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Apontamentos de Hassel sobre terras e gentes no oriente peruano
José Guilherme dos Santos Fernandes; Lúcia Puga; Renan Freitas Pinto
José Guilherme dos Santos Fernandes; Lúcia Puga; Renan Freitas Pinto
Apontamentos de Hassel sobre terras e gentes no oriente peruano
Hassel’s Notes on Lands and Peoples in the East Peru
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104192, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina
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Resumo: O Engenheiro Jorge M. Von Hassel publicou Apuntes de viaje en el Oriente Peruano em 1905, momento em que a exploração gomífera que estava presente e em seu auge em toda a Amazônia, abrangendo vários países da América do Sul. O livro foi escrito com base em acontecimentos que presenciou ou escutou durante as diversas expedições realizadas em território Peruano, nas quais liderou ou compôs equipes que visavam ampliar o conhecimento sobre a geografia do país, visando aumentar o controle do Estado sobre regiões distantes e povos selvagens.

Palavras-chave: Hassel, Amazonas, Peru.

Abstract: Engineer Jorge M. Von Hassel published Apuntes de viaje en el Oriente Peruano in 1905, a time when rubber exploration was at its peak throughout the Amazon, encompassing several countries in South America. The book was written based on events he witnessed or heard during the various expeditions carried out in Peruvian territory, in which he led or composed teams that aimed to expand knowledge about the country’s geography, with the aim of increasing the State’s control over distant regions and wild peoples.

Keywords: Hassel, Amazon, Peru.

Carátula del artículo

Artigo

Apontamentos de Hassel sobre terras e gentes no oriente peruano

Hassel’s Notes on Lands and Peoples in the East Peru

José Guilherme dos Santos Fernandes
Universidade Federal do Pará, Brasil
Lúcia Puga
Universidade do Estado do Amazonas, Brasil
Renan Freitas Pinto
Universidade do Estado do Amazonas, Brasil
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104192, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 03 July 2024

Revised document received: 04 September 2024

Accepted: 17 August 2024

Published: 01 September 2024

Funding
Funding source: CNPq
Contract number: 40/2022
Funding statement: Chamada 40/2022, Programa Pró Humanidades.
I. Sobre a atuação e a obra de Jorge M. Von Hassel

Pouco pudemos encontrar quanto a referências biográficas do engenheiro e explorador alemão Jorge (ou Georg) M. Von Hassel, além de ter sido homem de trabalhos de campo e exímio tradutor das populações indígenas da Amazônia peruana, em particular a região oriental, a partir de sua contratação pela Sociedade Geográfica de Lima. Foi autor do livro Apuntes de viaje en el Oriente Peruano, publicado em 1905, período que coincide com o auge da exploração gomífera na Amazônia, que se expandiu por toda a região e em vários países da América do Sul. O autor, em seu prefácio, indica que foi protagonista ou ainda teve uma atuação secundária em diversos acontecimentos da Bacia amazônica. Ao longo dos diversos momentos de sua narrativa, rios e céus desenham o cenário para seringueiros, soldados e os “selvagens”, até então os senhores das terras agora cobiçadas e disputadas para a exploração do chamado “ouro negro”. Em suas andanças, por territórios inexplorados, o escritor vai reunindo e sistematizando informações sobre o Peru oriental, em descrições dos ambientes que ensejaram opiniões e valorações acerca dos/as nativos/as.

Hassel, pelo fato de haver investigado, escrito e publicado vários trabalhos sobre essa região do território peruano, transformou-se em uma das fontes privilegiadas para quem pretenda conhecê-la na situação em que se encontrava por volta de 1905, ano em que apresentou “Las tribus salvajes de la región amazónica del Perú”; “Rios Alto Madre de Dios y Paucatarmo” (conferência proferida na sociedade Geográfica de Lima na noite de 03 de fevereiro de 1905); “Estudio de los varaderos del Purús, Yuruá y Manu”, no Boletim da Sociedade Geográfica de Lima, além do livro La industria gomera en el Peru.

