmente usados”. Contudo, não há qualquer referência a linguagens especializadas ou à atualização do vocabulário, um tema comum nos dicionários contemporâneos.
Os paratextos desses dicionários são particularmente reveladores do público-alvo. No dicionário português-italiano, por exemplo, a folha de rosto está redigida em italiano. Além disso, fornecem-se orientações sobre a forma como os falantes de italiano devem pronunciar as palavras portuguesas, através de comparações com palavras italianas comuns. Observa-se a seguinte explicação: “La lingua portoghese ha moltissimi punti di rassomiglianza coll’italiano; per ciò in pochissimo tempo un Italiano può parlare la lingua portoghese con grande facilità e perfetta correzione. La pronunzia è presso a poco la stessa eccettuato in alcuni casi particolari”.
No que concerne à pronúncia da letra ‘S’, o dicionário indica: “S si pronunzia come in italiano eccettuato quando è seguito d’una consonante o quando termina una parola, in tal caso essa prende il suono di sc presso a poco come la parole italiane sce usciu”.
O dicionário ainda inclui quatro secções especificamente concebidas para usuários italianos: uma tabela de conjugação dos verbos ser e estar, nos tempos em que são equivalentes ao verbo italiano essere; uma tabela de conjugação dos verbos regulares, contendo apenas os morfemas; uma lista de verbos irregulares; e uma lista de verbos com particípios duplos.
Deste modo, trata-se de um dicionário de descodificação, destinado a falantes de italiano que possuam pouco conhecimento de português. A descrição semântica apoia-se fortemente no conhecimento nativo do italiano.
Por exemplo, no artigo referente a Sanha e palavras relacionadas, observa-se que a transcrição fonética segue as convenções grafemáticas do italiano. Em relação à definição, a sucessão de adjetivos não apresenta indicações de separação de aceções, sendo as diferenças entre os termos claras para um falante de italiano. No entanto, na perspetiva de um falante de português, dificilmente poderia ser considerado um dicionário de codificação. Elas se dividem em dois tipos: curtas e longas.
Sánha (ságna), sf. rabbia, furore, accanimento.
Sanhóso (sagnóso), add. arrabbiato, accanito, rabbioso.
Sanhudo (sagnudo), add. arrabbiato, furioso, stizzoso, iracondo.
Estas características destacam a intenção do dicionário em servir principalmente ao público italiano, facilitando a compreensão do português através de uma ponte semântica e fonética com a língua italiana.
A lista de palavras portuguesas no dicionário português-italiano parece basear-se na compilação anteriormente realizada para o dicionário português-inglês, um procedimento comum na produção de dicionários bilingues, facilitando a expansão para novos pares de línguas. Contudo, no caso do dicionário português-italiano, observa-se um aumento no número de termos de linguagens especializadas, sugerindo um esforço adicional na inclusão de vocabulário técnico e erudito.
Esta tendência é confirmada por uma análise comparativa das entradas relativas a uma sequência de palavras com grafias etimológicas associadas a formações a partir de raízes eruditas (SCE-SCI). O dicionário português-inglês apresenta 26 entradas nesta secção, enquanto o dicionário português-italiano inclui todas as palavras do primeiro e acrescenta 14, o que representa um aumento superior a 50%.

As novas entradas no dicionário português-italiano evidenciam um esforço significativo de ampliação e especificação do léxico, preenchendo lacunas na derivação ao incluir termos como scenographico (relativo a scenographia e scenógrapho) e scillitico (relativo a scilla, descrito como uma “espécie de cebola diurética” em italiano).
Todavia, ao analisar séries lexicais mais extensas, verifica-se que, em comparação com o dicionário português-inglês, o dicionário português-italiano tende a incluir menos termos especializados, refletindo um objetivo de representar a ‘língua usual’. Observando a lista de entradas da série SAC, o dicionário italiano apresenta-se novamente mais amplo (76 entradas, em comparação com 68 no inglês).
Esta diferença não resulta apenas de opções na seleção do léxico, mas também de uma revisão sistemática dos critérios de representação das classes de palavras. Neste processo, os particípios de formação regular que não apresentam uma aceção distinta do verbo são, em geral, eliminados. Na série em análise, o lexicógrafo removeu as entradas sacrificado e sacudido, mas adicionou sacramentado (com os significados de sagramentato e amministrato, sendo este último não inferido a partir do artigo sacramentar).
O resultado é uma descrição das possibilidades de derivação e recategorização admissíveis em português, sem uma expansão artificial da lista de palavras, o que poderia tornar o dicionário excessivamente extenso. Por exemplo, relacionado com o verbo sacudir, temos as entradas sacudida (substantivo, nova entrada em relação ao dicionário inglês), sacudidamente, sacudidela, sacudidor, sacudidura.
