Resumo: O naturalista espanhol Marcos Jiménez de la Espada (1831-1898), zoólogo dedicado ao estudo de mamíferos, aves e répteis, compôs a Comissão Científica do Pacífico, juntamente com o presidente da comissão Patrício Maria Paz y Membiela (oficial da Marinha); Fernando Amor (geólogo); Juan Isern (botânico); Manuel Almagro (antropólogo); Francisco de Paula Martínez (zoólogo), taxidermista Bartolomé Puig e Rafael Castro y Ordóñez (desenhista e fotógrafo), numa viagem pela América do Sul nos anos de 1862-65, para estudar a flora e fauna americanas e coletar espécimes para o Museu de Ciências Naturais de Madri. Entretanto, por alguns fatores causados por diversas circunstâncias, como a desavença no comando da expedição, os cientistas foram obrigados a voltar ao seu país de origem, mas Jiménez de la Espada não atendeu ao comando e partiu em direção à Pan-Amazônia para completar a coleção, e com ele foram quatro cientistas. Homem das ciências e notável americanista, Jiménez de la Espada publicou, em 1870, Algunos datos nuevos o curiosos acerca de la fauna del alto Amazonas (Mamíferos). Para a presente pesquisa buscamos contextualizar tanto o escritor quanto a sua obra no ambiente intelectual, cultural e histórico da época, além de realizar a tradução da supracitada obra para o português brasileiro, em que o autor faz uma longa descrição detalhada dos animais coletados, dando ênfase principalmente à morfologia animal, além de comparar esses animais com outros já catalogados pelos europeus que antecederam a sua viagem. Para compreender o aspecto histórico e cultural, utilizamos López-Ocón e Pérez-Montes (2000). E para a análise da tradução nos embasamos em Torres (2021) para discorrer sobre ecotradução e em Nascimento (2021) para comentar as escolhas tradutórias de palavras e expressões culturais indígenas e do espanhol concernentes à segunda metade do século XIX.
Palavras-chave: Estudos da tradução, história da ciência, Marcos Jiménez de la Espada, Amazônia.
Abstract: The Spanish naturalist Marcos Jiménez de la Espada (1831-1898), a zoologist dedicated to the study of mammals, birds and reptiles, was a member of the Scientific Commission of the Pacific, together with the commission’s president Patricio María Paz y Membiela (naval officer); Fernando Amor (geologist); Juan Isern (botanist); Manuel Almagro (anthropologist); Francisco de Paula Martínez (zoologist), taxidermist Bartolomé Puig and Rafael Castro y Ordóñez (draftsman and photographer), on a trip to South America in 1862-65, to study the American flora and fauna and collect specimens for the Museum of Natural Sciences in Madrid. However, due to various circumstances, such as a disagreement over the command of the expedition, the scientists were forced to return to their country of origin, but Jiménez de la Espada did not heed the command and set off towards the Pan-Amazonian region to complete the collection. A man of science and a distinguished Americanist, Jiménez de la Espada published Algunos datos nuevos o curiosos acerca de la fauna del alto Amazonas (Mamíferos) in 1870. For this research, we sought to contextualize both the author and his work in the intellectual, cultural and historical environment of the time, as well as translating the aforementioned work into Brazilian Portuguese, in which the author gives a long, detailed description of the animals collected, focusing mainly on animal morphology, as well as comparing these animals with others already catalogued by the Europeans who preceded his journey. To understand the historical and cultural aspect, we used López-Ocón e Pérez-Montes (2000). For the translation analysis, we used Torres (2021) to discuss ecotranslation and Nascimento (2021) to comment on the translation choices of indigenous and Spanish cultural words and expressions from the second half of the 19th century.
Keywords: Translation studies, history of science, Marcos Jiménez de la Espada, Amazon.
