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Disposições, hábitos e provas: as sociologias do indivíduo de Bernard Lahire, Jean-Claude Kaufmann e Danilo Martuccelli
Rodrigo Vieira de Assis
Rodrigo Vieira de Assis
Disposições, hábitos e provas: as sociologias do indivíduo de Bernard Lahire, Jean-Claude Kaufmann e Danilo Martuccelli
Dispositions, habits and proofs: the sociologies of the individual of Bernard Lahire, Jean-Claude Kaufmann and Danilo Martuccelli
Disposiciones, hábitos y pruebas: las sociologías del individuo de Bernard Lahire, Jean-Claude Kaufmann y Danilo Martuccelli
Civitas - Revista de Ciências Sociais, vol. 21, núm. 1, pp. 59-70, 2021
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
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Resumo: O objetivo deste artigo é o de problematizar algumas das principais vertentes das sociologias do indivíduo com a intenção de colaborar para uma melhor compreensão dos conceitos e métodos que têm sido mobilizados para a objetivação sociológica da existência individual. São discutidas três perspectivas centrais deste campo: a teoria da ação de Bernard Lahire, a teoria dos hábitos de Jean-Claude Kaufmann e a teoria da individuação de Danilo Martuccelli. A escolha desses autores considerou o tipo similar da prática sociológica que realizam, sustentada em uma contínua relação entre a pesquisa e a teorização original. O artigo apresenta as contribuições das sociologias do indivíduo para a teoria sociológica contemporânea, sublinhando-as como parte de um campo teórico-metodológico heterogêneo ainda em desenvolvimento.

Palavras-chave: Sociologia francesaSociologia francesa,IndivíduoIndivíduo,DisposiçãoDisposição,HábitosHábitos,ProvasProvas.

Abstract: Problematizing some of the mains aspects of the sociologies of the individual is the aim of this article with the intention of collaborating for a better understanding of the concepts and methods that have been mobilized for the sociological objectification of individual existence. Three central perspectives of this field are discussed: Bernard Lahire's theory of action, Jean-Claude Kaufmann's theory of habits, and Danilo Martuccelli's theory of individuation. It is considered in that choice the similar type of sociological practice that these authors carry out, which is sustained by a continuous relationship between research and original theorization. The article presents the contributions of the sociologies of the individual to contemporary sociological theory, underlining them as part of a heterogeneous theoretical-methodological field still in development.

Palabras claves: Sociología francesa, Individuo, Disposición, Hábitos, Pruebas.

Resumen: El objetivo de este artículo es problematizar algunos de los principales aspectos de las sociologías del individuo con la intención de colaborar para una mejor comprensión de los conceptos y métodos que se han movilizado para la objetivación sociológica de la existencia individual. Se discuten tres perspectivas centrales de este campo: la teoría de la acción de Bernard Lahire, la teoría de los hábitos de Jean-Claude Kaufmann y la teoría de la individuación de Danilo Martuccelli. En la elección de estos autores se tuvo en cuenta el tipo de práctica sociológica similar que efectúan, sustentada en una relación continua entre la investigación y la teorización. El artículo presenta las contribuciones de las sociologías del individuo a la teoría sociológica contemporánea, subrayándolas como parte de un campo teórico-metodológico heterogéneo aún en desarrollo.

Keywords: French sociology, Individual, Disposition, Habits, Proofs.

Carátula del artículo

Dossiê: Teoria Social e Sociologia Existencial

Disposições, hábitos e provas: as sociologias do indivíduo de Bernard Lahire, Jean-Claude Kaufmann e Danilo Martuccelli

Dispositions, habits and proofs: the sociologies of the individual of Bernard Lahire, Jean-Claude Kaufmann and Danilo Martuccelli

Disposiciones, hábitos y pruebas: las sociologías del individuo de Bernard Lahire, Jean-Claude Kaufmann y Danilo Martuccelli

Rodrigo Vieira de Assis
Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-ISCTE), Portugal
Civitas - Revista de Ciências Sociais, vol. 21, núm. 1, pp. 59-70, 2021
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Recepção: 30 Agosto 2020

Aprovação: 05 Novembro 2020

Publicado: 07 Maio 2021

Introdução 2

Várias propostas teóricas ganharam espaço na sociologia contemporânea expressando uma sensibilidade intelectual interessada em iluminar os modos de individualização do mundo social ( Giddens 2002; Beck 2010; Lahire 2002; Kaufmann 2003a; Martuccelli 2002). Se no momento da sua fundação, Durkheim (1997) distinguiu a sociologia da psicologia afastando-a da realidade individual – que seria o domínio da psicologia ogia afastando-a da realidade individua, a presença do indivíduo hoje nas teorias sociológicas constitui um campo de discussão que não pode ser negligenciado. A teorização sociológica do indivíduo alcançou o nível de podermos definir um conjunto de trabalhos desenvolvidos no interior da disciplina curiosamente como exemplos de sociologias do indivíduo ( Martuccelli e Singly 2012). Encontrando-se em plena difusão, as sociologias do indivíduo, por caminhos difusos, procuram apreender a existência social em nível individual. Ao mesmo tempo, ao operarem seus quadros conceituais em escalas meso, micro e nanossociológicas, esforçam-se para refinar as ferramentas que caracterizam a sociologia. Com conceitos e métodos que se querem inovadores, porém, as teorias e as metodologias elaboradas por essas perspectivas carecem ainda de discussões que sejam capazes de elucidar mais profundamente as suas próprias lógicas.

