Secciones
Referencias
Resumen
Servicios
Buscar
Fuente


O Rio Oiapoque visto por Théodore Lacordaire
The Oiapoque river as seen by Théodore Lacordaire
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104164, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina

Artigo


Received: 08 September 2024

Revised document received: 03 December 2024

Accepted: 17 November 2024

Published: 01 December 2024

DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7968.2024.e104164

Resumo: O presente artigo propõe uma reflexão acerca do papel da tradução do relato de viagem na contemporaneidade, considerando também a tradução realizada pelo próprio viajante no seu contato com o Outro. Explora-se a influência da viagem e de sua narrativa na divulgação do conhecimento sobre o mundo, bem como seu possível impacto na atual crise climática. Inicialmente, baseamo-nos em discussões sobre ecologia e tradução (Cronin, 2000, 2021, 2022), assim como sobre viagem, tradução e escrita (Cronin, 2000; Fordsdick, 2019; Machado & Pageaux, 2001). Em seguida, analisamos o relato de Théodore Lacordaire, intitulado “Excursion dans l’Oyapock”, originalmente publicado na Revue des Deux Mondes em 1833. Durante essa análise, percebemos que a descrição da região do Oiapoque e das comunidades indígenas já revelava indícios de extermínio da população indígena, desmatamento e os subsequentes impactos sociais e ambientais.

Palavras-chave: Estudos da tradução, viagem, Théodore Lacordaire.

Abstract: The article proposes a reflection on the role of translation in travel narratives in contemporary times, considering also the translation performed by the traveler in their interaction with the Other. It explores the influence of travel and its narrative in disseminating knowledge about the world, as well as its potential impact on the current climate crisis. Initially, we draw on discussions about ecology and translation (Cronin, 2001, 2021, 2022), as well as on travel, translation, and writing (Cronin, 2000; Fordsdick, 2019; Machado & Pageaux, 2001). Subsequently, we analyze Théodore Lacordaire’s account titled “Excursion dans l’Oyapock”, originally published in the Revue des Deux Mondes in 1833. During this analysis, we observe that the description of the Oiapoque region and its indigenous communities already hinted at signs of population extermination, deforestation, and the subsequent social and environmental impacts.

Keywords: Translation studies, travel writing, Théodore Lacordaire.

1. Introdução

Meu pai foi um grande especialista da Floresta Amazônica, ele se dedicava ao estudo das abelhas sem ferrão encontradas nesse habitat. No início dos anos 2000 tive a oportunidade de participar de uma pequena expedição ao Rio Negro organizada por ele. Assim, pude ver como o comandante do barco tentava encontrar os trechos mais navegáveis do rio, evitando com isso os bancos de areia; como se dormia nas redes nas encostas dos barrancos ao som do coaxar dos sapos; vi a necessidade de se ter um mateiro para adentrar minimamente na floresta e não se perder; e vi também como a conversa corriqueira com a população ribeirinha era essencial para se encontrar os ninhos das abelhas que se procurava. Essa breve experiência ajudou a despertar meu interesse para as narrativas de viagem dedicadas à região amazônica.

De acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), instituição científica brasileira e amazônida, entre 2019 e 2022, o desmatamento na Amazônia brasileira chegou a 35.193 km2.

A Amazônia sofreu em 2022 com o quinto recorde anual consecutivo no desmatamento, segundo o monitoramento por satélites do Imazon. Entre janeiro e dezembro, foram devastados 10.573 km², a maior destruição em 15 anos [...]. Isso equivale à derrubada de quase 3 mil campos de futebol por dia de floresta.1

(Imazon, 2023)

O mesmo Instituto divulgou que a floresta amazônica teve, em janeiro de 2024, seu décimo mês consecutivo na redução do desmatamento. Hoje, o aquecimento global e crise climática têm preocupado a população mundial. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alerta para os prováveis risco de uma crise climática sem precedentes.

O IPCC foi criado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial em 1988 e, em 2022, alertou para os prováveis riscos de uma crise climática sem precedentes. Pela primeira vez, o relatório do IPCC trouxe um olhar sobre o impacto social da mudança climática na região da Amazônia2.

Patrícia Pinho, especialista em ecologia humana e coautora do estudo do IPCC, explicou os efeitos do aquecimento global para as populações indígenas da Amazônia, os riscos a que elas estão submetidas e a espécie de êxodo em direção às cidades impulsionado pela mudança climática:

No caso da Amazônia brasileira, a gente tem mostrado que os povos indígenas e a população mais tradicional, ela está no cerne da questão dos impactos que geram a vulnerabilidade à exposição, que é a mudança do uso da terra, que são atividades ilegais de desmatamento, de mineração, conflitos fundiários que acontecem dentro do seu território e mais os impactos das mudanças climáticas. O que a gente mostra é que essa população está num risco muito, muito grande.3

(ONU, 2022)

Com esses dados em mente e influenciada pelas ideias desenvolvidas nos estudos de Michael Cronin sobre eco-tradução e viagem (2000, 2013 e 2022) passamos a nos questionar sobre o papel da viagem e sua escrita: Como a viagem e a escrita da viagem contribuíram para a degradação do planeta? Que papel teve a escrita e tradução do relato de viagem no alerta das massas para a crises climática e ambiental? Esse questionamento nos levou, dessa maneira, a refletir sobre as imagens (Machado & Pageaux, 2001) apresentadas na tradução (Cronin, 2000 e 2013) de Théodore Lacordaire do Rio Oiapoque.

2. A viagem e sua escrita

Charles Fordsdick (2019, p. 265), ao retomar Jacques Meunier afirma:

Jacques Meunier afirma que separar a palavra «écrivain-voyageur» (escritor-viajante) não deixa ‘viajar’ e ‘escrever’ como entidades separadas, mas sim um escritor-viajante dissecado no qual os dois elementos não podem ser separados. Ele sugere que viajar e escrever são entrelaçados, interdependentes e frequentemente são atividades indistinguíveis

(Fordsdick, 2019, p. 265. Tradução nossa).4

Percebe-se, assim, a intrínseca relação entre o viajante, a viagem e sua escrita. A tradução e a viagem, por outro lado, podem ser vistas, segundo Cronin (2000; 2013), como ideias que viajam por meio da tradução de uma língua e cultura para outra. Ou melhor, como ideias e/ou imagens sobre cultura e sociedade adquirindo papel de relevo na formação de identidades.