Artigo
Jiménez de la Espada: um naturalista espanhol na Amazônia
Jiménez de la Espada: a spanish naturalist in Amazon
Received: 08 October 2024
Revised document received: 02 December 2024
Accepted: 15 November 2024
Published: 01 December 2024
A história natural encontra seu lugar nessa distância agora aberta entre as coisas e as palavras – distância silenciosa, isenta de toda a sedimentação verbal e, contudo, articulada segundo elementos da representação, aqueles mesmos que, de pleno direito, poderão ser nomeados
(Foucault, 1999, p.178).É parte intrínseca da linguagem operar na formação de conceitos realizados pelo ser humano, e daí são revelados mundos empíricos, ordenados e compartilhados principalmente no campo da ciência, um jogo de representação antropomórfica. Esse é o nosso aporte no que concerne à linguagem em se tratando dos Estudos da Tradução, ao escolhermos traduzir do espanhol para o português do Brasil o texto do naturalista espanhol Marcos Jinénez de la Espada (1831 - 1898), que descreveu três mamíferos da fauna amazônica. Com isso, ampliamos o quantitativo de documentos traduzidos, que foram produzidos por viajantes naturalistas que passaram pela Amazônia com fins científicos, ao passo que cooperamos com outras áreas de interesse como a História Natural, as Ciências Biológicas e a História das Ciências.
Nascido em Cartagena, Marcos Jiménez de la Espada estudou em Valladolid, Barcelona e Sevilla, formou-se em Filosofia no ano de 1850, mas direcionou seus estudos em Ciências Naturais na Universidad Central de Madrid (UCM), atual Universidad Complutense de Madrid. O referido naturalista desenvolveu estudos dedicados à zoologia, mas especificamente em anfíbios, sob a orientação de Mariano de la Paz Graells (1809 – 1898), médico, político, naturalista, professor da cadeira de Anatomia Comparada e Zoonomia de Vertebrados da UCM, além de Diretor do Museu de Ciências Naturais.
Sempre muito dedicado ao estudo das Ciências Naturais, Jiménez de la Espada foi ajudante nas aulas de mineralogia e geologia do Museu de Ciências Naturais e depois professor auxiliar da Faculdade de Ciências da UCM, no ano de 1857. Foi nomeado primeiro ajudante do referido Museu, em 1859; e a seu pedido, conseguiu o cargo de professor nas disciplinas de Zoologia e Anatomia comparada no mesmo Museu. Também foi diretor de um pequeno zoológico que seu professor Graells havia inaugurado no Jardim Botânico de Madri (López-Ocón & Pérez-Montes, 2000).
O maior evento histórico, científico e político daquele período, na Espanha, deu a oportunidade para destacar o referido naturalista, quando seu nome foi escolhido para compor a Comissão Científica do Pacífico (1862-1865). Depois dessa longa viagem, Jiménez de la Espada se dedicou em aprimorar seu conhecimento sobre a América, em particular a cultura Inca, os povos indígenas latino-americanos, a relação entre as sociedades andinas e amazônicas entre os séculos XV ao XVII, e além de publicação de novas edições de livros, também escreveu sobre muitos viajantes europeus na América, como: Pero Tafur, José Celestino Mutis, Hipólito Ruiz, José Pavón, Alejandro Malaspina, Pedro Teixeira, entre outros.
A Comissão Científica do Pacífico foi criada no governo de Isabel II com o intuito de coletar exemplares de espécimes americanos dos reinos mineral, vegetal e animal, para ampliar as coleções do Museu de Ciências Naturais de Madri, mas também tinha a intenção “obcecada em estreitar os laços políticos, econômicos e culturais da Espanha com suas antigas colônias, sempre como potência reitora” (Losada, Puig-Samper & Domingues, 2013, p. 70).
Essa comissão foi composta por oito membros: o presidente da comissão e oficial da Marinha Patrício Maria Paz y Membiela, o geólogo Fernando Amor, o botânico Juan Isern, o médico e antropólogo Manuel Almagro, o secretário da Comissão e zoólogo Francisco de Paula Martínez, o médico e taxidermista Bartolomé Puig, o desenhista e fotógrafo Rafael Castro y Ordóñez e o zoólogo Marcos Jiménez de la Espada. Na Figura I, a fotografia dos viajantes da Comissão Científica do Pacífico antes de embarcar.
Sobre Jiménez de La Espada, naturalista de nossa pesquisa, não há dúvidas que teve um papel de grande importância na Comissão de Científica, que além de respeitado zoólogo, também ganhou destaque entre os historiadores, geógrafos e antropólogos, e ficou conhecido como Americanista.
