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Jules Crevaux e a exploração da região do Rio Jari no século XIX: povos e cultura
Marie Helene Catherine Torres; Letícia Fiera; Brenda Bressan Thomé;
Marie Helene Catherine Torres; Letícia Fiera; Brenda Bressan Thomé; Marcio Fernando Rodrigues Campos
Jules Crevaux e a exploração da região do Rio Jari no século XIX: povos e cultura
Jules Crevaux and the exploration of the Jari river region in the 19th century: people and culture
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104184, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina
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Resumo: Entre os anos de 1876 e 1877, o médico francês Jules Crevaux empreendeu uma expedição de reconhecimento da região do rio Jari contando com uma equipe diminuta composta por guias locais, dentre os quais destaca-se Apatu. A região compreende território pertencente atualmente à Guiana Francesa e aos estados do Amapá e Pará, no Brasil. Sua expedição resultou em um diário publicado posteriormente em Paris, em 1879, sob o título Le Tour du monde: nouveau journal des voyages. Desta obra, traduzimos o décimo capítulo intitulado “Voyage d’exploration dans l’intérieur des guyanes, par M. le docteur Jules Crevaux, médecin de première classe de la marine française, 1876-1877. - texte et dessins inédits - X”. Neste artigo, comentamos brevemente sobre a biografia de Jules Crevaux, sua expedição e as decisões tradutórias que tomamos na tradução do referido capítulo de seu relato.

Palavras-chave: Tradução de relato de viagem, Jules Crevaux, Uaiana, rio Jari, Guiana Francesa.

Abstract: Between 1876 and 1877, the French doctor Jules Crevaux undertook a reconnaissance expedition to the Jari River region with a small team of local guides, one of whom was Apatu. The region comprises territory that currently belongs to French Guiana and the states of Amapá and Pará in Brazil. His expedition resulted in a diary that was later published in Paris in 1879 under the title Le Tour du monde: nouveau journal des voyages. From this work, we have translated the tenth chapter entitled «Voyage d’exploration dans l’intérieur des guyanes, par M. le docteur Jules Crevaux, médecin de première classe de la marine française, 1876-1877. - unpublished text and drawings - X». In this article, we briefly comment on Jules Crevaux’s biography, his expedition, and the translation decisions we made when translating this chapter of his journal.

Keywords: Travel journal translation, Jules Crevaux, Wayana, Jari river, French Guiana.

Carátula del artículo

Artigo

Jules Crevaux e a exploração da região do Rio Jari no século XIX: povos e cultura

Jules Crevaux and the exploration of the Jari river region in the 19th century: people and culture

Marie Helene Catherine Torres
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
Letícia Fiera
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
Brenda Bressan Thomé
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
Vrije Universiteit Brussel, Bélgica
Marcio Fernando Rodrigues Campos
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104184, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 15 September 2024

Revised document received: 04 December 2024

Accepted: 12 November 2024

Published: 01 December 2024

1. Introdução

Na segunda metade do século XIX, o médico da marinha francesa Jules Nicolas Crevaux (1847-1882) atravessou o oceano Atlântico para empreender na Guiana Francesa, território pouco conhecido dos europeus, a exploração de novos caminhos fluviais pela floresta amazônica. A Guiana Francesa no século XIX era vista como uma terra distante, de clima ruim, para onde se mandavam os prisioneiros, os indesejáveis, para isolá-los da civilização, assim como acontecia com outras colônias à época. A França mantinha vários bagnes (penitenciárias) em suas colônias, ou seja, prisões onde havia trabalho forçado. Os bagnes da Guiana Francesa funcionaram entre 1795 e 1953.

A caracterização que Crevaux oferece do território, das paisagens praticamente virgens, trajetos, povos e culturas sem nenhuma influência ocidental constituem fontes documentais que permitem reconstruir os passos do viajante explorador e compreender o pensamento francês sobre a América Latina durante essa quadratura histórica. Sabemos, é claro, que Crevaux é um homem de seu tempo, o ideal do positivismo científico influenciou seus relatos, que contêm: juízos de valor em relação aos negros e aos povos originários, a descrição exuberante da natureza e a presença do homem branco no processo civilizador, capaz de trazer questionamentos para o progresso local.

Dessa forma, as expedições de Jules Crevaux ajudaram a transformar a imagem da Guiana Francesa ao descrever as riquezas da fauna, flora, do relevo, do clima e dos povos da região, mas também os perigos da floresta amazônica. O imaginário exótico constituído sobre a Guiana Francesa pelos relatos de viagens do explorador francês oferece a ideia de que a região seria perigosa e remota, algo que perdura até hoje, de certa forma. Conhecer a Amazônia brasileira por meio da visão de agentes imperialistas oitocentistas possibilita uma leitura crítica sobre nossa história. De acordo com Pauliany Cardoso (2020), para “a História em particular, as narrativas de viagem oitocentistas formam um conjunto de ensaios cujas informações contribuíram à sistematização de conhecimentos sobre o Brasil.” (2020, p. 55).