O objetivo deste artigo é o de problematizar algumas vertentes das sociologias do indivíduo com o intuito de colaborar para uma melhor apreensão dos conceitos e métodos que mobilizam para compreender a existência individual nas sociedades contemporâneas. Para isso, analiso algumas das perspectivas centrais desse campo: a teoria disposicionalista da ação de Bernard Lahire, a teoria dos hábitos de Jean-Claude Kaufmann e a teoria da individuação de Danilo Martuccelli. A escolha desses autores considerou a similaridade da prática sociológica que realizam, sustentada, em maior ou menor grau, em um diálogo contínuo entre a pesquisa empírica e a elaboração teórica original. A análise dessas três perspectivas permitirá conceber as sociologias do indivíduo em sua heterogeneidade, evidenciando a pluralidade conceitual elaborada para lidar com as relações entre indivíduo e sociedade.

Este artigo está organizado em quatro partes. Na primeira, apresento um breve retrato de como o indivíduo foi considerado na sociologia antes da emergência das sociologias do indivíduo. O intuito é mostrar que a ideia de indivíduo estava presente em diferentes autores, mas ocupava lugar subordinado em suas reflexões. Sem reduzir a exposição a uma mera crítica da ausência do indivíduo, defendo que a sua presença assistemática na sociologia foi importante para o surgimento e a consolidação de uma sensibilidade sociológica que passou a ver nas experiências singulares as chaves de acesso à realidade social. Nas partes seguintes, discuto as sociologias do indivíduo demonstrando como cada uma delas sugere um modelo teórico-metodológico particular que visa converter o indivíduo em objeto legítimo ou em sujeito da sociologia.

Do indivíduo na sociologia às sociologias do indivíduo

Desde a fundação da sociologia a dimensão individual emerge como via para refletir sobre a vida social. É concebendo o indivíduo como um ser político e social ( zoon politikón) que Marx (2008), por exemplo, desenvolve a sua famosa crítica à economia política. Nele, o indivíduo não é uma entidade naturalmente dada ou transcendental, mas um ser histórico cuja atividade é capaz de transformar tanto a natureza quanto a sociedade. Por caminho distinto, Durkheim (2000), muitas vezes interpretado como insensível à existência individual, não raras vezes analisa fatos sociais considerando as relações entre indivíduo e sociedade. Durkheim, em sua fase madura, analisa como são produzidos vínculos afetivos no seio de uma comunidade e percebe a função das emoções na sedimentação de estruturas socioculturais em âmbito individual (cf. a análise do luto e do duelo, Durkheim 2000, 425-434).

As sociologias de Weber e Simmel são conhecidas por darem especial atenção aos indivíduos (cf. Schroeder 1991; Vandenberghe 2005; Waizbort 2000). Em linhas gerais, a definição de ação social de Weber supõe o indivíduo como meio para alcançar os sentidos subjacentes às condutas humanas. Em uma das suas célebres reflexões sobre a modernidade, afirma que “a ordem capitalista é um imenso cosmos em que o indivíduo já nasce dentro ”, sendo essa realidade dada para o indivíduo “como um fato, uma crosta que ele não pode alterar e dentro da qual tem que viver” ( Weber 1994, 48, grifo nosso). Para ele, o indivíduo é, portanto, parte intrínseca da modernidade e, como tal, não pode ser negligenciado caso se pretenda compreender o presente. Em Simmel (2006, 83, grifo nosso), “o problema verdadeiramente prático da sociedade reside na relação que suas forças e formas estabelecem com os indivíduos”, isto é, “ se a sociedade existe dentro ou fora deles ”. Em sua obra, além de uma rica teorização sobre o ponto indivíduo-sociedade, há também apontamentos segundo os quais a sociologia não pode se furtar de tomar a individualidade e as suas formas assumidas na história como “objeto”.

Todavia, se nos clássicos estavam presentes considerações importantes sobre os indivíduos, cabe a pergunta sobre por que não houve no interior da sociologia ao longo dos anos da sua consolidação como disciplina autônoma uma reflexão mais sistemática sobre os indivíduos? Apesar do debate agência vs. estrutura emergir em tradições teóricas distintas, a sociologia durante muito tempo subordinou o indivíduo a uma teoria social cuja ênfase repousava sobre uma determinada ideia de sociedade ( Martuccelli 2007a). Esse “modelo clássico” de sociologia ( Dubet 1994) ancorado em uma dada ideia de sociedade foi hegemônico até a década de 1950 e nele a atenção era dada à análise das posições sociais, não ao estudo dos indivíduos. A noção de posição social abriu caminho para uma percepção segundo a qual compreender os indivíduos significava reconhecer a relação entre eles e as propriedades típicas do seu “lugar” na sociedade. O indivíduo, portanto, seria deduzido da configuração material e simbólica da posição ocupada por ele em uma estrutura ou em um sistema social internamente diferenciado.

Na segunda metade do século 20, com a emergência das teorias de síntese da vida social que formaram o novo movimento teórico ( Alexander 1987), essa representação do indivíduo foi complexificada. Tanto Bourdieu quanto Giddens, mas também Elias, levaram adiante a relação entre as posições e as estruturas sociais, supondo os indivíduos a partir da observação de variáveis tidas como estruturantes do mundo social. Nesse sentido, Bourdieu (2008) desenvolve o conceito de habitus como um conjunto de disposições adquiridas em um universo de classe, apesar de se expressarem por meio de práticas que podem ser individualmente acionadas. Elias (1995) frisa a participação das configurações históricas na modelação da subjetividade individual. Giddens (2002), teorizando a agência, avança em torno de competências individuais, frisando o papel da reflexividade como mediadora da relação dos agentes com as estruturas sociais, mas afirma que a autonomia individual é resultado de um contexto particular, o estado tardio da modernidade. Portanto, cada um a seu modo toma aspectos individuais como objeto de reflexão, mas os colocam em tela no instante em que olham para a sociedade, isto é, para “fora” do agente individual.

