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Um estranho país de pesadelos: a tradução de “The ascent of Mount Roraima” (1885), de Everard im Thurn
Cassiano Teixeira de Freitas Fagundes
Cassiano Teixeira de Freitas Fagundes
Um estranho país de pesadelos: a tradução de “The ascent of Mount Roraima” (1885), de Everard im Thurn
Some strange country of nightmares: the translation of “The ascent of Mount Roraima” (1885), by Everard im Thurn
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104170, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina
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Resumo: O presente artigo busca contextualizar o texto “The ascent of Mount Roraima” (1885), de Everard Ferdinand im Thurn (1852-1932), uma narrativa exploratória central em seu tempo pela influência que exerceu como documento de um ápice do projeto imperialista britânico na Amazônia. Adicionalmente, oferece breves comentários sobre a tradução que o acompanha, que é a primeira publicada em português brasileiro. O trabalho focaliza o impacto do relato do autor, explorador, botânico e administrador inglês no mundo científico e literário do final do século XIX e início do XX. Ao descrever a riqueza botânica nos entornos da montanha e o estranhamento causado por sua topografia, que sugeria o isolamento quase absoluto de seu topo, influenciou a ciência eurocêntrica e a produção literária de autores como Arthur Conan Doyle (1859-1930), que escreveu O Mundo Perdido ([1912] 2018).

Palavras-chave: Monte Roraima, colonialismo britânico na Amazônia, tradução.

Abstract: This paper aims to contextualize the text “The ascent of Mount Roraima” (1885) by Everard Ferdinand im Thurn (1852-1932) as a pivotal exploratory narrative of its time due to its influential role as a report of a peak moment in the British imperialist project in the Amazon. Additionally, it provides brief commentary on its accompanying translation, which is the first published in Brazilian Portuguese. The study focuses on the impact of the author’s narrative — an English explorer, botanist, and administrator — on the scientific and literary world of the late 19th and early 20th centuries. By describing the botanical richness surrounding the mountain and the alienation caused by its topography, which suggested an almost absolute isolation of its summit, it influenced Eurocentric science and the literary output of authors such as Arthur Conan Doyle (1859-1930), who wrote The Lost World ([1912] 2018).

Keywords: Mount Roraima, british colonialism in the Amazon, translation.

Carátula del artículo

Artigo

Um estranho país de pesadelos: a tradução de “The ascent of Mount Roraima” (1885), de Everard im Thurn

Some strange country of nightmares: the translation of “The ascent of Mount Roraima” (1885), by Everard im Thurn

Cassiano Teixeira de Freitas Fagundes
Universidade Estadual do Centro-Oeste, Brasil
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104170, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 05 October 2024

Revised document received: 07 December 2024

Accepted: 11 November 2024

Published: 01 December 2024

I. Introdução

Na via que deu acesso à primeira ascensão conhecida ao topo do Monte Roraima, que se impõe no tríplice fronteira entre o Brasil, Venezuela e a então Guiana Britânica, há um ponto específico onde apenas um passo à frente leva o caminhante a vislumbrar um panorama assombroso, até então escondido na geografia acidentada das mesetas amazônicas. O oficial colonial britânico Everard Ferdinand im Thurn (1852-1932) trata em seu relato tal momento, ocorrido em 1884, como uma repentina imersão em um mundo estranhamente onírico e assombroso. Lá em cima, as pedras imitavam nuvens nas formas, e a paisagem lhe provocou um espanto muito antecipado pelos exploradores que antes dele haviam tentado atingir o cume do maciço.

