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A memória do futuro e a antecipação do passado em Caderno de Um Ausente, de João Anzanello Carrascoza
The memory of the future and the anticipation of the past in Caderno de um Ausente, by João Anzanello Carrascoza
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 42, núm. 1, 2020
Universidade Estadual de Maringá

Literatura


Recepção: 31 Maio 2019

Aprovação: 27 Janeiro 2020

DOI: https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v42i1.48162

Resumo: O presente artigo tem por objetivo discutir a memória como projeção para o futuro e não como simples repositório do passado. Deste modo, a memória será estudada como o tempo do devir. A escrita desempenha um papel fundamental nesse processo de preservação e alongamento do presente, que passa a ser narrado como memória para ser lida no futuro. Contribuem para a discussão sobre o tempo e, portanto, sobre a memória, autores como Anne Cauquelin (2008), ao conceituar os ‘incorporais’, e Norbert Elias (1998), que enfatiza a capacidade de síntese do ser humano em apreender o tempo. Após o percurso de revisão bibliográfica, discutiremos o romance Caderno de um ausente, de João Anzanello Carrascoza (2017), como representação da necessidade de construir uma memória para o futuro, para o tempo da ausência. Neste sentido, a narrativa de Carrascoza problematiza a questão do tempo presente, a ausência e o silêncio, que permitem ao narrador-personagem João, um professor universitário com mais de cinquenta anos, agora pai de uma recém-nascida, apreender o presente corroído pelo tempo no momento em que surgem os eventos, o que o leva a uma obsessão por registrar cada movimento como passado, encontrando nas frágeis palavras o único mecanismo para preservar os primeiros anos que testemunha da vida de sua filha. Por fim, tempo e memória serão vistos como ‘incorporais’ que ganham corpo no ato da narrativa, concretizando-se em palavras como representações momentâneas da preservação dos fatos, mas com a capacidade de reduzirem a angústia despertada pela sensação incômoda de ‘não-estar’ que corrói o narrador do romance.

Palavras-chave: tempo, passado, incorporais, memória, romance, Carrascoza.

Abstract: This article aims to discuss memory as a projection for the future and not as a simple repository of the past. In this way, memory will be studied as the time of becoming. Writing plays a fundamental role in this process of preservation and extension of the present, which happens to be narrated as memory to be read in the future. Authors such as Anne Cauquelin (2008), in conceptualizing the ‘incorporeal’, and Norbert Elias (1998), who focuses on the human being's ability to synthesize time, contribute to the discussion about time, and therefore about memory. After the course of bibliographical revision, we will discuss the novel Caderno de um ausente, by João Anzanello Carrascoza (2017), as a representation of the need to build a memory for the future, for the time of absence. In this sense, Carrascoza’s narrative problematizes the question of the present time, absence and silence, which allow the narrator-character John, a university professor in his fifties and who has a newborn daughter, to apprehend the present corroded by time at the moment the events emerge, which leads him to an obsession to register each movement as past, finding in fragile words the only mechanism to preserve the first few years in which he witnesses his daughter’s life. Finally, time and memory will be seen as ‘incorporeal’, which are outlined in the act of the narrative, materializing themselves into words as momentary representations of preserving facts, but with the capacity to reduce the anguish awakened by the uncomfortable feeling of ‘non-being’, which corrodes the novel’s narrator.

Keywords: time, past, incorporeal, memory, novel, Carrascoza.

Introdução

A memória é do passado. Trata-se de uma afirmação corroborada por quase todos os seres humanos. No entanto, a memória também não seria do futuro? É possível construir uma memória do que ainda virá, uma memória do passado ausente? Uma memória que se constrói no presente totalmente desligada do passado, que existe como possível virtualidade na morte contínua do presente? É possível dar ao futuro – outra probabilidade do tempo – uma memória que ainda não existe?

A memória é do passado. Trata-se de uma afirmação corroborada por quase todos os seres humanos. No entanto, a memória também não seria do futuro? É possível construir uma memória do que ainda virá, uma memória do passado ausente? Uma memória que se constrói no presente totalmente desligada do passado, que existe como possível virtualidade na morte contínua do presente? É possível dar ao futuro – outra probabilidade do tempo – uma memória que ainda não existe?

Com o intuito de responder a alguns desses questionamentos, é que o presente artigo tentará encontrar respostas pertinentes à construção de uma memória para o porvir. A partir da análise do romance Caderno de um ausente – primeiro volume da Trilogia do Adeus, de João Anzanello Carrascoza (2017), será possível verificar como o narrador-personagem, João, se relaciona com o tempo, com os conceitos de passado, presente e futuro, ora antecipando o primeiro, ora prevendo o último: ‘[...]e, agora, eu também só concordei com a filmagem pelo mesmo motivo, pra que te vejas, no futuro, junto a mim, eu te recebendo nesta hora primeira, dando-te as boas-vindas[...]’ (Carrascoza, 2017, p. 8). Desta maneira, o presente se transforma em um espaço/tempo limite, um limiar que modifica a relação com a vida, provocando uma enorme angústia e dor existencial em um homem de mais de 50 anos, que luta contra o tempo cronológico, tentando estendê-lo ao máximo para viver com a filha recém-nascida o maior período possível.

A relação com o tempo é baseada na angústia da morte, não por doença, mas por velhice, com a filha inaugurando o início da jornada e o pai caminhando para o fim dela. Essa relação problemática com o tempo, que obriga, praticamente, o professor universitário a abandonar o presente e tentar preparar o futuro de sua ausência para a filha, é um dos motivos de esse narrador-personagem escrever paradoxalmente suas memórias em um caderno. A memória antecipada, causada pelo ‘medo-pânico’ de morrer como afirma Darcy Ribeiro em Confissões (1997), converte-se no mote do primeiro volume de Trilogia do Adeus.

Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heroicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada.

Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, e a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava (Ribeiro, 1997, p. 3).

A angústia causada pela ideia da morte e pelo pouco tempo que o personagem acredita ter com a filha obriga-nos a repensar a ideia de que a memória é do passado. A obsessão pelo registro, pela lápide, pela musealização do presente, corrói cada linha do romance, nessa tentativa de registro obsessivo de cada minuto entre João e Bia. O presente, já visto como passado, constrói-se por vias de antecipação do futuro, de apagamento do presente, que passa a ser visto como o passado que será lido, um dia, pela filha.

Desta maneira, o presente é ponto de partida, e também de confluência entre o passado e o futuro, um período de tempo incontornável nessa relação projetiva com a memória:

O tempo flui, como um rio, aquele ao qual Heráclito disse que não podemos descer duas vezes. Há, basicamente, duas maneiras de conceber o fluxo do tempo: desde o passado em direção ao futuro, ou desde o futuro em direção ao passado (Borges, 1960). Em qualquer um dos casos, o fluxo nos atravessa num ponto, que denominamos presente. Um ponto não tem superfície nem volume; é intangível e fugaz. É curioso que, em ambas concepções do tempo, o futuro (ou o passado) sejam consequências de algo quase imaterial como é o presente; de um simples ponto. Esse ponto evanescente, porém, é nossa única posse real: o futuro não existe ainda (e a palavra ainda é uma petição de princípio) e o passado não mais existe, salvo sob a forma de memórias. Não há tempo sem um conceito de memória; não há presente sem um conceito do tempo; não há realidade sem memória e sem uma noção de presente, passado e futuro (Izquierdo, 1989, p. 89).