Não é por acaso que os esforços atuais que marcam as sociologias do indivíduo se constituem de maneira inseparável a uma tese de natureza histórica ( Martuccelli e Singly 2002). Diagnosticada por Giddens (1991), mas também por Beck (2010), essa tese aponta para o caráter generalizado da individuação nas sociedades contemporâneas. Para esses autores, em uma segunda etapa da modernidade, a reflexividade individual ganhou cada vez mais relevância no cerne da dinâmica estrutural da vida social. A principal consequência disso, no plano dos indivíduos, foi a acentuação das experiências de desajustes entre as subjetividades e as condições objetivas de existência, engendrando fenômenos concebidos como insegurança ontológica ( Giddens 1991), processos individualizatórios ( Beck 2010), pluralidade disposicional ( Lahire 2002), multiplicidade de hábitos ( Kaufmann 2003a), crises de identidade ( Dubar 2009), inconsistência posicional ( Araujo e Martuccelli 2012b) e outros.

Tais consequências da modernidade reflexiva ( Beck, Giddens e Lash 1997) colocaram em questão o modelo clássico de explicação sociológica, na medida em que:

A dificuldade de apreensão do social na sua forma individualizada deve-se, pois, a dois riscos permanentes que são, em primeiro lugar, o facto de se acreditar ser possível estudar o novo (tema de estudo) reciclando simplesmente o antigo (conceitos e métodos) e, em segundo lugar, o facto de se pensar ter atingido os seus fins científicos tendo cozinhado uma sociologia feita de alhos (de origem sociológica) e bugalhos (de origem psicológica). […] De facto, a mudança de escala ogia afastando-a da realidade individua da análise dos grupos, dos movimentos, das estruturas ou das instituições, para a dos indivíduos singulares que simultaneamente “vivem em” e “são constitutivos de” esses macro-objectos ogia afastando-a da realidade individua não foi brutal a ponto de forçar a visão dos investigadores, de lhes provocar alguma dor de cabeça e, ao mesmo tempo, de lhes fazer ganhar consciência. Este deslizamento foi insensível, imperceptível e, desta forma, tornou difícil o exercício da lucidez teórica. Foi sem se dar conta, e sem medir as consequências, que a sociologia se interessou tanto pelos indivíduos socializados enquanto tais (nos estudos de caso ou em ensaios apresentando, entre outro tipo de “dados”, retratos individuais, apoiados metodologicamente na prática da história de vida ou da entrevista aprofundada) como pelos grupos, categorias, estruturas, instituições ou situações - seja qual for a sua amplitude ou o seu tipo. ( Lahire 2005, 12).

As sociologias do indivíduo resultam de um esforço para compreender a vida social contemporânea como um momento histórico particular, em que a individualização ganhou força e em que os indivíduos se complexificaram de modo a colocar em xeque as categorias explicativas de caráter coletivista, como aquela que tomava as condutas individuais a partir da localização dos atores na sociedade. De certa forma, essas sociologias, concentradas especialmente na França, desenvolveram tardiamente no plano da pesquisa empírica aquilo que foi sugerido por teóricos sociais anglófonos e germânicos desde a década de 1980. Nesse sentido, aqueles que se identificam com essas perspectivas partilham de uma visão de mundo sustentada sob a percepção de que as experiências individuais são hoje uma rota de acesso à realidade social, rota essa privilegiada quando comparada àquelas anteriormente adotadas.

Apesar desse aspecto em comum, as sociologias do indivíduo apontam para diferentes direções. Por um lado, no contexto francês, visualizam-se os trabalhos de Lahire (2002; 2004) e Kaufmann (2003a; 2003b) como parte de uma vertente que mantém diálogo crítico com a obra de Pierre Bourdieu. Por outro, inspirado pelo conceito de imaginação sociológica ( Mills 1980) e pelo pensamento de Alain Touraine (1973; ; 1995), Martuccelli (2002; 2007a; 2007b) avança com uma sociologia da individuação que é, ao mesmo tempo, uma sociologia política e uma sociologia da existência. As perspectivas desses autores oferecem, como discuto a seguir, diferentes caminhos para perceber como a sociologia tem se esforçado para apreender as sociedades atuais, especialmente quando se quer levar em consideração a pertinência das dimensões existenciais na configuração da relação entre indivíduo e sociedade na atualidade.

O indivíduo como ator plural

Pesquisando as razões improváveis do sucesso escolar nos meios populares franceses, a variabilidade do consumo cultural em função das variações intraindividuais, o trabalho das disposições adquiridas que levaram um famoso escritor a escrever o que escreveu e, mais recentemente, sugerindo uma sociologia dos sonhos, Lahire (1995; 2006; 2010; 2018) tem em seu programa para uma sociologia à escala individual, 3 uma ampla caixa de ferramentas para refletir sobre os aspectos do trabalho sociológico dedicado aos indivíduos. A sua principal contribuição para a sociologia é verificada no modo como aproxima questões de natureza teórica a princípios metodológicos, sem perder de vista os problemas relativos à análise da integração, da mudança e da reprodução sociais.