Vale destacar que Walter Benjamin (Andrade, 2018), ao tratar de relações diacrônicas no gênero narrativo, defende o conceito de tempo e de história no qual o passado em conjunção com o presente, pode adquirir novo sentido e atualizar-se. Segundo esta orientação, “nossa relação com o passado e os textos de outras épocas não implica simplesmente uma atitude de antiquário, ou seja, ler a obra apenas como representando o momento anterior dentro de uma determinada tradição” (Andrade, 2018, p. 01). Dessa maneira devemos ler os textos do passado – como é aqui o nosso caso – de maneira a que se revitalize sua relação com o presente, ou seja, que sua leitura possua sentido para hoje. Nesse sentido, ainda seguindo as sugestões de Benjamin, o texto que ora examinamos possui hoje para nós uma significação diferente da que possuía em 1905. Até porque mais de um século se passou e muitos outros textos e abordagens sobre seus principais temas foram publicados, ampliando a percepção dos leitores.

II. Apontamentos acerca da “cronística” de Hassel

Entre os vários temas abordados nos Apontamentos de Viagens no Oriente Peruano devem ser destacados os relatos de conflitos armados com os povos da região, motivados predominantemente pela disputa territorial das áreas mais produtivas de borracha e caucho. Relatos de expedições nas quais remos e rifles são fundamentais para se avançar em territórios desconhecidos e ainda não cartografados, abrindo caminho sobre as terras habitadas por vários povos descritos como tribos guerreiras, ostentando-se na proa das embarcações expedicionárias a bandeira peruana. É no ambiente de calor da selva, com suas chuvas densas, que emergem as referências às guerreiras do Amazonas, identificadas nas línguas locais como as Icamiabas, em crônica que aqui nos propomos a traduzir e interpretar, seja em seu conteúdo assim como no processo tradutório.

Quanto ao primeiro aspecto, Hassel assim caracteriza a exploração feroz à qual eram submetidos os povos indígenas na busca dos lucros derivados da economia gomífera:

Aproveito esta oportunidade para protestar diante do mundo civilizado contra os abusos e destruição desnecessária desses povos primitivos, que a cobiça do chamado homem civilizado impôs aos produtos do mercado amazônico, pois é um fato reconhecido por tudo o que se cobra ali por qualquer mercadoria. Aos governos do Peru, Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia, Paraguai e Argentina, que tem limites com a imensa planície dos três sistemas fluviais do Amazonas. Orenoco e Rio da Prata, região em que numerosos povos indígenas entregues à sua vida aprendida na natureza, estão expostos sem amparo da lei, aos ataques dos brancos que os perseguem e os caçam como se fossem animais da montanha, reconhecendo seu valor somente pela soma que representam em sua venda.

(Hassel, 1905b, p. 28, tradução nossa).

Além disso, Hassel reúne materiais sobre esses povos, pois acredita que eles “estão em plena decomposição, perdendo seus costumes e suas culturas primitivas”. Acrescenta em várias passagens anotações de interesse antropológico, descrevendo mitos, cerimônias, costumes, danças, preparação de bebidas e alimentos, hábitos matrimoniais, crenças, remédios, ritos funerários e antropofágicos, descrição de tipos de armas, fabricação de venenos, acometimento por doenças (muitos deles expostos à varíola que extermina tribos inteiras) e guerras entre indígenas e caucheiros.

Elogia a inteligência dos indígenas, pois aprendem sem muito esforço as técnicas e os manejos das ferramentas dos brancos, utilizando armas de fogo e atuando como práticos de bordo e tripulantes de embarcações. Destaca-se, ainda, a importância do conhecimento desses povos que vivem em regiões ainda pouco exploradas pela colonização europeia, auxiliando para a compreensão do desenvolvimento humano desde as épocas ditas primitivas, demonstrando-se interesse etnográfico genuíno, estimulado pelo pensamento de cunho evolucionista, em voga em sua época.

