Artigo
Received: 30 October 2024
Revised document received: 10 December 2024
Accepted: 30 November 2024
Published: 01 December 2024
DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7968.2024.e104324
Resumo: Nascido em Sandycove, Dublin, Roger David Casement (1864-1916) foi um cônsul britânico, que posteriormente tornou-se revolucionário irlandês. Em vida, Casement foi aclamado pela autoria de dois relatórios publicados como brochuras oficiais do parlamento britânico: o relatório do Congo, escrito em 1903, durante o reinado de Leopoldo II da Bélgica; e o relatório da Amazônia, em 1911. Ambos os documentos são conhecidos pelo registro de atrocidades cometidas contra os nativos dessas regiões durante o auge do ciclo da borracha, no início do século XX. É como cônsul-geral no Brasil que Casement parte de uma investigação sobre maus tratos de cidadãos britânicos empregados pela Peruvian Amazon Company e aporta em Belém do Pará, de onde segue para Manaus e cruza a fronteira, rio acima, até a região do Putumayo. No Brasil, temos publicado O diário da Amazônia de Roger Casement (2016), com seleções dos diários feitas pelo historiador Angus Mitchell e pelas organizadoras brasileiras, Laura Izarra e Mariana Bolfarine. Ao traduzirmos três cartas como parte de sua correspondência consular, buscamos entender como o cônsul-geral do Brasil retrabalha a experiência– e todo o registro escrito que é feito dela in loco – de sua viagem para denunciar os “crimes do Putumayo”.
Palavras-chave: Roger Casement, correspondência consular, economia da borracha, genocídio de indígenas na Amazônia, extrativismo e imperialismo.
Abstract: Born in Sandycove, Dublin, Roger David Casement (1864-1916) was a British consul who later became an Irish revolutionary. During his lifetime, Casement was knighted for authoring two reports published as official brochures of the British parliament: the Congo report, written in 1903, during the reign of Leopold II of Belgium; and the Amazon report, in 1911. Both documents are known for recording the atrocities committed against the natives of these regions during the height of the rubber boom, at the beginning of the 20th century. It is as consul-general in Brazil that embarks an investigation into the mistreatment of British citizens employed by the Peruvian Amazon Company, disembarking in Belém do Pará, from where he heads to Manaus and crosses the border upriver, toward the Putumayo district. The translation of Roger Casement’s Amazon journals was published in Brazil in 2016, with selections by the historian Angus Mitchell and the Brazilian organizers, Laura Izarra and Mariana Bolfarine. By translating three letters as part of his consular correspondence, we seek to understand how the consul-general of Brazil reworks the experience – and the entire written record of it made in loco – of his trip to denounce the “crimes of the Putumayo”.
Keywords: Roger Casement, consular correspondence, rubber economy, genocide of indigenous people in the Amazon, extractivism and imperialism.
1. Introdução a Roger Casement: de cônsul-geral condecorado a rebelde enforcado
Nascido em Sandycove, Dublin, Roger David Casement (1864-1916) foi um cônsul britânico, que posteriormente tornou-se revolucionário irlandês. Ao final da adolescência partiu de Antrim, na Irlanda do Norte, para Liverpool, onde o tio materno lhe posicionou na Companhia Mercante Elder Dempster. Iniciou sua carreira comercial como comissário de embarcação, mas logo se tornou funcionário do Estado Livre do Congo, governado pelo monarca absolutista da Bélgica, Leopoldo II. Já mais experiente, e tendo sido notado por funcionários da Coroa Britânica, foi nomeado cônsul na África portuguesa em Lourenço Marques, atual Maputo, entre 1895 e 1898 e, anos depois, no Brasil, em Santos e Belém do Pará, e cônsul-geral no Rio de Janeiro (Bolfarine, 2018, pp. 21-24).1
Em vida, Casement foi aclamado pela autoria de dois relatórios publicados como brochuras oficiais do parlamento britânico: o relatório do Congo, escrito em 1903, durante o reinado de Leopoldo II da Bélgica; e o relatório da Amazônia, em 1911. Ambos os documentos são conhecidos pelo registro de atrocidades cometidas contra os nativos dessas regiões durante o auge do ciclo da borracha, no início do século XX. Por não coletar as quotas que lhes eram impostas, os congoleses e os indígenas do Putumayo – homens, mulheres e crianças – eram flagelados, tinham membros amputados e sofriam de fome e inanição.