A viagem, entendida enquanto mobilidade, atravessa os tempos e é considerada por Machado e Pageaux como “[...] simultaneamente, uma experiência humana singular, única, inconfundível para aquele que a viveu, e um testemunho humano que se inscreve num momento preciso da história cultural de um país: o do viajante” (Machado & Pageaux, 2001, p. 33).

Ainda, conforme salienta Lilia Schwarcz (2001, p. 616), as viagens, na realidade, não conduzem o viajante a um ambiente completamente desconhecido, não o lançam em uma total e adversa exterioridade. Elas modificam e diferenciam seu próprio mundo, tornando-o estranho a si mesmo. Portanto, o sentimento de estranhamento durante a viagem não está relacionado ao “outro”, mas sempre ao próprio viajante, que percebe sua própria relação de alteridade. Em concordância com a observação de Rousseau que diz que ao conhecer o outro, apenas alcançamos um entendimento mais profundo de nós mesmos.

A escrita de viagem como um registro contínuo dos seres humanos em movimento e de seu envolvimento com o ambiente revela mudanças nas percepções do mundo e ajuda a moldar o olhar sobre esse mesmo mundo. De acordo com Cronin (2022), a escrita da viagem também tem sido um fator poderoso na percepção de como o mundo tem sido construído, mas também destruído pelo homem.

A prática da narrativa de viagem possui uma extensa trajetória. Aqui, interessa-nos sua prática a partir do século XVIII, quando se registrou um aumento espetacular do número de títulos a ela dedicado (Cronin, 2022). Nesse período, a viagem não apenas representava o ato de deslocamento, mas também a narrativa dela resultante, apresentando-se como um relato que se pretende real, apesar de ser sempre virtual, pois o leitor deve fazer uso de sua imaginação para reconstruir a paisagem que está sendo por ele descoberta. Não se tratava apenas de ver, mas também de registrar o que era visto. A experiência precisava estar gravada no papel para ter valor. A jornada era vista, portanto, como um convite à reflexão histórica, afastando-se do pitoresco e das emoções.

A revolução nos meios de transporte, o aumento da alfabetização e a disseminação da imprensa exerceram uma influência significativa na escrita e circulação das narrativas de viagem durante o século XIX. De acordo com Tim Youngs (2013), muitas dessas narrativas foram elaboradas considerando o público em geral. Apesar de incluírem informações científicas, elas eram acessíveis ao leitor tanto financeira quanto intelectualmente.

O século XIX também testemunhou a existência de muitos cientistas de gabinete que baseavam suas teorias nos relatos de viajantes. Muitas vezes, eles davam orientações a estes últimos. Havia também instruções publicadas por instituições, como museus, que explicavam ao viajante aquilo que deveria ser visto e como. Essas instruções explicavam de que forma o mais comum dos viajantes poderia contribuir para enriquecer as coleções de plantas, insetos etc. dos museus do Velho Mundo se soubesse o que e como coletar, além das regras básicas de preservação do material coletado. A descrição passa a ser um prelúdio para a apropriação do mundo exterior.

No final do século, à medida que disciplinas como a antropologia se profissionalizavam, as funções distintas da narrativa de viagem, isto é, informar e entreter, distanciavam-se, havendo um movimento em direção a uma maior especialização (Youngs, 2013).

A escrita de viagem hoje é geralmente considerada um gênero literário menor, lido principalmente para entretenimento pessoal. No entanto, as viagens e jornadas dos séculos XVIII e XIX eram certamente uma forma muito popular e amplamente vendida (muito mais do que o relato de viagem moderno). Na era de Cook, Darwin, Mungo Park, Arthur Young, William Gilpin e muitos outros, o gênero era ao mesmo tempo um meio vital para o debate e a disseminação em uma ampla gama de disciplinas e discursos

(Thompson, como citado emCronin, 2022, p. 14. Tradução nossa).5

Os românticos do século XIX incorporaram a temática da viagem em suas criações poéticas e românticas, especialmente na França e na Alemanha. Segundo Michel Butor (1972), a relação entre viagem e escrita se tornou mais evidente durante esse período, introduzindo a ideia de que a arte de viajar é também uma arte de escrever. Nesse período, prevaleceu uma forma mais livre, direta e próxima da confissão, mantendo-se o espírito crítico do Iluminismo.

François Laplantine (1995, p. 503) exemplifica essa transformação ao destacar a conquista da América como um tema literário.

A observação daquilo que nunca havia sido visto é uma aventura tão marcante que transforma a Conquista em um evento literário: escrever sobre o que nunca tinha sido escrito. Foi o impacto da América, tornada paixão americana, que os conduziu a inventar novas formas de expressão.

(Laplantine, 1995, p. 503.Tradução nossa)6

Esse período também marcou o surgimento de uma nova forma de viagem: o do pacote turístico e do guia de viagem impresso (Youngs, 2013, p. 54). Agora, as viagens (de lazer) eram organizadas para os turistas por meio de itinerários pré-definidos. O turismo nesse contexto foi caracterizado pelo aumento do acesso à classe média devido à melhoria e redução dos custos nos transportes. No entanto, essa democratização da viagem trouxe consigo o receio da perda da experiência exclusiva do estrangeiro, estabeleceu-se então uma distinção entre o turista e o viajante que buscava autenticidade através da sua diferença em relação ao Outro.

Na contemporaneidade a viagem se caracteriza pelo seu grande crescimento. O turismo, por exemplo, influencia a economia de muitos países. Nas últimas duas décadas, o número de turistas mais que duplicou, passando de 664 milhões em 1999 para 1,5 bilhão em 2019, enquanto as receitas do turismo em todo o mundo dispararam de 455 bilhões em 1999 para USD 1,7 trilhão em 2019 (Gambier; Doorslaer, 2021, p. 213).