Ao longo dos vinte capítulos de seus Apontamentos é possível encontrar passagens esclarecedoras em relação aos seus principais interesses em torno da referida região do Peru. É o que buscaremos fazer em relação a passagens que nos chamaram especial atenção em relação a temas que foram destacados por seu Autor.

É assim que na introdução, ao se dirigir aos leitores, o seu relato está claramente destinado primeiramente ao seleto grupo de interessados que conhecem sua vocação de viajante, ao revelar o papel de judeu errante do qual se espera dizer de aspectos que vão do grande entusiasmo e satisfação, até um estado de ânimo triste e sombrio. Sem que tudo venha a ocultar o seu empenho e desejo de contribuir para o progresso dessas regiões, que, cedo ou tarde, haverão de constituir o futuro do Peru. Vale lembrar que o seu relato coincide, em seus aspectos principais, com o auge da atividade produtora da borracha e do caucho, que terminou por marcar a dramática história da Amazônia e de seus povos em distintos graus de violência.

Em seu primeiro capítulo já nos dá conta de que são notavelmente vivas suas descrições da antropização levada a efeito, como os acampamentos de caucheiros, que se assemelham a acampamentos militares, estando empenhados na empresa guerreira pela disputa de territórios que até então pertenciam de modo indiscutível aos povos indígenas. Na descrição desses acampamentos se observa, com acuidade etnográfica, os grupos que se distinguem em seus costumes de origem através do uso de certos instrumentos musicais e dos modos como os manuseiam.

Um outro elemento que nos chama a atenção, enquanto leitores, é o fato de que ele observa com bastante sensibilidade o estado de espírito dos indivíduos separados do convívio familiar e que sentem a dor e o sofrimento da separação, alguns deles chegando a sofrimentos extremos e à morte. Quanto aos que ficam à espera, a ansiedade, e quase sempre a tristeza, decorre de más notícias em relação aos seus entes queridos.

A sua descrição das paisagens é minuciosa e diversificada, indo das montanhas perpetuamente cobertas de neve, até a majestosa floresta com sua gigantesca e intrincada vegetação, passando por rios caudalosos e agressivos rios semelhantes a serpentes de prata. Em seu capítulo intitulado “Luz e Sombra” não deixa de anotar a região semitropical, que envolve em suas obras a região dos pampas de Madre de Dios. Da mesma forma, neste capítulo o Autor faz referências a fatos históricos que implicam na conquista espanhola da região, relembrando o inca Yupanqui com seus 20.000 homens, ao mesmo tempo em que menciona aos seringueiros do Manu e a expedição espanhola com seus cavalos e armas medievais, todos esses personagens de certo modo revividos no confronto dos caucheiros do rio Manu.

No capítulo “Momento Sublime” descreve como se dá o transporte arriscado de mercadorias e homens em balsas que enfrentam rios cheios de correntezas e remoinhos:

sobre as cargas colocamos remos e rifles: os primeiros para dirigir nossas frágeis embarcações por entre remoinhos e correntezas do rio, e os segundos para forçar a passagem por entre as tribos guerreiras dos huachipairis, sirineiris e mashcos. Na proa de uma das embarcações içamos a bandeira nacional, que o forte vento do norte desfraldou

(Hassel, 1905a, pp.19-20, tradução nossa).

Na sequência, em seu livro, apresenta a crônica foco de nossa tradução, antes se referindo, em crônica prévia, aos indígenas Murato, que “desde tempos remotos, vivem nesta região, sem que nenhuma tribo inimiga tenha conseguido desalojá-los de seus paradisíacos países”. Descreve uma conversação que manteve com seus novos amigos Murato, na qual o nativo descreve a origem mítica de seu povo, assim como dos brancos e negros. Em seguida narra, em nosso texto foco, a respeito das amazonas e a existência de um império de mulheres guerreiras, o que é o foco do capítulo aqui traduzido:

Quanto ao nome de Amazonas e a existência do império das mulheres guerreiras, conta a história que Orellana, em sua atrevida viagem partindo de Iquitos, baixando o Napo e depois o Amazonas, foi atacado à boca do rio Nhamundá, afluente do último, por uma tribo de mulheres aguerridas, pelo que deu ao rio o nome de Amazonas. [...] Orellana, ao baixar o Amazonas tomou por mulheres aos homens da tribo dos Nhamundás, em razão de que umas como outros – coisa que acontece também na maior parte das tribos do pampa amazônico – usam “cushma” (espécie de túnica) e cabelos compridos, o que torna difícil distinguir os sexos à certa distância.