Após testemunhar tais atrocidades, partes de um sistema instaurado por uma política de terror guiado por interesses comerciais e imperialistas, Casement voltou-se contra o próprio império britânico, demitindo-se de suas funções consulares, e aderindo à causa da independência da Irlanda. Aos 21 de abril de 1916, foi preso ao retornar à Irlanda em um submarino U19 com a intenção de participar e levar armas a rebeldes do Levante da Páscoa, cujos envolvidos buscavam a independência do Reino Unido e a fundação de uma república irlandesa autônoma.
Durante seu julgamento por alta traição à Coroa, havia apoio intelectual e popular ao réu e um pedido de clemência por intelectuais conhecidos na época, como Arthur Conan Doyle, George Bernard Shaw e Mark Twain. Seus apoiadores acreditavam que, em razão de seus feitos pelos congoleses, pelos indígenas do Putumayo e pelos próprios irlandeses, oprimidos por políticas imperiais, o ex-cônsul condecorado mereceria um indulto. Paralelamente a esta campanha, circularam entre envolvidos em seu julgamento as páginas de supostos diários secretos supostamente encontrados pelo Ministério do Interior em seus aposentos londrinos, alcunhados de “Black Diaries”, e que relatavam uma série de encontros e atos homossexuais nos diferentes lugares por onde passou. Também foram selecionados excertos sugestivos desses diários para publicação na imprensa de grande circulação, minando os esforços dos pedidos de clemência. Assim, tanto pelo envolvimento com os inimigos alemães em atividades contra o governo britânico em plena Primeira Guerra, quanto pela reação negativa ao conteúdo homossexual dos Black Diaries, Casement foi enforcado aos 3 de agosto de 1916.
2. A presença de Casement no Brasil e seu papel oficial na investigação do Putumayo
Três foram os postos oficiais que Casement ocupou no Brasil: primeiramente, como cônsul em Santos, onde ocupou-se majoritariamente de questões comerciais e burocráticas ligadas às atividades portuárias, começando em agosto de 1906. Insatisfeito com a natureza de suas funções (ele já era um oficial condecorado como Companheiro da Ordem de São Miguel e São Jorge pelo trabalho no Congo), consegue uma transferência para Belém do Pará em dezembro de 1907. No entanto, a despeito de já circularem notícias sobre a violência no Putumayo, durante o tempo no Pará, ele não se envolve com a questão. A região ou distrito do Putumayo é um vasto território situado no que hoje é a Amazônia peruana, mas que, no início do século XX, era disputado entre o Peru, Brasil e Colômbia por conter a Hevea brasiliensis, a árvore seringueira, e indígenas que sabiam como extrair a sua seiva. Já o último posto brasileiro de Casement foi de fato uma promoção: torna-se cônsul-geral do Brasil, com residência primeiro do Rio e depois em Petrópolis de março de 1909 por quatro anos, até (oficialmente) 1913. Durante o período de sua residência oficial no Rio de Janeiro que Casement é enviado à região amazônica em duas viagens distintas, entre agosto e dezembro de 1910 e setembro e dezembro de 1911, como parte de uma comissão encarregada de investigar a situação na região do Putumayo, em terras peruanas, mas de forte interesse colombiano e também brasileiro.
É, portanto, como cônsul-geral que ele parte de uma investigação sobre maus tratos de cidadãos britânicos empregados pela Peruvian Amazon Company que Casement aporta em Belém do Pará, de onde segue para Manaus e cruza a fronteira (virtual e sem qualquer tipo de controle imigratório) para Iquitos, para então seguir rio acima até a região do Putumayo e as diferentes estações que organizavam a extração, manejo e escoamento da borracha para os portos nacionais e em direção aos mercados do mundo. Embora sua atuação anterior no Congo Belga o colocasse em posição privilegiada para investigar os abusos já naquele momento noticiados por diversas fontes como cometidos pela organização da empresa dos irmãos Arana, foi somente a partir da incorporação e registro daquela empresa na metrópole inglesa que os membros do establishment político inglês começaram a pressionar por uma investigação sobre os desfeitos da empresa que passara então a ser uma empresa operando comercialmente no mercado britânico. Além disso, também sob a égide do colonialismo, porque Barbados fazia parte do Reino Unido, os trabalhadores contratados pela empresa dos irmãos Arana naquela ilha eram cidadãos britânicos e, portanto, cabia-lhes a proteção consular reservada aos expatriados.