Em relatos de expedições anteriores, tecera um panorama equilibrado que combinava os apelos científicos de uma viagem para o Monte Roraima, tanto para a geografia, a botânica e a etnografia, quanto para a aventura em um inacessível canto do mapa (Dalziell, 2002). E então, acompanhado pelo topógrafo Harry Iness Perkins (1861-1924) e um grupo de indígenas, im Thurn parte em uma expedição por rios, florestas e savanas, até atingir o sopé da montanha. Lá, descobre uma plataforma, ou saliência natural, que dava acesso às suas partes mais altas, e, no dia 18 de dezembro, torna-se o líder da primeira bem-sucedida expedição ao seu topo que se tem notícia. Tal feito o inspiraria a escrever relatos focalizando os indígenas e as espécies botânicas observados no empreendimento, mas é em “The ascent of Mount Roraima” (1885), publicado no Proceedings of the Royal Geographical Society and Monthly Record of Geography, em que descreve os aspectos mais gerais da jornada, além do impacto que a paisagem do cume lhe causou.

As expectativas inglesas sobre o que haveria naquele topo tinham um histórico que remontava ao século XVI, quando Sir Walter Raleigh (1552-1618) fez a primeira menção europeia a um tepui, a palavra dos indígenas da etnia pemon para montanha (George, 1989). Em The discoverie of the large, rich and beuutiful Empyre of Guiana [...] (1596), descrevera um que parecia feito de cristal, e coberto de diamantes, também afirmando a possível existência de uma civilização dourada na região. Quase trezentos anos depois, o olhar maravilhado e curioso de im Thurn possivelmente tinha pouco a ver com a expectativa de se deparar com materializações de reinos fantásticos cheios de ouro. Ou com os animais pré-históricos, cuja existência ele mesmo não havia descartado completamente, como aponta Dalziell (2002) sobre um artigo de 1874 na revista Spectator. Tal especulação era alimentada pelas informações acerca da proteção e isolamento oferecidos pelos penhascos inacessíveis do Roraima, e fazia com que a imprensa vitoriana propagasse a ideia de expedições ao seu topo como verdadeiras viagens a um mundo perdido. Mas ao chegar lá, é provável que a excitação do explorador sobre o que encontraria tivesse mais a ver com o que vira dias antes de iniciar a escalada: uma geografia espetacularmente acidentada e a rara riqueza natural ao pé das encostas do monte.

Everard Ferdinand im Thurn foi um dos muitos inspirados pelos relatos do cartógrafo alemão Robert Schomburgk (1804-1865) e de seu irmão, o botânico Richard Schomburgk (1811-1891). O último, acompanhando o primeiro em missão de mapeamento do interior da colônia para o governo britânico, encontrou naqueles mesmos sopés o que chamou de Eldorado botânico1 (Schomburgk, [1848] 1923). Aquela região pantanosa acima das savanas abrigava uma riqueza de espécies endêmicas na fauna e na flora raramente observada. Foi nessa ocasião que Richard descobriu a primeira planta carnívora a ser registrada na América do Sul, a Heliamphora nutans. Im Thurn nota, no texto agora traduzido, que além dela, havia uma fascinante profusão de plantas exclusivas àquela localidade, como espécies de orquídeas e palmeiras. Também cita a grande quantidade de samambaias, espécie que nas décadas anteriores havia causado na Inglaterra vitoriana uma verdadeira mania, ou melhor, uma pteridomania ou febre da samambaia. O advento da estufa na década de 1820 permitira o cultivo caseiro da planta, cuja aparência austera combinava com aquela época, em que a sobriedade era valorizada. Ademais, era adequada ao estilo decorativo vigente, que valorizava o efeito delicado de designs elaborados e detalhistas (Moran, 2004), e inspiravam motivos na decoração.

Afetado pelo mesmo fascínio botânico, a euforia que im Thurn deixa transparecer em alguns trechos de seu relato provavelmente era igualmente causada pela expectativa de sua celebração como grande explorador. Após a publicação do texto, sua fama seria alimentada por sua frequente citação e participação nas palestras de geógrafos, botânicos, cientistas e exploradores, oferecidas aos membros da mesma sociedade, em Londres. O escritor Arthur Conan Doyle (1859-1930) frequentava esses eventos e as descrições da escalada o inspiraram a escrever o romance O Mundo Perdido ([1912] 2018), que trata de uma expedição a um tepui sul-americano, onde plantas e animais pré-históricos haviam sobrevivido, graças ao seu isolamento (George, 1989).