A região fronteiriça da Guiana Francesa com o Brasil foi alvo de uma disputa territorial conhecida como Contestado franco-brasileiro, que durou até o início do século XX. De acordo com Cardoso (2020), “[...] as expedições científicas francesas, além do reconhecimento territorial e natural, também catalisavam, a partir do contato com o elemento humano, afirmar sua soberania no território disputado.” (2020, p. 21).

A Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro, 1878), na seção “Folhetim – Notas de viagem”, menciona o importante trabalho de exploração que Jules Crevaux realizou no Brasil em relação à cartografia e a descoberta de dois rios importantes: o Jari, do qual pouco se sabia, e do Paru, esse absolutamente desconhecido. Ainda ressalta a necessidade de que o resultado de seus estudos e observações fossem publicados, pois seria devidamente apreciado pelos homens da ciência, assim como por todos que se interessariam pelo desenvolvimento da América e do Brasil. No entanto, foi preciso 15 anos para que a publicação do livro Voyages dans l’Amerique du Sud (Hachette, 1883), estivesse presente no mercado editorial francês, e mais 141 anos para que a primeira tradução em língua portuguesa sobre o rio Jari e seus habitantes fosse realizada.

As explorações de Crevaux também continham anotações sobre as línguas indígenas que observava em suas viagens, posteriormente analisadas e até mesmo organizadas em uma gramática de autoria de Jules Crevaux, P. Sagot & Lucien Adam (1882). No texto de apresentação da obra Grammaires et vocabulaires Roucouyenne, Arrouague, Piapoco et d’autres langues de la région des Guyanes, temos uma breve descrição do conteúdo, da qual destacamos:

O oitavo tomo da Biblioteca linguística americana compreende vários vocabulários e duas gramáticas de línguas faladas por diversas nações da Guiana.

I. — Um vocabulário Francês-Uaiana pelo Sr. Dr. Crevaux, cujo diário de volta ao mundo foi publicado recentemente. Fizemos uma aproximação de um grande número de palavras uaiana e de suas correspondentes nas línguas gailibi, caribe, cumanagoto e chayma, assim como de diversos dialetos desconhecidos ou pouco conhecidos até hoje: o carijona, o apalai, o tirió e o oiampi.

II. — Uma gramática da língua uaiana que foi redigida pelo Sr. Lucien Adam a partir de algumas frases com as quais o Sr. Dr. Crevaux aumentou seu vocabulário1.

(Crevaux, Sagot & Adam, 1882, p. 11, tradução nossa)

Em seu artigo “Dr. Crevaux’s Wayana-Carib Pidgin Of The Guyanas: A Grammatical Sketch”, os autores Bakker, Gretenkort & Parkvall (2018) argumentam que Crevaux acreditava ter recolhido informações de uma língua uaiana pura, mas que na verdade se tratava de um “pidgin”, ou seja, uma língua de contato baseada em uaiana.

Os relatos de exploração dos viajantes estrangeiros franceses durante o século XIX impulsionaram tanto o crescimento das ciências geográficas como os interesses econômicos da Terceira República pelo Novo Mundo. Jules Crevaux foi financiado pelo governo francês (principalmente com o apoio do ministro de instrução pública Jules Ferry) na disposição das tarefas que demandavam a exploração, contato com os governos locais, pedidos de licença para a navegação dos rios e cooperação internacional2.

É interessante lançar um breve coup d’oeil biográfico neste que é considerado por Grandhomme (2011) como o explorador francês responsável por descrever a configuração histórica e geográfica da Guiana Francesa ao relatar as cadeias das montanhas Tumucumaque e desmistificar o mito do Eldorado. Famoso no seu tempo, descrito com temperamento energético, ardente, rápido nas suas decisões e de sangue frio imperturbável, missionário do progresso, Crevaux introduziu a ciência nos recônditos mais secretos da Amazônia (Broc, 1999, p. 99). Segundo Lézy (2008), Jules Crevaux era um agrimensor teimoso que percorria os territórios que descrevia a pé e, muitas vezes, descalço. Logo, Crevaux passou a ser reconhecido como “l’explorateur aux pieds nus”, ou “o explorador de pés descalços”, alcunha dada a ele pelo próprio Emmanuel Lézy.

A Revista Brasileira de Geografia (1942) contém uma breve biografia e um retrato em branco e preto de Jules Crevaux, na seção “Vultos da Geografia”, em duas páginas (1942, pp. 140-141). Nessa biografia consta que o médico francês foi um explorador infatigável, sedento pelo desconhecido, energético, de robustez física e incomum formação moral. Ele também tinha interesse pelo conhecimento dos indígenas sobre a farmacopeia da floresta e a fabricação do veneno utilizado nas pontas das flechas no momento da caça. É importante ressaltar que umas das raízes utilizadas no preparo do conhecido veneno de curare recebe o nome científico de Strychnos Crevauxii em homenagem ao grande explorador.