Similarmente ao livro do juiz peruano Carlos A. Valcárcel, El Proceso de Putumayo y sus secretos inauditos (1915/2004), cujo primeiro capítulo foi traduzido e publicado por José Guilherme dos Santos Fernandes2 no segundo volume desta coleção de números especiais da Cadernos de Tradução, Traduzindo a Amazônia II, composto retrospectivamente a partir dos autos, as cartas desta correspondência pertencem a um discurso oficial de governo, neste caso diplomático e então, quando incluído no Blue Book, também parlamentar. Como fonte, Casement usou de seus vários diários, transcrições de deposições e vários registros feitos in loco justamente na tentativa de produzir provas de credibilidade em que se sustentassem os relatórios.
O impacto do relatório foi imenso e não apenas na Grã-Bretanha mas também nos EUA, a partir da ação do cônsul estadunidense no Peru, Stuart Fuller, que submeteu o Blue Book para apreciação do congresso americano, juntamente com as fotografias que Casement tirou durante a viagem e que estão hoje no acervo da Biblioteca do Congresso. Embora estejamos aqui no Brasil começando a reconhecer melhor a importância do nosso ex-cônsul, sua fama internacional vai além do mundo anglófono:
Embora Casement não tenha conseguido garantir aos povos do Putumayo formas de salvaguardas mais duradouras, sua coragem para denunciar o mal a que estavam expostos salvou inúmeras vidas e evitou muito sofrimento, consolidando sua reputação em todo o mundo. Um século depois da publicação do seu relatório, os governos do Peru e da Colômbia realizaram uma cerimônia em La Chorrera e emitiram uma declaração reconhecendo que o que ali aconteceu foi um crime de etnocídio. O Papa Bento XVI também reconfirmou a encíclica do seu antecessor3
(Philipps, 2024, p. 123, tradução de Maria Rita).O reconhecimento da figura de Casement na America Latina hispânica pode ser percebida na publicação, em 2011 do Blue Book no Peru, como parte de uma parceria entre o International Work Group for Indigenous Affairs (IWGIA – Grupo de Trabalho Internacional para Assuntos Indígenas) e o Centro Amazónico de Antropología y Aplicación Práctica (CAAAP – Centro Amazônico de Antropologia e Aplicação Prática) e sua disponibilidade, sem qualquer custo e em formato PDF, no site do IWGIA.4 Outro aspecto do apreço por Casement é a ficcionalização de sua biografia no romance O sonho do celta de Mario Vargas Llosa (2011, trad. Paulina Wacht e Ari Roitman).
3. As três cartas selecionadas para tradução
A primeira carta incluída nesta correspondência aqui traduzida parte justamente de um oficial do Foreign Office (FO) britânico (comparável ao nosso Ministério de Relações Exteriores) e em nome de seu secretário-geral Sir Edward Grey, com o précis da missão e a composição da comissão designada pelo FO, em meados de 1910. Ainda que marcada pelas formas indiretas de uma comunicação oficial, é possível entrever a confiança depositada pelo FO, na figura de Edward Grey, em Casement, pelo menos naquele momento de seu relacionamento político5.
A segunda carta, enviada por Casement a Grey em 13 de janeiro de 1911 após seu retorno da primeira viagem ao Putumayo, trata de gastos com guias e intérpretes na viagem, o que acreditamos ser de grande interesse para entender melhor a situação desses agentes no local, muitas vezes invisibilizados em narrativas de viagem. Diferentemente das duas outras cartas, transcritas no Blue Book que nos serve de texto-base, a carta sobre os intérpretes sobrevive nos arquivos de Sir Edward Grey e foi transcrita por Angus Mitchell em seu Sir Roger Casement’s heart of darkness: The 1911 documents (2003).