Embora não seja identificada na aventura ficcional de Doyle, a Guiana Britânica era um protótipo ideal como cenário: ela seguia pouco explorada pelos ingleses desde sua ocupação, em 1803, e até mesmo o Secretário de Estado para as Colônias não conhecia sua exata localização (Veness, 2016). Para Dalziell (2002), a associação do romance com a viagem de im Thurn ajudaria a destacá-lo entre outros exploradores de sua era nas décadas seguintes, mas sua notoriedade também se deveu à contribuição ao conhecimento botânico, já que coletou 52 novas espécies e três novos gêneros identificados pelos pesquisadores do Kew Gardens, em Londres.

A conquista de im Thurn foi um ponto culminante de uma empreitada colonial que começa na curiosidade por uma região que abrigaria o mítico reino do Eldorado, mas é justificada e estimulada pelas descobertas naturalistas e mapeamentos de Robert Schomburgk na Guiana entre 1835 e 1839. Burnett (2000) destaca que a historiografia devotada a desnudar a ciência imperial foi aos poucos abandonando a noção de difusão científica desde a metrópole até a periferia como ferramenta hegemônica. Ela percebeu que em grande parte dos casos, a antropologia e a coleta de plantas naqueles pontos incógnitos eram tanto o resultado do ímpeto imperial quanto a sua causa. Por outro lado, a cartografia exploratória e os relatos forneciam um base textual em que as nações colonizadoras inscreviam seus planos, e no processo, mobilizavam recursos e potencializavam sua ação no território percorrido. Longe de ser apenas a terra quase fantástica descrita por Raleigh, a região amazônica foi logo percebida pelo império como uma promessa econômica capaz de contribuir para a sua hegemonia, e o seu mapeamento se tornou essencial.

A Royal Geographical Society teve um papel central nessa causa imperial (Bell, Butlin & Heffernan, 1995). Nas publicações e patronagens daquela sociedade, fundada no Reino Unido em 1830 com o intuito oficial de desenvolver as ciências geográficas, subjaz não apenas o discurso sobre o avanço do conhecimento científico através de expedições cartográficas e coletoras como as de Schomburgk e de im Thurn, mas principalmente, um ideal colonial imperialista de resolução de um globo polarizado entre povos civilizados e incivilizados.

Nesse contexto, Im Thurn descreve de maneira comedida e até respeitosa a grande veneração que os indígenas alimentavam pelo tepui, para quem a montanha nada tinha de mundo perdido. Ele destaca o comentário destes sobre o costume do monte de se esconder por detrás das nuvens e das brumas toda vez que um branco se aproximava, mas também nota como logo após aquele passo ao topo, o Roraima a ele se revelava completamente, ainda que lutasse para compreender tudo o que via.

O explorador o pinta como um ambiente alienígena e rico o suficiente para justificar toda a empreitada, e assim, contribui para o reavivamento da ideia de um território fantástico amazônico, indelevelmente excitando os anseios vitorianos. Seu testemunho fortalece o projeto imperialista ao sensibilizar seus ideólogos e operadores, mas ao mesmo tempo, serve de modelo para a criação pelas mãos de Conan Doyle desse espaço mítico que tanto embalaria a imaginação do público inglês, e que faria com que o Monte Roraima fosse para sempre associado à noção de mundo perdido.

2. A montanha amazônica

Aos olhos de um inglês do século XIX, a magnificência do tepui pode mesmo ter sido vista como fantasticamente estranha. Situado na Serra de Pacaraima, no marco da tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, o Monte Roraima é formado por arenitos com quase 2 bilhões de anos e tem 2.734 metros de altura. É uma montanha de mesa com escarpas verticais de 400 a 1000 metros de altura e representa uma bacia sedimentar de idade paleoproterozóica do Escudo das Guianas, ao norte do Cráton Amazônico. Seu acesso é mais comumente feito pelo lado venezuelano, o que acontece anualmente, devido à sua popularidade entre adeptos do ecoturismo e montanhismo (Reis, 2009).