Jules Crevaux nasceu em 1847 em Lorquin, na região de Moselle, departamento de Strasbourg, na França. Em 1865, partiu para a cidade de Strasbourg com o objetivo de estudar medicina. Foi admitido na escola de serviço de Saúde Naval na cidade de Brest e, em 1869, embarcou como ajudante de medicina na fragata Cérès, cuja viagem compreendia os países do Senegal, Antilhas e a Guiana Francesa.

Em 1870, Crevaux retornou a Brest, neste mesmo período a guerra franco-alemã foi declarada. Ele se alistou como voluntário nos fuzileiros navais do exército da região da Loire. Durante a guerra, o médico foi preso, conseguiu fugir e reencontrou o exército em 1871, na cidade de Chaffois. Com o término da disputa entre a França e Alemanha, ele retomou seus estudos em Paris e defendeu seu doutoramento sobre o estudo de uma parasitose hematúrica, sob o título De l’hematurie chyleuse ou graisseuse des pays chauds, em 1872, que ele havia observado na Guiana Francesa. No mesmo ano, embarcou, como médico de segunda classe, no vapor Lamothe-Piquet cuja viagem fez escalas no Senegal, Gabão e logo em seguida na América Latina, nas cidades do Rio de Janeiro, Montevidéu e Buenos Aires.

Retornou à França em 1876. Nesse mesmo ano, Jules Crevaux foi aprovado no concurso para médico de primeira classe e procurou obter o título de médico colonial, pois desejava retornar a América do Sul para prosseguir sua carreira de explorador.

A capital Caiena foi seu primeiro contato com a América do Sul e o início de uma aventura que acompanhou Jules Crevaux durante 15 anos em quatro grandes expedições entre os anos de 1877 e 1882. A primeira expedição (1876-1877) ocorreu na zona da serra do Tumucumaque, lugar no qual os primeiros viajantes espanhóis haviam situado o mito do Eldorado, por ele desmistificado:

Crevaux analisou paredes rochosas de grutas, ricas em mica, que ao soltar-se em forma de pó, permitiam um brilho reluzente, no qual teria embaralhado os nativos, que nas suas narrações fantásticas, teriam confundido as palhetas de micas, conhecidas também como “areia de ouro”, com o ouro do El Dorado e, ainda, a própria Serra do Tumucumaque, antes imaginada como uma cadeia de portentosas montanhas, ao estudo acurado do relevo pelo francês, revelou-se como simples montes e colinas de proporções pequenas

(Cardoso, 2020, p. 45).

Crevaux se tornou célebre quando retornou de sua primeira viagem em 1878. Os objetos foram apresentados na Exposição Universal de Paris e depois novamente no Museu Etnográfico do Trocadéro. De acordo com Grandhomme (2011, p. 180) as sociedades de geografia lhe concederam honras, a de Paris o recebeu no grande anfiteatro da Sorbonne, em 1881. Oficial da Academia de Ciências, ele também foi investido como cavaleiro em 1878 e depois oficial em 1881 da Legião de Honra.

Em sua segunda expedição (1878-1879), partiu da capital Caiena com destino aos Andes, subindo o rio Oiapoque. Na terceira (1880-1881), navegou entre os rios Magdalena e Orinoco, e, por fim, na quarta expedição (1881-1882), explorou o rio Pilcomayo, também conhecido como rio Araguaia. Entre uma viagem e outra, retornava a Paris para participar de conferências e publicar seus relatos de viagens. A recepção de suas descobertas foi objeto de orquestração por todos aqueles que o apoiaram e utilizaram seus relatos a fim de conquistar um capital simbólico nas relações sociais e evidenciar as conquistas da França expansionista (Grandhomme, 2011, p. 182).

De acordo com Cardoso (2020), a obra de Crevaux teve influência destacada em várias áreas no que se refere ao imaginário e aos conhecimentos produzidos na Amazônia, englobando produções etnográficas, antropológicas, literárias, zoológicas, linguísticas, políticas, cartográficas, botânicas e sobre anatomia humana e farmacologia, conforme demonstra pelos seguintes exemplos:

Exemplificando,Vidal de La Blache, geógrafo francês, utilizou como prova documental no Tribunal de Berna, os escritos e mapas de Crevaux para a defesa no litígio do contestado franco-brasileiro; Júlio Verne, romancista mundialmente conhecido, em sua obra A Jangada, utiliza a obra como fonte para criação de sua ficção literária, vindo mesmo a citar o explorador no decorrer da estória assim como no livro infanto-juvenil Les Chasseurs de Caoutchouc35 (Os Caçadores de Borracha), onde o autor reivindica a restituição do Contestado (Amapá); contribuiu até mesmo na elaboração de um personagem explorador da história em quadrinhos O Ídolo Roubado, do cartunista Hergé, famoso por criar estórias e protagonistas em contexto imperialista, como o menino Tintim. Igualmente foi utilizado como referência na construção da obra maior de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, além de citado e muito elogiado no livro do ensaísta Sílvio Romero que versava, entre outras coisas, na questão relativa a fatores da literatura brasileira, sobre os índios em uma visão eurocêntrica de raças.