Neste sentindo, na continuidade do texto, construiremos um caminho teórico sobre a memória como elemento do passado, para depois questionar esse mesmo conceito, propondo a memória antecipada, a memória do porvir, o futuro que ilumina o presente e o passado, a memória como possibilidade que se registra para o tempo ausente, ainda em devir.

Percursos da memória, o medo do esquecimento e a necessidade de rememorar

A memória não é confiável, todos os teóricos da memória propõem essa ideia, no entanto, o ser humano só tem esse recurso para recuperar o passado e construir, assim, sua identidade está em permanente construção, tendo o tempo futuro como projeção. O tempo a que a memória está sujeita para se estabelecer é, paradoxalmente, seu recurso à estabilização e ao mesmo tempo, o que faz sua fiabilidade frágil, pois fica sujeita às fantasias que completam as lacunas surgidas ao longo do tempo. Segundo Jacques Le Goff (1990, p. 477): ‘A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia’.

Desta maneira, preservar a memória é uma forma de manter sua identidade intacta, ou, pelo menos, com o mínimo de arranhões e lacunas possíveis. A obsessão por lembrar está associada ao desejo de não ser esquecido. O homem contemporâneo está sujeito a inúmeras mudanças ocorridas na sociedade, que, sendo afetada constantemente por alterações físicas e dos modos de sentir a realidade, aumenta ainda mais a angústia do ser humano, que encontra na memória uma forma de estabilizar sua identidade. Por isso, a memória é também uma projeção para o futuro, para o legado de como uma pessoa será vista pelos seus pares, amigos e familiares diante de sua ausência.

O narrador personagem de Caderno de um ausente tem a consciência dolorosa do tempo da ausência que ocupará na linha cronológica da vida da filha, por isso, em busca de deixar uma imagem nítida para a menina, afirma:

Acabas de nascer e eu tenho de te explicar, como se já pudesses entender, e, da mesma forma, estou dizendo a mim, que não vamos passar muito tempo juntos, que deves te preparar pra viver mais longe de mim do que perto - eu farei parte, pra sempre, só do início de tua história [....] (Carrascoza, 2017, p. 8).

Ao construir a memória, portanto, estabelece-se uma imagem do que ficará quando a ausência for inevitável. Assim, as narrativas memorialísticas têm por função forjar a biografia ou a autobiografia exemplar do sujeito. Neste sentido, a memória é sempre seletiva, escolhe o que preservará e o que apagará, nunca sendo completa, deixando apenas os rastros que deseja estabelecer para imagem desejada. ‘A memória é seletiva. Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado’ (Pollak, 1992, p. 203).

Deste modo, com a finalidade de registrar as primeiras informações públicas do nascimento de Bia, o narrador informa que a mãe optou pelo livro do bebê e ali preservou a gênese de uma vida, para particularizar, na grande narrativa do mundo, entre outros inúmeros neófitos, uma memória que a singularizasse:

Imagino os outros dados desta página inaugural e das seguintes que precisam ser preenchidos, a primeira roupa que te vestiram, e quem a deu, se era verão ou inverno, se naquela noite chovia, quem foi a tua primeira visita, e se há alguma marca em teu corpo, se tu espirras, se choras, se tuas unhas estavam crescidas, o teu primeiro arroto, o primeiro vômito, o primeiro peido, não há fronteiras, filha, para a criatividade — e para a pieguice — humana, tudo pra honrar a tua história, pra te conferir uma aura de singularidade, embora sejas apenas mais um, entre milhares de neófitos, que vai se igualar a todos no espanto de te descobrir finita, no aprendizado do amor e da inveja, na dolorida jornada rumo à conscientização de tuas misérias, no sonho de encontrar a explicação que te salve de ti mesma, a magia que retire de teu corpo o limite que o aprisiona, e de tua imaginação o medo que a refreia (Carrascoza, 2017, p. 10).

Neste caso, a narrativa da vida de Bia, feita pelo pai, começa a ganhar traços de uma singularidade marcada justamente pela seleção de acontecimentos que são registrados. Em meio a tantos fatos comuns a todos os bebês que nascem no mundo, a roupa, os primeiros eventos físicos, se chovia ou se fazia calor no dia darão à menina um aspecto único àS suas memórias. A seleção dos episódios dará coerência à personalidade futura da menina.

Mas, o caso ao qual se refere Pollak (1992), também trata da memória coletiva, referindo-se ao poder de seleção que ela possui, dando ao ser humano o poder e a capacidade de convertê-la em narrativa. Essa parcela controlada da memória, que pode ser resgatada e manipulada de todas as maneiras e por diversos interesses, é que deve ser o foco de nosso estudo. Sabemos que há recordações sobre as quais não temos controle e, mesmo querendo esquecer, escapam-nos ao ato de narrar. Porém, existe a memória repositório, aquela parte preservada e que revelamos somente aquilo que pode ser de interesse público na construção de nossa identidade ou autoimagem. Será essa memória que discutiremos, por ser capaz de construir tensões de disputas e dissenções.

A memória, sob todas as disputas possíveis, ainda é o único espaço de privacidade que possui o homem. Nela ninguém pode entrar sem autorização expressa de nossas palavras, de nossas confissões ou narrativas. Diante de um cenário de espetacularização da memória e da obsessão quase inexpugnável de ser lembrado, a memória íntima foge à publicidade das redes sociais e de suas linhas do tempo, que podem ser pesquisadas por meio de rápidos e eficientes sistemas de buscas por aquilo que ficou no passado.

Nunca em outro tempo houve registros de que os homens quisessem tanto assumir o protagonismo de suas histórias, transformando-as em objeto de admiração e influência de outras pessoas. Registra-se tudo ao grau máximo de narcisismos. Raramente, a foto de um monumento, uma ponte ou uma rua está livre do sujeito que se transforma em personagem e se inclui no cenário fotografado. As câmeras dos celulares voltaram seu foco para o detentor do aparelho e criou nele a necessidade de ser parte da história. Por isso, o número excessivo de compartilhamentos e redes sociais como Facebook, Instagram, Snapchat, Whatsapp, Tinder, etc., têm como foco a autoimagem do proprietário do perfil, que deixa seus rastros, portanto, suas memórias para consulta de todos os interessados.

Pierre Bourdieu (1998, p. 183, grifo do autor) no texto A Ilusão Biográfica afirma que:

Falar de história de vida é pelo menos pressupor – e isso não é pouco – que a vida é uma história e que, como no título de Maupassant, Uma vida, uma é inseparavelmente o conjunto dos acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história e o relato dessa história, é exatamente o que diz o senso comum, isto é, a linguagem simples, que descreve a vida como um caminho, uma estrada, uma carreira, com suas encruzilhadas (Hércules entre o vício e a virtude), seus ardis e até mesmo suas emboscadas (Jules Romains fala das sucessivas ‘emboscadas dos concursos e dos exames’), ou como um encaminhamento, isto é, um caminho que percorremos e que deve ser percorrido, um trajeto, uma corrida [...].