Na era do Antropoceno, de acordo com Cronin (2022) onde se destaca a capacidade humana de impactar profundamente todos os aspectos da vida no planeta, não se pode mais abordar o meio ambiente como algo distante e dispensável, pois passou a ser algo constitutivo de nós mesmos. Ao longo dos séculos, a escrita de viagem desempenhou, assim, um papel significativo na comercialização e externalização do meio ambiente.

Ao usar a viagem como um ponto de partida para a conscientização ambiental, Cronin afirma ainda que à medida que se avança em direção à modernidade tardia, é possível perceber como a escrita de viagem não apenas destaca a gravidade da crise ambiental, mas também aponta possíveis soluções para enfrentá-la.

Desse modo, o relato de viagem dá a conhecer novas terras, novas paisagens. E, ao chamar a atenção de determinada paisagem/ambiente, ele contribui para o seu povoamento (Cronin, 2022), consequentemente, para a futura destruição de um ecossistema intacto.

3. A narrativa de viagem

A narrativa de viagem se destaca por sua tipologia variada, abrangendo gêneros como diário íntimo, autobiografia, discurso epistolar, ensaio etnográfico, literário e científico. Sua flexibilidade proporciona liberdade formal, permitindo adaptações às mudanças estéticas e ideológicas da sociedade.

Trata-se de um gênero flexível que parte da premissa da reescrita, da reformulação de uma experiência individual que, ao ser publicada, ultrapassa o domínio privado e se integra ao domínio público. Ao iniciar uma narrativa, o escritor-viajante estabelece um contrato de cumplicidade com o leitor e cabe a ele demonstrar quanto a tradução é necessária ali: “Uma das principais tarefas dos escritores de viagem é demonstrar o quanto de tradução precisa ser feito, mesmo que seja apenas para justificar seu papel narrativo como intérprete das cenas que testemunham”7 (Cronin, 2000, p. 36. Tradução nossa).

A viagem torna-se o principal meio de contato entre culturas, configurando os espaços, as “zonas de contato”, conceito forjado por Mary Louise Pratt (1999), onde a tradução cultural ocorre. Michael Cronin (2000) destaca o papel crucial da linguagem e da tradução durante a viagem, enfatizando que o viajante, ao lidar com línguas diferentes, influencia sua interpretação da realidade estrangeira e constroi identidades, tanto a sua quanto a do Outro. Esse processo de construção é essencial para o encontro com o Outro e a transformação mútua (Ferreira, 2017).

O desconhecimento da língua do Outro pode causar desentendimento e humilhação àquele que experiencia a viagem, tanto em sua vivência quanto em sua representação da realidade estrangeira vivenciada. Assim, a relação entre viagem e língua é fundamental (Cronin, 2000). Hoje, para evitar desentendimentos, viajantes têm feito uso de aplicativos de tradução como o Google tradutor, Reverso, iTranslate etc..

4. Théodore Lacordaire

Em meio à correspondência do crítico francês Sainte-Beuve preservada pelo Institut de France8, encontra-se uma carta de Théodore Lacordaire na qual se pode ler informações sobre sua família:

Liège, 17 de dezembro de 1849

Meu caro amigo,

Sua carta me chegou às mãos ontem à noite e me levanto bem cedo para respondê-la.

[...]

Nosso pai era médico e veio se estabelecer aqui após ter participado de uma campanha durante a guerra da América a bordo da esquadra do Almirante Rochambeau: essa foi a única aventura de sua vida. Nossa mãe, Anne Marie [Dugied] era filha de um escrivão do parlamento de Borgonha. Esse casamento durou somente cinco anos, pois meu pai faleceu aos 46 anos de uma infecção no piloro, deixando três filhos e minha mãe grávida do quarto que nasceu oito dias após a morte de meu pai. Para diminuir as dificuldades da família, me colocaram imediatamente como aluno interno na casa de um pároco a seis léguas de Dijon. [...] Ao entrar para o liceu de Dijon em 1811, ali o encontrei [o irmão Jean Baptiste] estabelecido há cerca de dois anos. Ali permanecendo até o final do ano de 1818; eu saí no final de 1817; consequentemente, ficamos seis anos lado-a-lado: eu estava um ano adiantado em relação a ele.

[...]

Ao sair do liceu, meu irmão juntou-se a mim na Escola de Direito. Eu não estudava muito, a matéria me inspirava uma repugnância invencível [...]

[...] Fui para Paris em 1822 [...]. Eu o deixei [Jean Baptiste] alguns dias depois para ir ao Havre onde permaneci dois anos antes de embarcar para a América [...]

[...] Eu corria o mundo e havia me tornado completamente estrangeiro ao que acontecia na França [...]

Todo a seu dispor,

Théodore de Lacordaire (1849)

Jean-Théodore Lacordaire (Biographie Nationale, 1890; Nappo, 1998; Broc, 1999) nasceu na cidade de Recey-sur-Ource, situada na região da Borgonha, França, em 1801. Cursou direito na faculdade de Dijon, mas desde cedo interessou-se pelas ciências naturais. Com apenas 24 anos, dando vazão a essa sua paixão, embarca no Havre em direção à América do Sul. De 1825 a 1832 realizou quatro viagens, passando, dentre outras localidades, pelo Chile, Guiana Francesa, região do Prata e Brasil. De volta à Paris, em 1832, torna-se colaborador de diversos jornais e revistas literárias e científicas, franceses e belgas, tais como: Revue des Deux Mondes, Temps, Annales des sciences naturelles, Annales de la Société entomologigue de France, Bulletins de l’Académie royale de Belgique, etc.

Em 1835, torna-se professor de zoologia e anatomia comparada da Universidade de Liège, Bélgica, da qual, quinze anos mais tarde, será reitor. Algumas das principais obras que publicou durante esse período são: Introduction à l’entomologie, Monographie de la famille des Erotyliens, Monographie des Phytophages, Gênera des coléoptères. 