Afastando-se do consenso instituído pelas teorias da socialização que advogavam um ajustamento dos indivíduos às suas condições sociais de existência, Lahire (2002) abre caminho para uma sociologia do indivíduo explorando a coexistência de modalidades e de quadros de socialização em mesmos contextos de práticas. Nesse sentido, questiona o caráter sistemático e organizador presentes no conceito de habitus de Bourdieu, sugerindo que os indivíduos carregam consigo patrimônios de disposições plurais, adquiridas em diferentes contextos de interação social. Estabelecendo um diálogo constante com a sociologia de Bourdieu, elabora um edifício teórico e metodológico original como prolongamento crítico da praxiologia do mestre francês, com o qual procura desvendar como a realidade individual é atravessada por dimensões sociais diversas.

No seu livro teórico mais programático, Lahire (2002) frisa ser preciso se debruçar sobre o ator individual considerando os domínios que configuram a sua experiência no mundo social. A cautela metodológica busca evitar, por um lado, presumir o indivíduo como entidade internamente coerente e identificado com as propriedades típicas de uma só posição social e, por outro lado, definir o indivíduo como sujeito descentrado cujo corpo é habitado por infinitos “eus”. Por isso, o autor propõe observar o indivíduo em diferentes contextos de ação – na família, na escola, no trabalho, na igreja, em grupos de amizade etc. – para identificar como experiências e práticas distintas passam a se associar e a formar circuitos particulares de circulação no mundo social. Assim, para entender a singularidade da existência individual, procura os efeitos das associações entre as estruturas sociais na síntese que tais associações produzem na experiência dos atores em seus contextos, identificando como em um só corpo socializado podem habitar disposições plurais, 4 antes teoricamente vistas como inconciliáveis.

Procurando superar o dualismo entre monismo e pluralismo para desenvolver uma teoria da ação abrangente, Lahire (2002, 17) percebe que “a escolha da unicidade ou da fragmentação [do indivíduo] dá-se a priori” e constitui um postulado não discutido e funda-se, em certos casos, mais sobre pressupostos éticos do que em constatações empíricas”. Por isso, a sua proposta teórica supõe uma postura crítica em relação a qualquer modelo previamente dado. A sociologia lahiriana esforça-se, assim, em teorizar os indivíduos considerando os resultados de pesquisas empíricas metodologicamente controladas a partir das quais dimensões sociais são procuradas no âmbito individual para captar como o ator é socialmente forjado. Por isso, o método desenvolvido não se restringe ao que se passa em uma única instituição social, mas como as experiências individuais são atravessadas por múltiplos domínios da sociedade ( Lahire 2004, 2010).

Vandenberghe (2016, 98) sintetiza essa ambição sociológica com precisão. Para ele, Lahire pensa que “a sociologia pode compreender o indivíduo em toda a sua complexidade e explicar seu comportamento em todos os seus detalhes” demonstrando que “o social […] alcança o núcleo mais íntimo da pessoa”. Essa crença, presente em Bourdieu e em quase toda a tradição disposicionalista, trata a relação entre indivíduo e sociedade a partir de noções que articulam temporalidades para desvendar as condicionantes sociais do comportamento dos agentes individuais. Se Bourdieu (1979) considera o habitus o operador prático das disposições, Lahire (2002) toma as disposições como produto de experiências socializadoras vividas em percursos sociais singulares. Se em Bourdieu (1990; 2008) a atenção está calcada pelo interesse nas relações de poder dadas dentro dos campos sociais, em Lahire (2002; 2013), são nos tempos “fora” dos campos sociais que repousam as variáveis explicativas da singularização dos indivíduos.

Por isso, a fórmula bourdieusiana “[( habitus) (capital)] + campo = práticas” ( Bourdieu 2008, 97) transforma-se, em Lahire (2012, 12) em “passado incorporado + contexto presente de ação = práticas observáveis”. Uma vez que as ações individuais passam a resultar de disposições plurais adquiridas em diferentes momentos e socializações, o modo como os indivíduos agem em novos contextos deixa de ser um pressuposto de validação teórica para se converter em um problema empírico a ser investigado ( Martuccelli e Singly 2002).

O indivíduo, assim, é tomado como objeto sociológico ao ser percebido como um universo no interior do qual tensões, contradições e ambiguidades se desenrolam, permitindo que as disposições sejam ativadas, desativadas e reativadas face aos contextos de ação que a eles se apresentam. A teoria do ator plural, portanto, sustenta-se na possibilidade de simultâneas lógicas de ação coexistirem dentro de um corpo socializado, em que a reflexividade individual tem papel de mediar tanto a relação entre o indivíduo e a sociedade quanto as relações que se dão intra-agência, abrindo caminho para um trabalho contínuo de observação metodologicamente controlado das práticas e de sua consequente teorização empiricamente informada acerca das dinâmicas individuais.

A divergência habitus -hábitos: mais um avanço disposicionalista?

Também em diálogo com Bourdieu, Kaufmann pode ser identificado como um dos mais criativos sociólogos dos indivíduos. Dedicando-se a temas tão inusitados como o nascimento do amor entre indivíduos ( Kaufmann 2003b) ou os olhares masculinos sobre os corpos de mulheres em praias francesas ( Kaufmann 1995), ele propõe uma teoria dos hábitos que é, ao mesmo tempo, uma crítica sociológica à ideia de indivíduo radicalmente autônomo e um quadro de referência para visualizar o processo de fabricação social dos indivíduos.