Por outro lado, há uma tendência para eliminar termos especializados, principalmente aqueles relacionados com atividades mais restritas. Se o dicionário português-inglês incluía termos da fabricação do açúcar (como indicado no prólogo, que sublinhava o interesse pelo progresso tecnológico), este dicionário parece orientado para a descrição de palavras de uso corrente, ou, no máximo, aquelas cujos referentes são partilhados pelos falantes de ambas as línguas. Assim, foram eliminadas entradas como saccharifero, saccharificação, saccharificar, saccharimetro e saccharose.
Em comparação com o dicionário português-inglês, o novo dicionário acentua o interesse pelo vocabulário relacionado com o Brasil, sobretudo no que diz respeito aos nomes da fauna e flora. A técnica de redação dos artigos também é distinta: no dicionário português-inglês, a palavra faz parte da lista de entradas, mas na definição não há indicação explícita de que o termo tem um referente restrito ao contexto brasileiro; já no dicionário português-italiano, essa identificação é explicitada. Enquanto o primeiro dicionário foi concebido para um público-alvo composto por brasileiros e ingleses, o dicionário italiano, talvez devido ao contributo de Raqueni, serve a públicos interessados na língua portuguesa fora do contexto brasileiro.

A análise comparativa dos dois dicionários, português-italiano e italiano-português, sugere que terão sido compilados de forma quase simultânea, dada a notável semelhança no número de entradas e na técnica de definição adotada.
O dicionário português-italiano apresenta um número maior de entradas, refletindo uma preocupação em representar a diversidade morfológica da língua portuguesa. Este dicionário não só regista as formas básicas das palavras, como também inclui numerosas variações morfológicas, exemplificadas em avaliativos como nas entradas soberbão, soberbaço, soberbinho.
Em ambos os dicionários, para cada termo, o acento tónico é muitas vezes explicitado (lembre-se que, na altura, tanto em italiano como em português, as regras de ortografia não previam normalmente a marcação do acento, exceto para desambiguar palavras que diferiam apenas por esta caraterística, e em italiano esta convenção ainda hoje se aplica). Além disso, a técnica de definição baseia-se predominantemente na exploração das relações entre sinónimos. Em vez de fornecerem definições extensivas ou detalhadas, os dicionários recorrem a sinónimos como principal ferramenta de definição, pressupondo um conhecimento prévio e profundo por parte do usuário das nuances semânticas da língua. Este método de definição implica que o usuário tenha um domínio considerável da língua-alvo, sendo, portanto, dicionários de descodificação, em que a compreensão dos significados depende fortemente da familiaridade com a sinonímia da língua.
O dicionário português-italiano tende a utilizar um maior número de sinónimos para cada entrada, sugerindo uma tentativa de abarcar as diferentes conotações e contextos de uso das palavras. Em contraste, o dicionário italiano-português, embora também se baseie no uso de sinónimos, adota uma abordagem mais direta e simplificada, utilizando menos variações sinónimas para cada termo.
A semelhança no número de entradas e na técnica de definição entre os dois dicionários reforça a ideia de que foram compilados simultaneamente. A correspondência na estrutura e nos métodos utilizados sugere uma continuidade no processo de compilação, embora adaptada às particularidades de cada língua.

A análise das entradas dos dois dicionários quase gémeos de Raqueni e Lafayette, que se mantêm inalteradas ao longo do tempo, permite-nos voltar à questão do sucesso editorial desta obra. Com efeito, a persistência editorial de um dicionário português-italiano publicado pela primeira vez em 1899, que permaneceu em circulação durante mais de 40 anos sem alterações substanciais no conteúdo textual, não se justifica apenas pela habilidade comercial dos livreiros.
A lista de entradas deste dicionário é resultado de um processo de revisão, que envolveu várias etapas de refinamento. Inicialmente, a seleção de vocábulos foi baseada numa lista extensa, preparada para um dicionário monolingue de português. Posteriormente, essa lista foi reduzida para a criação de um dicionário bilingue português-inglês, o que implicou a eliminação de termos técnicos altamente especializados, tornando o vocabulário mais acessível e aplicável a um público mais amplo. Finalmente, na transição para o formato português-italiano, a lista foi novamente revista, desta vez com o objetivo de excluir termos de uso muito restrito, mantendo apenas as palavras de uso mais frequente e prático.
Este processo de refinamento resultou numa lista de entradas que permitiu ao dicionário manter-se relevante durante mais de quatro décadas. A seleção cuidadosa dos vocábulos focou-se no vocabulário quotidiano e no especializado de uso mais difundido, o que garantiu que o dicionário permanecesse útil tanto para especialistas quanto para utilizadores gerais. A longevidade do dicionário é, portanto, atribuível à estabilidade e relevância do seu corpus lexical, que foi cuidadosamente ajustado para refletir as necessidades do seu público-alvo.