De certo modo, o homem quer narrar sua história. Ela deve fazer sentido, deve ter um sentimento de totalidade que o guie, que o torne um elemento necessário ao mundo, capaz de mudá-lo, de atuar como protagonista e não como mero espectador. O homem moderno quer entrar na história, quer construir sua autobiografia gloriosa como a dos heróis tradicionais, daí a necessidade de passar por reveses, vencer obstáculos, triunfar na sociedade da meritocracia, fazendo jus, portanto, aos seus prêmios. Novos Odisseus viajantes, repórteres de guerra, soldados vistos como heróis, como verdadeiros Hércules, ou narrativas como a do último Mad Max – estrada da fúria (2015), do diretor George Miller, que leva o homem a encontrar um sentido na travessia que se tornou sua vida. Há a necessidade da lápide, da escultura nos museus ou a placa de homenagem na parede de um prédio público que dá nome a alguma rua. Na ausência de todas essas condecorações, os perfis públicos das redes de relacionamentos erigem seus novos heróis, sustentados à base de likes, ‘emoticons’ e comentários, dando, momentaneamente, a sensação de que nossa história de vida é percebida por alguém. No final das contas, o que está em jogo é ser lembrado ou ser esquecido, assim, as redes sociais substituíram os álbuns de família, antes mostrados às visitas, que julgávamos dignas de partilhar nossas memórias.

A sociedade tem vivido ao grau máximo de intensidade o medo do esquecimento. É necessário lembrar, esquecer é quase um ultraje às pessoas com quem convivemos diariamente. Nunca antes se discutiu tanto o Alzheimer, a doença que despoja o sujeito de toda sua história, retirando-lhe aquilo que ele tem de mais precioso: a memória e, portanto, a sua identidade. O medo do apagamento atormenta inúmeras pessoas. As pequenas editoras e gráficas publicam todos os anos biografias e autobiografias de desconhecidos, que buscam, nas narrativas, fugir do esquecimento. Histórias que ficarão para os familiares, filhos, netos, quem sabe, bisnetos.

A sensação de que o tempo passa mais rápido, provocado em grande parte pelo sistema capitalista de produção, com seus horários e compromissos é outro fator de angústia no homem contemporâneo. As agendas sempre carregadas de reuniões, datas a serem cumpridas, metas a serem alcançadas, viagens e cronogramas deram ao homem a impressão de que o tempo foge a seu controle, devorando-o com datas de aniversários, vencimentos de boletos, tempo para aposentadoria. O pai de Bia luta contra esses esquecimentos o tempo todo: ‘As primeiras visitas que tu recebes já estão no esquecimento, assim é o vaivém das pessoas em nossa vida[...]’ (Carrascoza, 2017, p. 26). Para estender o momento, João narra para disputar a efemeridade os eventos. O homem vive a ansiedade de ter de vencer o tempo e uma de suas ferramentas é o registro, o arquivo, a tentativa de gravar o maior número de informações que ficarão preservadas em sua memória natural ou em seus Hds externos, compondo parte de sua memória carregável ao mais simples toque de dedos em uma tela.

Sobre essa relação com tempo nas sociedades modernas, Norbert Elias (1998, p. 10) considera que:

A sucessão irreversível dos anos representa, à maneira simbólica, a sequência irreversível dos acontecimentos, tanto naturais quanto sociais, e serve de meio de orientação dentro da grande continuidade móvel, natural e social. Numerados, os meses e dias do calendário passam então a representar estruturas recorrentes, no interior de um devir que não se repete.

Essa consciência fatalista de que o tempo é irreversível, que avança em um contínuo controlado por relógios, calendários, agendas, compromissos, planos futuros em uma velocidade cada vez maior, conforme as sociedades regulam de formas mais complexas suas relações com a realidade e com o tempo dito útil, portanto, produtivo, aumenta no homem a capacidade de síntese que existe em menor grau nas sociedades pouco desenvolvidas do ponto de vista da ocidentalização do mundo. Desta maneira, sua relação com o chamado passado se torna frágil. A consciência de que existe passado, presente e futuro – mecanismos de síntese reguladora das sociedades para compreender melhor a ideia de tempo fugaz – provoca a angústia/obsessão por não esquecer, cria a obrigatoriedade de lembrar, de evitar que os numerosos eventos a que somos expostos todos os dias não se apaguem de nossa memória e com ela parte de nossas vidas.

O tempo em devir, organizado pelos mecanismos externos de medição do tempo criados pelo homem, trouxe consigo a obsessão pela memória. Lembrar é necessário, é quase uma obrigatoriedade. A angústia vem justamente das dúvidas sobre o que realmente é importante recordar, o que deve ficar registrado em nossa memória e o que deve ser esquecido. Aqui surge um problema nunca resolvido: sendo o esquecimento também uma forma de memória e não o oposto dela, temos de lutar contra as memórias indesejadas, com aquelas memórias involuntárias que ocupam espaço no nosso cérebro e empurram o que desejamos lembrar para longe de nosso alcance.

Esquecer é uma tarefa mais árdua do que lembrar. Embora no ato de rememoração haja falhas, lacunas preenchidas com a nossa expectativa de como deveria ter sido o passado e, assim, apaziguamos nosso presente, ele nos conecta com a nossa individualidade mais profunda, invisível aos olhos dos outros e até mesmo aos que nos cercam e, assim, preservamos nossa individualidade, nossa história pessoal e íntima.

Para Maurice Halbwachs (1990, p. 20):

Na ordem das relações afetivas, onde a imaginação desempenha importante papel, um ser humano que é muito amado, e que ama moderadamente, não é muitas vezes prevenido senão tardiamente, ou talvez não se dá jamais conta da importância que se atribuiu a seus menores expedientes, a suas palavras mais insignificantes. Aquele que amou mais lembrará mais tarde, declarações, promessas do outro das quais este não conservou nenhuma recordação. Isto não é sempre efeito de inconstância, da infidelidade, da imprudência. Mas ele estava muito menos engajado do que o outro nessa sociedade que repousava num sentimento desigualmente dividido.

Mesmo que para Halbwachs (1990) todas as memórias sejam compartilhadas e sempre envolvam mais de uma pessoa, o crítico admite que cada um lembra e recorda aquilo que lhe foi mais importante. Portanto, inevitavelmente, toda memória traz consigo um grau de individualidade e unicidade incontornáveis. Por isso, lembrar para todo o ser humano é fundamental no processo de preservação de sua identidade. Voltando, porém, ao parágrafo anterior, recuperamos o esquecimento: por que é tão difícil esquecer? Se lembrar ajuda a compor as identidades e manter um elo, que a longo prazo é analisado como se fosse uma narrativa que se desenvolveu por uma lógica de causa e consequência, por que esquecer é tão doloroso? Por que os fatos teimam em ser registrados pela mente humana, atrapalhando a beleza de suas memórias?

A memória, neste momento, aciona a capacidade que o ser humano tem de narrar. A narrativa é a forma mais antiga de compartilhamento que existe no mundo conhecido. A narrativa exclui das memórias, pelo menos aquelas registradas na escrita ou verbalizadas oralmente, os acontecimentos indesejados. É por meio do ato de narrar que conhecemos as pessoas e suas histórias de vida, nada além disso nos é revelado, a não ser por meio de uma pesquisa densa e detetivesca para sabermos se o narrador está dizendo a verdade. A narrativa estabiliza a memória, organiza-a, dá sentido aos fatos passados no entrechoque com o presente, criando a ilusão que, de certo modo, algum dia tivemos o mínimo controle sobre nossas vidas. A narrativa expõe e compartilha a memória com o público.