Marcos Jiménez de La Espada (1831-1898), ajudante do Museo de Ciencias Naturales, foi – como segundo “ajudante naturalista” – o responsável pelas investigações sobre aves, mamíferos e répteis terrestres. Espada se destacou no transcurso da expedição por seus trabalhos nos vulcões andinos e suas observações geográficas, antropológicas e históricas. Dos membros da Comissão Científica do Pacífico, foi o que desempenhou o papel mais importante durante e depois da expedição, fazendo destacadas contribuições para a Zoologia, sem descuidar-se de úteis observações antropológicas e históricas, que o inclinaram posteriormente ao estudo da História da América.
(Losada, Puig-Samper & Domingues, 2013, p. 74).Esse destaque como Americanista deu a Jiménez de la Espada, em 1892, a Medalha de Ouro do governo peruano, por seu reconhecido trabalho sobre a cultura peruana e os estudos sobre a América do Sul. Um importante ato de aproximação entre Peru e Espanha, já que ambos países estavam com dificuldades nas relações diplomáticas, após a independência do Peru. Também recebeu várias outras honrarias, como a medalha de primeira classe da Sociéte Impériale Zoologique d’Acclimatatión, da França (1866); foi nomeado Comendador da Real Orden Americana de Isabel la Católica por sua participação na Comissão Científica do Pacifico (1866); e recebeu o Prêmio Loubat da Academia da História pela obra Relaciones Geográficas de Indias (1897).
A segunda metade do século XIX foi um período profícuo em relação à produção de trabalhos realizados por naturalistas no continente americano. Muitos destes trabalhos eram descritivos e se dirigiam à classificação dos seres vivos, majoritariamente nos campos da botânica e zoologia, como observa Alves (2022, p. 05) “Animais, plantas e outros elementos originários das regiões tropicais povoavam os herbários, jardins botânicos e museus europeus. Eram solicitados como objeto de estudo científico e, ao mesmo tempo, de curiosidade popular e entretenimento”. É neste cenário que Jiménez de la Espada estuda diversos tipos de animais, coletando-os, dissecando-os e também enviando-os vivos para o Museu de Ciências Naturais de Madri.
Em 1870 publicou o primeiro texto Algunos datos nuevos o curiosos acerca de la fauna del alto Amazonas (Mamíferos) em um boletim-revista da Universidade de Central Madrid, trabalho no qual descreveu três diferentes animais, destacando-se dois primata e um quiróptero. O supracitado texto contém 26 páginas, incluindo capa e contracapa. Está dividido em três partes. A primeira faz uma descrição geográfica da região, iniciando ao pé da Cordilheira dos Andes e adentrando na Floresta alta da Amazônia, demostrando deslumbre pela grandiosidade e diversidade do bioma amazônico, cita nomes dos mais famosos viajantes europeus e de algumas obras científicas, além de fazer alguns agradecimentos no texto.
A segunda, trata da descrição detalhada de dois primatas desconhecidos, nomeando o primeiro de Midas Lagonotus e o segundo de Midas Graellsi, este último em homenagem ao seu professor e amigo; descreve o lugar onde o encontrou, na região amazônica do Equador, além de fazer comparações com outras espécies já catalogadas. Já a terceira e última parte, o naturalista narra como conseguiu e ficou admirado em analisar o quiróptero, ou seja, o morcego das bananas; faz uma descrição precisa do animal e de seu habitat; e faz questão de transcrever a fala do indígena Fermin em língua quéchua.
Na Figura II, a capa do texto publicado por Jiménez de la Espada, publicado em 1870.
Embora o pensamento evolutivo já estivesse circulando nas academias europeias, os termos propostos por Darwin, em 1859, estavam incipientes em relação à apropriação por muitos naturalistas, assim, não é possível, por exemplo, observar correlações entre as descrições de Jiménez de La Espada e a seleção natural, em seu trabalho. A própria palavra “evolução” não é mencionada uma única vez em seu texto.
A concepção vigente, para além do criacionismo, remetia-se para o que Amorim (2009) identifica como “Escola Lineana” e que considera classificações baseadas em conhecimento taxonômico, agrupando os seres de acordo com suas diferenças e semelhanças. A perspectiva Lineana é comumente imbrincada ao sistema de nomenclatura binominal proposto e aprimorado por Linné entre os anos de 1735 e 1770 (Polaszek, 2010).