Foi membro de muitas academias e sociedades científicas. Candèze, em verbete da Biographie nationale (1890), o considera o melhor entomologista de sua época. Lacordaire faleceu na Bélgica em 1870.

5. O Oiapoque

Em Revue des Deux Mondes: intermediária entre dois mundos, Camargo (2007) analisa uma série de artigos, de autoria variada, publicados sobre o Brasil na famosa revista francesa Revue des Deux Mondes, ao longo do século XIX. Dentre os autores, quase todos viajantes, encontra-se Théodore Lacordaire. As experiências de viagens deste último estavam na base de seus escritos aí publicados, a saber: “Un souvenir du Brésil”, “L’Or de Pinheiros” e “Excursion dans l’Oyapock (I e II)”, nestes faz referência, mais particularmente, à Guiana Francesa.

Entre as várias informações, relatos de viagens e análises divulgadas sobre o Brasil9 na Revue des Deux Mondes, os textos produzidos por Théodore Lacordaire se destacam devido à sua abordagem mais literária. Em comparação com os demais, de autoria de Ferdinand Denis, Adolphe D’Assier, Conde de Suzannet, dentre outros (Camargo, 2007), seus escritos apresentam um caráter mais narrativo, incorporando a criação de personagens, permitindo assim que seus interlocutores expressem suas opiniões e estabelecendo um diálogo direto com o leitor. Apesar de seu estilo peculiar, o viajante não se distancia dos grandes temas abordados pelos articulistas da Revue, isto é, a natureza luxuriante, a falta de civilização, a escravidão e a indolência indígena.

Gostaríamos de frisar outra característica da escrita de Lacordaire, o uso de estrangeirismos. Apesar de afirmar que sua comunicação com os índios era feita por meio de sinais, como veremos mais adiante (Lacordaire, 1833, p. 248), seu texto é repleto de estrangeirismos (calimbé, camisa, cachiry etc.), característica que optamos por manter na nossa tradução. Ele arrisca a inserir um pequeno vocabulário da língua wajãpi no final do artigo “Excursion dans l’Oyapock II” (1833, p. 258-259).

Em “Excursion dans l’Oyapock II” (1833), que trago traduzido para a língua portuguesa, o viajante Lacordaire descreve sua jornada de oitenta dias (ida e volta) pelo rio Oiapoque, partindo de Caiena, Guiana Francesa. O objetivo principal de sua viagem era conhecer os indígenas dessa região:

Nos primeiros dias de outubro de 1831, deixei a cidade de Caiena para ir ao Oiapoque*, o rio mais importante da Guiana Francesa após o Maroni, que nos separa da colônia de Suriname e cuja posse é compartilhada conosco pelos holandeses...

* Este rio, cujas fontes, próximas às dos afluentes do Amazonas, conferem-lhe alguma importância geográfica, foi explorado em diversas ocasiões, sem que se tenha identificado, até o momento, o planalto que lhe dá origem. Seu curso está traçado nos mapas apenas até o Camopi, seu principal afluente, localizado a cinquenta léguas de sua foz. […]. Apenas o título do meu relato é suficiente para indicar que, ao embarcar nessa viagem, eu tinha um objetivo completamente diferente (do que determinar a direção e a altura do planalto). Meu principal desejo era conhecer os indígenas do Oiapoque, após ter visitado aqueles de Sinnamary, Conamama, Organabo etc.10

(Lacordaire, 1832, p. 613.Tradução nossa).

A navegabilidade dos rios da Guiana é delicada e só pode acontecer nos períodos de seca, de agosto a novembro, mesmo período em que os indígenas do baixo rio preparam suas roças e consertam seus carbetos (Lacordaire, 1832, p. 622). Assim, a viagem de Théodore Lacordaire encontra seu primeiro obstáculo: a dificuldade para montar sua equipagem, pois os indígenas, estando ocupados, negam o trabalho. Após dias de busca, ele se depara com um morador que se preparava para subir o Oiapoque: “... eu soube que um habitante [...] estava se preparando para subir o rio para realizar trocas com os Wajãpi. Uni-me a ele, e em 20 de outubro, fomos descansar na primeira cachoeira11 (Lacordaire, 1832, p. 622. Tradução nossa).

A expedição era composta por cerca de doze pessoas distribuídas em duas canoas, a maior destinava-se ao uso dos viajantes e cinco indígenas e a menor levava as mulheres dos indígenas que compunham a equipagem, além dos víveres e outros objetos necessários à jornada. A comunicação de Lacordaire com seu grupo era feita por meio de sinais “... Os Wajãpi não entendiam uma palavra de francês, e eu, por minha vez, sabia apenas algumas palavras de sua língua, de modo que só podíamos nos comunicar por gestos12 (Lacordaire, 1833, p. 247. Tradução nossa).

Ao longo da narrativa, Lacordaire descreve a paisagem luxuriante da região do Oiapoque, que poderia servir como objeto de estudo e fonte de inspiração para pintores, o terreno acidentado, as cachoeiras: “La beauté des sites qui s’offraient à chaque instant à nos yeux nous faisait oublier ces fatigues, et nous nous arrêtâmes plus d’une fois pour contempler à loisir le tableau admirable qui se déroulait devant nous sur les deux bords de la crique...” (Lacordaire, 1833, p. 245). E versa ainda sobre as tribos indígenas, seus costumes (agricultura, habitação, antropofagia, danças, música, nudez, poligamia etc.) que encontra ao longo do percurso: Galibi, Aroua, Palicour, Pirious, Cariacouvous, Noragues, Larawanes, Oyampis, Coussanis e Emerillon13. O seu foco, no entanto, será no povo Wajãpi (Oyampi).

De acordo com o viajante, a população mais civilizada do Oiapoque encontrava-se nas proximidades da antiga paróquia do Oiapoque e das missões jesuítas, destruídas pelos ingleses em meados do século XVIII (Lacordaire, 1832, p. 615). O restante da população era composto por indígenas: “O restante da população do Oiapoque é composto pelos indígenas cujos carbetos e plantações são visíveis aqui e ali ao longo das margens do rio”14 (Lacordaire, 1832, p. 617. Tradução nossa).