O cume tem 31 quilômetros quadrados de área e é nivelado a 2.500 metros de altura, com algumas porções mais altas. Próxima ao equador, sua temperatura média anual varia entre 20 °C e 22 °C, e seu índice pluviométrico é elevado. Há uma diferença marcante entre o clima da base e do topo, onde o frio e a lubricidade podem ser intensos. No entanto, há nele uma provável ausência de geadas. Sua topografia única é resultado de processos de lixiviação da alta pluviosidade que ajudaram a formar cavernas e a erosão mecânica das rochas, levando-as a assumirem formatos peculiares.

O ecossistema de alta montanha na América do Sul equatorial conhecido como Pantepui compreende verdadeiras ilhas biológicas por abrigar um importante número de espécies endêmicas. São mais de 2.500 de plantas, com um endemismo de 35%. No Monte Roraima, há registros de ao menos 51 famílias, 130 gêneros e 227 espécies de plantas, como samambaias e licófitas (Safont et al., 2014). Entre os animais, há alguns únicos à montanha e seus arredores, como a ave Formigueiro-de-roraima (Myrmelastes saturatus) e o sapo Oreophrynella quelchii, somente encontrado em seu topo.

Apesar de não ter chegado ao seu cume, Robert Schomburgk fez várias expedições na região. Antes da conquista de im Thurn e de seus companheiros, outras empreitadas britânicas no Roraima trouxeram às suas cercanias exploradores como Charles Barrington Brown (1869), CR Boddam-Whetham (1878), e Henry Whitely (1881 e 1883). Depois da bem-sucedida escalada de 1884, outras expedições científicas britânicas coletoras chegaram na montanha, como a de F.V. McConnell e J.J. Quelch, em 1894 e 1898; expedições da Comissão de Fronteiras, em 1900, 1905 e 1910; a viagem de Koch Grumberg, em 1911; a de C. Clementi, em 1916; e a de G.H. Tate, em 1917. Nos sessenta anos seguintes, outras chegariam ao seu cume, como a do venezuelano Charles Brewer-Carias, que lá coletou muitas espécies novas (Elms, 2001).

Algumas expedições exploratórias e demarcadoras de fronteiras brasileiras associadas ao Monte Roraima incluem o tratado de limites para navegação com o Brasil (1859), as comissões mistas por demarcações de fronteiras e a comissão brasileira de demarcação até o Monte Roraima (1882 e 1884). Em 1928, outras comissões demarcaram fronteiras a partir da montanha. Em 1943, o governo brasileiro desmembrou do estado do Amazonas o que viria a ser o Território Rio Branco, onde parte do tepui está localizado. Em 1962, o território ganhou o nome de Roraima. Hoje, a montanha fica no município de Pacaraima, abarcando parte da terra indígena de São Marcos (Reis, 2009).

A expedição de im Thurn começa efetivamente no rio Essequibo, que hoje dá o nome à Guiana Essequiba, uma zona em disputa. Em 2023, a região, que é rica em minerais e é próxima ao Monte Roraima, foi o palco de uma disputa envolvendo a Venezuela, Guiana, Brasil e Estados Unidos. A crise despertou temores de que a escalada do conflito levaria os Estados Unidos a instalar bases militares na região disputada, que faz fronteira com o norte do Brasil e integra a floresta amazônica. A disputa teria potencial de impactar a estabilidade da América Latina e do Caribe, e evidencia a relevância do Monte Roraima como parte do cenário geopolítico da região (Paredes, Prazeres & Valery, 2023).

A região do Essequibo é vizinha ao brasileiro Parque Nacional do Monte Roraima, que foi criado em 1989, e compreende áreas de savana, florestas e rios. Ele é situado nos limites da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, habitada pelos povos indígenas Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Patamona e Taurepang. O Monte Roraima também faz parte da região venezuelana de Gran Sabana e da eco-região da Savana Guiana. Toda área da tríplice fronteira é habitada pelos Pemon, grupo étnico-linguístico que reúne quatro povos: os Arekuna, os Kamarakoto e os já citados Macuxi e Taurepang (Silva, Cruz & Py-Daniel, 2011). O Censo 2022 revelou que o estado de Roraima é o quinto em população indígena, com quase 100 mil habitantes de diferentes etnias e grupos (Brasil, 2022) e boa parte deles vivem na região. Eles vêm sendo continuamente explorados, e suas terras são alvo de invasões. Além disso, doenças importadas levaram à extinção de muitas das tribos citadas por Robert Schomburgk em 1838 (Hemming, 1990).