(Cardoso, 2020, p. 44).

As circunstâncias da morte de Crevaux ainda são alvo de disputa de narrativa histórica do processo de contato entre europeus e indígenas na conquista de território. Sabe-se que morreu assassinato por indígenas locais, mas como o corpo nunca foi encontrado, especula-se que passou por ritual antropofágico ou teve o corpo jogado ao rio.

Conforme a antropóloga Córdoba (2020), a morte do explorador está relacionada com a disputa entre os diferentes grupos de brancos na dominação dos indígenas: missões franciscanas e jesuítas com o objetivo de civilizar; os colonos optando pelo extermínio dos indígenas e o governo na ocupação violenta do território. Córdoba (2020, p. 3) relata que durante a quarta expedição (1881-1882), Crevaux e sua equipagem adentram a região do El Chaco boliviano, com o propósito de estudar e cartografar o rio Pilcomayo e vislumbrar a possibilidade de uma saída para a Bolívia até o oceano Atlântico, uma vez que a do Pacífico foi perdida na guerra contra o Chile. A resistência dos indígenas da região do Chaco ocorreu diante dos esforços contrários aos processos de colonização da região, com as previsíveis consequências: escravidão, reagrupamento em missões e assassinatos.

2. O contato interétnico com os povos originários do rio Jari

O livro Voyage d’exploration dans l’intérieur des Guyanes (1876-1877), publicado sob a direção de Edouard Charton, editora Hachette e Cia., na coleção Le Tour de Monde, em Paris, está dividida em 10 capítulos. Com o objetivo de cartografar os grandes afluentes que percorrem a Guiana Francesa e o Amazonas, Jules Crevaux (1847-1882) conduziu esta expedição para desbravar a região do rio Jari3. Nessa expedição, Crevaux teve contato com os indígenas denominados em seus diários como Galibis (Galibis-Oiapoque ou Galibis-Kali’na) e Roucouyennes (Wayanas/Uaianas).

Para fins deste trabalho, traduzimos o Capítulo X, do livro supracitado, de Jules Crevaux. Nesse capítulo encontramos uma descrição minuciosa de aspectos relevantes do contato interétnico entre o francês explorador e os povos amazonenses durante o século XIX. Podemos citar alguns temas considerados importantes por Crevaux: características físicas dos povos da floresta Uaiana e dos negros refugiados Boni; observações sobre doenças; a relação com a medicina e remédios (pajelança); hábitos alimentares e higiene; o sistema de crenças religiosas; os rituais funerários e o retorno da expedição para a cidade de Belém, bem como a situação financeira4 ao final da viagem.

O texto de Crevaux tem como característica o hibridismo, misturando o francês com português brasileiro, termos indígenas e crioulo francês, como se pode observar nas grafias de “Chute de Pancada”, “cachiri” e “capiaïs”, respectivamente traduzidos por “Cachoeira de Pancada”, “caxiri” e “capivara”.

A abertura do primeiro capítulo por nós traduzido diz respeito à expedição que Jules Crevaux empreendeu entre 1876 e 1877, seguindo a rota da foz do rio Maroni, na Guiana Francesa, com destino às montanhas Tumucumaque e finalizando em Santa-Maria-de-Belém:

Encarregado pelos ministros da Educação Pública e da Marinha de uma missão com objetivo de explorar o interior da Guiana Francesa, eu parto de Saint-Nazaire no dia 7 de dezembro de 1876, a bordo do Saint-German. Meu projeto é subir pelo rio Maroni até a sua nascente para chegar a uma cadeia de montanhas: os montes Tumucumaque, onde antigos geógrafos dizem que se localizam as terras lendárias do Eldorado. [1. O rio Maroni separa a Guiana Francesa da Guiana Holandesa]5

(Crevaux, 1879, p. 22, tradução nossa)].

Vale ressaltar que Crevaux contava com a ajuda de guias locais, como Apatu (datas desconhecidas), que se tornou seu fiel companheiro durante as explorações na América Latina. Foi durante a navegação das margens do rio Maroni, fronteira com a Guiana, para chegar ao rio Jari, que Crevaux encontrou o vilarejo dos Negros Boni. Refugiados e fugitivos da escravidão da Guiana Holandesa, os Negros Boni passaram a ser contratados, tanto por garimpeiros na procura de ouro, como pelos viajantes estrangeiros, pois eram conhecedores dos cursos de água da região (Piantoni, 2009).


Figura 1
As grandes florestas da Guiana
Fonte: Desenho de E. Riou (Crevaux, p. 349).

A importante figura de Apatu permanecerá associada a imagem de Jules Crevaux, como também a do casal de exploradores franceses Henri Anatole Coudreau6 e Marie Octavie Coudreau7, que realizaram diversas expedições na Guiana Francesa e no Pará, explorando os afluentes do Amazonas.