A língua é o estabilizador mais poderoso das recordações. É muito mais fácil lembrar-se de algo que já tenha sido verbalizado do que algo que nunca tenha sido formulado em linguagem natural. Quando ocorre a verbalização, não nos lembramos mais dos acontecimentos em si, mas da nossa verbalização deles. Os signos linguísticos funcionam como nomes, com os quais objetos e situações podem ser evocados novamente (Assmann, 2011, p. 268).

A narrativa também é uma forma de esquecimento, pelo menos de esquecimento público. O narrador se vinga das memórias indesejadas, deixando-as apagadas de sua diegese, pois, cabem nelas aquilo que o narrador autodiegético deseja contar, mais nada. Se ele não pode esquecer totalmente, ele pode mascarar sua história de vida com o silêncio, com o não-dito. A narrativa paradoxalmente preserva e estabiliza a memória, mas também a apaga quando é conveniente, uma vez que, ao ser narrada a história, não mais recorreremos ao memorando, e sim, ao seu texto legível, interpretável aos nossos olhos.

Aqui retomamos um conceito de Michael Pollak (1992, p. 204): ‘[...] a memória sempre está sob disputa’. No entanto, essa disputa não é apenas entre a memória coletiva e a memória privada. Essa luta entre o que dever ser registrado e o que deve ser esquecido também é parte do conflito humano pessoal ao narrar sua história. O que será deixado de memória para os filhos, para os netos? Que memória terão daquele senhor que morreu tardiamente, mas construiu um império financeiro ou moral? No ato de narrar está o lembrar e o esquecer, em geral, o primeiro fica registrado ao público, enquanto o segundo ainda pertencerá à individualidade mais profunda do ser.

No próximo tópico deste artigo discutiremos a memória do porvir, o passado sendo construído conscientemente no presente, por meio de anotações e narrativas de episódios. Neste sentido, tentaremos provar que o passado pode se construir projetivamente, sendo ele uma virtualidade tão natural quanto à ideia de futuro. Nossa tese é de que a memória também é do futuro e que o presente pode ser vivido como passado que será amanhã, como a memória do que se tentou registrar no presente efêmero.

A memória incorpórea do futuro – o passado fora de seu tempo

A relação da memória com o tempo é inevitável. Tradicionalmente, usamos expressões como ‘olhar para trás’, ‘voltar ao passado’, ‘águas passadas não movem moinhos’, ‘não adianta chorar sobre o leite derramado’ para exprimir nossos sentimentos sobre fatos que habitaram momentaneamente nossas vidas. Na verdade, usamos expressões para marcar uma ausência, uma falta. A memória se constrói sobre uma falta, sobre aquilo que se desfez na linha cronológica do tempo. Isso significa que a memória é erigida sobre a incorporeidade do tempo, do vazio deixado pela sequência dos fatos.

Podemos pensar os motivos que levaram Deus a proibir a mulher de Ló em olhar para trás. Um deles é que o trauma da destruição da cidade fosse um fardo difícil de carregar posteriormente. Há algo na narrativa bíblica que não deveria ser registrado na memória. Embora o passado seja uma virtualidade só recuperado pela memória, levar com eles a imagem da destruição de Sodoma e Gomorra poderia ser traumático demais. Então, ao desobedecer a Deus, a mulher de Ló se transforma em uma estátua de sal. Uma metáfora dos riscos de lidar com o passado, de ficar preso a ele, mesmo depois que não mais exista fisicamente.

É como horror ao passado destroçado que Walter Benjamin analisa o anjo no quadro de Klee, com os olhos estarrecidos pelo que vê. O passado irrecuperável, impalpável, em ruínas, abandonado à força do tempo, que com um vendaval empurra a humanidade para outro incorpóreo: o futuro.

Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de fatos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até o céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval (Benjamin, 2012, p. 11).

A relação do homem com o passado nunca foi pacífica, o que, na verdade, mostra que a relação do homem com o tempo sempre foi complexa, pois, se falamos em tempo, pensamos na capacidade humana de síntese organizativa que dividiu o tempo em passado, presente e futuro, a fim de se localizar na massa única da temporalidade.

Para Elias (1998, p. 31-32):

Então se torna possível galgar mais um degrau na escada em espiral da consciência: ao lado do devir quadrimensional, a quinta dimensão representada pelos homens que apreendem e organizam esse devir, penetra no campo de visão dos observadores. Como observadores do devir quadridimensional, estes últimos veem-se instalados, por sua vez, no degrau imediatamente inferior da escada em espiral. Assim, já não é apenas o devir quadridimensional como tal que se torna visível, mas também, com ele, o caráter simbólico das quatro, dimensões, em seu papel de instrumentos de orientação para seres humanos capazes de operações de síntese, como, por exemplo, a de conceberem ocorrido num mesmo instante aquilo que ocorre sucessivamente e que, portanto, nunca é simultâneo. O tempo, que só era apreendido, no patamar anterior, como uma dimensão do universo físico, passa a ser apreendido, a partir do momento em que a sociedade se integra como sujeito do saber no campo da observação, como um símbolo de origem humana e, ainda por cima, sumamente adequado a seu objeto. O caráter de dimensão universal assumido pelo tempo é apenas uma figuração simbólica do fato de que tudo o que existe encontra-se no fluxo incessante dos acontecimentos. O tempo traduz os esforços envidados pelos homens para se situarem no interior desse fluxo, em que determinam posições, medem durações de intervalos, velocidades de mudanças, etc.

Instalado na realidade como a quinta dimensão, o homem passa a figurar como um observador do espaço/tempo dentro de cada uma das quatro dimensões: a física, a biológica a social e a individual. A partir do momento em que o homem passa a observar os fenômenos, adquire também a capacidade de os organizar por meio da síntese dos acontecimentos. A experiência do homem moderno com o tempo é resultado de uma longa aprendizagem, que permitiu a ele desenvolver medidores temporais e métodos organizativos da cronologia para lidar com o paradoxo substantivo do tempo e sua contínua ideia de fluidez.

A relação da humanidade com o tempo é o resultado do desenvolvimento de uma consciência altamente complexa da incorporeidade que é o fluxo temporal. Sem ser palpável como materialidade física pelo homem, o tempo é sentido no corpo, na mente que se desenvolve, no período que se leva para se deslocar entre uma cidade e outra, nos compromissos sociais e suas agendas a serem cumpridas e no campo individual, onde o homem percebe os efeitos dessa imaterialidade na sua forma de enxergar o mundo, o que muitas vezes classificamos como experiência. Mas o que é ela, senão, um conjunto de acontecimentos acumulados ao longo da vida?

A síntese organizativa do homem permitiu a esse adquirir a consciência de cronologia e dividi-la em passado, presente e futuro, tendo como centro o segundo elemento, que é o único brevemente experimentado como real. As outras experiências com o tempo se dão no campo da saudade, nostalgia, arrependimento – passado – e expectativa, esperança, projeção – futuro. Deste modo, o tempo é um elemento incorpóreo, difícil de ser captado, sendo ao mesmo tempo uma realidade e uma virtualidade.

Anne Cauquelin (2008, p. 156, grifo do autor) afirma que:

[...] falar de incorporal não é desprovido de interesse; a teoria dos estoicos nos permite extrair alguns ensinamentos úteis. Se o tempo é para eles um incorporal, isso significa que ele não tem conteúdo algum, é pura vacuidade e só adquire ‘corpo’ quando episodicamente se carrega de uma percepção ou sensação; passado esse episódio, ele volta a ser vazio. Tudo se passa, então, para o incorporal como equilíbrio entre o vazio e o cheio. O tempo não foge em uma linha que diminui para a frente ou para trás do próximo ao distante, rumo ao passado ou ao futuro. Não. Ele está todo no único movimento de aparição e de desaparição de uma ‘era’ temporal.