Não há registros de que indígenas tenham subido o Monte Roraima, mas é provável que sim, dado a centralidade da montanha em suas tradições. Para os Pemon e os Macuxi, ela é a “mãe de todas as águas” e o lugar onde vive o espírito do mítico guerreiro Macunaíma (Reis, 2009).

Everard im Thurn retrata os indígenas desde sua perspectiva colonialista como recursos para a sua empreitada, mas elogia as virtudes de indivíduos que o acompanharam, como Gabriel, com quem venceu um dos tratos mais difíceis de escalada da expedição. Contudo, suas impressões sobre os habitantes da região são limitadas em “The ascent of Mount Roraima” (1885) e são o foco em suas publicações anteriores e posteriores.

3. O autor

Nascido em 1852, Sir Everard im Thurn era filho de um banqueiro suíço que havia imigrado para a Grã-Bretanha. Foi educado em algumas das instituições de ensino de maior prestígio do império, como o Marlborough College e a Universidade de Oxford. Ao atingir a maioridade, começou a desenvolver em si o ideal vitoriano do cavalheiro polímata, o que resultou em suas ocupações diversas como curador de museu, montanhista, botânico, antropólogo, ornitólogo, fotógrafo e administrador público. Em 1877, foi nomeado Curador do Museu da Real Sociedade Agrícola e Comercial da Guiana Britânica. Durante sua estadia na colônia, além de enviar coleções de plantas e flores para o Kew Gardens, fundou a revista literária e científica Timehri e publicou Among the Indians of Guiana (1883), em que revela conhecimento dos hábitos e costumes dos povos indígenas da região. Viajou regularmente pelo interior da colônia, sobretudo através de seus rios, com apoio financeiro da Royal Geographical Society, da qual era membro. Também foi um dos primeiros europeus a visitarem a Kaieteur, a grande cachoeira no Rio Potaro (Marett, 1932).

Quando tinha 32 anos, chegou ao topo do Monte Roraima ao lado de Harry Iness Perkins e de seis indígenas. A publicação de seu relato a partir de 1885 nos periódicos da Royal Geographical Society, da Royal Scottish Geographical Society e no Timehri, causou impactos em sua vida profissional, no conhecimento científico da época e na política externa britânica. No entanto a celebração de sua conquista seria retardada pela doença que contraiu durante a viagem e fez com que só pudesse ir para a Inglaterra mais tarde. Em sua ausência, Perkins apresentou um relato preliminar diante do público da sociedade, em Londres. Após sua experiência na Guiana, im Thurn foi nomeado Secretário Colonial e Tenente-Governador do Ceilão (1901-1904), e depois serviu como Governador de Fiji e Alto Comissário do Pacífico Ocidental. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou para assegurar a igualdade de remuneração para o Regimento das Índias Ocidentais Britânicas (Dalziell, 2002).

Em 2018, Sara Albuquerque e Luciana Martins destacaram o papel de Hannah Lorimer (1854-1947), com quem Everard se casou em 1895, na construção de seu legado botânico e etnográfico. Como ilustradora, escultora e companheira durante suas atuações nas colônias, Hannah se valeu da situação para desenvolver sua arte e conhecimento científico com uma liberdade que não teria se não vivessem longe do centro imperial do Reino Unido. Ao mesmo tempo, conformou-se aos papeis de gênero vigentes na ciência de outrora que ainda reverberam na contemporaneidade, mesmo sendo corresponsável pela documentação em ilustrações e esculturas de uma vigorosa construção de conhecimento. Após dois anos na Guiana Britânica e um curto período em Londres e Paris, Hannah acompanhou o marido em suas estadias no Ceilão e em Fiji. Em 1921, estabeleceram-se em East Lothian, na Escócia, onde viveram até a morte de Everard, em 1932.