(Hassel, 1905a, pp. 27-28, tradução nossa).

Seu descrédito de que haja uma etnia tocada por mulheres é decorrente de uma visão mais positivista de uma série de naturalistas e viajantes estrangeiros que realizaram expedições na região amazônica, seja no Peru, Equador ou Brasil, perspectiva que foi inaugurada, ainda no século XVIII, pela expedição do francês Charles Marie de La Condamine, em 1743. Neste caso, procura-se deslegitimar a visão mítica da existência de mulheres guerreiras e protetoras de grande riqueza aurífera, na esteira da tradição da mitologia greco-romana, e apresenta-se versão mais de acordo com os preceitos da ciência positivista nascente, em que razões históricas e sociais impulsionaram as mulheres a serem combativas e reunidas em grupos, para defesa contra homens déspotas; ou então são descritas como mulheres manipuladoras, com desfaçatez para conseguir sobreviver ao lado de machos embrutecidos, o que é o argumento de Hassel. Podemos observar esse ponto de vista nos seguintes excertos:

A mulher das selvas amazônicas é em tudo idêntica àquela que vive em meio à civilização, pois, tanto ali quanto aqui, dedica seu engenho para prodigalizar ao homem tudo o que presume ser a ele agradável. [...]

Armada dessa forma com esses atrativos, de mesmo modo que a grande dama de nossa sociedade contempla seu lindo rosto com brilhante espelho veneziano, que ressalta sua beleza e suas jóias, a mulher selvática admira suas graças nas mansas águas de um riacho ou nas tranquilas águas de uma lagoa.

(Hassel, 1905a, pp. 46-47, tradução nossa).

O importante a saber é que o sexo é um fator biológico, enquanto que a conceptualização de gênero “in contrast, is socially constructed, based on how people conceptualize sex differences and what they considerer proper behavior for each sex” [por outro lado, é construído socialmente, com base em como as pessoas conceituam as diferenças sexuais e o que consideram comportamento adequado para cada sexo] (Balée, 2012, p. 60). A considerar esta assertiva, podemos concluir que Hassel, como bom naturalista do início do século XX, confunde sexo com gênero, se bem que, a bem da verdade, esta distinção não era tão visível neste momento, daí que se naturaliza a condição feminina como subserviente e falsídia, em relação aos seus parceiros. Ainda trata a mulher de diferentes culturas – a indígena e a europeia – como sendo semelhantes, incorrendo, certamente, no etnocentrismo.

Com a mesma compreensão subjetiva do comportamento feminino não trata a relação doméstica entre gêneros, pois não critica o posicionamento masculino em relação à divisão do trabalho na família: “a mulher trabalha mais que o homem, pois enquanto este roça o terreno, a mulher prepara os cultivos, a colheita, prepara a comida, etc.; enquanto isso, o homem permanece deitado no chão sobre uma esteira”. Neste sentido, confirma a visão de Balée que lembra que a diferença entre homens e mulheres é da ordem da construção social, posto que cada grupo impõe o que seja adequado ao comportamento de cada sexo, mesmo que este seja biológico, ou seja, de outra ordem. Portanto, para Hassel, homem de seu tempo, a mulher indígena é “vanidosa, manipuladora, busca la atención de los hombres y dependiendo de la ‘tribu’ a la que pertenezca tiene mayor participación social” (Yanes, 2014, p. 7).