É notável a longevidade do corpus lexical do dicionário português-italiano, cuja primeira edição remonta ao final do século XIX, sobretudo considerando que foi utilizado como base para as edições subsequentes publicadas pela editora Lello entre 1974 e 2000.
A revisão significativa ocorrida em 1974 manteve a atribuição autoral original a La Fayette e Raqueni, mas introduziu mudanças substanciais, especialmente na parte italiana do dicionário, que foi revista por Enzio Di Poppa Volture (1898-1982). Após uma carreira académica como professor e diretor de escolas secundárias em Itália, Volture mudou-se para Portugal em 1939, onde desempenhou o cargo de leitor de italiano na Universidade de Coimbra. Posteriormente, tornou-se diretor do Istituto Italiano di Cultura do Porto, um cargo que lhe permitiu aprofundar os laços culturais entre os dois países. Durante o seu tempo em Portugal, e mesmo após o seu regresso a Itália em 1950, Volture continuou a publicar trabalhos sobre a poesia trovadoresca portuguesa e a realizar traduções de textos clássicos portugueses, incluindo o teatro de Gil Vicente (1953–1954), de Francisco Manuel de Melo (L’apprendista gentiluomo, 1958) e Os Lusíadas de Luís de Camões (1972), publicadas pela editora Sansoni, em Florença.
Além de rever o corpus lexical e as definições, foi também necessário atualizar a ortografia do dicionário, que estava desalinhada com os regulamentos ortográficos estabelecidos em Portugal e no Brasil desde 1907. A ortografia da edição original tinha características modernas para a época, como a simplificação de consoantes duplicadas, o que pode ter contribuído para a sua aceitação prolongada.
A normalização ortográfica acentua-se a partir da década de 1940, com o Acordo Ortográfico de 1945, adotado por Portugal, mas não pelo Brasil. Este acordo visava uniformizar a ortografia da língua portuguesa, mas as divergências entre as normas dos dois países persistiram, especialmente em termos de acentuação gráfica e uso de certas consoantes. A partir da década de 1970, no entanto, houve um esforço mais concertado para aproximar as ortografias, embora através de reformas separadas. Em 1971, o Brasil implementou uma reforma que eliminou o acento circunflexo usado para distinguir homógrafos, uma das principais fontes de divergência ortográfica com Portugal. Além disso, foram abolidos os acentos que marcavam a sílaba subtónica em palavras derivadas com o sufixo ‘-mente’ ou em palavras iniciadas por ‘z-’, uma mudança que Portugal também adotou em 1973 (Castro, Duarte & Leiria, 1987, p. 139-197).
Estas reformas ortográficas, embora distintas, ajudaram a reduzir as divergências entre as ortografias de Portugal e do Brasil, e a revisão do dicionário português-italiano publicada em 1974 refletiu essas mudanças, permitindo a continuidade do uso e relevância do dicionário por mais um quarto de século.
A versão revista intitula-se Novissimo dizionario portoghese-italiano sulla base dell’ultima convenzione ortografica portoghese-brasiliana. O prólogo, assinado por Enzio Di Poppa Volture, traça para o pequeno dicionário objetivos mais ambiciosos do que ser um manual prático. Principia por sublinhar a relevância histórica das relações culturais entre Portugal e Itália, desde o período medieval, relembrando eventos e as trocas culturais entre poetas e artistas renascentistas, para contextualizar a importância de uma obra que promova o entendimento linguístico entre os dois países. A iniciativa de modernizar o dicionário antigo, anteriormente compilado por Raqueni-La Fayette, reflete a necessidade de atualizar os recursos linguísticos disponíveis para os falantes contemporâneos. O autor reconhece que, embora o progresso científico e técnico tenha introduzido novos termos nas línguas, nenhum dicionário pode acompanhar perfeitamente a rápida evolução lexical. Assim, este dicionário procura não só cobrir o vocabulário atual das línguas italiana e portuguesa, mas também preservar termos históricos que permitem aos utilizadores dialogar com obras literárias de épocas passadas, como as de Dante, Gil Vicente, Ariosto e Camões.
Por fim, o autor oferece orientações práticas sobre a pronúncia, demonstrando a sua preocupação com as dificuldades que tanto os falantes de italiano como os de português podem encontrar. A prática de acentuar as palavras no dicionário, especialmente em casos onde a acentuação é essencial para evitar equívocos, visa facilitar a correta pronúncia, uma consideração importante, especialmente para leitores estrangeiros. O autor também propõe recomendações específicas para a pronúncia de combinações vocálicas e consoantes, como nasalações em português e a articulação clara das vogais em italiano, refletindo a sua experiência pedagógica e o seu objetivo de tornar este dicionário uma ferramenta útil para a comunicação oral.