Sendo um colecionador entusiasmado de plantas tropicais, im Thurn foi muitas vezes apoiado pelos Reais Jardins Botânicos de Kew, na Inglaterra. Em 1886 e 1887, ele também contribuiria em diversas publicações com informações botânicas da expedição ao Roraima, e sua notoriedade como botânico foi sedimentada quando a classificação científica de um gênero de plantas sul-americanas recebeu o nome Everardia (Quattrochi, 1999).

4. O texto-fonte

Em “The ascent of Mount Roraima” (1885), o autor segue a tradição vitoriana de narrativa de exploração, mesclando o discurso científico com um fascínio lírico pelo que descreve, e seu texto é em parte caracterizado pelo que Dalziell, (2002, p. 147) chama de uma “sintaxe quase tão sinuosa quanto a sua ascensão2”. Representa artefatos de construção da figura do explorador como personagem masculino intrépido, refletindo os ideais científicos da era e ao mesmo tempo, os valores cristãos ocidentais. Sobre seus rompantes poéticos, a escrita exploratória estava absorvendo estilos, técnicas literárias e motivos das estórias de aventura imperial de autores como Rudyard Kipling (Thompson, 2011). A observação de estar em “um estranho país de pesadelos3” (im Thurn, 1885, p. 517) antecede uma longa descrição mais sóbria da flora e geografia do topo do Roraima (1885, p. 518).

Boa parte do texto relata os detalhes práticos e dificuldades de se navegar e caminhar por dias pelos rios, florestas, savanas e encostas íngremes da região, sempre com as pesadas bagagens às costas dos carregadores indígenas, algumas vezes deixadas no caminho para posteriormente serem recuperadas. Sobre estes representantes dos habitantes da região, o autor tece impressões estereotipadas acerca de suas características físicas e disposições mentais (1885, p.502). Ao mesmo tempo, comenta com condescendência a imitação feita pelos habitantes da aldeia de Euworra-eng para a egrégora de uma igreja (1885, p. 500).

Não obstante, as personagens principais na narrativa são mesmo a montanha e a sua flora. Aqui, a mistura entre discurso científico e literário aparece de forma prototípica, mesmo que, antes de narrar sua chegada ao topo, im Thurn seja geralmente mais contido. As encostas encimadas por despenhadeiros do Roraima se erguem como “postes de portão Titânicos4 ” (1885, p. 507) e a paisagem do monte é “quase sempre feita mais gigantesca e mística pelas nuvens e vapores5” (1885, p. 508), mas as inúmeras samambaias, orquídeas, palmeiras e sua distribuição são detalhadas como quem tenta fazer um rascunho preciso de uma ilustração botânica com as palavras.

O ápice da narrativa é a chegada ao cume, quando o autor, sem abandonar o verniz científico, declara:

E então o passo foi dado — e tivemos certamente uma visão tão estranha, levando-se em conta ser um produto da natureza, quanto se pode ter neste mundo: não, provavelmente não seria precipitado afirmar que muito poucas paisagens tão estranhas podem ser vistas6

(im Thurn, 1885, p. 517).

Em seguida, na mesma página, escreve sobre a impressão causada pelos formatos inusitados das rochas, que excitam e espantam a imaginação de quem observa, com suas caricaturas de colunas, pirâmides, jabutis e igrejas. Mas logo, o momento onírico cede espaço às lidas da viagem de retorno.

5. A tradução

Destaco aqui algumas escolhas empregadas em minha tradução.