Théodore Lacordaire afirma que o retrato desses povos indígenas já tinha sido traçado muitas vezes para que necessitasse refazê-lo, dessa forma, ele apresenta ao leitor um quadro suscinto das boas e más qualidades deles: a cor é acobreada, os cabelos são grossos e lisos e nunca branqueiam. Possuem uma fisionomia apática e indiferente e grande destreza nas atividades de caça e pesca. São melancólicos e indolentes por natureza, silenciosos, sempre calmos e resistentes à dor. Possuem também defeitos, como, por exemplo, o uso de veneno nos casos de vingança.

Todo mundo sabe que a cor deles varia do vermelho acobreado ao amarelo-amarronzado; que seus cabelos são grossos, lisos, de um preto escuro, e nunca ficam grisalhos, mesmo na idade mais avançada. Sua barba é escassa, e eles a arrancam à medida que ela aparece. Trata-se de um equívoco, mesmo em escritos muito recentes, afirmar que eles são desprovidos de pelos no resto do corpo. Eles têm apenas um pouco menos que os europeus. Seus traços também não têm essa expressão estúpida que geralmente se atribui a eles, expressam mais apatia e indiferença do que falta de compreensão. Já vi alguns que, pela expressão facial e beleza das formas, poderiam servir de modelos para artistas. Eles gostam de se pintar com genipapo e urucum sem recorrer a mutilações nos lábios, no nariz e nas orelhas, que tornam tão feios os Botocudos e outras tribos do Brasil. Sua vestimenta consiste em calimbé para os homens e camisa para as mulheres, sendo que estas últimas frequentemente andam nuas, o que nunca é visto entre os primeiros. Sua vida, meio sedentária, meio nômade, ainda os distingue das tribos brasileiras […] que vivem inteiramente da caça ou pesca, mudando constantemente de lugar.15

(Lacordaire, 1832, p. 621. Tradução nossa).

Apesar dessa afirmação inicial, ou talvez por causa dela, Lacordaire observou com atenção as tribos indígenas do Oiapoque e trouxe para seu leitor, ao ritmo de suas andanças, informações sobre a indolência, a divisão do trabalho entre homem e mulher, a poligamia, a antropofagia, a agricultura, a caça e a pesca, a indústria, a religião, as línguas etc.

Em uma de suas paradas, desta vez na casa dos Paranapouna, versa sobre como essa família personificava a indolência indígena. Exceto pelos dois filhos caçadores, os demais passavam a maior parte do tempo dormindo ou balançando em redes. As mulheres, ocasionalmente, saíam da inércia para preparar aguardente ou colher batatas-doces quando a fome apertava. Em aldeias indígenas, era raro ter provisões, e cada indivíduo consumia os alimentos disponíveis de forma igualitária.

A falta de cultivo sistemático da terra pelo indígena, tópico mencionado com regularidade nos artigos da Revue des Deux Mondes sobre o Brasil (Camargo, 2007), lembra-nos a fábula A cigarra e a formiga de La Fontaine, onde os indígenas desempenhariam o papel da cigarra. Para os europeus, é incompreensível ter um plantio que não garanta autossustento, deixando os indígenas dependentes da caça e pesca, levando-os a migrar em busca de recursos. O ensino de técnicas agrícolas pela civilização é visto como um benefício, auxiliando os autóctones a controlar a natureza e evitar o desmatamento, anúncio de uma crise climática vindoura. Essa mobilidade das tribos faz com que se aproximem dos brancos.

Em uma de suas últimas paradas antes de iniciar o caminho de volta à Caiena, Lacordaire passa uma estadia de quinze dias junto da harmoniosa família de Tapaïarwar, o que o deixou com uma impressão positiva dos indígenas. Desde o banho matinal no rio até as refeições no carbet, cada membro da família se dedicava as suas atividades preferidas como caça, pesca e fabricação de flechas. As mulheres preparavam refeições, trabalhavam na roça e teciam redes de algodão. Apesar do ócio, não havia excesso de bebida (cachiry) após as danças. Tapaïarwar, cercado pela família, parecia tranquilo, evocando a imagem de um patriarca que completava pacificamente sua vida. Ao contemplar essa existência pouco conhecida, Lacordaire se questionava sobre o que a civilização poderia agregar a esse cenário, no entanto, nenhuma resposta satisfatória lhe ocorria (Lacordaire, 1832, p. 645). Indicação de que a viagem ajuda a construir sua identidade, sua própria alteridade (Cronin, 2000).

Abaixo segue a figura de um carbet:


Figura 1
Imagem de um carbet
Fonte: Barrère; Mathey (1743) [Descrição da imagem] Imagem faz parte da obra Nouvelle relation de la France equinoxiale, de Mathey Barrère (1743). Trata-se de ilustração realizada com traçado vermelho sobre fundo branco. Sobre um terreno desmatado, tem-se em um primeiro plano o desenho de uma casa aberta, sem paredes, coberta com telhado de palha. No segundo plano, tem-se o desenho do carbeto, construção triangular, com telhado e paredes de palha. Acima de cada uma dessas figuras tem-se os nomes Sura ou Case haute e Tabüi ou Grand Karbet, respectivamente [Fim da descrição].

O carbeto, formado por alguns postes cravados no chão e sustentando um telhado de folhas de palmeira, ergue-se no centro da clareira, meio oculto por uma cortina de árvores que os indígenas sempre deixam de propósito à beira do rio. No entanto, percebe-se que estariam morrendo de fome com plantações tão miseráveis, se a caça e a pesca, seu elemento natural, não lhes fornecessem tantos alimentos quanto precisam. A maior parte da mandioca, em vez de ser transformada em «couac» ou «cassava», é desperdiçada para fazer cachiry, a sua bebida favorita …16

(Lacordaire, 1832, p. 617. Tradução nossa).