Ao concluirmos a leitura dos “Apontamentos”, em especial da crônica “O império das Amazonas”, de Jorge Hassel reconhecemos sua importância para a percepção da Amazônia e os efeitos do chamado “ciclo da borracha” para a formação histórica da região norte e de seu processo de subdesenvolvimento, enquanto história social e econômica dessa região peruana. Mas a escritura do autor também nos fala, abertamente, das relações estritamente sociais e domésticas, como é o caso desta crônica foco de nosso estudo e tradução. Por isso a importância para além de um mero texto de cronista viajante embotado pelo eurocentrismo, posto que ao tratar dos indígenas talvez muito mais trate de sua própria cultura. E vale destacar que “la traducción ha sido y es uno de los engranajes clave de la maquina de la cultura” (Santoyo, 1996, p. 28).

III. Apontamentos acerca do processo tradutório

Como dito anteriormente, para lembrar Benjamin, nossa atitude tradutória é de contemplar o passado – o texto de partida – à luz de nosso presente – o texto de chegada, observando-se a tradição, ou cultura, da qual faz parte o texto “original”. Neste sentido, considerando-se que Hassel vem de uma cultura “cientificista”, nossa preocupação foi mantê-la, particularmente no que existe de descritivismo na metodologia científica, no que o autor é genuíno. No entanto, algumas palavras e expressões necessitaram de uma atualização e ampliação no seu sentido, para que houvesse melhor compreensão por parte do leitor brasileiro: é o caso da palavra coleóptero (gr. Koleópteros,os,on, no sentido de ‘que possui asas recobertas por uma espécie de forro’), na frase “con las alas tornasoladas de coleópteros”, uma vez que a recepção é mais palatável e compreensível se nos referirmos a “besouros e joaninhas”, na condição de coleópteros.

Outras palavras, de uso muito recorrente em espanhol, mas com duplicidade de sentido em português, foram substituídas por vocábulos mais usuais na língua de chegada, por mais que na língua de partida pudesse apontar como sinonímia na língua portuguesa. É o caso de “tomar” com sentido de beber algum líquido: preferimos utilizar a palavra “beber”, posto que o campo semântico de “tomar” em português é muito amplo e com certa dubiedade de sentidos. Ainda é o exemplo da palavra “debilidade”, no tocante à semântica, pois o uso cultural deste vocábulo denota frequentemente fraqueza física e falta de vigor tocante à saúde, no Brasil, o que não vem ao caso na construção de sentido do texto, posto que a palavra “fraquezas”, em português dá mais conta do sentido de vulnerabilidade em caráter mais moral e humano, vinculada a defeitos e vícios: assim que a frase “como conoce perfectamente las debilidades de su marido” foi traduzida por “como conhece perfeitamente as fraquezas de seu marido”.

No contexto gramatical, temos o caso da expressão “irnos a comer”, que necessitou no texto traduzido de um objeto direto – “irmos comer algo” – porque o verbo transitivo (v. comer) implica em uma complementação. Na mesma linha de compreensão, a expressão “podría decirnos” foi traduzida com o pronome oblíquo antes do verbo, em próclise, diferentemente do uso do pronome átono em espanhol, pois a próclise é uso mais recorrente em português coloquial, mesmo que haja verbo no infinitivo, daí ter sido traduzida a frase original para o português “poderia nos dizer”.

Toda essa heterogeneidade de palavras e expressões, mesmo em línguas de mesmo tronco linguístico, como português e espanhol, reduz-se à condição de que traduzir é estar em uma corda bamba da dicotomia fidelidade ao texto original ou traição presente no texto traduzido. No entanto, entre traição e fidelidade inexiste uma apriorística de que uma vertente seja melhor do que a outra; em verdade, o que há é a tradução como uma possibilidade de ordem, de conciliação entre o disperso e o confuso (Ricoeur, 2012), pois a “boa tradução só pode visar uma equivalência presumida, não fundada numa identidade de sentido demonstrável” (2012, p. 47).