A terceira e última carta desta correspondência, mais longa e detalhada e cujos excertos traduzimos aqui, é enviada por Casement diretamente a Grey como um relato oficial de sua viagem, suas conclusões sobre a investigação e como forma de prestar contas (inclusive dos gastos feitos) durante o período. Enviada em 31 de janeiro de 1911, quando o cônsul-geral já se encontra em Londres, essa é uma escrita na condição de um servidor público que reporta a seu superior e que sabe estar produzindo um documento que deverá ser lido nos mais altos círculos do governo imperial. O que de fato acontece, com a já mencionada inclusão das cartas como peças documentais da já referida brochura, conhecida como um dos blue books por seu longo título e classificada como Miscellaneous No. 8 (1912), com publicação pela Imprensa Oficial de Sua Majestade em julho daquele ano para sua apresentação perante as duas câmaras parlamentares do governo.
4. O legado escrito de Casement
As cartas aqui selecionadas para tradução fazem parte de um corpus muito maior de textos legados por Casement durante sua vida tragicamente interrompida. Para além de sua sobrevida nas obras ficcionais e não-ficcionais de quem ele inspirou e continua inspirando (ver Bolfarine 2018), é possível ter acesso a sua própria escrita em diversos gêneros, especialmente dentro do guarda-chuva das escritas de si, dentre os quais o mais explorado são os diários. Roger Sawyer, em sua introdução à edição dos diários de 1910 (com o texto dos “brancos” seguindo o dos “negros”), pondera que:
A escrita compulsiva de diários era um fenômeno bastante comum na época eduardiana [1901-1910], mas a obsessão de Roger Casement era excepcional. Se incluirmos seus relatórios oficiais, era capaz de escrever nada menos que três versões dos acontecimentos de um mesmo dia, dedicando-se a essa tarefa, em grande parte autoimposta, noite adentro e até madrugada do dia seguinte. Tudo isso depois de um dia extenuante de trabalho em um ambiente hostil, frequentemente não estando bem de saúde.6
(Sawyer, 1997, p. 1, tradução de Maria Rita).No Brasil, temos publicado O diário da Amazônia de Roger Casement (2016), com seleções dos diários ditos “brancos” (e cuja autenticidade jamais foi questionada) feitas pelo historiador Angus Mitchell, editor do volume original de 1997 e pelas organizadoras brasileiras, Laura P. Z. Izarra e Mariana Bolfarine, que também coordenou a equipe de tradutoras (ele própria, Mail Marques de Azevedo e Maria Rita Drumond Viana). O diário também inspirou o filme de Aurélio Michiles, Segredos do Putumayo, que recebeu menção honrosa no festival É Tudo Verdade de 2020 (Bolfarine & Izarra, 2022).
A esse riquíssimo material disponível em português do Brasil, vão somar-se as já mencionadas brochuras oficiais, o Report from His Majesty’s Consul at Boma (Relatório do Cônsul de Sua Majestade em Boma), sobre a situação no Congo Belga e a Correspondence respecting the Treatment of British Colonial Subjects and Native Indians Employed in the Collection of Rubber in the Putumayo District (Correspondência sobre o Tratamento de Súditos Coloniais Britânicos e Indígenas Nativos Empregados na Coleta da Borracha no Distrito do Putumayo), uma das fontes da correspondência aqui traduzida, como parte do projeto de pesquisa de Mariana Bolfarine junto à Cátedra de Estudos Irlandeses W. B. Yeats, coordenada por Laura Izarra na Universidade de São Paulo. Material extenso e de caráter oficial, os blue books eram, ainda assim, vendidos em brochuras a preços populares (pouco mais de um xelim em 1912), o que ajuda a entender seu impacto social para além da apresentação oficial nas duas câmeras parlamentares.