Lacordaire destaca em sua narrativa que já não era possível estudar a natureza indígena em seu estado puro e selvagem. A maioria das tribos havia desaparecido, e as remanescentes estavam à beira da extinção. O avanço da população branca em direção ao interior da Guiana acelerava a extinção dos indígenas, ameaçados pelos vícios introduzidos pela civilização, resultando em uma morte mais lenta. Ainda de acordo com o viajante, a coexistência da vida civilizada e selvagem no mesmo solo era vista como impossível, e a vitória seria sempre em favor da civilização, considerada o objetivo final da humanidade em contraste com a vida indígena, tida como seu estado primitivo, comparável a uma luta desigual entre um adulto e uma criança (Lacordaire, 1833, p. 251-252).

Embora não seja possível prever, com certeza, a época em que os indígenas desaparecerão do solo da Guiana, é evidente que, a partir do momento em que a população civilizada avançar para o interior, suas tribos, já mais do que dizimadas, se extinguirão rapidamente. Esse foi o destino das nações guerreiras dos Estados Unidos e, com maior razão, deve ser o destino das tribos inofensivas da Guiana Francesa. Os brancos, é verdade, perderam aquele espírito de entusiasmo e empreendimento aventureiro que fazia dos primeiros conquistadores verdadeiros gigantes. Mas, se não levam mais, como antigamente, o ferro e o fogo de uma extremidade à outra da América, eles ainda destroem os indígenas de maneira não menos certeira, comunicando-lhes vícios que desconheciam. Tudo o que estes últimos ganharam é uma morte mais lenta. Os esforços sinceros da administração da colônia para protegê-los podem prolongar sua existência, mas não podem livrá-los do destino inevitável que os aguarda. A vida civilizada e a vida selvagem são tão incompatíveis entre si que não podem coexistir no mesmo solo, e nessa luta, a vitória nunca é incerta entre a civilização, o objetivo final do homem, e a vida indígena, seu estado primitivo: é um combate entre um homem feito e uma criança17

(Lacordaire, 1833, p. 251-252.Tradução nossa).

Nessa narrativa de 1833, Théodore Lacordaire já nos aponta para aquilo que o IPCC apontou como impacto social e ambiental da crise climática, mencionado na primeira seção deste artigo: o desmatamento fruto da agricultura de queima e corte, a aproximação da população indígena do branco e a influência negativa deste, devido aos vícios da civilização, assim como a diminuição da população autóctone.

Considerações finais

No presente artigo, procuramos refletir sobre o papel da tradução do relato de viagem na contemporaneidade, mas também da tradução praticada pelo viajante no seu contato com o Outro. Até que ponto a viagem e sua escrita contribuíram para dar a conhecer o mundo, e até que ponto contribuíram para a atual crise climática.

Em “Excursion dans l’Oyapock”, Théodore Lacordaire parte de conhecimentos prévios adquiridos por meio da leitura, de sua limitação linguística, para mostrar ao leitor do século XIX, mas também da atualidade, a situação dos povos indígenas da região do Oiapoque. Ele enumera uma dezena de povos: Galibi, Aroua, Palicour, Pirious, Cariacouvous, Noragues, Larawanes, Oyampis, Coussanis e Emerillon. Apesar de ter frisado em sua narrativa que muitos indígenas já haviam sido exterminados.

Lux B. Vidal, antropóloga da Universidade de São Paulo, em Povos Indígenas do Baixo Oiapoque (2007), enumera apenas quatro povos distintos nessa região de fronteira com o Brasil: Karipuna, Galibi-Marworno, Galibi-Kali’na e Palikur. Teriam sido todos os outros exterminados? Migraram? Fusionaram com outros povos?

A agricultura de corte-e-queima praticada pelos indígenas, onde há derrubada de pequenas áreas florestais seguida de queima da vegetação restante, também presente no relato, é uma prática milenar ainda utilizada nos dias de hoje. Segundo estudos retomados por Azevedo, a prática contribui, num primeiro momento, para prevenir a erosão e promover a formação de comunidades microbianas benéficas para o solo. No entanto, sua prática libera carbono e metano, contribuindo para o aquecimento global, além de causar perda de biodiversidade e poluição do solo e água.

Nessa narrativa do século XIX, que traz a conhecer a região fronteiriça do Brasil com a Guiana Francesa num momento em que os limites entre as duas nações inda não estavam bem definidos, assim como os usos e costumes dos povos indígenas dessa localidade, já revelava indícios de extermínio da população indígena, desmatamento e os subsequentes impactos sociais e ambientais.

Referências

Azevedo, J. (s/d). Agricultura de corte-e-queima. eCycle. https://www.ecycle.com.br/agricultura-de-corte-e-queima.

Barrère, P.; Mathey, C. (1743). Illustrations de Nouvelle relation de la France Equinoxiale, contenant la description des côtes de la Guyane... Piget, Damonneville et Durant. 

Biographie Nationale publiée par l’Académie Royale des Sciences, des Lettres et des Beaux-Arts de Belgique. (1890-1891). Tome 11. Bruylant-Christophe & Co Imprimeurs-éditeurs.

Broc, N. (1999). Dictionnaire illustré des explorateurs et grands voyageurs français du XIXe. siècle. III Amérique. Éditions du CTHS. 

Butor, M. (1972). Le voyage et récriture. Romantisme, (4), pp. 4-19.

Camargo, K. A. F. (2007). Revue des Deux Mondes: intermediária entre dois mundos. EdUFRN. 

Cronin, M. (2000). Across the lines: Travel, Language, Translation. Cork University Press.

Cronin, M. (2013) Travel and translation. In Y. Gambier & L. van Doorslaer, Handbook of Translation Studies. Vol. 4 (pp. 194-199). John Benjamins Publishing Company.

Cronin, M. (2021). Ecology of translation. In Y. Gambier & L. van Doorslaer, Handbook of Translation Studies. Vol. 5 (pp. 45-51). John Benjamins Publishing Company. 

Cronin, M. (2022). Eco-Travel: journeying in the Age of Anthropocene. Cambridge University Press. 