Esta questão da distância entre o texto fonte e o texto traduzido nos leva a considerar que o processo tradutório é um processo de leitura, para lembrar Compagnon (2007), pois a escolha do texto a ser traduzido passa pelo encantamento do tema – aqui a Amazônia e seus personagens míticos e históricos – que nos leva à solicitação, como busca pelo texto que nos dará o “prazer do texto” (lembrando Roland Barthes), e desta à acomodação, compreendida como como o lugar de satisfação pela escolha: em nosso caso, o lugar é o próprio processo tradutório, como desafio entre ser fiel ao original e estar comprometido com a plena inserção do outro em minha cultura de chegada, em autêntica “alter-idade”. Neste particular, cabe o exemplo da designação, por Hassel, do “río Nahumedes”, que, por não ter sido identificado em fontes históricas e geográficas como tal, foi traduzido como rio Nhamundá, que se localiza na região em que declaradamente o frei dominicano espanhol Gaspar de Carvajal, ainda no século XVI, identificou, por primeiro, supostas guerreiras que lembravam as míticas amazonas da mitologia grega, isto é, a região que hoje é fronteira entre os estados do Amazonas e do Pará, ao largo do rio Amazonas; talvez daí a referência inicial a este rio tenha sido “rio das amazonas”.

Este procedimento cirúrgico de penetrar no sentido das palavras para que elas retornem com sentido renovado, que é realizado pelo tradutor – para Compagnon é a ablação, que lembra o procedimento cardiológico minimamente invasivo – não representa a desvalorização e subserviência do texto fonte ao texto traduzido, mas é a renovação e garantia de continuidade entre línguas e culturas, uma vez que, enquanto leitura, a tradução é uma operação “inicial de depredação e de apropriação de um objeto que o prepara que o prepara para a lembrança e para a imitação, ou seja, para a citação” (Compagnon, 2007, p. 14). Amputado o fragmento, ou palavra, de sua condição inicial, ele torna-se “texto, não mais fragmento de texto, membro de frase ou de discurso” (2007, p.13). Como deve ser a tradução, ou seja, um hipertexto de gentes e culturas.

Supplementary material
Referências
Andrade, Maria Mercedes. (2018) Introdução. In Maria Mercedes Andrade (Org.), Walter Benjamin aqui y ahora. (pp. I - X). Ediciones Uniandes.
Balée, William. (2012) Inside cultures; a new introduction to cultural anthropology. Left Coast Press
Carvajal, M. Melitón, & Prado y Ugarteche, J. (1913). Medalla de Oro. Informe de la Comisión. Boletin de la Sociedad Geográfica de Lima. XXV Aniversario de la Fundación (1888-1913), Tomo 29, 214 - 22. https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6a/Bolet%C3%ADn_de_la_Sociedad_Geogr%C3%A1fica_de_Lima._%28IA_boletndelasocied2919soci%29.pdf
Compagnon, Antoine. (2007) O trabalho da citação. Ed. UFMG.
Hassel, Jorge M. Von. (1905a.) Apuntes de viaje en el Oriente Peruano. Imprenta y Librería de San Pedro.
Hassel, Jorge M. Von. (1905b) Las tribus salvajes de la región amazónica del Perú. Boletín de la Sociedad Geográfica de Lima, 15(18), pp. 27-73. https://ia802702.us.archive.org/3/items/boletndelasocied1719soci/boletndelasocied1719soci.pdf
República del Perú. Oficina Nacional De Evaluación De Recursos Naturales (ONERN). (1967) Estudio del Potencial de los Recursos Naturales de la Zona del Rio Camisea. https://repositorio.ana.gob.pe/bitstream/handle/20.500.12543/1016/ANA0000119.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
Ricoeur, Paul. (2012) Sobre a tradução. Ed.UFMG.
Santoyo, Júlio-César. (1996). El delito de traducir. Universidad de León.
Yanes, Alizia. Las amazonas en la frontera: representaciones en el espacio e imaginario del discurso literario amazónico peruano, 2014. https:
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Editores de seção Andréia Guerini

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