Em termos filológicos, este blue book é uma coletânea de cinquenta comunicações, entre cartas manuscritas e telegráficas, enviadas e recebidas por Casement e diversos interessados na sua investigação sobre o Putumayo, partindo do FO britânico, diplomatas, membros dos governos do Peru, do Brasil e dos Estados Unidos e outras autoridades e oficiais. Em muitos casos, Casement inclui anexos, alguns deles transcrições e resumos de materiais produzidos durante a própria viagem. As cartas-relatório numeradas como 8, 9 e 10 são as mais longas e derivam, em parte, dos diários de campo de 1910, que Casement usa como aide-mémoire, mas que são também complementados pelos testemunhos tomados in loco com os empregados barbadianos da Peruvian Amazon Company, as diversas cartas que ele envia durante a viagem e outras anotações, incluindo livros-caixa. Há, até mesmo, registros fotográficos feito pelo próprio Casement, incluídos no Anexo 1 da edição brasileira do Diário da Amazônia e de que trata Jordan Goodman em seu artigo “Mr Casement goes to Washington: The Politics of the Putumayo Photographs”, publicado em volume de 2010 do ABEI Journal, periódico da Associação Brasileira de Estudos Irlandeses, dedicado a Casement. Nesse sentido, percebem-se nas cartas uma mistura de diferentes gêneros e discursos, incluindo interpelações típicas do discurso epistolar, como quando Casement dirige-se diretamente a Grey como seu interlocutor no meio da carta 8, aqui traduzida.
Ao apresentarmos as cartas como parte de uma correspondência cruzada e como cartas públicas, buscamos também entender como o cônsul-geral do Brasil, tendo sido dado alguma latitude para sua atuação retrabalha a experiência– e todo o registro escrito que é feito dela in loco – da viagem ao Putumayo para tentar ser um agente de mudança do que ele testemunhou, junto às mais altas instâncias do governo britânico, do qual ele ainda fazia parte. Como explica Angus Mitchell em sua biografia, “embora fosse amplamente conhecido por seu ativismo humanitário, por expor as atrocidades imperiais do rei Leopoldo II da Bélgica no Congo, o seu trabalho consular permanece desconhecido para além dos seus relatórios publicados e do seu tratamento na imprensa imperial” (2003, p. 1, tradução de Maria Rita). Felizmente para nós, a burocracia do trabalho consular deixa muitos registros, ou o que em inglês se chama de paper trail: uma trilha de papel.
5. Topônimos, grafia de povos e línguas indígenas, intervenções anacrônicas e manutenção de marcas de multilinguismo na tradução
Em relação a nossas escolhas tradutórias, tomamos como base uma observação pro próprio Casement, atentando para as diferenças nos nomes de um mesmo rio:
A tribo indígena dos boras é um ramo numeroso e de grande força física da ampla família indígena que habita, ou melhor, habitava, as terras situadas entre os rios Putumayo e Japurá. Este último rio também é conhecido pelo nome de Caquetá: Japurá é o nome utilizado no Brasil e Caquetá é como os peruanos e colombianos o denominam
(202, p. X da tradução).Embora utilize Caquetá como o nome que escuta durante a viagem, Casement, porque cônsul-geral do Brasil, certamente tinha tido contato com mapas brasileiros em que o rio era identificado como Japurá, em seu longo caminho até desembocar no próprio Rio Amazonas, onde hoje é a cidade de Alvarães e mais abaixo, Tefé (antiga Vila de Ega, assim identificada pelo naturalista Henry Bates em meados do século XIX). Optamos por manter sempre a grafia utilizada nas cartas transcritas: não traduzimos para o português o nome da estação como “Último Retiro” mas tampouco acentuamos Entre Ríos quando esta aparecia sem o diacrítico do espanhol.
Também optamos por manter a grafia utilizada por Casement para os povos e línguas indígenas com que ele teve contato, indo contra os manuais de normatização que recomendam o aportuguesamento quando aparecem as letras k, w e y especialmente. Assim, os andokes permanecem como andokes em nossa tradução, havendo apenas menção nas notas de que também há a grafia andoques. No caso do povo wuitoto, mantemos a grafia de Casement como huitoto (usada no espanhol), mas indicamos a autodenominação com o uso do w, ainda que também haja o aportuguesamento para uitoto. Buscamos, em todos os casos, indicar a grafia utilizada em uma variedade de fontes, desde as oficiais dos governos centrais dos respectivos países até, quando havia, aquelas aceitas pelas próprias comunidades indígenas, que em muitos casos se utilizam justamente das três letras que os manuais de normatização recomendam transliterar.