Ferreira, A. M. (2017). Tradução etnográfica – poética do encontro. In A. M. Ferreira; M. G. Reis & T. C. Brito (Orgs.), Crítica e tradução do exílio: ensaios e experiências (pp. 55-91). Editora da Imprensa Universitária UFG.

Forsdick, C. (2019). Travel. In C. Forsdick; Z. Kinsley & K. Walchester (Orgs.), Keyworld for Travel Writing Studies. A critical glossary (pp. 265-267). Anthem Press.

Gambier, Y. & Doorslaer, L. (2021). Handbook of Translation Studies. Vol. 5. John Benjamins Publishing Company.

IMAZON. (2023). Região teve o quinto recorde anual consecutivo na derrubada, que chegou aos 10.573 km2 entre janeiro e dezembro do ano passado. https://imazon.org.br/imprensa/amazonia-perdeu-quase-3-mil-campos-de-futebol-por-dia-de-floresta-em-2022-maior-desmatamento-em-15-anos/

Instrução para os viajantes e empregados das colônias sobre a maneira de colher, conservar, e remeter os objetos de história natural. Arranjada pela administração do Museu de História Natural de Paris. Traduzida por ordem de Sua Majestade Fidelíssima, expedida pelo Excelentíssimo ministro e secretário de Estado dos negócios do Reino. Do original francês de 1818. (1819). Imprensa Régia.  

Lacordaire, T. (1832). Excursion dans l’Oyapock I. Revue des Deux Mondes, 8(6), 613-645. 

Lacordaire, T. (1833). Excursion dans l’Oyapock II. Revue des Deux Mondes, 1(3), 239-259. 

Laplantine, F. (1995). L’ethnologue, le traducteur et l’écrivain. Meta, 40(3), 497-507.

Levasseur, E. (2000). O Brasil. Letras & Espressões.

Machado, A. M. & Pageaux, D.-H. (2001). Da literatura comparada à teoria da literatura. Editorial Presença. 

Nappo, T. (Org.). (1998). Index Biographique Français. K.G. Saur.

ONU. (2022). Relatório do clima revela desafios sociais na Amazônia, diz co-autora. https://news.un.org/pt/story/2022/03/1781392.

Pratt, M. L. (1999). Os Olhos do Império. Relatos de viagem e transculturação. (Trad. Jézio Gutierre). EDUSC. 

Schwarcz, L. M. (2001). Viajantes em meio ao Império das festas. In I. Jancsó, I. & I. Kantor (Orgs.), Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa (pp. 603-622). Hucitec; Edusp; Fapesp; Imprensa Oficial.

Vidal, L. B. (2007). Povos indígenas do Baixo Oiapoque. Museu do Índio.

Youngs, T. (2013). Reading travel writing. In T. Youngs, The Cambridge Introduction to Travel Writing (pp. 163-176). Cambridge University Press.

Notes

2 Cf. https://news.un.org/pt/story/2022/03/1781392. Acesso em 21 fev. 2024.
3 Cf. https://news.un.org/pt/story/2022/03/1781392. Acesso em 21 fev. 2024.
4 “Jacques Meunier claims that splitting in two the word “écrivain-voyageur” (travel writer) leaves not ‘travel’ and ‘writer’ as separate entities, but instead a dissected travel writer in which the two elements cannot be split. He suggests that travelling and writing are intertwined, interdependent and often indistinguishable activities”.
5 “Travel writing today is generally viewed as a minor literary genre, read principally for personal amusement. Eighteenth- and nineteenth-century voyages and travels, however, were certainly a very popular, widely selling form (far more so than modern travel writing), yet, in the age of Cook, Darwin, Mungo Park, Arthur Young, William Gilpin and many others, the genre was simultaneously a vital medium for debate and dissemination across a broad range of disciplines and discourses”.
6 “L’observation de ce qui jamais n’avait été vu est une telle aventure qu’elle transforme la Conquête en événement littéraire : écrire ce qui jamais n’avait été écrit. C’est le choc de l’Amérique, devenue passion américaine, qui les a conduits à inventer des formes nouvelles d’expression”.
7 “One of the primary tasks of travel writers is to demonstrate how much translation has to be done, if only to justify their narrative role as interpreter of the scenes they witness”.
8 « Liège, 17 Decémbre 1849

Mon cher ami,

Votre lettre m’est parvenue hier soir et je me lève de bonne heure pour y répondre.

[...]

Notre père était médecin et était venu se fixer là après avoir fait une campagne pendant la guerre d’Amérique à bord de l’escadre de l’Amiral Rochambeau: c’est la seule aventure de sa vie. Notre mère, Anne Marie [Dugied] était fille d’un greffier au parlement de Bourgogne. Ce mariage n’a duré que 5 ans, mon père étant mort à 46 ans d’affection pylore, en laissant trois enfants et ma mère enceinte d’un quatrième qui naquit huit jours après son decès. Pour déblayer le terrain on me mit immédiatement en pension chez un curé à 6 lieues de Dijon. [...] En entrant au lycée de Dijon en 1811, je l’y [seu irmão] trouvai établi depuis deux ans environ. Il y est resté jusqu’à la fin de 1818; moi j’en étais sorti à la fin de 1817; nous y sommes restés par conséquent six ans côte à côte: j’avais une classe d’avance sur lui.

[...] Au sortir du Lycée mon frère me rejoignit à l’École de droit. Je ne travaillait guère, la matière m’inspirait une répugnance invincible [...]

[...] Je me rendis à Paris moi-même en 1822 [...] Je le quittai peu de jours après pour aller au Havre où je suis resté deux ans avant de m’embarquer pour l’Amérique [...]

[...] Je courais le monde et étais devenu complètement étranger à ce qui se passait en France [...]

Tout à vous

Théodore de Lacordaire”. Cf. Institut de France, Fonds Spoelberch de Lovenjoul, Lettres adressées à Sainte-Beuve. D 604. (Tradução nossa).