Tal como Lahire, o ponto de partida de Kaufmann (2003a) é a crítica ao caráter genético do conceito de habitus, identificado na estreita relação estabelecida por Bourdieu entre as condições materiais de existência e as dimensões subjetivas dos atores. Para Kaufmann (2004), é preciso explorar as tensões disposicionais ou os ruídos entre os hábitos, colocando em tela a reflexividade como categoria fundamental da experiência social e da produção da identidade. Nele, isso significa considerar o indivíduo como parte de relações e de processos, como entidade histórica que se mantém inserida em uma dialética contínua de internalização e de exteriorização cuja mediação se dá por meio de esquemas operatórios incorporados-objetivados produtores de hábitos que não se reduzem ao senso prático.

Em seu projeto, Kaufmann (2003a) trabalha a sua teoria em níveis ontológico e epistemológico, convertendo o indivíduo em objeto sociológico para explorar quatro rotas de articulação dos princípios sociológicos necessários à análise da realidade individual. Na primeira delas, as questões percorrem dimensões epistemológicas que circundam o diagnóstico da individualização, de modo a colocar a tese de natureza histórica da modernidade como um quadro subjacente de uma reflexão do indivíduo como parte de uma teia de processos derivativos do problema da liberdade na contemporaneidade: “terá a autonomia individual nascido da vontade de pessoas que procuravam separar-se do holismo, ou então, pelo contrário, não terá sido a sociedade que inventou esta nova maneira, mais individualizante, de produzir os homens?” ( Kaufmann 2003a, 85). A resposta a essa questão não aponta para uma concepção de indivíduo como entidade autônoma, tal como propõe o senso comum vulgar e as teorias econômicas neoliberais. Ao contrário, o indivíduo passa a ser percebido em condições relacionais e processuais, inserido em contextos sociais de existência cujas imbricações o adere às condições sociais de que participa em seu curso de vida.

Por isso, os demais movimentos que formam a sua articulação teórica sublinham que a fabricação social dos indivíduos pressupõe reconhecer a importância de reorientação analítica na teoria das práticas, cuja ênfase requer precisamente apontar para uma sistematização da agência e do seu caráter reflexivo.

A eleição da noção de hábitos como aspecto central do seu pensamento não se dá por acaso. Com ela, Kaufmann procura captar aspectos que Bourdieu (1979; 1990) procurou distanciar do conceito do habitus. Na teoria do habitus, Kaufmann identifica uma divisão. A primeira é a que enfatiza a “fórmula geradora” das práticas, que tem a função de fortalecer o modelo geral da teoria do habitus. A segunda é a que registra as “regularidades objetivas”, isto é, que sustenta a forte relação entre as disposições subjetivas dos atores e as propriedades objetivas dos campos, por meio da qual as práticas podem se difratar em múltiplas direções. À procura de um caminho alternativo, Kaufmann propõe uma teoria sociológica dos indivíduos como resultado de um exercício que põe Bourdieu contra Bourdieu, em que o conceito de habitus é reorientado para uma teoria dos hábitos individualmente praticados, eixo em que procura observar a sinergia entre reflexividade e sentido prático.

Habitus e hábitos integram-se na categoria mais geral dos esquemas que registam a memória social infraconsciente. Os hábitos, fixados no pólo individual, podendo ser especialmente definidos como esquemas operatórios incorporados. Então, por que razão não dizer ‘esquemas operatórios incorporados’, se a fórmula é justa? Porque seu emprego é um pouco pesado. E, sobretudo, porque o hábito (com a condição de o termo ser bem compreendido) é a designação mais simples e melhor adaptada, herdeira de um longo passado intelectual, que não devia ser esquecido. Comporta, evidentemente, uma desvantagem considerável: o risco de confusão com o pequeno gesto rotineiro e sem importância do senso comum. Porém, se o risco está afastado, pelo contrário a proximidade com o pequeno gesto torna-se um trunfo. Porque é essa toda a riqueza do hábito (e sua particularidade comparada com o habitus): é, ao mesmo tempo, um esquema que regista a memória social, inscrito em processos infinitamente vastos, poderosos e móveis, e um esquema incorporado, inscrito sob uma forma que pode exprimir-se em gestos concretos, observáveis pelo pesquisador. ( Kaufmann 2003a, 170-171).

Uma das chaves do processo de fabricação dos indivíduos segundo a teoria dos hábitos é percebida entre exteriorização e internalização das estruturas sociais, metodologicamente apreendida e objetivada como uma memória constituída na ligação estabelecida entre os indivíduos e a sociedade ( Martuccelli e Singly 2012), o que justifica a afirmação de Kaufmann de que os hábitos podem ser entendidos como esquemas operatórios densamente incorporados, continuamente acionados, rotineiramente executados, em que, apesar das repetições, não anulam a capacidade reflexiva dos agentes individuais.

Apesar das pesquisas empíricas conduzidas por Kaufmann, ele não explicita, como Lahire, um método sistemático de conversão da sua teoria em uma prática controlada de investigação. Em seus trabalhos, a superação de dificuldades encontradas durante a condução de inquéritos não é articulada a princípios metodológicos claros, embora possua um manual dedicado ao que chamou de entrevista compreensiva ( Kaufmann 1996). Nesse sentido, apesar da profunda reflexão teórica e do investimento em temáticas pouco exploradas, a sua contribuição aponta mais para o reconhecimento dos efeitos da modernidade na esfera individual e da inoperância do positivismo sociológico do que para um quadro analítico capaz de explorar empiricamente a existência individual.