Jules Crevaux conheceu Apatu no começo da sua expedição no rio Maroni (1876-1877). Esse antigo escravizado acompanhou o explorador francês em todas as suas missões antes de voltar para a França com ele. Em 1881, Apatu foi condecorado na Sorbonne por Ferdinand de Lessseps8

(BnF, 2023, tradução nossa).


Figura 2
Jules Crevaux e Apatu c. 1881
Fonte: Desenho por Edouard Riou (1833-1900), fotografia por Michel Yrondy (BnF, 2023).

Em troca dos serviços prestados, Apatu pediu a Crevaux que o levasse para conhecer seu país: “ele exigiu conhecer o país de Crevaux, e foi com ele em duas oportunidades à Paris e à Lorraine (1879 e 1881)9” (Actualités du XIXe Siècle, 2016, tradução nossa).

O reconhecimento da importância de Apatu pode ser exemplificado pela homenagem que as autoridades locais fizeram ao batizar como “Apatou” uma cidade emancipada em 1976, localizada em Saint Laurent do Maroni, porta de entrada do rio Maroni na Guiana Francesa.


Figura 3
Brasão da comuna de Apatou na Guiana Francesa
Fonte: Ouest Guyane (2023).

Apatou é o nome também da comuna na Guiana Francesa que contém as cidades de Patience, Maïman e Apatou (Ouest Guyane, 2023).

3. Tradução dos etnônimos indígenas e patrônimos

No relato de viagem Viagem ao Cuminá de Marie Octavie Coudreau (2023), os “indiens roucouyenne” também são mencionados. A tradutora, Marie Helene Torres, que também faz parte das tradutoras desse excerto de Jules Crevaux, explicou na ocasião em notas no terceiro capítulo da obra que:

Há várias menções no relato dos índios “Roucouyennes”. Os uaianas, autodenominados Wayanas, são um povo indígena que habita o noroeste do estado brasileiro do Pará, na região de fronteira entre o Brasil (rio Paru de Leste, Pará), o Suriname (rios Tapanahoni e Paloemeu) e a Guiana Francesa (alto rio Maroni e seus afluentes Tampok e Marouini), mais precisamente a Terra Indígena Rio Paru d’Este e o Parque Indígena do Tumucumaque, duas áreas contíguas que abrigam também outros grupos indígenas. Falam uma língua da família karib.

Os Wayana são também referidos na literatura como Ojana, Ajana, Aiana, Ouyana, uajana, upurui, Oepoeroei, Roucouyen, Oreocoyana, Orkokoyana, urucuiana, urukuyana, Alucuyana e Wayana. Os termos Roucouyennes ou Roucouyen (rocou, “urucum”, em francês), assim como as corruptelas urucuiana ou Rucuiana em português, empregados nos séculos XVIII e XIX, derivam do uso frequente por essa população da pintura corporal feita com urucum.

A etimologia da palavra Wayana é desconhecida. Sabe-se apenas que se trata de uma palavra caribe, em razão do uso do sufixo yana, que significa “povo”, “gente”, em muitas línguas dessa família linguística.

No Brasil, os Aparai e os Wayana mantêm há pelo menos cem anos relações estreitas de convivência, coabitando as mesmas aldeias e casando-se entre si. Por isso, muitas vezes são referidos como um único grupo, embora sua diferenciação seja reivindicada com base em trajetórias históricas e traços culturais distintos

(Coudreau, 2023)10.

Traduzimos, portanto, “roucouyenne” por “Uaiana”.

Segundo Costa (1924, pp. 159-160), numa classificação que usa critérios linguísticos, etnográficos e geográficos, o etnônimo “Calayonas” é do tronco Tupi. Portanto, consultamos a palavra “Calaiona” no Dicionário das tribos e línguas indígenas da América Meridional da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú que remete a “Calaiúa”. A palavra por sua vez explicita que há várias formas de nomear esse povo: “Cálaiúa (Calayoua, Calayona) - Tr. tupí da margem esq. do Amazonas; viviam na vertente meridional do Tumucumaque (A. Ramos, pp. 75-76)” (Guérios, 1948). Portanto, traduzimos por “Calaiúa”.

Um importante desafio enfrentado neste trabalho foi a decisão de traduzir os antropônimos “Yeleumeu” e “Apatou” por “Ielemê” e “Apatu”, respectivamente. Esse tópico gerou bastante discussão entre as tradutoras para alcançar um resultado satisfatório. Chegamos à conclusão de que Crevaux provavelmente escreveu os antropônimos para combinarem com o que seus ouvidos percebiam, assim como fez em seu trabalho de descrição da fonética indígena em suas viagens. Portanto, faz sentido trazermos os antropônimos por ele transcritos em uma tradução fonética, combinando com sua pronúncia em português.

4. Mapas e topônimos

Para o tradutor de relato de viagem, os mapas de toda espécie são imprescindíveis! Localizar o trajeto, o percurso do.a.s exploradore.a.s parece muitas vezes do domínio do impossível.