9 Como os limites da colônia francesa não estavam totalmente definidos, os registros sobre essas duas regiões se imiscuem. “1. Território contestado entre a França e o Brasil – No Norte, o Brasil considera o rio Oiapoque até a sua nascente e a linha divisória das águas ditas Tumucumaque até a nascente do Maroni (ramo Tapanabono) como limitando o seu território e o da Guiana; é esse também o limite provisoriamente aceito pela administração francesa. – Mas toda a região que se estende ao sul até o Amazonas (em Macapá, sob o equador) tem sido há dois séculos e meio objeto de um litígio primeiro entre a França e Portugal, depois entre a França e o Brasil; a diplomacia ainda não resolveu...” (Levasseur, 2000, p. 14-15).
10 “Dans les premiers jours du mois d’octobre 1831, je quittai la ville de Caienne pour me rendre dans l’Oyapock*, la rivière la plus importante de la Guyane française après le Maroni, qui nous sépare de la colonie de Surinam, et dont la possession nous est commune avec les Hollandais…

* Cette rivière, à laquelle ses sources, rapprochées de celles des afluens de l’Amazone, donnent quelque importance géographique, a été explorée à diverses reprises, sans qu’on ait encore reconnu le plateau qui lui donne naissance, et son cours n’est tracé sur les cartes que jusqu’au Camopi, son principal affluent situé à cinquante lieues de son embouchure. […]. Le titre seul de mon récit suffît pour indiquer qu’en entreprenant ce voyage, je m’étais proposé un tout autre but (que celui de déterminer la direction et la hauteur du plateau). Je désirais principalement connaître les Indiens de l’Oyapock , après avoir visité ceux de Sinnamary, Conamama, Organabo, etc”.

11 “… j’appris qu’un habitant [...] se préparait à remonter pour aller faire des échanges avec les Oyampis. Je me joignis à lui, et, le 20 octobre, nous fûmes coucher au premier saut”.
12 “Oyampis ne comprenaient pas um mot de français, et de mon côté je savais à peine quelques mots de leur langue, de sorte que nous ne pouvions nous entendre que par signes”.
13 Optamos por reproduzir a grafia apresentada no texto de Lacordaire.
14 “Le reste de la population de l’Oyapock se compose des Indiens dont on voit çà et là les carbets et les plantations sur les deux bords de la rivière”.
15 “Tout le monde sait que leur couleur varie du rouge cuivré au jaune brun ; que leurs cheveux sont gros , lisses , d’un noir foncé, et ne blanchissent jamais, même dans l’âge le plus avancé. Leur barbe est peu fournie, et ils l’arrachent au fur et à mesure de son apparition: mais on à tort, et même dans des écrits tout récens , qu’ils étaient dépourvus de poils sur le reste du corps. Ils en ont seulement un peu moins que les Européens. Leurs traits n’ont pas non plus cette expression stupide qu’on s’est plu généralement à leur attribuer, et expriment plutôt l’apathie et l’indifférence que le défault de compréhension. J’en ai vu qui, pour l’expression de la physionomie et la beauté des formes, auraient pu servir de modèles aux artistes. Ils aiment à se barbouiller de genipa et de rocou sans se faire , du reste , aucune de ces mutilations aux lèvres , au nez et aux oreilles, qui rendent si hideux les Botocudos , et d’autres peuplades du Brésil. Leur vêtement , c’est le calimbé pour les hommes, et le camisa pour les femmes, et ces derniéres vont fréquemment toutes nues , ce qui ne se voit jamais parmis les premiers. Leur vie, à moitié sédentaire, à moitié errante les distingue encore des peuplades brésiliennes […] qui ne vivent absolument que du produit de leur chasse ou de leur pêche, et changent continuellement de place”.
16 “Le carbet, formé de quelques pieux enfoncés en terre, et supportant un toit de feuilles de palmier, s’élève au centre de l’abatis , à demi caché par un rideau d’arbres que les Indiens laissent toujours à dessein sur le bord de la rivière. On sent , de reste , qu’ils mourraient de faim avec d’aussi misérables plantations , si la chasse et la pêche , leur élément naturel , ne leur fournissaient pas autant de vivres qu’il leur en faut. La majeure partie même de leur manioc , au lieu d’être convertie en couac ou en cassave , est gaspillée à faire du cachiry, leur boisson favorie...”.
17 “Les temps sont passés, d’ailleurs, où l’on pouvait étudier le caractère indien dans sa pureté primitive et sa sauvage indépendance. La plupart de leurs peuplades sont éteintes aujourd’hui sans retour, ou leurs descendants, réduits à rien [...] Quoiqu’on ne puisse pas prédire d’une manière certaine l’époque à laquelle les Indiens disparaîtront du sol de la Guyane, il est évident que du jour où la population civilisée s’avancera vers l’intérieur, leurs tribus, déjà plus que décimées, achèverons promptement de s’éteindre. Ils n’en détruisent pas d’une manière moins sûre les Indiens, en leur communiquant des vices qu’ils ignoraient. Tout ce que ces derniers y ont gagné est une mort plus lente. Les efforts sincères de l’administration de la colonie pour les protéger, pourront bien prolonger leur existence, mais non les dérober au sort inévitable qui les attend. La vie civilisée et la vie sauvage sont tellement incompatibles entre elles, qu’elles ne peuvent exister simultanément sur le même sol, et dans cette lutte, la victoire n’est jamais douteuse entre la civilisation, but définitif de l’homme, et la vie indienne, son état primitif : c’est un combat entre un homme fait et un enfant.”
Conjunto de dados de pesquisa Não se aplica.
Financiamento Não se aplica.
Consentimento de uso de imagem Não se aplica.
Aprovação de comitê de ética em pesquisa Não se aplica.
Publisher Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

Author notes

Editores Marie Hélène Catherine Torres
Editores de seção Andréia Guerini

Ingrid Bignardi

Revisão de normas técnicas Ingrid Bignardi

katia.aily@ufrn.br

Conflict of interest declaration

Conflito de interesses Não se aplica.


Buscar:
Ir a la Página
IR
Scientific article viewer generated from XML JATS by