Ao traduzir “The ascent of Mount Roraima”, fui guiado por um ideal de equilíbrio entre revelar minha compreensão da voz de Everard im Thurn sobre a sua aventura colonial e aproximar o texto dos leitores contemporâneos. Para tanto, meu primeiro foco foi sua citada sintaxe tortuosa, marcada por muitos períodos e subordinações. Frequentemente, reestruturei tais passagens para que proporcionassem mais fluidez à leitura. Justifico tal operação salientando que os leitores a quem os artigos dos Proceedings of the Royal Geographical Society and Monthly Record of Geography eram dirigidos no século XIX não apenas estavam acostumados com esse recurso estilístico, como até mesmo o esperavam, sendo este um elemento típico do gênero, naquele período e contexto específicos. Se tais relatos exploratórios coloniais tinham o intuito de informar, entreter e inspirar o público, procuro produzir efeitos similares na leitura do texto-alvo, adicionando, contudo, sugestões para uma interpretação minimamente crítica e temporalmente distanciada através deste paratexto. Não obstante, sinais de pontuação como o travessão e o ponto e vírgula foram preservados quando julguei necessário considerar na tradução a eloquência da narrativa.

Em alguns casos, como no topônimo do rio “Pomeroon”, as grafias utilizadas pelo autor não são as consagradas, e tentei manter essa diferença como marcas que sinalizam sua perspectiva de explorador estrangeiro e colonialista. Isso aconteceu na tradução de alguns nomes de grupos indígenas: os “Macuxis”, por exemplo, são chamados por im Thurn de “Makusis”, que é considerado um nome alternativo para essa população e sua língua (Ethnologue, 2024).

A profusão de referências a plantas em nomenclatura científica foi preservada, enquanto verti alguns de seus nomes comuns segundo a utilizada no português brasileiro. Quando isso não foi possível, vali-me de aproximações baseadas em um uso mais geral e menos especializado. No caso da planta carnívora Hemiamphora nutans, endêmica do Monte Roraima, im Thurn a chama de “pitcher plant”, diferente do mais preciso “marsh pitcher plant”, ou, literalmente, “planta-jarro do brejo”. Optei por “planta-jarro”, preservando a escolha do autor.

6. Considerações Finais

“The ascent of Mount Roraima” é um documento de importância fundamental para desvelar nuances dos empreendimentos colonialistas britânicos na Amazônia no final do século XIX. O texto de im Thurn oferece uma perspectiva única sobre as interações entre exploradores europeus e os ambientes por eles percebidos como exóticos e inexplorados que encontraram durante o período de expansão colonial. Tendo contribuído para o mapeamento e compreensão do território amazônico, ele responde a um aspecto essencial do colonialismo, que é o conhecimento sobre a terra como instrumento de seu controle.

O estranho país de pesadelos que a narrativa revela serviu para alimentar a imaginação popular e científica da época, atiçando curiosidades sobre o desconhecido e o fantástico além-mar. Essa visão do Monte Roraima como um lugar de mistério e maravilhas inexploradas teve um impacto na literatura britânica ainda pouco estudado, capitalizado sobretudo por Arthur Conan Doyle em sua obra, e nos oferece uma visão mais aprofundada da mentalidade colonialista britânica, bem como do impacto dessas explorações em representações culturais e literárias.

Espero que a tradução ofereça ao público uma oportunidade de leitura contextualizada e atualizada desse texto tão simbólico, proporcionando também um pouco de acesso ao estilo do autor e a visão que ele sugere, com seus traços vitorianos, cientificistas e literários. Espero que tal tentativa auxilie na escalada mental dessa magnífica montanha, que se impõe na geografia e nas mitologias amazônicas.

Supplementary material
Referências
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Veness, W. T. (2016). El Dorado; or, British Guiana as a field for colonization. Leopold Classic Library.
Notes
Notes
1 Minha tradução. Do inglês: Botanical Eldorado.
2 Minha tradução. Do inglês: [...] in syntax almost as tortuous as his ascent.
3 Minha tradução. Do inglês: [...] some strange country of nightmares.
4 Minha tradução. Do inglês: Titanic gate-posts.
5 Minha tradução. Do inglês: [...] almost always rendered more gigantic, much more mystic, by the clouds and vapours.
6 Minha tradução. Do inglês: Then the step was taken—and we saw surely as strange a sight, regarded simply as a product of nature, as may be seen in this world: nay, it would probably not be rash to assert that very few sights even as strange can be seen.
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Publisher Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
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