Por exemplo, o Rio Couyary, no texto em francês de Crevaux a ortografia corresponde ao Rio Cuiari, que é um rio da Colômbia e do Brasil, um afluente do rio Içana, considerado um subafluente do Amazonas. Da mesma forma, os rios Jari e Itani (ou Litani) foram localizados graças a textos e mapas de pesquisa como “La région du Jari, un laboratoire en Amazonie”, de Anna Greissing (2012).

Procuramos saber mais sobre o que Crevaux nomeia “La crique Kou” (a enseada de Kou). Encontramos no livro de Anna Greissing, um mapa na página 50, que se encontra nos anexos deste artigo para possibilitar uma melhor visualização.

Observa-se no mapa que os Oiampi recuaram para o norte e se dividiram em dois grandes subgrupos, aos quais Crevaux atribui nomes (‘Oyampy’ para o grupo setentrional no Oyapoque, ‘Calayonas’ para o grupo meridional no Kouk e no Rouapir).

Por fim, os Aparai, localizados no Paru, também aparecem como dois grandes subgrupos, separados e distantes entre si: o primeiro habita as terras do baixo Paru, enquanto o segundo, mais significativo, se estende ao longo de seu curso médio e superior (hoje chamado de Paru de Leste) até o Citaré (do qual Crevaux esclarece que marca a fronteira com o território dos Uaiana)

Traduzimos por Cuc, assim como registrado no Google Maps, revelando a grafia atual.


Figura 4
Rio Cuc, conforme grafia atual
Fonte: Google Maps (2024).

No capítulo 2 do livro, Crevaux descreve a descida do rio Tapanahony, no Suriname. Ele cita os nomes das cachoeiras, inclusive com o significado dos termos na língua indígena local.

Estamos separados apenas por algumas léguas da confluência do Aoua e do Tapanahoni, mas aqui o rio está repleto de terríveis cachoeiras. São principalmente os saltos de Singateté Val (dupla amarração), de Manbarei (o homem grita), e de Man-Caba (o homem finaliza)11

(Crevaux, 1879, p. 16, tradução nossa).

Buscamos no mapa Mapcarta12 (Mapcarta, 2024) e encontramos as seguintes cachoeiras: para Man-Bari encontramos Manbarei e para SingaTetey encontramos Siengateté Val em grafia atual. Não conseguimos encontrar o nome corrente para a cachoeira Man-Caba.

5. Ética: as tradutoras não corrigiram o texto

Em prol da deontologia da tradução a fim de não cometermos anacronismos, optamos por manter o uso das palavras “índios”, “selvagens” e etc. utilizadas por Crevaux durante seu relato de viagem. Essa dimensão histórica e política procura evidenciar como as ideias do século XIX estão presentes na relação entre o texto de partida e o texto de chegada.

No relato, Crevaux faz referência aos índios “Oyacoulets”. O nome exato em francês em “Oyaricoulets” ou “Oayakulé” ou “longues oreilles” e significaria “índios Oyaris do rio Coulé-coulé” (Voillemont, 2016).

Na passagem em que Crevaux traduz uma frase dita em língua Uaiana “Séné oua?” por “Vois-tu?”, descobrimos que ele cometeu um erro de tradução ao consultarmos o artigo de Bakker Gretenkort & Parkvall (2018). A tradução mais exata envolveria uma partícula negativa, pois “séné” significaria ver e “oua” é um marcador negativo.

É interessante notar que nenhuma das 25 frases e sentenças em Uaiana Pidgin que aparecem em seus dois relatos de viagem estão incluídas em seu dicionário. Crevaux citou uma frase em Pidgin Caribe em seu relato de viagem da primeira viagem, Séné oua? “Vois-tu?”, ou “Você vê?”. Por mais estranho que pareça, essa tradução está errada, pois deveria ser “Você não vê?” (Crevaux 1883: 122). A primeira palavra séné significa “ver”, e a palavra oua é um marcador negativo, dado como significando “não”. A segunda pessoa do singular é dada em “toi” (você) como amolé, amoré (Crevaux 1882: 14, 20). Essa frase não pode ser encontrada nos materiais linguísticos de Crevaux (1882). Isso levanta questões sobre como surgiu a lista de palavras. Talvez Crevaux não tenha realmente dominado as línguas ameríndias, pidginizadas ou não. Será que outra pessoa do grupo de Crevaux compilou os materiais?13

(Bakker Gretenkort & Parkvall, 2018 p. 173, tradução nossa).

Portanto, “Séné oua?” seria traduzido diretamente ao português por “Você não vê?”. Porém, como Crevaux traduziu ao francês como “Vois-tu?”, mantivemos em nossa tradução “Você vê?” para não incorrer no erro de corrigir o que Crevaux escreveu.

Localizamos o Rio Kule Kule num mapa publicado na Revista de Etnoecologia (Revue d’ethnoécologie) (Fleury, Alupki, Opoya & Aloïké, 2016):


Figura 5
Début de la conquête du Litani (Fin du 19ème siècle)
Fonte: Fleury, Alupki, Opoya & Aloïké (2016).