Ao analisar a questão do tempo para os estoicos, Anne Cauquelin traz para o centro de nossa discussão como o homem preenche esse tempo e como, ao fazê-lo, dá sentido aquilo que é vacuidade. Portanto, ao localizar em determinada época de sua vida um acontecimento, uma memória, o homem preenche esse vazio, dando sentido a ele e momentaneamente apreendendo o tempo, dando a impressão de que existe uma linha cronológica que afasta o ser humano do início da vida, sua juventude e seu próximo ou ainda distante fim. Porém, nada mais é do que uma necessidade humana de preencher a vacuidade da ideia de tempo. Ele é uma massa contínua, informe, impalpável e que pode se tornar concreto nas narrativas que se impõem nos espaços apreendidos pelo homem.

Neste sentido, a memória também é um incorpóreo. Existe na vacuidade do tempo a que chamamos de passado e que tentamos recuperar por meio de recordações, lembranças, fotos, registros em cadernetas e diários. Na prática, tentamos dar sentido ao tempo vivido, que se perde em sua incorporeidade, ou no que vimos chamando até aqui de virtualidade. Os fatos passados existem na virtualidade das imagens preservadas em nossa memória, portanto, só podem ser apreendidos como experiência em meio à ausência, que também é outro incorpóreo.

Sobre os incorpóreos, de acordo com Cauquelin (2008), vivemos cercados deles, de expressões vazias que nos indicam lugares, conceitos, ideias, mas que não são fisicamente concretos. Por isso, por mais paradoxal que seja, os incorpóreos também são corpo. Embora não saibamos precisa-los objetivamente, eles fazem parte de nosso cotidiano mais banal. Expressões como: ‘não demore muito’, ‘volte logo’, ‘mais tarde’, ‘depois eu faço’, ‘não esquece aquilo’, ‘é longe’, ‘não se afaste muito’, mostram para nós como os incorpóreos ganham corpo e convivem conosco todos os dias. Assim acontece com o tempo, não o vemos, não o tocamos, mas temos a sensação de que o controlamos por meio dos relógios, calendários e horários, dando-nos a sensação do tempo presente, do passado e de um possível futuro.

Eu via, então, que existia não o ‘incorporal’ – noção geral e vazia -, mas os incorporais; quatro de fato. ‘Pois quatro são os incorporais: o tempo, o lugar, o vazio e o exprimível’, dizem eles. E esse plural muda tudo. Não trata mais de uma essência – o incorporal em si -, mas de vários elementos concretos, nomeadamente designados. Não precisamos mais buscar outro mundo, porque esse mundo é o nosso, e os incorporais fazem parte dele (Cauquelin, 2008, p. 16-17, grifo do autor).

Portanto, a memória é possível, seja como virtualidade, seja como ausência. Ela pode ser construída e acessada pelo homem. A memória é o modo como preenchemos e damos significado ao espaço, ao vazio e ao tempo. A questão é: se o tempo é um incorpóreo (Cauquelin, 2008) e as noções de passado, presente e futuro (Elias, 1998) são meras sínteses organizativas do tempo, a memória pode se situar no conceito exprimível que temos de futuro? Afinal, a memória não deveria ser do passado e auxiliar o homem a construir permanentemente sua identidade? Perdendo a memória, não perdemos o passado?

No entanto, se vermos o tempo como um incorpóreo e termos a consciência de que conhecemos o tempo como resultado de um trabalho de observação e aprendizagem, a memória também é uma ausência que cabe no conceito de futuro. Na certeza da fragilidade do presente e de seu caráter efêmero, ele pode ser construído como o tempo que passou, que não permaneceu, portanto, despojado de sua ideia de tempo simultâneo, expresso por gerundismos. A tentativa de apreender o presente e preservá-lo para o futuro é uma maneira de alongar a ideia de tempo presente, sabendo-a que um dia será passado. Antecipa-se, assim, o passado, antes que ele exista e o coloca como a memória do amanhã.

O diário talvez seja a primeira forma que temos da tentativa de preservar os fatos que vivemos para o futuro, antes que os fatos ali narrados sejam sentidos como passado. O ato de narrar os momentos do dia em que se vive e a dificuldade de ver as horas que passaram como passado, só podendo projetá-lo no dia seguinte como aquilo que passou, fazem do diário uma memória para o futuro, para aquilo que desejaremos lembrar, antes mesmo de avaliar com distanciamento – aqui outro incorpóreo – o que ali se registra como vivido. A evolução dos diários foram os blogs, que em um primeiro momento, eram usados para registrar, quase hora a hora, os eventos do dia. Logo surgiu o microblog, conhecido como Twitter e que permite ao usuário registrar seus pensamentos e suas impressões e lançá-los ao mundo. Por fim, foi colocado no mercado o Instagram e os seus usuários são chamados de blogueiros e blogueiras, que passam a registrar hora a hora suas vidas, selecionando aquilo que vai para os ‘stories’ e que se antes era um recurso para registros efêmeros, agora podem ser guardados em uma espécie de arquivo pessoal do blogueiro para ser acessado quando desejar.

Provavelmente, essa obsessão pelo registro nunca aconteceu antes. O medo de esquecer, de que os fatos se apaguem na velocidade enorme em que acontecem e a incapacidade de selecionar aquilo que realmente é importante, levou o homem moderno ao desejo de gravar tudo, de preservar cada instante, cada minuto que está vivendo. Vive-se a obsessão pela lembrança. A memória mais do que nunca é requisitada e exigida para o futuro. Ela é vivida como projeção e não como retorno ao passado, a história passa a caminhar para frente e em algum momento o homem acredita que precisará acessar seus registros. A memória passa a existir paradoxalmente como nostalgia futura, como angústia pela passagem rápida do tempo a que estão submetidas as sociedades altamente modernizadas.

Com efeito, o tempo está suspenso em sua própria realização: assim como o lugar, sua natureza é incorporal; invisível e intangível, ele só é corpo em um momento: o presente; antes do presente e depois do presente - no passado e no futuro -, ele absolutamente não é, um inexistente, um incorporal apto apenas a acolher corpos, só então tomando corpo ele próprio, no momento oportuno (Cauquelin, 2008, p. 36-37).

O tempo é corpo apenas no instante fugaz do presente e, mesmo assim, rapidamente apreendido, pois a sequência temporal joga imediatamente as falas, os atos, os gestos ao arquivo do passado, tornando-os memória e, portanto, incorporeidade, resgatados no silêncio da observação que já nada mais pode fazer sobre o que aconteceu. Simultaneamente, queremos preservar o momento, enviá-lo ao futuro, fazer com que permaneça por mais tempo. E a memória fica entre o arquivo do passado e a projeção do futuro, sendo ela um incorpóreo e ela mesma habitando espaços do já vivido e do porvir, ambos na impossibilidade do alcance físico.