O desafio das provas: o trabalho dos indivíduos e a individuação

Diferentemente de Lahire e de Kaufmann que avançam suas abordagens a partir de uma atenção microssociológica, Martuccelli (2007b) sugere uma sociologia do indivíduo que se quer uma macrossociologia das sociedades singularistas modernas, nas quais as experiências individuais foram deslocadas para o centro da vida societária. Seu interesse não é, como na tradição disposicionalista, nos reflexos dos condicionamentos sociais sobre a agência, nem na dialética interiorização/externalização, mas no trabalho realizado pelos indivíduos sobre a sociedade e sobre si mesmos quando diante das provas sociais que caracterizam o momento histórico em que vivem. Influenciado por Mills (1980), partindo das experiências individuais, Martuccelli procura compreender as estruturas sociais que caracterizam a realidade social sem perder de vista como tais estruturas se imbricam às vidas individuais. Desse modo, sugere uma mudança de perspectiva, atribuindo à sociologia dos indivíduos a função de ser também uma sociologia para os indivíduos, reveladora dos tipos de individuação pelos quais podem passar enquanto induzidos a produzirem a si mesmos como parte de uma dinâmica societária ( Martuccelli 2002; 2007b; Araujo e Martuccelli 2012a).

Martuccelli (2007a; 2007b) sustenta essa proposta com base em uma leitura particular da crise da ideia de sociedade. Para ele, se é preciso desenvolver uma sociologia calcada na pertinência das experiências individuais como chave de acesso à vida social, é preciso também que a sociologia não se limite a uma descrição à escala individual. Isso porque, embora seja fundamental partir dos indivíduos para alcançar as dimensões sociais, o trabalho sociológico precisa preservar o seu objetivo fundamental: o de interpretar e explicar a realidade social moderna para além das singularidades individuais.

Em Cambio de rumbo ( Martuccelli 2007b), o quadro geral da sua sociologia do indivíduo é sistematizado. Defendendo que a sociologia sustentou-se por muito tempo sob uma frágil concepção de “personagem social” ( Martuccelli 2007a, 2007b), isto é, uma representação do indivíduo deduzida do contexto em que ele se situa, 5 desenvolve a sua abordagem deslocando a centralidade das relações entre estruturas objetivas e subjetivas e destacando o caráter existencialista da experiência dos atores no mundo social, interpretando-os por meio do modo como eles próprios atuam para superar aquilo que reconhecem como problemático em sua relação com o mundo social.

A metodologia em que se baseia a sua teoria distingue três eixos capazes de alcançar os indivíduos e suas experiências: a socialização, a subjetivação e a individuação. Cada uma dessas vias visa domínios específicos da existência individual e sua distinção opera em um plano analítico, uma vez que no plano da experiência prática estão interrelacionadas. A partir do seu ponto de vista, enquanto a socialização capta o processo de fabricação psicológico do indivíduo, a subjetivação percebe a constituição do sujeito como resultado de uma dinâmica sociológica de emancipação. Diferenciando-se dessas duas vertentes, o acento na individuação possibilita a elaboração de uma perspectiva sócio-histórica, no interior da qual se torna viável sublinhar o tipo de indivíduo que é estruturalmente fabricado em uma dada sociedade (Araujo e Martuccelli 2010).

Logo, a busca pelo tipo de indivíduo ocupa o centro da atenção de Martuccelli e é nessa problemática que a sua teoria da individuação é desenvolvida. O processo de individuação somente pode ser decifrado, no entanto, tendo em vista um empreendimento teórico que não se limita à escala individual. Para Martucceli (2007b), é preciso considerar as experiências individuais, mas a sociologia não pode estar limitada a descrevê-las tal como ocorre nos retratos sociológicos de Lahire (2004). É necessário, após decifradas as experiências dos atores individuais retornar, portanto, para uma perspectiva capaz de analisar as estruturas sociais que atravessam as experiências, iluminando as imbricações entre os indivíduos e a sociedade historicamente estabelecida em que suas vidas ganham sentido.

Como, porém, objetivar a individuação ao olhar para a realidade concreta e, nela, para os indivíduos? Em que circunstâncias são encontradas as pistas para analisar o tipo de indivíduo exigido por uma sociedade? No âmbito metodológico verifica-se uma das maiores contribuições de Martuccelli (2007b) para as sociologias do indivíduo, em que processos estruturais são vistos por meio dos relatos oferecidos pelos atores ao serem conduzidos a refletir sobre as experiências concretas por que passaram ao longo dos seus cursos de vida ( Martuccelli e Araujo 2012b).

Para identificar as estruturas, Martuccelli e Araujo (2012b) consideram que as experiências que compõem a biografia dos indivíduos não estão limitadas a um único domínio da sociedade, mas é transversal a todos eles. Portanto, para entender a existência individual, é preciso encontrar, no indivíduo, como a família, a escola, o trabalho, as instituições políticas e religiosas etc., foram experimentadas e impuseram provas sociais aos atores. As provas a que os indivíduos estão obrigados a enfrentar em uma dada sociedade são sintomas da estrutura social e demarcam traços da configuração histórica que possibilita essa sociedade ser o que ela é. Ao perceber o que há de comum nos relatos individuais, indutivamente são reconstruídas as provas sociais a partir das quais as experiências particulares se convertem em chaves de acesso às estruturas da sociedade. Assim, entende-se não um caso individual em si mesmo, mas, a partir da diversidade de vivências apresentadas pelos inquiridos, encontra-se o tipo de indivíduo que é exigido pela sociedade em que eles se situam.