Identificamos o “piay”, pelo contexto e função descrita no relato, como sendo o pajé que é o curandeiro, feiticeiro. No artigo “Grammaires et vocabulaires roucouyenne, arrouagué, piapoco et d’autres langues de la région des Guyanes” de Bakker, Gretenkort & Parkvall (2018), encontramos uma tradução que identifica “piay” como “shaman” em inglês, o que reforça a nossa decisão de traduzir “piay” por pajé. Na própria Grammaires et vocabulaires Roucouyenne, Arrouague, Piapoco et d’autres langues de la région des Guyanes de autoria de Crevaux e complementada pelo linguista Adam (1882), podemos encontrar “piay” traduzido por “médecin” ou “médico”. Julgamos pajé uma tradução adequada por ser um termo conhecido no Brasil para designar o médico, curandeiro, responsável pela cura em diversas culturas indígenas.

Traduzimos “pinots” por sal vegetal, pois de acordo com Salgado (2020) “Os indígenas usam sal vegetal feito a partir do processamento das folhas do aguapé, uma espécie aquática que prolifera na superfície das lagoas locais. A planta boia, com as folhas visíveis, e a raiz, submersa.”

A respeito do tamuchi, trata-se de uma palavra Apalai que significa chefe (geralmente, os mais antigos da aldeia)14. A própria gramática de Crevaux, Sagot & Adam (1882, p. 4) traz a tradução de tamuchi como “capitaine” ou “chef d’un village” ressaltando que em língua Galibi também há a palavra “tamussi” com o significado de “vieillard” ou “ancião”.

Considerações Finais

Na tradução realizada, buscamos referências para a compreensão dos topônimos e contamos com diversas pesquisas em textos referentes a viajantes estrangeiros da mesma época, assim como consulta a mapas digitais e estudos antropológicos e etnográficos.

A contribuição que propomos é a renovação dos estudos sobre o contato interétnico e a consciência histórica dessas sociedades sob a perspectiva dos Estudos da Tradução.

Dimensionar o pensamento dos exploradores do século XIX que focalizava, de maneira privilegiada, a descrição da complexa organização das etnias indígenas, sua criatividade simbólica e política, bem como os registros dos afluentes do Amazonas é uma chave importante para que a história dos viajantes estrangeiros não se perca, mas venha até nós de forma contextualizada e ética.

Supplementary material
Appendices
Anexos


Figura 6
Rivières Parou, Yary et Rouapir relevées par le Dr. J. Crevaux, 1878
Fonte: Greissing (2012), p. 50.

Referências
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Notes
Notes
1 Texto de partida: “Le huitième tome de la Bibliothèque linguistique américaine comprend plusieurs vocabulaires et deux grammaires de langues parlées par diverses nations de la Guyane.

I. — Un Vocabulaire Francais-Roucouyenne par M. le Dr Crevaux, dont le journal le Tour du monde a publié récemment les voyages. On a rapproché d’un grand nombre des mots roucouyennes les mots qui leur correspondent dans le Galibi, le Caraïbe, le Cumanagote, le Chayma, ainsi que dans divers dialectes point ou peu connus jusqu’à ce jour : le Carijona, l’Apalaï, le Trio, l’Oyampi.

II. — Une Grammaire de la langue roucouyenne qui a été rédigée par M. Lucien Adam sur les quelques phrases dont M. le Dr Crevaux a pu enrichir son vocabulaire.” (Crevaux, Sagot & Adam, 1882, p. 11).