Assim, pela obsessão do registro frente ao medo da morte que, teoricamente, se aproxima pelos cálculos do já vivido e experimentado pela capacidade de síntese observadora do homem, é que podemos pensar o Caderno de um ausente, de João Anzanello Carrascoza. O medo da ausência/morte leva o narrador-personagem à obsessão pelas anotações, para que ela – Bia – lembre-se do pai. Neste sentido, o tempo presente é vivido em sua efemeridade e o caderno guardará os momentos que serão lidos no futuro:

[...] o silêncio, Bia, é que faz mais belo o luar, quietas são as carícias, as cores que calam na plumagem dos pássaros, as marcas na pele (embora abaixo dela a usina da vida continue a rugir sem cessar), é o silêncio que sempre sobra depois que a porta se fechou, é no silêncio que se mutilam as mentiras, que as cicatrizes se mostram, é no silêncio que tu sentistes o mundo pela primeira vez antes que a mão do médico estalasse em tuas costas pra que vomitastes o grito, é no silêncio que eu te inicio não no mundo, num caminho espiritual ou numa crença, é no silêncio que eu te inicio não num saber esotérico milenar, em jogos de ironia, em teoremas insolúveis, não, é no silêncio, Bia, que eu te inicio em mim — pisar no meu silêncio é o teu primeiro passo pra me conhecer —, é no silêncio, filha, que eu te inicio em quem tu terás - logo - de assistir ao fim (Carrascoza, 2017, p. 42-43).

Aqui lidamos com mais um incorpóreo: o silêncio, a ausência de som, a ausência de ruídos, registros da existência de vida, mas ao mesmo tempo, o silêncio das memórias: as do passado e as do futuro. A memória só pode ser experimentada no seu silêncio, na sua incorporeidade a que não alcançam as palavras. Será essa memória do futuro que discutiremos no próximo tópico. A memória que aguarda o tempo futuro, no silêncio, até ser despertada e revivida nas linhas do caderno que será deixado para a filha. O pai inicia a filha no silêncio ‘em quem tu terás – logo – de assistir ao fim’. Assim, em projeção futura é que as memórias de o Caderno de um ausente problematizam o tempo e a vida que, fatalmente, é o início da morte: ‘[...]eu ia te contar o segredo do universo como quem sussurra uma canção de ninar, mas eu não posso, filha, eu só posso te garantir, agora que chegaste, a certeza da despedida’ (Carrascoza, 2017, p. 16-17).

A memória para o amanhã: Caderno de um ausente e a obsessão de ‘não poder estar aqui’

O que fazer com o presente que escapa pelos dedos? Registrá-lo! Essa é a única saída para ampliá-lo, estendê-lo em direção ao futuro. Com o passar dos anos, o homem adquire maior consciência sobre o avanço inevitável do tempo. Ele se faz presente na pele, nas marcas do rosto, nas mãos enrugadas, nos títulos que adquiriu, na estabilidade profissional, etc. Inevitavelmente, o ser humano envelhece. É essa consciência que possui João, o narrador/personagem de Caderno de um ausente. Ao ter uma filha após os cinquenta anos, o personagem começa uma luta silenciosa contra o tempo, tendo nas palavras, nos registros que fará no caderno, o instrumento para não perder nenhum detalhe dos momentos vividos com a filha. A verbalização se dá pela letra escrita. Embora fale pouco, João escreve tudo o que vê, toca ou percebe de sua filha. João vai se construindo, linha a linha, para o futuro que não lhe parece reservar muito anos. E é preciso ficar perto, estar por perto da filha, mesmo quando ele se tornar apenas ausência.

Acabas de nascer e eu tenho de te explicar, como se já pudesses entender, e, da mesma forma, estou dizendo a mim, que não vamos passar muito tempo juntos, ‘que deves te preparar pra viver mais longe de mim do que perto — eu farei parte, pra sempre, só do início de tua história’; não há outro jeito, mesmo com a maior das esperanças, de te ver crescer como vi o teu irmão e continuarei a vê-lo até se tornar adulto, ele à beira de ser o homem que será, talvez até dê tempo pra que eu o veja se casar e me dar, quem sabe, um ou dois netos. Mas tu, não. ‘Vens com esta marca, de minha ausência’, a envolver inteiramente a tua vida, e este é um dos primeiros sustos que temos nesta existência, somos o que somos, não há como alterar a nossa história, sobretudo se ela já começa no meio, ou mais próxima ao fim — esta porta do hospital, de vaivém, foi a tua porta de entrada, talvez seja a minha de saída —, se há destinos emaranhados, ‘o meu e o teu apenas vão se resvalar feito fitas’, ainda que o toque possa abrir em nós uma ferida, como as folhas de papel (Carrascoza, 2017, p. 8, grifo nosso).

Consciência do tempo – ou previsão do que resta dele – e angústia. Combinadas, elas fazem brotar a narrativa. O silêncio necessário para observar, analisar, registrar, compor a escrita será a tônica do romance. É uma narrativa que se constrói nos silêncios, como se o tempo presente já fosse ausência e o futuro precisasse ser preparado. Ter a filha se converte em um longo processo de reflexão sobre a vida e sobre a necessidade de preparar os que chegam para ela. Desta maneira, Caderno de um ausente não deixa de ser um manual de sobrevivência para a filha, para quando o pai não mais puder falar ou ensinar, para quando ele estiver ausente.

Portanto, é um caderno deixado para o futuro. Para leitura póstuma, quando a filha poderá, então, acessar e entender o seu passado, que foi preservado para o futuro dela. Neste sentido, Caderno de um ausente é um relato memorialístico que arquiteta o presente como se fosse passado e o olha para o futuro, a fim de encontrar sua leitora no tempo das projeções. Desta maneira, o tempo presente é elevado ao grau máximo de importância, pois ele é congelado como passado para ser vivido como memória, no futuro, pela filha Bia que acaba de nascer.

No entanto, essa obsessão por recordar, por estar presente mesmo na ausência, por meio da escrita, vem, justamente, do conceito cronológico de tempo que temos na sociedade moderna. A capacidade de síntese do homem nas sociedades modernas, que já foi explorada neste artigo, mostrou a necessidade de o ser humano organizar seu tempo, colocá-lo em bases sólidas em termos de passado, presente e futuro. Com essa concepção temporal, passamos a ter um tempo limitado de vida, que parece encurtar com a passagem dos anos, quanto mais avançamos, mais perto do fim estamos. Essa ilusão, cria no homem a angústia da ausência, no ‘não-estar aqui’ para ver e testemunhar os fatos.

Fomos costurados com a mesma linha fina, Bia, e por sermos organizados, assim, um órgão suturado ao outro, esse hemisfério a se fundir àquele, somos vulneráveis às perdas, não é por acaso que te escrevo, filha, eu sou a tua perda futura, e, hoje, de súbito, dei pra inventariar uns bens perdidos, não porque tivesse algum motivo pra recordar das pessoas que me foram amputadas - nunca sabemos aonde vão dar as nossas sinapses e quando nos levarão, de novo, aos amores soterrados, mas, por sorte, Bia, não nos lembramos de nossos mortos todos os dias, não suportamos senão raramente esse milagre ao contrário, esse ver, outra vez, o lampejo do que antes foi um fulgor, não o eterno retorno, mas a eterna partida, e cada um sempre a seu tempo, as inevitáveis despedidas [...] (Carrascoza, 2017, p. 39).

João escreve porque ele é a perda futura da filha. Deixa-o explícito para Bia, que ainda nem tem consciência de si, para prepará-la para aquilo que nem ele ainda conseguiu absorver: a ideia da ausência, do ‘não-estar aqui’ para quando ela precisar. Novamente, estamos às voltas com os incorpóreos. Onde é propriamente esse ‘aqui’? O futuro que ainda não existe se corporifica na narrativa do caderno. Decorre desta postura narrativa a necessidade que o narrador tem de inventariar as coisas, reviver os mortos, visitá-los como se fizesse uma peregrinação a um santuário. Mas isso deve ser feito poucas vezes, pois, o que se visita não é a vida, mas a ‘eterna partida’. Neste sentido, mesmo as expressões vagas de incorporeidade ganham corpo na escrita.