O texto de Jiménez de la Espada é um tratado científico do campo da zoologia intitulado “Alguns dados novos ou curiosos sobre a fauna do alto Amazonas (mamíferos)”, com destaque para a palavra entre parêntese “mamíferos”, já que faz a descrição de três mamíferos ainda não catalogados pela sociedade científica. Encontramos, nesse texto, um escritor ávido para descrever com a maior clareza possível o ambiente natural, com todos os detalhes, na tentativa de materializar no texto uma possível sensação do que é estar diante da imensidão da floresta e sentir a pequenez humana, quando afirma que “A ostentação, a grandeza com que a inesgotável fecundidade da terra é mostrada ali, produz na alma a mesma impressão de imponente assombro que a absoluta esterilidade dos desertos.” (Jinénez de la Espada, 1870, p. 05, tradução nossa).
Assim como se esforça em reunir palavras para atender a descrição de um animal ainda não catalogado, Jiménez de la Espada faz o mesmo com a paisagem natural da Amazônia. E é na esfera do texto traduzido que nos deparamos com a ecotradução, concepção que viabiliza enxergar a ética tradutória, a ação humana e o ambiente natural, encontrando uma percepção histórico-cultural da Amazônia com a relação que a tradução estabelece com os elementos naturais no texto, que para Torres (2021, p. 01) “A ecotradução apreende a tradução da relação entre a natureza e a literatura em diversos contextos culturais e examina em que medida a ficção e/ou a poesia deram um lugar essencial à natureza e às relações antrópicas com o meio ambiente”. A tradução do supracitado texto apresenta essas especificidades, colocando em destaque a relação da natureza e seus elementos com as palavras.
No texto observamos alguns aspectos importantes no discurso do naturalista, quando ele sente a necessidade de se afirmar perante seus pares na sociedade científica, ao citar renomados naturalistas, viajantes e obras científicas, além de uma sincera declaração ao demostrar interesse em ser publicado:
(...) é por causa de uma ambição tão modesta quanto legítima, já que posso declará-la sinceramente: a de que meu nome apareça com as novas espécies de vertebrados descobertas em nossa viagem, e não apenas meu nome, mas também o de pessoas a quem desejo pagar um pequeno tributo de gratidão, uma dívida antiga agora aumentada pelos conselhos e lições que recebo de seu conhecimento e experiência a cada passo, e sem os quais seria difícil para mim ter sucesso no trabalho que tenho em mãos, que está além de minhas forças.
(Jinénez de la Espada, 1870, p. 09, tradução nossa).Nessas sociedades científicas havia uma corrida para se ter seu nome na classificação da nova espécie, ou homenagear um grande cientista e amigo ao catalogar, e é o que Jiménez de la Espada (1870) fez ao dedicar a espécie Midas Graellsi ao seu professor e amigo: “Dedico a espécie ao meu respeitável amigo e professor, o ilustríssimo senhor D. Mariano de la Paz Graells, que tanto contribuiu na Espanha para o avanço das ciências naturais” (1870, p. 19, tradução nossa).
Outra observação é que não há no texto de Jiménez de la Espada a palavra Amazonia, somente “Amazonas” para fazer referência à fauna, à floresta, às comarcas e aos animais encontrados, pois o autor tem o rio Amazonas, e toda a região por onde esse rio se estende, como referência geográfica. Em algumas partes do texto o autor refere-se ao lugar como “selvas americanas” (1870, p. 07). Aparece somente uma única vez o adjetivo Amazónico no texto, em “cuenca amazónica” (1870, p. 07).
Ao tratar dos topônimos presentes no texto, tivemos que atualizar “Gérberos” para “Jéberos”, que é um distrito da Província do Alto Amazonas, no Peru; e “Guallaga” para “Huallaga”, rio e afluente do rio Marañon, este que é o mesmo rio Amazonas.

Outro comentário da tradução que trouxemos para discussão é a preservação das palavras de origem indígena na tradução, já que elas trazem a identidade do texto de partida, porque daí é possível perceber que essa Amazônia indígena não é brasileira, mas sim estrangeira, perceptível na herança da língua quéchua muito presente na fauna e flora peruanas, equatorianas e colombianas. Sabemos que a fauna e flora brasileiras têm influências das línguas do tronco tupi-guarani. No início do texto escrito por Jiménez de la Espada aparece a palavra chuquiraguas, que são arbustos silvestres com flores amarelas, e a palavra é de origem quéchua, pois chuqi é ouro (de mina), fazendo referência à cor amarela (Calvo Pérez, 2022, p. 159).