2 Em reportagem para o jornal El País, da Bolívia, Siles (2018) faz uma pesquisa sobre a correspondência entre os governos da Bolívia e Argentina acerca da presença de Jules Crevaux para estudar algumas regiões e explorar os rios do continente sul-americano a serviço do governo francês.
3 O rio Jari é um afluente do rio Amazonas. Ele banha os estados do Pará e Amapá.
4 Numa Broc (1982) constata que a questão do financiamento das explorações não foi examinada de forma sistemática na França. No entanto, o Estado surge como o grande investidor durante a história colonial da França através dos vários ministérios que possuíam um sistema de créditos de viagens, entre eles: Ministério da Marinha, Ministério das Colônias e o Ministério da Instrução Pública. É verdade que os próprios exploradores raramente mencionavam os aspectos financeiros. No caso das viagens de Jules Crevaux, Broc (1982) descreve os orçamentos de cada exploração a partir de documentos oficiais, vale ressaltar que os valores correspondem à moeda corrente do século XIX. Durante a exploração do rio Maroni (1876-1877), Crevaux gastou 8.300 francos dos 12.000 que lhe foram concedidos. Em 1879, ele pediu 25 mil francos para continuar suas investigações; dos 20.000 francos que recebeu, comprou 5.000 francos em instrumentos científicos. Em 1880, o explorador obteve 40 mil francos com a missão de subir o Rio Magdalena e chegar ao Amazonas pelo Rio Negro. À medida que a viagem avançou, Crevaux precisou pedir emprestado 30 mil francos a vários comerciantes franceses radicados no Brasil. A Comissão de Viagens do Ministério da Instrução Pública recusou-se a honrar estas dívidas, mas o Parlamento votou a favor de um crédito especial. Finalmente, durante a sua quarta viagem, em 1882, Crevaux obteve 70.000 francos para explorar a bacia de Pilcomayo. É verdade que, nessa que seria sua última viagem no continente sul-americano, o governo boliviano contribuiu conjuntamente com o Estado francês para o financiamento da expedição.
5 Texto de partida: “Chargé, par les ministres de l’Instruction publique et de la Marine, d’une mission ayant pour but l’exploration de l’intérieur de la Guyane française, je quitte Saint-Nazaire le 7 décembre 1876, à bord du Saint-Germain. Mon projet est de remonter le fleuve Maroni¹ jusqu’à sa source pour arriver à une chaine de montagnes : les monts Tumuc-Humac, où les anciens géographes plaçaient le pays légendaire de l’Eldorado. [1. Le fleuve Maroni sépare la Guyane française de la Guyanne hollandaise.]” (Crevaux, 1879, p. 22).
6 Considerado como o mais importante explorador francês Henri Anatole Coudreau (1859-1899) seguiu as orientações impressas nos relatos de viagens Jules Crevaux e explorou a floresta amazônica durante a metade do século XIX. Ver Fernandes (2023).
7 Marie Octavie Coudreau (1867-1938) foi uma viajante, exploradora, primeira fotógrafa dos afluentes do rio Amazonas, comandou três expedições sozinhas, logo após o falecimento do marido Henri Coudreau. Ver, Fiera (2022), Torres e Thomé (2023) e Coudreau (2023).
8 Texto de partida: “Jules Crevaux fait la connaissance d’Apatou au tout début de son expédition sur le fleuve Maroni (1876-1877). Cet ancien esclave accompagnera désormais l’explorateur français dans toutes ses missions, avant de rentrer en France avec lui. En 1881, Apatou est décoré en Sorbonne par Ferdinand de Lesseps” (BnF, 2023).
9 Em francês: “(...) il demande à connaître le pays de Crevaux, le suivant à deux reprises à Paris et en Lorraine (1879 et 1881)” (Actualités du XIXe Siècle, 2016).
11 Texto de partida: “Nous ne sommes plus séparés que par quelques lieues du confluent de l’Aoua et du Tapanahoni, mais le fleuve est ici parsemé de chutes épouvantables . Ce sont principalement les sauts do SingaTetey (doublez l’amarre), de Man-Bari (l’homme crie), et de Man-Caba (l’homme finit)” (Crevaux, 1879, p. 16).
12 Mapcarta é uma base de dados cartográficos que reúne informações do Open Street Map e da Wikipedia.
13 Texto de partida: “Interestingly, none of the 25 phrases and sentences in Wayana Pidgin that figure in his two travel accounts are included in his dictionary. Crevaux quoted one sentence in Pidgin Carib in his travel account of his first trip, Séné oua? “Vois-tu?”, or “Do you see?” Strangely enough, this translation is wrong, as it should be “Don’t you see” (Crevaux 1883: 122). The first word séné means “to see”, and the word oua is a negative marker, given as meaning “non”. The second person singular is given under “toi” (you) as amolé, amoré (Crevaux 1882: 14, 20). This sentence cannot be found in the language materials in Crevaux (1882). This raises questions about how the word list came about. Perhaps Crevaux did not really get a grasp of the Amerindian languages, pidginized or not. Did perhaps someone else from Crevaux’s party compile the materials?” (Bakker Gretenkort & Parkvall, 2018 p. 173).
Conjunto de dados de pesquisa Não se aplica.
Financiamento Bolsa CNPq

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Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelo(s) autor(es) mediante solicitação.
Publisher Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
Conflict of interest declaration
Conflito de interesses Não se aplica.
Author notes
Editores Marie Hélène Catherine Torres
Editores de seção Andréia Guerini

Ingrid Bignardi

Revisão de normas técnicas Ingrid Bignardi

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Figura 1
As grandes florestas da Guiana
Fonte: Desenho de E. Riou (Crevaux, p. 349).

Figura 2
Jules Crevaux e Apatu c. 1881
Fonte: Desenho por Edouard Riou (1833-1900), fotografia por Michel Yrondy (BnF, 2023).

Figura 3
Brasão da comuna de Apatou na Guiana Francesa
Fonte: Ouest Guyane (2023).

Figura 4
Rio Cuc, conforme grafia atual
Fonte: Google Maps (2024).

Figura 5
Début de la conquête du Litani (Fin du 19ème siècle)
Fonte: Fleury, Alupki, Opoya & Aloïké (2016).

Figura 6
Rivières Parou, Yary et Rouapir relevées par le Dr. J. Crevaux, 1878
Fonte: Greissing (2012), p. 50.
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