Desse modo, os incorporais pertenceriam ao uno-todo, isto é, ao corpo. Mas, ao mesmo tempo, estariam livres dele. Dizer que tudo é corpo e que o incorporal existe é definir que existe um vínculo - quando menos ambíguo entre os dois. É dizer que esse vínculo é, precisamente, incorporal é fechar o circuito sobre si mesmo. Entramos no paradoxo de mãos e pés atados (Cauquelin, 2008, p. 22).

Caderno de um ausente pertence a essa classe de paradoxos, pois, ao mesmo tempo que fala de ausência, para quando o pai/narrador não estiver mais, ele está presente, se faz sentir em cada linha, corporifica o seu presente, atira-o ao futuro como memória a ser preservada, para continuar a estar, para não ser esquecido, para ser lembrado pela filha que lhe desperta um enorme amor e uma necessidade de mais vida. A narrativa revela uma enorme vontade de ficar, de permanecer desafiando o tempo e sua incorporeidade. Passado, presente e futuro se fundem em uma única massa temporal costurada pela escrita.

[...] em ti, filha, alinha-se, em fila dupla, o que é teu e o que em ti pertence aos outros, a festa e o luto, o excelso e a sobra, o poço e a torre; sozinha, apenas um ano velha, no teu berço, estás tão povoada, Bia, e, embora o oco doa mais, haverá dias em que suplicarás por te esvaziar de tudo — e a natureza vetará! -, então, viva os teus instantes de beleza (e de angústia), oferecendo-os a eles por meio de teus sentidos, é o que eu faço neste caderno que escrevo pra ti; a palavra, seja qual for, é a segunda vez, a única que, apesar de seu atraso, de sua força reduzida, nos resta, Bia, pra suturar as vivências e evitar que caiam no chão como roupas dos cabides (Carrascoza, 2017, p. 39-40).

A filha é a síntese do passado, do presente e do futuro do narrador. ‘Apenas um ano velha’ e está povoada dos traços fenotípicos de pelo menos duas famílias que se cruzaram no tempo. Avós, tios, pai e mãe compondo um único ser, dando ao pequeno corpo o incorpóreo das faces ausentes. E, novamente, o vazio – oco – é chamado à cena. O romance é sobre a dor da perda futura, da perda que o próprio narrador terá de enfrentar. A ideia da morte implica uma dupla perda a João: a dele mesmo, que deixará de existir no plano objetivo e a perda futura que a filha enfrentará ao não ter mais o pai. A narrativa é uma forma de preparar para aquilo que virá, para a ausência definitiva que se mostra a cada linha. A fuga da ausência está nas palavras, que embora sejam insuficientes, são as únicas capazes de ‘suturar as vivências’. A escrita dá corpo ao ausente, sendo ela mesmo a prova da ausência, uma substituta de segunda ordem, mas que ainda é capaz de estruturar as histórias, permitindo que o passado volte quando for evocado e que a vida seja vivida em projeção resistindo à ausência que se anuncia.

O afeto é algo primordial nas recordações. Lembramos as experiências traumáticas com muito mais intensidade do que as boas recordações. A memória traumática se marca no corpo, cria nele seu espaço de vivência. Ao mesmo tempo, o trauma é a impossibilidade do relato, a anti-memória, o viver todos os dias a dor, que não dá tempo para esquecer. Assim: ‘O trauma estabiliza uma experiência que não está acessível à consciência e se firma nas sombras dessa consciência como presença latente’ (Assmann, 2011, p. 277). E para haver memória, precisa haver esquecimento, o lapso temporal que permite a rememoração em retrospectiva do que passou.

No romance em questão, o trauma é o próprio nascimento que inaugura paradoxalmente o caminho para o fim. Um final a longo prazo, mais demorado que o pai narrador espera, mas que o faz sofrer com a expectativa de não viver o suficiente para ver a filha formada, talvez, casada, com filhos e, assim, estender ainda mais sua existência. O trauma está presente o tempo todo na narrativa. Assim, a memória dolorosa da ausência se projeta ao futuro e a narrativa é possibilitada, justamente porque não é vivida em retrospectiva – está na latência do futuro luto –, em projeção, para aquilo que ainda virá e que o pai, quase de maneira testamentária, deixa registrado no caderno daquele que um dia estará ausente.

Como toda história, não sei aonde a tua vai dar, se vamos passear pelo parque nas manhãs de domingo, se andaremos juntos por rudes paragens, se tu serás silenciosa, como a tua mãe, se terás febre por longas noites, se o sol ou a tempestade será teu primeiro alumbramento, se cairás incontáveis vezes até te arvorares sobre as duas pernas, não sei, Bia, qual será a tua cor preferida, não sei quantas bolhas terão teus pés depois de te arrastares por essas ruas de piche, quantas rugas arrasarão o teu rosto toda vez que a realidade violentar a tua inocência, eu não sei, Bia, qual é o teu ascendente zodiacal, nem a tua pedra no jogo das runas, eu não sei se vais gostar de agrião como o meu pai, não sei se será prazerosa ou dolorida ou traumática a tua primeira transa, não sei tanta coisa de ti, Bia, e nem saberei, não apenas pelo tempo, estreito, que vamos conviver, mas porque há coisas que nunca saberemos de nós mesmos, muito menos dos outros, e há coisas que não devemos saber, para que nos doam menos [....] (Carrascoza, 2017, p. 14).

A certeza da ausência no futuro cria um discurso com uma interlocutora ainda sem consciência dos fatos ou de conceitos de tempo. João se dirige a Bia assolado pela angústia de não poder saber as muitas coisas que o futuro aguarda para a filha. O silêncio, que será deixado com a futura morte do narrador, tem de ser preenchido pelas palavras, para que Bia saiba que um dia o pai tentou antecipar todas as dores que ela viveria, mas que ele, provavelmente, não estaria presente para consolá-la ou ensiná-la. A memória do futuro, aqui, constrói-se como necessidade de ensinamento, de presença constante expressa por meio das palavras, e também pela angústia do não-saber, da sensação de ‘não-estar’, justamente nos momentos cruciais de aprendizagem e transição da filha para a vida adulta.

Aqui a memória não é uma avaliação do passado que ainda nem chegou, mas, anuncia-se a cada minuto experimentado de vida. As recordações do presente, dos silêncios de cumplicidade entre pai e filha vão tecendo o painel dos fatos e das imagens, que só poderão ser resgatados depois, por meio das palavras, pois, elas são a única via de preservação do presente, que a cada instante se torna passado. ‘E as palavras, eu te aviso, Bia, voláteis como a neblina que nos impede de ver o horizonte, de súbito, se evaporam, revelando até os imperceptíveis tons do azul, as palavras só valem pro momento em que foram ditas[...]’ (Carrascoza, 2017, p.42.) Contra o esquecimento inevitável imposto pelo tempo, a narrativa tenta registrar cada instante de vida entre João e Bia. Aquilo que Bia não poderia saber no futuro, o pai lhe deixa narrado no caderno. As memórias de João serão herdadas por Bia, contendo desde o momento de seu nascimento ao tempo em que o passado ainda não se constitui como parte narrável da vida da menina.