O que realmente mais nos chamou atenção no texto foi a transcrição da fala do indígena Firmin, quando este entrega o quiróptero para o naturalista e diz “Caica palanda tutapixco”, em língua quéchua, que além de transcrever a língua indígena, o naturalista traduziu para o espanhol. A palavra tutapixco, de acordo com Tirira (2004) quer dizer tuta (noite) pishku (pássaro), ou seja, os nativos pensavam que o morcego era um pássaro de cor escura como a noite. E na literatura científica essa espécie de morcego é conhecida como tutapixco, tutapisco ou tutapisho, esta última escrita tem a marca do espanhol amazônico, quando encontramos o fonema [ʃ] escrito com as letras sh (Nascimento, 2021).

É notório, no texto, que o naturalista em questão tem interesse em transcrever palavras de origem indígena, mas no exemplo seguinte ele não fez a tradução. O nome do primata que ele fez a descrição e a classificação, apresenta também o nome vulgar Uxpa-chichico, que em quéchua uspa (cinza) (Chirif, 2016, p. 295); e Yuru-Muruchi, que em guarani significa “boca branca”, por causa da pelagem branca na região da boca.

Também o vocábulo “mitayeros” que é também da língua quéchua e significa “caçadores”, como no exemplo: “os índios mitayeros” (Jinénez de la Espada, 1870, p. 11, tradução nossa).
Para manter e sustentar a proposta de tradução numa perspectiva ética (Berman, 2013), preferimos manter o termo “índio” / “índios” no discurso do naturalista para não apresentar anacronismo, pois segundo Torres (2023) “considero que toda tradução é anacrônica por essência, mas acredito também que traduzir privilegiando certa contemporaneidade para determinar textos ou para partes de alguns textos comprometeria a ética da tradução do(a) tradutor(a)” (2023, p. 35).
É importante mencionar também o comentário preconceituoso que o naturalista faz em relação aos povos originários da América, quando, em seu discurso, comenta sobre Fermin “um índio bonito e atento, preguiçoso como todos eles, e nosso servo quando lhe era conveniente” (Jimézes de la Espada, 1870, p. 22, tradução nossa).
Jiménez de la Espada é um naturalista típico de seu tempo, problematizando a diversidade de espécies novas, descrevendo-as, nomeando-as e fornecendo exemplares para diferentes instituições, inclusive, zoológicos, e especialmente para o Museu de Ciências Naturais de Madri. Os trabalhos desses naturalistas foram fundamentais para o desenvolvimento da história natural e posteriormente para a biologia, sobretudo, pela descrição de organismos e aprimoramento de técnicas de classificação taxonômica por meio de estudos comparados. Jiménez de la Espada foi reconhecido como um dos maiores naturalistas espanhóis, sendo premiado na Espanha, na França e no Peru, antes de se enveredar de forma também competente e reconhecida nos estudos da geografia, antropologia e da história do chamado novo continente, como um autêntico Americanista.
Traduzir um texto do século XIX não é nada trivial, ainda mais quando esse texto é um tratado científico de história natural, que tinha como base de conhecimento a taxonomia, agrupando os organismos pelas características anatômicas a partir de comparações de exemplares já catalogados por outros naturalistas.
No exercício tradutório não tivemos dificuldades quanto às descrições das espécies classificadas por Jiménez de la Espada, que descreveu a coloração da pelagem dos mamíferos com muito detalhe, sendo necessário um léxico rico de matizes de diversas cores em língua portuguesa, mas tivemos algumas dificuldades em encontrar o significado de palavras e expressões indígenas, das línguas quéchua e guarani presentes no tratado.
Os textos na e sobre a Amazônia trazem essa peculiaridade histórico-cultural, pois a fauna, a flora e os topônimos são intensamente carregados de palavras e sentidos das línguas dos povos originários que habitaram ou habitam essa extensa região sul-americana. É nessa experiência de olhar o outro, ou melhor, visibilizar o estrangeiro, que reside a nossa prática ética da tradução. E é nessa experiência transformadora de texto-fonte e tradução que reside o trabalho dos tradutores, ao descobrir-se o um e o outro, sempre em relação.
Ingrid Bignardi
lilian@ufpa.brjbarros@ufpa.breppv@ufpa.br