A edição de 1974 do dicionário português-italiano preserva a base do trabalho lexicográfico de 1889, mantendo a maior parte das definições e entradas originais. As diferenças encontradas, sobretudo na ortografia, refletem ajustes decorrentes das reformas ortográficas e de uma padronização da língua ao longo do século XX. A análise comparativa entre os dicionários, usando aqui como exemplo uma pequena sequência de duas famílias de palavras, revela a grande proximidade no que respeita ao tratamento do vocabulário fundamental.
A tabela 5 sintetiza a comparação das entradas dos dois dicionários.
O dicionário de 1974 apresenta um conjunto de entradas que corresponde de forma bastante próxima ao de 1889 e as definições são muito semelhantes. Por exemplo, o termo superbia é definido de maneira quase idêntica em ambas as edições: em 1889 como soberba, orgulho, vangloria; pompa, magnificencia e em 1974 como soberba, orgulho, vanglória; pompa, magnificência. As pequenas variações ortográficas, como o uso de “gloria” versus “glória” ou “magnificencia” versus “magnificência”, refletem mudanças normativas mais do que alterações de significado. A diferença mais notória entre os dois dicionários é a atualização ortográfica, alinhada com as reformas ortográficas que ocorreram ao longo do século XX. As alterações refletem principalmente a padronização de acentos e a adaptação de certas grafias às normas mais modernas.

Analisando uma série mais extensa de entradas (SAC-, ver Apêndice), verifica-se que há uma tendência para introdução de novas entradas, que correspondem a palavras que não estão presentes na versão anterior, mas que não eram desconhecidas no final do século XIX, como são os casos de sacarificação, sacarificar, sacarifícavel, sacarina, sacarose, que já se encontravam no dicionário português-inglês, sugerindo a vulgarização de vocabulário técnico. Encontram-se também palavras novas como sachola, sacholar e sacudimento, refletindo novas preferências lexicais e derivações de palavras.
Ambas as edições incluem termos como sovranamente, sovranità, sovraneggiare, superbamente, superbia, superbire, superbo, e superbiente. Não se observam entradas suprimidas nem novas entradas no corpus de 1974 em comparação direta com as entradas de 1889, no que diz respeito aos termos analisados. Algumas entradas do dicionário de 1889 foram suprimidas, como sacabolas, sacabocado, sacafilaça, sacapelouro, sacatrapo, saccomão, indicando uma obsolescência desses termos.
Neste ensaio, apresentámos uma reconstrução e contextualização completa e, no estado atual dos conhecimentos, exaustiva da história editorial dos dicionários português-italiano e italiano-português de Raqueni e La Fayette, publicados pela primeira vez em 1899.
Este dicionário bilingue, apesar de nunca ter sido atualizado, revelou uma vitalidade extraordinária, pois foi publicado em numerosas reimpressões e versões durante mais de 40 anos. Se a isto juntarmos a nova edição publicada pela Lello nos anos 70 desta vez com uma atualização substancial, mas não esmagadora, do corpus lexical, os seus ecos continuam até ao início dos anos 2000, se não até nós. Esta vitalidade explica-se pelas escolhas editoriais – mais ainda do que pelas escolhas comerciais – da editora Aillaud, que confiou a tarefa de editar os dois volumes a dois estudiosos de língua materna capazes de reconstruir as subtilezas denotativas e conotativas do léxico em uso. Estes autores adotaram uma técnica lexicográfica moderna, quer imprimindo à obra as caraterísticas de um dicionário de descodificação baseado num conhecimento aprofundado da língua materna, quer concentrando o corpus lexical num vocabulário desprovido de termos técnicos altamente especializados – os mais suscetíveis de obsolescência sob a pressão do progresso científico e tecnológico – e mais acessível e aplicável a um público mais amplo.
Assim, apesar da sua natureza prática e portátil, os dicionários foram adaptados ao longo do tempo a diversas utilizações, tanto de carácter prático como: comércio, turismo, aprendizagem de línguas estrangeiras, tradução, trabalho literário e editorial.
Na segunda parte deste ensaio, analisámos algumas escolhas lexicográficas que fazem deste dicionário uma importante fonte documental para o estudo da evolução do português e do italiano, como, por exemplo, a atenção dada à variedade brasileira do português e, em particular, à terminologia relativa à natureza e à vida social deste país lusófono. Mas isto é apenas um começo: de facto, o património de 37 mil entradas italianas e cerca de 40 mil entradas em português e a extensa documentação de sinónimos oferecida para cada lexema prestam-se a numerosos estudos sobre a evolução semântica das palavras e o aparecimento de neologismos e empréstimos.

Alice Girotto