As provas, por isso, têm quatro características principais:

Em primeiro lugar, são indissociáveis de um relato que atribui aos atores, individuais ou coletivos, um papel maior na compreensão dos fenômenos sociais. Em seguida, a prova faz referência às capacidades que tem um ator para afrontar as prescrições e processos difíceis a que está submetido. Em terceiro lugar, toda prova aparece como um exame, na realidade, como um mecanismo de seleção através do qual, em função de seus êxitos ou fracassos, os atores forjam suas existências. Por último, as provas são inseparáveis de um conjunto de grandes desafios estruturais a que os indivíduos estão obrigados a responder e que diferem em função das sociedades e dos períodos históricos. ( Martuccelli 2007b, 125).

É lidando com o que os atores revelam como difíceis para si, sobre o que transparecem como imposição que foge às suas vontades individuais, que traços das estruturas sociais são identificados, neste caso, como provas sociais, essenciais para acessar os modos por meio dos quais são configuradas as formas da existência social. Na relação com os desafios comuns é que opera a teorização de Martuccelli (2007a; 2007b) e as provas são visualizadas como aquilo que precisa ser analisado para apreender os processos de fabricação social dos sujeitos, bem como perceber os modos de ação que os agentes individuais acionam para enfrentar a realidade social que a eles se impõe.

Não obstante as dimensões constitutivas das provas, a operacionalização do conceito implica reconhecer a articulação entre as condições de existência e a produção de capacidades reflexivas por meio das quais os indivíduos podem se tornar conscientes dos desafios que estão enfrentando em suas vidas. As experiências acumuladas dão lugar a competências que habilitam o indivíduo a lidar com a sociedade em que vive. A prova social abre espaço, portanto, para um distanciamento reflexivo acerca das experiências vividas, possibilitando aos agentes individuais elaborar estratégias de ação e adotar caminhos específicos – de acordo com as possibilidades que dispõem – em seus percursos.

As provas alimentam a existência de um sistema de seleção de pessoas que, sem invalidar o peso das posições sociais e as diferenças de oportunidade que lhes são associadas, salienta, no entanto, a contingência dos resultados. Em relação a todas e cada uma das provas, os atores podem, medindo-se a elas, ‘aprovar’ ou ‘desaprovar’, ‘ter êxito’ ou ‘fracassar’. A obrigação estrutural de ter que enfrentar as provas faz com que, em suas vidas, os indivíduos se sintam submetidos a um conjunto plural de prescrições de responsabilização e, portanto, a distintas dominações comuns. Cada vez mais a vida social está marcada por experiências (divórcios, períodos de censura, fracassos escolares…) que além de suas razões estruturais, obrigam os indivíduos a encontrar a força necessária para enfrentá-las através de experiências que são tanto mais dolorosas e solitárias quanto que são vividas como faltas ou erros pessoais. ( Martuccelli e Singly 2012, 77).

O efeito sociológico de uma abordagem sustentada pela tentativa de correlacionar as dimensões históricas de uma sociedade, apreendida por meio das suas expressões estruturalmente fortes, isto é, pelas provas, considerando os modos por meio dos quais os indivíduos lidam com essas estruturas, implica, como percebe Martuccelli (2010), esforçar-se para não deixar a prática sociológica direcionada unicamente para uma microanálise. A sociologia do indivíduo requer, nesse sentido, não apenas instrumentos para decifrar o universo existencial dos agentes particulares, mas, em Martuccelli (2007b), propõe-se a ser reconstrutiva no sentido de reconectar, pelo efeito de suas interpretações, as experiências pessoais ao plano estrutural que caracteriza a condição comum da vida social.

Considerações finais: notas sobre uma possível síntese nas sociologias do indivíduo

Com essas perspectivas é possível apontar algumas propriedades que atravessam as sociologias do indivíduo marcando diferenças e proximidades que podem indicar caminhos possíveis de articulação teórica para o aprimoramento do acesso aos indivíduos em perspectiva sociológica. Para além do esforço em integrar seus quadros teóricos à análise empírica sistemática – o que Lahire e Matuccelli realizam com mais destreza do que Kaufmann –, a maneira como, por exemplo, a relação estrutura-agência é pensada contribui para definir parâmetros essenciais de abordagens interessadas em nível ou nas experiências individuais.

Se em Bourdieu os constrangimentos estruturais pesam sobremaneira na explicação da produção do habitus, as sociologias do indivíduo em uma orientação disposicionalista reconhece que a agência possui habilidades para lidar com os condicionamentos a que o indivíduo está sujeito de modo a complexificar os processos de aquisição e exteriorização das estruturas sociais. O indivíduo é, em Lahire, detentor de um patrimônio de disposições plurais e, em Kaufmann, possuidor de um sistema de hábitos, noções que abrem caminho para a sociologia explorar mais detidamente o que se passa “dentro” dos atores, especialmente as suas competências reflexivas. Orientados por uma concepção segundo a qual a reflexividade não está reduzida apenas a situações de desajuste entre disposições incorporadas e contexto de práticas, bem como não é competência apenas de indivíduos particulares, esses autores possibilitam perceber a reflexividade como habilidade formada por meio dos processos de socialização pelos quais pode passar o indivíduo ao longo da sua vida. Com Lahire, temos que a reflexividade medeia a relação entre agência e estrutura em contextos de práticas e a configuração do patrimônio disposicional do indivíduo pode condicionar comportamentos mais reflexivos para certos domínios em detrimento de outros. Com Kaufmann, descobrimos que, sendo o indivíduo concebido como parte de uma relação processual entre agência e estrutura, a reflexividade organiza as disposições e os hábitos em rotinas mais ou menos duradouras e conscientes de comportamentos individualmente realizados. Nesse sentido, um esforço em aproximar esses autores pode possibilitar a calibração do conceito de reflexividade em um horizonte de problematização empírica mais sólido do que o que hoje temos visto no campo da própria sociologia e da teoria social.