Após discussão, tomamos uma decisão em direção oposta: embora Casement utilize, em consonância com a prática de seus contemporâneos, o termo indian tanto como substantivo (“índio” e “índia”) quanto como adjetivo, optamos por utilizar “indígena” em ambos os casos, inclusive porque, em muitos casos, Casement inclui as mulheres nativas, algo que se facilita com o uso sem marcação de gênero, “indígenas”. Somente utilizamos “índios” quando nosso autor reporta o uso do termo por outras pessoas em contextos de conquista e dominação, como quando o chefe do bando de empregados locais Peruvian Amazon Company se refere à população circundante como “meus índios”, indicando sua dominação e posse. Vale também lembrar o contexto colonialista de indian em inglês e que permanece até hoje, em que indian pode tanto ser o “índio” quanto o “indiano”.
Outra escolha anacrônica, mas imbuída de intenções políticas, é a tradução de squatter, ligado às leis de propriedade britânicas conhecidas como squatter rights, que é a ocupação adversa de uma propriedade e que, no Código Civil Brasileiro, pode levar a direito de posse por usucapião. Não se trata, portanto, da mesma situação da grilagem, que se utiliza de documentos forjados para reclamar a posse. No entanto, ao traduzirmos squatter como “grileiro”, buscamos mostrar uma certa continuidade entre o que se passou no distrito do Putumayo no final do século XIX e início do XX e a ocupação ilegal de terras indígenas no Brasil contemporâneo. Lógica parecida guiou nossa escolha pela tradução de barter por “escambo”, fazendo referência, desta vez, não à contemporaneidade da exploração mas ao passado da colonização portuguesa.
Outra característica da escrita de Casement é a presença de palavras em outras línguas. Buscamos destacar essas palavras no texto com o uso de itálicos nos casos em que elas poderiam passar desapercebidas. O procedimento adotado foi o mesmo, independente da língua, mas se fez mais necessário certamente no caso das palavras em português. Quando encontramos stocks em inglês, traduzimos como “cepos” sem o uso do itálico. Quando é usado “cepo” no original, marcamos a presença do vocábulo em português com o itálico para dar destaque ao seu uso. Outro exemplo dessa marcação é o uso do verbo “conquistar” no texto da carta. Utilizado no que acreditamos ser espanhol, mantemos o verbo na nossa tradução, mas com o mesmo destaque em itálico. No entanto, quando Casement faz referência a agentes que buscam “conquistar” a população como subduers, optamos por traduzir não como o mais neutro “dominadores”, mas como “conquistadores”, com o objetivo de deixar mais clara a ligação com os chamados “conquistadores” espanhóis dos séculos XV e XVI.
Por fim, cabe comentar uma expressão muito pouco usual e que revela que, a despeito de compactuar com preconceitos de sua época e caracterizar indígenas como “crianças crescidas”, Casement em muitas vezes inverte a polaridade eurocêntrica de quem é civilizado e quem selvagem e revela um entendimento ecológico bastante afinado. Ao caracterizar os agentes da empresa dos irmãos Arana como vegetable filibusters, ele aponta para um sentido mais antigo do termo filibuster, hoje mais conhecido como procedimento de obstrução de pauta no legislativo estunidense. Optamos por traduzir a expressão como “corsários de vegetais”, fazendo a equivalência das atividades dos corsários do mar com esses corsários dos rios, que espoliavam a floresta em um tipo de extrativismo predatório e de pilhagem, não apenas dos seus recursos vegetais mas também dos povos da floresta. Esse uso leva estudiosos de Casement, como seu mais recente biógrafo, a declarar que “ele estava a frente de seu tempo quando denunciou o desmatamento da Amazônia como a destruição de um recurso renovável, também fazendo paralelos com a exploração madeireira da Irlanda por parte dos ingleses como um ato de vandalismo colonialista”7 (Philipps, 2024, p. 102, tradução de Maria Rita).
Referências
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Notes
Author notes
Ingrid Bignardi
m.rita.viana@ufop.edu.brmarianabolfarine@gmail.com
Conflict of interest declaration