A angústia pela insuficiência das palavras marca fortemente o narrador. Elas antecipam a ausência futura e ao mesmo tempo não têm o poder de alcançar todo o sentimento que João quer deixar para sua filha. ‘As palavras não incorporam o trauma nelas mesmas. Por pertencerem a todos, elas não acolhem nada de incomparável, específico ou único[...]’ (Assmann, 2011, p. 277). O pai tem essa consciência da coletividade das palavras, daí o grande esforço em fazer que por elas circulem o pai que faltará no futuro. A narrativa tenta suturar as duas vidas, as duas linhas temporais, que inevitavelmente serão separadas pelo tempo que coube a cada um na linha cronológica de suas histórias.

A narrativa é a síntese do sentimento de perda, ausência e necessidade de permanência. João sabe que deverá partir em algum momento da jovem vida de sua filha e isso o faz viver o nascimento de Bia em um misto de dor e alegria, de ganho e perda, mas que ele tenta registrar ao grau máximo de seu lirismo/afeto a sua presença:

[...] por isso eu deixo aqui, escritas, as minhas margens, Bia, porque já estou te perdendo, eu já te perdi por tudo o que vivestes até este instante, mas eu te recupero com as palavras, Bia, palavras que eu apanho como quem colhe frutas — as verdes pra amanhã, as maduras pra agora —, as palavras que, nem toda vez, senão em horas raras, têm o poder de dar a janeiro o que é de agosto, as palavras se queimam em nossa língua, viram, instantaneamente, silêncio-cinzas, mal são pronunciadas já entram em combustão, as palavras só valem mesmo para o momento, ‘eu te quero; eu farei tudo por você; eu vou te proteger; pode confiar em mim, cariño; eu cuido dos negócios da família, pai; quero ser enterrado lá, filho; vem pra cama, amor!’; estas palavras - e todas as outras - incineram-se depois de bem ou mal ditas, como folhas de papel sobre a chama do isqueiro; mas, com elas, é que damos corda em nossas recordações, as lembranças, eu nem sei por que a elas recorremos, se mesmo poderosas não são mais que pálidas, se mesmo paradas continuam semoventes[...] (Carrascoza, 2017, p. 38, grifo do autor).

Assolado pela consciência da incorporeidade das palavras e do tempo que escapa a cada instante, é que João tenta gravar no caderno suas ‘margens’. O pouco que restará dele serão as palavras, a fim de que a filha acesse as memórias, que mesmo semoventes, ainda darão no futuro uma ideia de quem foi João, quem foi o professor que com mais de cinquenta anos encontrou o amor e teve uma filha fora do tempo esperado. A narrativa é sobre o amor de um pai, em vias de partir, pela filha que acabou de chegar. Certo da fugacidade do tempo, João luta com as palavras e deixa aquilo que ele chamou de Caderno de um ausente. Enfim, o narrador deixa o texto para ser lido, para que seja lido no futuro, para que a memória construída conforme a vida se desenvolve, seja lida no tempo do devir. Portanto, João não olha para o passado, mas registra o presente, tendo como alvo o futuro, quando o caderno será o registro, então, de um passado que ele viveu intensamente com a filha.

Considerações finais

Ao longo do artigo tentamos provar a existência de uma memória para o futuro, subvertendo a ideia de que a memória seja apenas do passado. Para tanto, recuperamos alguns conceitos tradicionais de memória e tempo, a fim de demonstrarmos que o relato memorialístico além de ter por escopo a preservação de partes do passado e estabilizar a memória por meio da narrativa, também tem em vista o futuro e que, muitas vezes, o seu alvo não é o passado, mas o tempo do porvir, o tempo das expectativas.

Assim, o conceito dos incorporais de Cauquelin (2008) foi fundamental para repensarmos a relação do homem moderno com o tempo. Sendo o tempo um dos incorpóreos que nos cercam todos os dias, ele é fruto de uma longa aprendizagem (Elias, 1998), por isso, o que temos são medidores externos do tempo, que dão a impressão de que temos controle sobre ele. No entanto, se o tempo que temos é o aprendido socialmente, as relações cronológicas de passado, presente e futuro também são meras tentativas de nos situarmos na massa incorpórea do tempo.

Desta maneira, o passado apreendido é um esforço de dar corpo ao incorpóreo. Logo, a memória também é uma virtualidade, outro incorpóreo que o ser humano tenta compreender. O modo mais prático de se relacionar com essa essência fugaz do tempo a que damos o nome de passado é utilizando as palavras, a narrativa, a fim de registrarmos os eventos em uma possível linha temporal percebida pelo homem.

Assim, se o tempo é uma massa única, subdividida pelo homem em marcas cronológicas e sendo o passado e o futuro incorpóreos, um pelo já vivido e ou outro por ainda existir, a relação do homem com a memória também pode ser projetiva, uma vez que os conceitos mencionados acima são apenas representações de uma lógica adquirida. Por isso, tentamos provar que a memória não é só do passado, mas ela é do futuro e pode pertencer a ele mais que ao passado das musealizações dos eventos.

Neste sentido, a narrativa de Caderno de um ausente representa uma mudança na maneira como homem moderno lida com o tempo. João, pai de Bia e narrador do romance, não olha para o passado, haja vista ele ainda não existir, mas lança seu olhar ao futuro, ao tempo de sua ausência, quando ele não poderá mais estar na vida de sua filha. Para tanto, tenta apreender e alongar o tempo presente por meio das palavras. A narrativa estende o tempo ao máximo de sua duração através dos signos linguísticos pronunciados.

Em suma, Caderno de um ausente é para o passado que ainda vai existir. O registro dos eventos que vive com a filha e que deverão ser lidos como passado em um futuro relativamente próximo, quando a menina dominar as palavras e para quando João, o pai de Bia, não estiver mais com ela. A narrativa se justifica pela ausência que habita a ideia de tempo, o presente que se desfaz em passados e o futuro que aguarda as memórias de um ausente.

Referências

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Benjamin, W. (2012). O anjo da história (J. Barrento, Org. e Trad.). Belo Horizonte, MG: Autêntica.

Bourdieu, P. (1998). A ilusão biográfica. In M. M. Ferreira, J. Amado (Org.), Usos e abusos da história oral (p. 183-191). Rio de Janeiro, RJ: Fundação Getúlio Vargas.

Carrascoza, J. A. (2017). Caderno de um ausente. In J. A. Carrascoza. Trilogia do adeus (p. 4-47). Rio de Janeiro, Alfaguara.

Cauquelin, A. (2008). Frequentar os incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea (M. Marcionilo, Trad.). São Paulo, SP: Martins Fontes.

Elias, N. (1998). Sobre o tempo (V. Ribeiro, Trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.

Halbwachs, M. (1990). A memória coletiva (L. L. Schafftter, Trad.). São Paulo, SP: Vértice.

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Le Goff, J. (1990). História e memória (B. Leitão, Trad.). Campinas, SP: Unicamp.

Pollak, M. (1992). Memória e identidade social. Revista de Estudos Históricos, 10(5), 200-212. Recuperado de http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/1941/108

Ribeiro, D. (1997). Confissões. São Paulo, SP: Companhia da Letras.

Miller, G. (2015). Mad Max: estrada da fúria [Filme-vídeo]. Estados Unidos-Austrália: Warner Bros.



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