Mas é com Martuccelli que parece-me surgir o tempero para ir além. Com ele, o indivíduo não figura apenas como um “objeto”, mas também como um sujeito. A sua teoria da individuação ameniza a oposição entre a estrutura e a agência ao autenticar os indivíduos como hábeis para o enfrentamento de provas sociais. As experiências individuais e a forma por meio da qual os atores traduzem as suas próprias realidades em depoimentos sobre si e sobre o contexto em que vivem pressupõe a reflexividade como eixo não apenas de mediação entre agência e estrutura, mas como canal que permite alcançar os recursos para explorar a realidade propriamente individual tornando-a inteligível à sociologia, reconectando-a às dimensões sociais mais abrangentes. Ao interpretar os desafios societais que caracterizam as condições existenciais dos indivíduos, a sociologia da individuação oferece o caminho para uma leitura crítica da dimensão comum em um mundo que se passa hoje como algo cada vez mais fragmentado. Ao buscar em Martuccelli recursos para uma inovação teórica, creio que a sociologia se torna capaz não só de captar, mas de apresentar aos indivíduos o elo a partir do qual justifica-se políticas solidárias em torno do reconhecimento da vida em comum.

Por isso, as sociologias do indivíduo contribuem para o avanço do campo sociológico mais geral. Por um lado, trazem contributos teóricos e metodológicos. Por outro, possuem elementos que balançam os preceitos de neutralidade científica em nome de uma reflexão teórica que redunda em uma sociologia política de orientação das condutas individuais. Ao partir da crença de que predomina hoje uma condição social marcada pela presença de uma maior complexificação das dinâmicas reprodutivas da ordem social, com as sociologias do indivíduo torna-se viável encontrar na existência individual os reflexos que condicionam tanto os indivíduos a uma relação espontânea com a realidade que os cerca quanto os mecanismos que possibilitam o cultivo de capacidades reflexivas e críticas para estranhar um contexto familiar. A internalização das estruturas sociais passa a ser um fenômeno de duplo efeito. De um lado, essa internalização torna-se mais aberta do que se supõe e, por outro lado, converte-se em experiência em que a relação entre nível consciente e pré-consciente é tida como uma articulação durável, contínua e gerativa de uma relativa (in)coerência interna no indivíduo.

Em suma, se o mundo social é hoje constatado como complexo e contraditório, suas estruturas são, elas mesmas, também plurais e dissonantes, mas seu depósito nos indivíduos não deixa de ser relativamente organizado segundo as competências de os agentes lidarem com a realidade que os rodeia. Se tais estruturas são internalizadas em diferentes processos de socialização, logo, os indivíduos são também dotados de um patrimônio de disposições e de sistemas de hábitos que podem estabelecer conflitos entre si, engendrando tensões e lutas intraindividuais, sem com isso necessariamente se tornarem fragmentados, uma vez que os desafios impostos pelas provas permeiam a condição comum a que todos os atores estão sujeitos, a de ser parte de uma sociedade de indivíduos.

Material suplementar
Referências
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Notas
Notas
2 Agradeço a Frédéric Vandenberghe, amigo de longa data, pelos comentários e pelas sugestões feitas a uma primeira versão deste artigo, bem como a Kathya Araujo por ter me introduzido e me direcionado durante os primeiros passos no vasto terreno das sociologias do indivíduo. Agradeço também aos pareceristas escolhidos pela Civitas, cujas análises levaram-me a rever e a reformular partes do argumento aqui apresentado, melhorando-o substancialmente. Se os eventuais méritos deste artigo merecem ser partilhados, as possíveis críticas que a ele cabem são da minha exclusiva responsabilidade.
3 Antes apresentado como “sociologia psicológica” agora o trabalho de Lahire (2013) é tido como uma “sociologia à escala individual”. A alteração ocorreu para evitar equívocos interpretativos que poderiam tender a uma leitura de que Lahire estava a aplicar na sociologia elementos da psicologia. Levando adiante uma espécie de “imperialismo sociológico” ( Assis e Vandenberghe 2019) Lahire crê, como Durkheim, que a sociologia é uma ciência autônoma capaz de revelar, com seus métodos, como fenômenos que parecem “não sociais” são, na verdade, inteligíveis quando convertidos em objetos sociológicos.
4 Embora enfatize a pluralidade e a singularidade individuais, em trabalho recente Lahire interessou-se também pelo que há de comum entre indivíduos situados em mesmas condições de classe ( Lahire 2019).
5 Para Martuccelli (2007a), as origens do “personagem social” remontam ao realismo social do século 19, como em Balzac, tendo sido apropriado pela imaginação sociológica ao longo do século 20.
Autor notes

rodrigo.assis@iscte-iul.pt

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